domingo, 31 de março de 2013

GABINETE DO DESENHO – UM LUGAR PARA PAULISTAR


Na Avenida Consolação, 1024, no quarteirão da Universidade Mackenzie, em dezembro de 2012, a Prefeitura inaugurou o Gabinete do Desenho, o mais novo museu da cidade. Um lugar muito gostoso, no belo casarão da Chácara Lane, restaurada.

No acervo, de fácil acesso, constam centenas de Gravuras de Rugendas, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Goeldi, Miró, Renoir, Léger, Portinari, Volpi e muitos outros. 

Com algumas aconteceu uma espécie de déjà-vu, porque  as conhecia de livros e revistas, entretanto revê-las com a cor e o tamanho verdadeiro foi uma revivescência, uma curtição diferente.  

Gosto de Gravuras, são como os Quartetos de Cordas da Música, os artistas estão mais soltos e audazes; experimentam técnicas e projetos, ariscam novos caminhos, não são tão solenes como na Pintura a óleo, por exemplo. As boas ideias dos pintores e compositores aparecem antes nas Gravuras e Quartetos de Cordas.

Também a Gravura é menos elitista, já nasce voltada para a era da reprodutibilidade, de Walter Benjamin, são dezenas ou centenas de exemplares impressos, portanto, acessíveis a um número maior de pessoas.

O Gabinete merecia um café com mesinhas para aproveitar a sombra das arvores.

quinta-feira, 28 de março de 2013

ARETUZA E O FAUNO – UM ASSÉDIO PERENE

Aretuza, a musa (de Francisco Leopoldo e Silva), sedutora e reticente, passa os dias nua e incomodada  no Trianon (Parque Tenente Siqueira Campos), do outro lado da Avenida Paulista e fora do conforto do MASP. Cada manifestação que acontece no vão arrepia sua pele alva de mármore polido.

No mesmo canteiro, poucos metros distante, por castigo dos Zeus dos parques e jardins da prefeitura, mora o lascivo e atrevido Fauno (de Brecheret), anguloso e modernista.

O Fauno cafajeste, dia e noite, lança olhares libidinosos e libertinos para a musa calipígia. Aretusa, envergonhada, constrangida e ofendida, vira o rosto e se esconde entre as folhagens, tentando ocultar a bela bundinha do olhar insolente e petulante.

Aretuza é uma ninfa recatada e tímida, faz parte da comitiva de Ártemis, e como sua deusa, é virgem e avessa ao amor físico.  Sua nudez indevida se deve a uma indesculpável licença poética do escultor. Por isso, pudicamente, com a mão nas costas, tenta esconder seu erótico ‘cofrinho’... Entretanto, numa dessas idiossincrasias femininas – de que a Moda é um exemplo – deixa à mostra o resto do tesouro.

Como Aretusa e o Fauno são de pedra, quase eterna, a encenação do flerte perpétuo ficará para sempre congelada, como "l'instant décisif" de Cartier-Bresson.

Nas o namoro pode ser muito mais antigo, as crônicas paulistas falam que começou antes do Trianon, na Galeria Metrópole e Praça Dom José Gaspar (Ver >>> Passeando no Bosque dos Bispos).

quarta-feira, 27 de março de 2013

S'IMBORA COM CAMÕES

Acho bom que Camões permaneça na porta da Biblioteca Mário de Andrade para atrair os tímidos, indecisos e incautos. Sempre atento, com seu único olho bom  o outro é roto  para ajudar a propagar nossa língua, inclusive incentivando os aventureiros a também lançarem mão dela.

Afinal o mainstrean das obras desse oceano de sabedoria é o Português. A ultima flor do lácio é a masterpiece de Camões.

Antes dele o Português era um balburdia, sem léxico nem lógica, sem sintaxe nem prosódia. Cada autor inventava sua própria forma de expressão pessoal, e, quando dois autores coincidiam, era por mero acaso. Afinal não havia um paradigma, um modelo aceito pela comunidade inteira de bocas falantes.

