sexta-feira, 10 de novembro de 2017

7 SALVADOS DO INFERNO

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MINOTAURO INVERTIDO
Na antiguidade clássica o Minotauro tinha cabeça de touro e corpo de homem, morfologia que poderia sugerir o domínio da bestialidade. Borges insiste que na ‘Divina Comédia’ Dante imaginou um Minotauro invertido, com cabeça humana e corpo de touro, por isso, talvez, possuidor de livre arbítrio.

BERTRAN DE BORN 
Trovador Provençal de Périgord (Limoges/França), cantava armas, batalhas, guerras e amores. Ezra Pound e outros autores sugerem que foi mais longe, entendia que armas, batalhas, amores e guerras eram as regras do 'jogo da vida', os valores mais importantes para qualquer cavaleiro.
Dante o colocou no oitavo círculo do Inferno, com o castigo de caminhar pela eternidade com a cabeça separada do corpo, porque provocou cizânias entre pais e filhos. 

FRANCESCA E PAOLO
Para a História a noiva Francesca da Ramini, metida num casamento arranjando com Giovanni Malatesta, nunca amou o marido. Preferia o cunhado Paolo.

A Divina Comédia conta que um dia os dois enamorados, lendo o livro ‘Lancelot em Prosa’ - que narra uma traição - no trecho do beijo de Guinevere e Lancelot, o casal imitou o romance. O irmão/marido flagrou e matou ambos. Os amantes habitam o segundo círculo do Inferno, condenados a girar eternamente no vento das paixões, porém têm a felicidade sofrerem juntos.

OS CORRUPTOS
Ficam quase no fim do Inferno, próximos do próprio Lúcifer – atraídos pelos poderosos. São pecadores impiedosos, oportunistas e broncos. Incapazes de entender sentimentos complexos. Roubam sempre no plural, vários ao mesmo tempo. Como são atoleimados raramente se arrependem. Dante mostra que mesmo cumprindo pena continuam a pecar, pensando que são ‘espertos’.
Depois da implantação das Repúblicas a corrupção virou falha institucional, superlativa – além dos pecados clássicos – muito mais perigosa. São cisnes sujos e pegajosos cobo abutres.


TIRESIAX
Imagina o poeta que o condenado caminha eternamente no oitavo circulo do Inferno com a cabeça virada para trás, olhando as costas, como castigo por prever o futuro.
Foi o maior adivinho da antiguidade, e, porque interrompeu o coito de duas serpentes passou sete anos como mulher. Zeus e Hera discutiram sobre quem gozava o melhor sexo, homem ou mulher, chamaram TiresiaX para decidir. Indicou a fêmea, nove vezes mais. Hera irritada o cegou, Zeus apiedado deu-lhe o dom da profecia.


RAQUEL
A pastora contemplativa, citada quatro vezes na Divina Comédia, era amiga de Beatriz e conviviam felizes na eternidade celeste.
Foi mãe de José do Egito e Benjamim, transavó de Saul, primeiro rei de Israel.  Por mais  de 2000 anos permaneceu no Limbo (um lugar sem sofrimento mais corroído pela desesperança). Jesus, depois da ressurreição, a levou para o Paraíso.
Curiosamente parece que Lia, sua irmã gêmea e rival (de estranhos olhos, feito Capitu), foi direto para o Céu. Porque isso Dante?

BEATRIZ
Foi o grande amor de Dante, tinha cinco anos a primeira e (única) vez que o poeta a viu. Nunca mais se falaram.
No poema, quando o bardo está perdido no Inferno, alertada por Santa Luzia, intercede para salva-lo. Pede para Virgílio conduzi-lo até as portas do Paraíso. Depois o guia no fim da jornada. Nunca sorriu para Dante, porque se o fizesse - por causa do seu esplendor -  ele viraria cinzas. A última vez que Dante a vê está sorrindo contemplando Deus.
Jorge Luis Borges diz que o ‘Sorriso de Beatriz’ é a mais tocante despedida da Literatura: infinitamente bela, radiante e definitiva.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Rachael tinha olhos verdes?


Aposto que todos os fãs de cinema com data de ativação antiga, sempre que  olham para a deslumbrante Rachael lembram com saudades da imensa galeria de mulheres fatais dos filmes noir.

