segunda-feira, 4 de março de 2013

Amor Artesanal (A Craft Love Story)



Isabeau Gadis não gostava de pensar na sua vida, lembrava uma caixa de remédio tarja preta, dividida em três pedaços. A parte de baixo, o início, era um tempo de encantamento e felicidade plena, de esperanças e ilusões que os anos não trazem mais. Um conto de fada, repleto de recordações estranhas e desconexas que talvez fossem implantes de outra pessoa. Depois vinha a tarja preta, começava no dia 9 de Maio, sexta feira, uma noite de outono na virada do século. Durou mais de dois anos; uma zona chapada, populada por pesadelos e lembranças soturnas, desconexas e embaralhadas. A parte de cima era sua vida atual: ritmo rápido, cores estouradas, sensações exacerbadas e certezas absolutas. Contudo, o mais angustiante, era não conseguir saber de onde provinham os medos, desejos e ansiedades que a assediavam. As buscas sempre conduziam a um paredão nebuloso, uma madrugada enfarruscada e uma interminável noite escura. Toda manhã Isabeau precisava se reinventar para enfrentar o futuro, por isso colecionava padrões, rotinas e manias, uma maneira de organizar sua vida e sua cabeça. Mas os piores tormentos eram as noites insones, sem o consolo dos sonhos  mesmo os maus, Invariavelmente a alvorada era vazia e sem sentido, anunciando um remake do dia anterior.


Quando Beau saiu da zona de tarja preta, trouxe consigo dois Transtornos Obsessivo-Compulsivos, dois TOCs subclínicos. Primeiro, o fanatismo pelas músicas de Tori Amos   a cantora da sexualidade e da tragédia pessoal  que ouvia interruptamente em fones de ouvido. Segundo, a determinação de morar no meio da Ilha Cumprida, longe das pessoas, sozinha e isolada. Tanto a mania musical quanto o desejo de exílio foram induzidos pelas memórias truncadas da garota feliz que compartilhava sua mente.

A menina boba não apreciava a cantora, porém, meio desatenta, havia assistido um documentário sobre a artista e guardado o filme inteiro entre suas reminiscências confusas. Retirar-se para aquele litoral ventoso também era uma incongruência da sua outra parte tola, adquirida quanto  na vida feliz  viajava para Porto Alegre a trabalho. Observava, pela janela do avião, a extensa ilha de praias brancas e desertas. Fantasiava viver lá. Quinzenalmente, na ida e na volta, escolhia poltronas voltadas para esta quimera juvenil.

Aos quatorze anos, Isabeau perdeu os pais num acidente automobilístico, lembrava da mãe pronunciando seu nome com carinho e afetação.  O único parente próximo era Rodrigo, um irmão muito mais velho que funcionava como pai. Um homem ponderado, lacônico, sério e trabalhador, gerenciava meia dúzia de postos de gasolina, herança da família, e a amava incondicionalmente. Quando se sentiu semicurada revelou seu insensato plano de fuga e de afastamento dos homens. Mesmo a contragosto, Beau e Rodrigo chegaram a um acordo. Compraram uma área no meio da Ilha, distante de tudo e de frente para o oceano. No centro do terreno construíram um edifício rústico de dois andares, um exato paralelogramo de concreto. Uma construção despojada, sem sacadas nem enfeites, enfaticamente pintada de cinza bruto: paredes, portas e janelas. Como um galpão, um armazém, um laboratório ou um hospício.

Os únicos luxos eram o terraço com vista de 360 graus e uma antena parabólica. Por prevenção subiram um muro alto nas três divisas do lote, blindando o prédio. No lado voltado para o mar ergueram um alambrado. No topo, cinco fileiras de arame farpado eletrificado, com placas de aviso demarcando o perímetro. A casa, os muros e o telado eram protegidos por sensores e alarmes eletrônicos. Providenciaram dois geradores de emergência e um quarto de pânico.