'Nossa pátria é a língua portuguesa', diriam Fernandos Pessoas pluralizados em heterônimos, ou 'Comigo me desavim / sou posto em todo perigo / não posso viver comigo / nem posso fugir de mim.' alertaria Sá de Miranda, em 1481, talvez antecipando as futuras fraturas e agruras do Português.

Camões precisou escrever 8920 versos, 1115 estrofes e emparelhar milhares de rimas para explicar como a língua  de Gonçalves Dias, Bilac, Machado de Assis,  Adoniran, Chico, Caetano e cantores de Rap em geral  deveria ser e soar.

Sempre com engenho e arte.

segunda-feira, 25 de março de 2013

FARMACÊUTICO OU ALQUIMISTA?



Quem morava na Rua da Glória, número 104?

O farmacêutico (boticário) mais famoso da cidade? Melhor que a Botica Ao Veado D'Ouro que existia até pouco tempo atrás? Ou o alquimista hermético mais sabido do Estado? Por isso tolerado pelas autoridades?

Ninguém sabe responder, nem mesmo o site http://www.saopauloantiga.com.br/, o melhor, mais amplo e atualizado banco de dados sobre os edifícios, construções e histórias curiosas paulistanas. Reportagem da Veja em 2013.

Quando aos domingos saio para PAULISTAR e vou comer o melhor Udom do Hemisfério Sul, incluindo a ZL, ABC e Osasco, sempre deixo meu carro estacionado defronte, revejo a casa e renovo as dúvidas.

Quem morava aqui? Já fotografei esta moradia uma trinca de vezes, porque três é um número esotérico, mas a quantidade de fotografias não ajuda a sanar as indagações.

Observem o cálix com a serpente enrolada na taça, três vezes repetido, uma vez na sobreloja e duas na porta, porque três é um algarismo cabalístico.

Este mistério merece no mínimo um conto fantástico. Ou três, porque três é o soma sagrada da trindade.


domingo, 24 de março de 2013

SANHAÇO DO MACKENZIE

HISTÓRIA DE FADA


Quando a princesa recebeu o presente achou que era uma semente de cor roxa indefinida. Contudo respirava, muito devagar, mas respirava. Examinando melhor viu uma avezinha no primeiro dia de vida. As asas pareciam sujeiras grudadas no corpo ínfimo, e dois minúsculos olhos brilhavam aflitos.

Foram semanas de cuidados intensos, precisou ser alimentado à cada duas horas – gota a gota, dia e noite – com papinha nutriente. Cresceram penas, aprendeu a voar, ganhou peso e nome: Gibinha. Hoje tem robustas 32 gramas e classificação científica: Thraupis sayaca; nome popular, Sanhaço.

Sobretudo aprendeu a fazer traquinagens atrevidas, que a princesa documenta orgulhosa em seu celular.

Conseguiu ir longe quem começou a vida caindo do ninho, igual a uma folha de outono, castanha, despencando do galho. Atualmente Gibinha trabalha em tempo integral no Laboratório de Ciências Biológicas do Mackenzie, como animador de pesquisas e dissipador de estresse. Todo mundo que tem oportunidade  com ou sem motivo  gosta de ir visitá-lo, porque vendo seu voo a vida fica mais leve. 

O fim da história é previsível, Gibinha se apaixonou pela sua salvadora e agora vive saudável, feliz e abusado revoando em torno dela, 24 horas por dia, livre de gaiolas e grades. Exatamente como os passarinhos fazem em volta das princesas encantadas nos contos de fadas.

A Princesa Márcia Tomi Nishide é famosa na universidade por causa de seu poder encantatório de devolver vida às aves em perigo. 

Não é a primeira vez que Márcia se atira nessas discretas, secretas e solitárias campanhas 'ecoamorosas'. Os pássaros sabem do seu amor por eles, e não surpreenderia se um dia descessem em revoada, das árvores para  acompanhar a princesa nos seus passeios pelo campus. Coisas normais assim acontecem com pessoas especiais. 