Quando Eldon Tyrell manipulou os genes e Ridlley Scott editou as cenas para criarem juntos a melhor das femmes fatales cyberpunks, dispunham de farto material de referência. Porque neste fértil e subterrâneo movimento as damas misteriosas imperavam, eram ícones imprescindíveis a serem amadas, celebradas, decifradas e conquistadas. É impossível imaginar um bom filme noir sem uma figura feminina dominante, como vítima, suspeita, manipuladora, criminosa ou donzela em perigo. E nos casos de maior sucesso ocupavam vários desses papeis ao mesmo tempo. 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Suspenso no tempo - Atelier de Angelo Taccari


No fim de setembro/2017 visitei o atelier de Angelo Taccari, importante escultor e ceramista italiano que adotou e foi adotado por São Paulo. Um prédio antigo e discreto, entre as árvores, na beira da represa Itupararanga em Ibiúna. Mantido por sua filha  Maria exatamente como ele o deixou quando mudou para outra dimensão em 2004.

Havia uma estranheza atemporal suspensa, dessas de filme de ficção científica e fantasia. Uma singularidade intrigante magicava as obras interrompidas em vários estágios de completude e espalhadas pelos cômodos do atelier. Apesar da poeira – a passagem do tempo materializada – não seria espantoso ver o artista, de repente, entrar pela porta e retomar seu trabalho e paixão.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ouvindo a Berliner Philharmonie < a Sala >


Em setembro/2017 tive oportunidade de ouvir a Berliner Philharmonie.

A Sala, porque a Berliner Philharmoniker < orquestra > venho ouvindo com prazer e admiração faz muitas décadas, através de gravações.

No programa – conduzido pelo Maestro Marek Janowsky – constavam duas peças: novidade e garantia. A aposta era ‘Três Prelúdios da Ópera Palestrina’, de Hans Pfizner. Um excelente compositor lírico que, pelos azares da sorte, foi contemporâneo de Richard Strauss e por ele eclipsado. Apesar de vários especialistas listarem esta ópera entre as melhores do século XX. A Quarta Sinfonia de Bruckner era o sucesso garantido.

Foto 1
Estava bastante curioso, a Grande Sala, para 2440 pessoas, tem uma concepção arquitetônica inovadora. São três pentagramas de tamanhos progressivamente maiores que se sobrepõem de maneira irregular, possibilitando a criação de várias plateias e terraços-camarotes em torno do palco. A orquestra ocupa o meio excêntrico desse surpreendente arranjo. Tão inusitado e bonito que a Berliner Philharmoniker Foundation – que cuida da orquestra e da sala – adotou o desenho resultante como seu logotipo. (Foto 1)

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Eternos 33 Segundos


Aconteceu em dezembro, numa das últimas tardes da primavera. Daquelas em que o sol fica imenso, desfocado e avermelhado retardando sua caminhada para o poente. Hospedado no sítio de um amigo em São Lourenço da Serra, o passeio antes do jantar era um convite, desafio e provocação para o inesperado e extraordinário. Longe, enlaçado pela curva em declive da estrada de terra um campo de futebol verdíssimo, com traves e linhas de cal recém-pintadas exibia-se, vaidoso e convidativo. Estava sendo molhado, por isso sobre o gramado pairava uma nuvem tremeluzente de gotículas e vapor.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Solo Sagrado do Futebol

Partida entre Palestra Itália e Corinthians realizada nos anos 1920
Os deuses do futebol desembarcaram no Brasil em 1894/95, agarrados às primeiras bolas. Quando as pessoas começaram a chuta-las com prazer e adora-las com paixão, decidiram ficar por aqui. Deram-se bem.

Os fiéis de S. Paulo adotaram entusiasmados as novas divindades, lhes prestavam culto em todos os cantos e campos. Onde se juntassem 22 pessoas e uma bola elas se faziam presente. Porém, em 3 de maio de 1902, quando o Mackenzie College venceu o Germânia por 2 a 1, começou a ser celebrado oficialmente o mais antigo rito da religião no Brasil – o Campeonato Paulista de Futebol. Foi neste dia que os deuses da bola sacramentaram seu Solo Sagrado, o Parque Antártica.