Durante a construção da casa, Beau tomou duas providências inusitadas, impensáveis para a menina ingênua que existia dentro dela: aprendeu a pilotar motos e atirar com armas de fogo. Frequentou aulas para se adestrar nos dois hobbies, quando se sentiu preparada foi ocupar a casa da Ilha Cumprida. Lentamente sua vida foi se acomodando numa rotina regular e suportável, Para peregrinos e passantes poderia se confundir com felicidade, entretanto, para a eremita voluntária, era um monótono inferno de fogo brando, que não dividia com ninguém. Semelhante a vida de um viciado em recuperação: um dia depois do outro, com paciência e resignação, sem atropelos nem esperanças exageradas.

Levantava de manhã, antes do nascer do Sol, e caminhava duas ou três horas pela praia, uma longa faixa de areia sem nenhum acidente geográfico. Voltava, tomava café da manhã e saia de novo, agora vestida de couro negro, roupa e capacete, montada numa possante moto da mesma cor. Com o tempo ficou ousada, procurava os maiores bancos de areia e as mais acidentadas trilhas da mata para brincar de motocross. Sofreu incontáveis quedas, voltava para casa se arrastando, todavia nunca alcançou a bênção de uma lesão grave ou mortal. Almoçava tarde e descansava. No crepúsculo, acintosamente, praticava tiro ao alvo num stand no fundo do terreno. A noite tomava vinhos brancos da região do Priorato, navegava na Internet, lia, via filmes (ás vezes o mesmo a semana inteira), ouvia música ou se desesperava. Quando a sorte era benevolente dormia e sonhava; sempre com histórias da menina boba; raras vezes com o que aconteceu na noite de 9 de Maio. Os fones de ouvido eram implantes biônicos – dormia com eles – e a trilha sonora dessa existência rotineira, restrita e econômica, comportava, além de Tori Amos, poucas variações com Melody Gardot e Diane Schuur.

Nunca travou relações com nenhum vizinho, evitava os contatos e raramente ia à Vila ou ao Centro. Quando falavam com ela, fingia que não entendia direito e respondia com monossílabos. As pessoas a olhavam com uma mistura de pena, curiosidade, respeito e medo. Beau gostava dessa sensação. Tudo o que precisava encomendava para o irmão, semanalmente um carro trazia suas provisões e pedidos especiais. Rodrigo visitava a Ilha cada dois meses, nestes encontros quase não se falavam, o contato visual e a proximidade física eram o bastante para reafirmar o amor fraterno. Este exílio voluntário e carente de acontecimentos significativos durou sete anos.

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Numa manhã de verão, clara e transparente, durante o passeio matinal, Beau avistou, muito distante, alguma coisa depositada na praia, no limite das ondas e as vezes banhado por elas. A princípio pensou num saco plástico esbranquiçado, desses de sessenta quilos, cheio de qualquer bugiganga. Continuou se aproximando e mudou. agora se assemelhava a um peixe grande, com as escamas rebrilhando ao Sol. Mais de perto detectou braços e pernas, era um homem de plástico branco leitoso, igual ao boneco da Michelin. Quando alcançou o achado se deteve espantada: tratava-se de um manequim que reproduzia perfeitamente um homem adulto, com as feições insuficientemente esboçadas. Poderia ser um daqueles bonecos articulados que os desenhistas usam como modelo, porém as articulações do pescoço, dos braços e das pernas eram primorosas, ostentavam um acoplamento perfeito e a constituição orgânica de um corpo humano. Com o movimento das ondas agitando os membros esticados na areia a coisa parecia estar viva. Divagou excitada, talvez fosse um protótipo de androide caído de algum barco durante uma experiência científica.

Excitação era um sentimento delicioso e raramente Beau o experimentava nessa intensidade. Olhou com atenção em volta, receando uma armadilha. Ninguém, apenas quilômetros de praias desertas e ensolaradas. Deu um giro completo examinando o androide, nenhuma roupa, nenhuma identificação, nenhum ferimento. Antes de qualquer comprovação racional intuiu que era um ser vivo. Num  refluxo mais demorado, as ondas se afastaram, e Isabeau constatou claramente o peito da criatura arfando duas vezes, um movimento de respiração lento e espaçado, de hibernação. Despertar criogênico? Confusa, esquadrinhou a área, a praia, o mar, a mata, procurando destroços de uma nave, qualquer coisa estranha ou fora do lugar. Nada.