P.S.
Gibinha morreu no começo de 2014. Guloso e abusado atacou uma porção de queijo, fatal para seu metabolismo.  

sábado, 23 de março de 2013

PAISAGEM SUÍÇA, COM XAMPU E DETERGENTE


Pirapora do Bom Jesus, centro de devoção popular da Grande São Paulo, igreja onde se cultua Bom Jesus de Pirapora, imagem milagrosa achada boiando, presa numa pedra, em 1725, no Rio Anhembi (Tiete, hoje).

Sede da Ordem dos Cônegos Regulares Premonstratenses, os Monges Brancos. Velhíssima instituição, fundada por São Norberto de Xanten, um dos reformadores morais da Igreja, no século XII. O belo mosteiro fica dependurado no alto da colina, numa curva do Rio Anhembi (agora Tiete).

Lá, segundo Mário de Andrade, nasceu o Samba Paulista. Lembram Renato Teixeira e Elis: “Sou caipira, Pirapora..." O ancestral, Samba de Bumbo, era tocado para festejar os santos da cidade nos barracões na beira do Rio Anhembi (ou Tiete).

Entretanto Pirapora do Bom Jesus não anda paulistando bem...

Talvez a mudança do nome do Rio, de Anhembi para Tiete, não tenha sido salutar. Por causa da agitação das águas sujas na Usina do Rasgão, a cidade virou depósito da espuma de detergentes e xampus usados pelos paulistanos.

Pirapora ganhou, no verão e no inverno, uma neve branca, bela e malcheirosa. A paisagem continua linda, mas a neve ácida deixa tudo horrível.

Beleza horrível, trágico oximoro. 

sexta-feira, 22 de março de 2013

O MINHOCÃO E O MURO DE BERLIM


Tenho lido sobre as manifestações dos berlinenses contra a destruição do que restou do Muro de Berlim para construir uma condomínio de luxo. Trata-se de salvar a East Side Gallery, pinturas e grafites de artistas do mundo inteiro realizadas quando o absconso paredão ruiu em 1989.

O que corre risco são somente 20 (1,5%), dos 1300 metros preservados, mas a população está irredutível, aliás, como deve ser.

Os berlinenses têm meu apoio, tudo é muito bonito, cada pedaço do que restou é imensamente valioso, como os afrescos renascentistas ou os registros pictográficos egípcios.

Entretanto, se voltarmos uns 20 anos atrás, a queda do muro foi um bênção para Berlim, a área em torno da velha aberração deu um imenso salto de qualidade, mudou o polo e o mapa imobiliário da cidade.


Aqui em São Paulo temos o Minhocão (e o prolongamento dele até a Radial Leste), 3,4 quilômetros de feia cicatriz que marca o rosto da cidade.

Vendo as mega-obras de engenharia nas capitais asiáticas duvido que alguma coisa não possa ser feita. A cidade tem que paulistar, pensar grande, ser mais ousada. Se o problema for equacionado, acredito que teremos um incomensurável boom imobiliário na região.

O ideal seria coordenar a intervenção no Minhocão com o enterramento dos trilhos da CPTM, as rotas de trânsito poderiam ser reprogramadas e o centro da cidade se espalharia, sem entraves, até as margens do Tiete. 

Que um dia será despoluído e valorizado.


quinta-feira, 21 de março de 2013

PARA QUE LADO É O PROGRESSO?

Nós paulistanos vivemos num mundo 'Blade Runner', de ruas dormitórios, de edifícios degradados e de praças sujas e vilipendiadas. Por isso aumenta o número de helicópteros na cidade, feito no filme cyberpunk de Ridley Scott.

Quando olhamos fotos dos anos 40 e depois andamos por aí, constatamos que alguma coisa aconteceu no final dos anos 50 que nos desencaminhou.

Uma pergunta muda ressoa: afinal, para que lado caminha o progresso!?