Não havia engano, estava efetivamente respirando. Prestou atenção nos contornos imprecisos do rosto, distinguiu dois condutos nasais. Absurdo, não estavam lá antes! Ficou com medo, enrijecida, aguardou alguns minutos para juntar forças e coragem, se abaixou e tocou o corpo perolado. Morno! Não tinha a cor rosa sanguínea da carne dos mamíferos, estava mais próximo dos peixes, porém era diferente, de um branco azulado artificial, espacial, angelical e sedoso. Cheio de energia interior e agradável ao toque. 36 graus, a temperatura de um corpo humano saudável. Colocou a mão no peito, em cima do coração, sentiu as batidas compassadas. Olhou novamente em torno, estava sozinha com aquela entidade extraordinária. O que devia fazer?

Rolou a criatura para areia seca, ajeitou os braços ao lado do corpo, eram fáceis de mover, e iniciou uma verificação detalhada e completa. Exceto pela respiração, era um boneco articulado, modelo para desenhar, só que orgânico. Todos os traços eram meras indicações, os olhos fechados, a boca selada, as orelhas grosseiras, o buraco do ouvido sem profundidade. O sexo, como nos manequins de madeira, não existia. Pele acetinada, quente, macia e sem pelos nem poros. Todavia respirava, era uma excrescência, um mistério e uma maravilha.

Voltou à questão imperiosa: o que devia fazer? Chamar alguém, os bombeiros, a marinha, a polícia? Jamais! Com certeza não! Seriam detestáveis as perguntas intermináveis, uma multidão se metendo na sua casa, na sua vida, duvidando de suas respostas, interrogando sobre o seu passado. Conhecia bem tudo isso! Durante dez minutos ficou presa nestas ponderações, consultou o relógio, 6:20 da manhã, olhou os dois lados da praia e tomou um decisão: levar o boneco vivo para sua casa.

Não era longe, uns setecentos metros. Conduziu a criatura de novo para a água, boiava como um corpo humano, e começou a reboca-la. Depois de quarenta minutos chegou defronte o portão e puxou sua carga para a praia. Examinou de novo as redondezas, era dia de semana, raramente alguém se aventurava tão longe da Vila. Entrou na casa e pegou um tapete, enrolou a criatura e arrastou para dentro. Limpou a areia do corpo (dentro de casa a brancura parecia luminosa, fosforescente) e improvisou, perto do sofá, uma cama com acolchoados. Com cuidado colocou seu amigo inacabado para descansar. Só então relaxou e parou para pensar.

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Beau estava com a consciência alterada por causa do encontro, fazia somente três horas que havia levantado, mas as emoções que vivenciou neste período foram maiores do que nos sete anos precedentes. Constatou que estava com uma fome devastadora, preparou um café continental, com tudo que tinha na dispensa, e devorou inteiro. Não saiu de casa, precisava cuidar do seu convidado. Uma tarefa fácil, igual cultivar plantas, porque a entidade inerme repousava numa imobilidade vegetal, sua única atividade era respirar compassadamente. Passou o dia com a mente bloqueada, não conseguia pensar em nenhuma explicação razoável para seu achado incomum e nem ousava elaborar um plano de ação para conviver, ou se livrar daquele homem incompleto. Como decidir alguma coisa sem saber o que era? Fascinada, não conseguia sair de perto dele, como uma mãe cuidando de um bebe recém-nascido e dorminhoco.

No fim da noite uma ideia boba cruzou a mente de Isabeau, pela primeira vez tinha companhia para enfrentar suas batalhas noturnas. Sorriu, um parceiro retraído, discreto e silencioso, porém de mãos quentes. Deitada no sofá estendeu o braço e entrelaçou os dedos com a mão inconclusa. Sentiu a calidez da pele e, insanamente, captou ternura no toque sonolento. Dormiu tentando descobrir como alimentar o novo amigo, porque os lábios do boneco estavam selados e obstruídos.