Observem nas fotos antigas: os jardins bem cuidados, a arquitetura harmônica, as ruas limpas, as dimensões pedestres de todas as coisas... Devia ser um prazer paulistar nestas paragens.

Se Ficção Científica é o gênero que especula e extrapola o futuro, a trágica conclusão é que nossos projetos falharam miseravelmente.

Para os mais românticos têm sempre o filme de Wood Allen 'Meia-Noite em Paris'. Porque, quem puder, vai eleger um tempo pretérito ideal para se exilar, o futuro parece periclitante.

Precisamos urgentemente inventar a Máquina do Tempo e fazer migrações em massa para o passado.

Sem a Máquina do Tempo como vamos fazer para estragar, também, os tempos antigos?

Porque melhorar o futuro, já provamos que não estamos conseguindo.

quarta-feira, 20 de março de 2013

DIGITAL E ANALÓGICO – A ESCADA E A RAMPA – CD E VINIL


Nos tempos de Faculdade de Filosofia, apenas no fim do curso fui prestar atenção no verdadeiro significado por trás das idéias de digital e analógico. A dicotomia é velha, existe desde que este bando de bípedes implumes e pretensiosos principiou a pensar, mas, por dezenas de séculos, permaneceu invisível, como um veio ignorado e sem valor dentro da massa de conhecimentos humanos.

Para melhorar o entendimento desses dois critérios podemos brincar de classificar as coisas.

·     A peça Hamlet é digital porque, com as mesmas palavras, pode ser montada em qualquer tempo e lugar, sem alterações.

·     A pintura Monalisa é analógica, porque é única, se deteriora e muda com o passar do tempo. O sorriso da Gioconda torna-se cada vez mais misterioso.

·    O Xadrez é digital, porque pode ser interrompido e reiniciado sem qualquer perda significativa, basta anotar as posições das peças.

terça-feira, 19 de março de 2013

BIBLIOTECA MÁRIO DE ANDRADE - 1938


O nome da Biblioteca Municipal - a segunda maior do país - é apropriado: Mário de Andrade. Um dos paulistas, e brasileiros, mais importantes do século passado.

Um dos grandes legados deixados pelo Macunaíma foi radiografar a nação e inventariar, classificar e atribuir valor à toda arte produzida no Brasil desde o descobrimento. Não é pouco o que o cara paulistou.

Somos maus tutores de seu legado, descumprimos seu testamento, registrado no poema: ‘Quando eu morrer’. Não ‘afundamos’ seu coração no Pátio do Colégio.

Porém, seus dedos e nariz estão metidos todos lugares onde existe arte de qualidade pelo Brasil afora.

segunda-feira, 18 de março de 2013

UTÓPICO OU MAQUIAVÉLICO?


Os livros O Príncipe e Utopia são duas importantes obras da Filosofia Política Moderna, que, em comum talvez só tenham a contemporaneidade. Foram publicados com apenas três anos de diferença: 1513 e 1516.

Representam formas opostas de entender e explicar o mundo atual. 500 anos depois de escritos, quando comparados, parece que suas peculiaridades intrínsecas permanecem acesas.

Quais as convergências e divergências dos livros, além e apesar da contemporaneidade?

Porque maquiavélico e utópico viraram adjetivos em todas as línguas modernas, talvez com sinais políticos trocados?

Qual das obras é avanço e qual delas é retrocesso? Qual representa rompimento e qual continuidade?

O Jardim do Éden, o Paraíso,  o Inferno e Apocalipse são utopias funcionais necessárias?

Será que Utopia virou gênero literário e O Príncipe virou manual de conduta?

Testo Completo: Utópico e Maquiavélico

domingo, 17 de março de 2013

A COR DE SÃO PAULO


Um amigo me perguntou:

Qual a cor de São Paulo?

Respondi:

Cinza edifício.

Pesando melhor, os paulistas não gostam de PAULISTAR a cidade em tons cinzas.

A bandeira de São Paulo é tricolor, preta, branca e vermelha. Tem treze listras, sete pretas e seis brancas. Tem também o mapa do Brasil em azul e mais quatro estrelas amarelas...

Mas, Qual a cor de São Paulo?

quarta-feira, 13 de março de 2013

EU QUERO UMA CASA DE CAMPO...



A rota de fuga do stress dos Paulistas (e brasileiros) mudou nos anos 70.

Antes, a expressão perfeita para divagar e escapar para o paraíso era Vou-me Embora pra Pasárgada, o poema de Manuel Bandeira.

Mas, depois do disco da Elis virou Eu quero uma casa no campo, a música de Zé Rodrix e Tavito. A pura utopia de Bandeira virou um plano possível com Elis. 

As pessoas começaram a fugir para ouvir 'muitos rocks rurais', sonhar com carneiros e cabras pastando solenes no jardim’, com ‘a esperança de óculos’, com um ‘filho (amiga, companheiro) de cuca legal’ ou, se sozinho, com o ‘silêncio das línguas cansadas’.

Mas alquém decidiu paulistar tudo isso bem no meio da cidade. Seu cafofo fica no Bixiga, na Rua Treze de Maio, perto da Praça Dom Orione, que aliás tem uma feirinha, um mercado de pulgas, todos os  domingos de manhã. Uma alternativa para a feira do MASP.

terça-feira, 12 de março de 2013

64 DILEMAS

O livro 64 DILEMAS recebeu Menção Honrosa no Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira 2000 – Categoria Poesia

O prêmio foi um concurso promovido pela CultRevista Brasileira de Literatura, Lemos Editorial e Radio Eldorado.
Comissão julgadora formada por Wally Salomão, Nelson Ascher e Claudio Willer.


Em Fevereiro de 2013 foi publicada uma Edição Princips, composta por apenas 64 exemplares, artesanalmente encadernados. Esgotada no lançamento.

O título 64 DILEMAS é a totalização dos 64 poemas chamados ‘Dilema...’ que compõem a coleção. Contudo '64' também remete às várias manifestações do número 64, como a Revolução de 64; os 64 Hexagramas do I Ching, as 64 casas do tabuleiro de xadrez; e os 64 bits dos chips. 

'DILEMA' lembra a ansiedade das opções compulsórias, a mais excruciante afecção humana, porque escolher alguma coisa é fácil, difícil é renunciar ao resto.

Texto completo: 64 DILEMAS
64 DILEMAS EM PDF

segunda-feira, 11 de março de 2013

O Caçador de Androides, o Quarto Chinês e o Teste de Turing


É incomensurável o número de questões que o complexo formado pelo filme Blade Runner – O Caçador de Androides, de Ridley Scott e pelo livro Do Androids Dream of Eletric Sleep? de PKD abordam e abrigam. Parece um universo em perpétua expansão.

Anos atrás também contribuí para esta explosão, escrevi uma monografia para um curso de Filosofia de Linguagem na USP abordando um aspecto pouco discutido deste fenômeno.

Trata-se de um ensaio mostrando que o Teste de Voigt-Kempff – o teste aplicado aos replicantes – representa a conclusão necessária e a superação da polemica que envolve o Teste de Turing e o Argumento do Quarto Chinês de John Searle. Uma questão que empolga as áreas das Ciências Cognitivas e da Inteligência Artificial.

Curioso o argumento de PKD: para os androides alcançarem o mesmo estatuto ontológico dos homens precisam comprovar ter espírito. Ou seria o 'nous' grego?

Texto completo: O Caçador de Androides, o Quarto Chinês e o Teste de Turing
O CAÇADOR DE ANDROIDES... EM PDF  

sábado, 9 de março de 2013

Sol na Garganta


Sol na Garganta foi um livro bonito.

Uma coletânea coletiva de poesias, contos e desenhos de jovens artistas entusiasmados, que se sentiam incomodados com o excesso de censura e com o clima político de 1979.

Era como se todos nós tivéssemos alguma coisa nos sufocando, nos impedindo de respirar. Abafando a nossa voz. Precisávamos tossir para nos livrar desse travo preso na garganta.