Teve um sonho deslumbrante, arquétipo e de escala cósmica, porém estático e sem acontecimentos, como um ‘pause’ na imagem mais vibrante do filme. Beau era uma mulher imensa, colossal, do tamanho de uma galáxia, cada órgão seu era um aglomerado de estrelas. Estava serena e relaxada, sabia que o universo expandia celeremente, mas que o Tempo estava suspenso. Vagava nua e transcendente pelo espaço sideral, entre campos de forças vorazes e coloridos. De seu sexo, dos dedos, cabelos, seios, do seu corpo inteiro emanavam raios que a conectava com todos os astros celestes.

Acordou com o Sol alto, o primeiro pensamento foi para o salvado da praia, ainda estavam de mãos dadas. Sentia-se bem disposta e esfomeada, exceto por uma incômoda dor no peito. Não se preocupou, tinha passado horas com o braço esticado. Antes de levantar olhou para seu companheiro, gostaria de agradecê-lo por aquela noite sossegada e magnífica. Assombrada, constatou que os traços esquemáticos do boneco-modelo estavam ganhando contornos mais definidos, personalidade, e que na sua boca a fissura entre os lábios começava a se aprofundar. Impossível garantir, de perto os detalhes ficavam difusos, a pele parecia cobrir campos de energia pura. Foi tomada por um surto de timidez intempestiva e cobriu o corpo com um lençol.

Era tarde demais para a caminhada matinal. Repetiu, gulosa, o excessivo café continental e resolveu sair de moto para aclarar as ideias, se exercitar e acabar com a dor no peito. Seu amigo silencioso era complacente e compreensivo, não se importaria. Voltou às quatro da tarde pacificada, durante o passeio havia mergulhado numa longa reflexão e decidido se desarmar, relaxar e vivenciar esta aventura extraordinária, mesmo não podendo prever, nem antecipar, aonde a levaria. De alguma forma era um presente, uma ocorrência surreal ma sua vida descolorida. Quando examinou de novo o rosto pálido teve certeza, as feições estavam se consolidando e ganhando individualidade, contudo ainda era um bebe prematuro do tamanho de um adulto adormecido. Para prevenir quaisquer dúvidas futuras precisava coletar provas e evidências do curso das transformações. Descobriu o hóspede até a cintura e montou uma câmara num tripé, planejando tirar fotos comparativas, de hora em hora.

As 7:00 da noite a fome voltou e a dor no peito não tinha desparecido. Uma série de quatro fotos podia ser comparada. Era patente, extraordinário, examinando com zoom, a criatura estava se humanizando. Os traços ficavam mais bem delineados, o desenho dos olhos, do nariz, da boca, as linhas do peito começam a se evidenciar, ganhar formas; E, quase imperceptível, uma penugem ia cobrindo algumas regiões do corpo. A pele, antes lisa, começou a ganhar poros e folículos pilosos. Beau ficou curiosa, estendeu o braço e acariciou o rosto e o peito desnudo.

Tudo errado! A superfície estava horrivelmente áspera e seca, precisava de um banho de óleo e creme hidratante. Apanhou os frascos e começou o trabalho, o rosto, o peito, quando retirou o lençol ficou paralisada por alguns instantes, além do umbigo o sexo estava se formando. Subia uma protuberância engraçada, alguma coisa entre uma escultura infantil de massa de modelar e um anjo barroco. Persignada Isabeau retomou o trabalho, passou pelo umbigo, avançou pelos genitais e acabou nas pernas. Virou a homem de bruços e terminou o trabalho. Depois foi jantar, descongelou e comeu duas lasanhas com vinho tinto.

Passou o resto da noite bebendo whisky, ouvindo música e fotografando a metamorfose do boneco articulado em ser humano. As 23:00 horas repetiu a aplicação do creme hidratante e quando terminou flagrou um mínimo movimento labial. Aproximou os ouvidos, a comissura dos lábios havia se rompido. Quando respirava, em algumas expirações, seu convidado soprava o ar pela boca. Trouxe cobertores do andar de cima e armou uma segunda cama ao lado do homem da praia. Apagou as luzes, entrelaçou os dedos com o hóspede e ficou olhando o rosto mal definido brilhando na penumbra, suave e luminescente. Sonhou com o dia 9 de Maio.