O que nos incomodava era um Sol imenso que trazíamos escondido na garganta, forcejando para nascer.

Sempre senti orgulho dessa aventura. Abaixo um dos poemas do livro:
  
Minha participação completa pode ser encontrada aqui:
sol na garganta em pdf


Poema 'Deixem Passar os Lobos'
declamado por DANIEL YN SILVA
Youtube >>> Clique Aqui   


Folder de Anuncio de Lançamento
























Folha de São Paulo - Ilustrada
Domingo 1 de Julho de 1979





































quinta-feira, 7 de março de 2013

Paulista é Profissão



Todo mundo que mora neste Estado trepidante sabe que Paulista é muito mais que naturalidade, é também profissão. Mais ainda, é profissão de especialista, de gente muito boa no que faz.

Substantivos de naturalidade terminam em ‘ano’, ‘eno’, ‘ino’, ‘ense’, ‘ês’; feito baiano, chileno, argentino, cearense ou francês; o sufixo ‘ista’ é diferente, indica quem é excelente na atividade que executa: pianista, dentista, oculista, esteticista, romancista, coisa de mestre, de artista.

‘Brasileiro’ também é profissão, mas ‘eiro’ se aplica aos grandes e tradicionais ofícios, como pedreiro, carpinteiro, marinheiro, fazendeiro etc.

Por volta de 1635, quando, pela primeira vez, a palavra 'Paulista' foi registrada e os Paulistas ganharam fama internacional junto ao Vaticano e ao mundo civilizado, fomos descritos assim pelos Jesuítas castelhanos: feras tropas mamelucas, compostas todas de homens facinorosos, ímpios e tolerados ladrões. Contudo, também já nos repeitavam, reconheciam os Paulistas como especialistas em paulistar, ou seja, viver e varar este Brasil, então soturno e rude.

Para comprovar que Paulista é profissão basta observar que qualquer alemão, pernambucano, português, espanhol ou cearense que chega, depois de aprender e pegar pratica em viver aqui, esquece sua naturalidade e vira Paulista.

Somando tudo, acho que progredimos um pouco, de facinorosos’ viramos fascinantes.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Parque Savoia – Lugares de outra São Paulo



Existe na Barra Funda um belíssimo conjunto de casas chamado Parque Savoia, na Rua Vitorino Carmilo, 458. É quase uma escapada para o passado

Nesta mesma rua nasceu Amâncio Mazzaropi, não sei o número, porque nenhuma placa homenageia o lugar.

Dentro do conjunto, com entrada por baixo do terraço aéreo, e  justificando o nome do lugar, um pequeno e repousante parque interno serve de pátio para uma vintena de residências. Um jardim mágico, misterioso e secreto, desses de romances de fantasia.

Lembra um pouco alguns lugares de Paris, Londres, Roma ou valorizados tesouros urbanos de Nova York.

Graças aos deuses da Arquitetura, do Urbanismo e do bom senso este ínclito paraíso esta protegido por tombamento desde 2009 (Clique aqui>>>). Atualmente abriga estúdios e escritórios. Serviu, serve, servirá de cenário encantado para incontáveis comerciais, filmes e novela. Lembra do Castelo Rá-Tim-Bum?

Foi construído em 1939 pelo arquitetoi Arnaldo Maia Lello – o mesmo do Teatro Abril na Av. Brigadeiro Luis Antonio  e pertence, até hoje, a família Iungano.

E coisa para se curtir, porque espaço qualquer condomínio tem, mais preciosidade como estas só algumas cidades, marcadas pela história, possuem.

Perdão pela foto primária, uma ousadia ousadia de um pedestre armado de IPhone.

A história do Parque Savoia, com dezenas de fotografias dos jardins internos.  

Clique >>> Parque Savoia - Por Trás dos Portões 


terça-feira, 5 de março de 2013

Meu Adeus ao TBC-Teatro Brasileiro de Comédia


Parece que o TBC – Teatro Brasileiro de Comédia está nos deixando.