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Nos últimos nove anos Beau repassou infinitas vezes aquela noite de desespero, reviveu seu martírio em lembranças excruciantes e pesadelos horripilantes. Quando criava coragem e revisitava acordada o episódio atroz, passava os dias seguintes sufocada por terrores irracionais; quando as reminiscências vinham durante o sono, despertava assustada, molhada de suor e esmagada pelo pavor. Apesar dessas sessões de torturas periódicas, Isabeau não tinha certeza se conhecia toda a verdade, as lembranças surgiam sempre entrecortadas, segmentadas, em flashes, sem continuidade. Como um filme mal montado, com cenas truncadas e fora de sequência. Entretanto, naquela noite, com os dedos entrelaçados com o estranho visitante, assistiu os acontecimentos distanciada, como um sonho sonhado por outra pessoa.

As oito da noite a moça morena, com jeito de espanhola, treinee de marketing, saiu correndo do prédio de escritórios, de acordo com o combinado estava atrasada, deveria ter saído as sete e meia e caminhado direto para a estação de trem. Numa esquina, enquanto aguardava o farol abrir, um homem vestido de preto, roupa de motoqueiro, barba e cabelos negros, se aproximou e lhe mostrou a arma, uma pistola pequena, cinza grafite, dentro de um coldre, debaixo da jaqueta. “Venha comigo”. Prendeu o braço da garota e a arrastou para uma travessa escura da Avenida Luis Carlos Berrini.

Entraram numa construção embargada pela Prefeitura e se dirigiram, no escuro, para a imensa garagem, dois andares abaixo. Num canto distante, escondido entre colunas, a menina subjugada enxergou luzes, foi conduzida para lá. O ninho de amor havia sido meticulosamente preparado. Velas perfumadas, em cima de caixotes e cavaletes espalhados, criavam uma zona de iluminação íntima e difusa, uma vasta lona azul, dessas de acampamento, protegia o chão de concreto na área de claridade; quatro grandes almofadas e um colchão, alegremente estampadas, enfeitavam o centro da cena. O detalhe assustador era a coleira de couro negro, presa a um cabo de aço plastificado, fino, flexível e resistente, que descia do teto e repousava entre as almofadas, no meio do palco.

A coleira foi delicadamente afivelada no pescoço da vítima e fechada com um pequeno cadeado, desses de porta-joias. Depois, o sequestrador se acomodou, com uma taça de vinho branco, numa das almofadas. Ofereceu bebida para a moça agrilhoada, que nada respondeu. O rapaz sorriu complacente, tomou um gole, depositou a taça no chão e, segurando a arma no meio das pernas, em cima dos genitais, pediu: “Quero um strip-tease.” A menina permaneceu rígida e petrificada no meio do halo de luz. O algoz tirou do bolso um silenciador, aparafusou no cano, mirou na garota e atirou. Um barulho abafado reverberou rouco, sem vazar do interior da caverna escura; pior foi o ricochete da bala nas pareces de concreto, uma série de zunidos rápidos, engolidos depressa pelo silêncio sólido.

A prisioneira começou a se despir apressada, o mestre sádico alertou ríspido: “Mais devagar, quero sentir tesão.” Estava calor, era o veranico de Maio, a garota vagarosamente tirou a camiseta de algodão vermelha com o nome de uma praia do Nordeste estampada, o soutien preto de rendas surgiu, modelando os seios grandes. “Isabeau, você escolheu a cor que eu gosto, combina com a gargantilha”. O carrasco passeou o olhar com luxuria pelo corpo moreno antes de ordenar: “Tire a parte de baixo.” Com movimentos vagarosos a cativa soltou o cinto, abriu o zíper e começou a baixar as calças jeans, apareceu parte da calcinha preta rendada. O rapaz respirou fundo: “Vire de bunda, sussurrou.” De costas ela desceu lentamente a calça justa, ajudada por movimentos de quadris, necessários, mas provocantes. O homem, atrás dela, respirava lascivo. A roupa ficou presa nas sandálias. A menina tremia, se desequilibrou, sentou no chão para tirar as rasteirinhas e liberar as calças. Impensadamente, igual a uma profissional, jogou a roupa longe. Ouviu o espectador solitário gemer: “Agora ande por aí.” Obediente ela desfilou até onde lhe permitia o cabo de aço, contornou o circulo minúsculo, contido na área de lona azul, longe das velas. Circulava com desenvoltura e charme, passou pelo captor e sentiu a arma ainda quente roçar nas coxas.