O TBC foi uma das forças responsáveis pela mudança do polo magnético da dramaturgia Brasileira para São Paulo, em 1948/50. Durante muito tempo teve Adolfo Celi, um dos vilões de 007, como seu principal encenador.

O velho prédio da Rua Major Diogo esta abandonado faz anos, teve o tempo e a solidão necessária para recepcionar, acomodar e acalentar os fantasmas de seus grandes astros: Ziembinski, Cacilda Becker, Maria Della Costa, Sergio Cardoso, Paulo Autran e, recentemente, Walmor Chagas.

Passei lá hoje, tudo leva a crer que o edifício está se  transformando num desses estacionamentos de fachadas históricas e mal cuidadas. Teremos a oportunidade de assistir sua lenta agonia e degradação, tijolo por tijolo.

Torço muito para que o estacionamento seja assombrado... pelas elegantes damas e cavalheiros que brilharam no palco do TBC. Uma peculiaridade de SP, os Fantasmas do TBC.

segunda-feira, 4 de março de 2013

PAULISTAR – Verbo ativo e altivo


Para os Paulistas não basta viver, sobreviver, existir ou perdurar... Isso é pouco, insuficiente.

Para morar nesta cidade de audácia e desafio permanentes, se exige muito mais, é necessário paulistar.

Quando o verbo paulistar for incluído nos dicionários o significado será: viver apesar de tudo, contra todos e em direção de alguma coisa; se empenhar para realizar os próprios sonhos e construir o que deseja.

No brasão da cidade de São Paulo está escrito: ‘Non Ducor Duco – Não sou conduzido, conduzo’. Os Paulistas não deixam a vida os levar. Eu, tu, ele, nós todos paulistamos, conduzimos nossa existência para onde desejamos.

Nossas paisagens são de morros e colinas, que nos incitam descobrir o que vem depois.

Não temos lindas praias, nem altas montanhas, nem vastos horizontes, somente edifícios, ruas, praças, túneis e viadutos. Mas temos, sobretudo, o orgulho de ter paulistado cada um desses artefatos geográficos nas nossas paisagens.

Nossos cartões postais são o Viaduto do Chá, a Avenida Paulista, a Berrini e a Ponte Estaiada, paulistações dessa gente desassossegada.

Povo que teve coragem de vencer a Serra do Mar, morar longe do litoral e explorar a terra por dentro, carregando consigo a compulsão de paulistar o Brasil.

PAULISTANDO é o gerúndio do verbo paulistar, ou seja o exercício permanente do prazer de paulistar, por isso dá nome este Blog.

Vamos paulistar?

Amor Artesanal (A Craft Love Story)



Isabeau Gadis não gostava de pensar na sua vida, lembrava uma caixa de remédio tarja preta, dividida em três pedaços. A parte de baixo, o início, era um tempo de encantamento e felicidade plena, de esperanças e ilusões que os anos não trazem mais. Um conto de fada, repleto de recordações estranhas e desconexas que talvez fossem implantes de outra pessoa. Depois vinha a tarja preta, começava no dia 9 de Maio, sexta feira, uma noite de outono na virada do século. Durou mais de dois anos; uma zona chapada, populada por pesadelos e lembranças soturnas, desconexas e embaralhadas. A parte de cima era sua vida atual: ritmo rápido, cores estouradas, sensações exacerbadas e certezas absolutas. Contudo, o mais angustiante, era não conseguir saber de onde provinham os medos, desejos e ansiedades que a assediavam. As buscas sempre conduziam a um paredão nebuloso, uma madrugada enfarruscada e uma interminável noite escura. Toda manhã Isabeau precisava se reinventar para enfrentar o futuro, por isso colecionava padrões, rotinas e manias, uma maneira de organizar sua vida e sua cabeça. Mas os piores tormentos eram as noites insones, sem o consolo dos sonhos  mesmo os maus, Invariavelmente a alvorada era vazia e sem sentido, anunciando um remake do dia anterior.