De costas para o voyeur extasiado, e sem comando dele, Beau, insinuante, soltou o fecho e se livrou do soutien. Com as mãos comprimindo os peitos e segurando os mamilos endurecidos se virou, levantou a cabeça triunfante e abriu os braços, os seios balançaram livres e ousados. Olhou furtiva para o violador, um meio sorriso entreabria seus lábios. Novamente de costas, com os braços para o alto, como asas, expôs a tatuagem no ombro direito ― um príncipe encantado com os olhos vendados. Com um gesto amplo desceu os braços e começou a tirar a calcinha. Sinuosa, com movimentos voluptuosos de quadris, a pequena peça deslizou até os joelhos. Dobrou o corpo, e de pernas cruzadas e apertadas, exibiu para o sequestrador seu sexo úmido. Ouvia seu resfolegar. Sensual desprendeu a calcinha dos pés, virou de frente, abriu as pernas, e se acariciou. Riu perversa e jogou o punhado de renda preta em cima do parceiro: “Agora vem, Alberto.”

Acordou pouco antes da alvorada, tranquila e pacificada. Seu companheiro estava virado de lado com as pálpebras abertas e a olhava com olhos negros que nada viam, como um bebe que ainda não compreende os objetos do mundo. Segurava as duas mãos de Isabeau e, de vez em quando, apertava ambas com carinho. Caiu de novo num estado de torpor estranho, estava suspensa entre a lucidez e o sono, entre o sonho e a consciência, relembrou integralmente o fim da noite absurda.

Ela e Alberto se amaram com paixão e loucura repetidas vezes, até adormecerem abraçados. Duas da manhã foram despertados por passos camuflados correndo pela garagem silenciosa. Ficaram assustados, de repente escutaram com nitidez alguém sussurrar: “Cuidado. Por ali.” Seu parceiro saltou como uma mola, empunhou a arma e saiu para ver o que estaca acontecendo. Foi um inferno, milhões de disparos, ela se grudou no chão, Alberto foi alvejado dezenas de vezes, morreu imediatamente. Um porteiro tinha visto os dois entrarem no prédio interditado para realizar a fantasia erótica combinada. Ficou intrigado, como não saíram, depois de algumas horas, chamou a polícia.

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Isabeau despertou de novo, agora completamente. Seu hóspede era uma criança de três meses, agitada e inquieta, mexia a boca sem parar mastigando o ar, barulhento e esfaimado. Ficou agoniada! O que devia fazer? A resposta chegou junto com a pergunta, sua camisola estava molhada, seus seios estavam túmidos de leite. Acomodou o bebe no colo e o amamentou fartamente, dos dois peitos.

Levantou fraca, tonta e faminta, devorou tudo que encontrou pronto e comestível pela frente: bolachas, azeitonas, chocolates, latas de conserva, frutas, laticínios, qualquer coisa. Se sentia uma aberração, com poderes e reações desconhecidas. Seu corpo havia enlouquecido, parecia uma x-woman mutante, cujo poder era uma lactação permanente. Quando a fome amainava os seios ficavam doloridos, precisava amamentar. O garoto sugava até a derradeira gota e não se saciava, permanecia insatisfeito, exigindo mais. Entretanto o padrão de desenvolvimento do visitante misterioso continuava espantoso e indecifrável. Não se tratava de crescimento, porque não mudava de tamanho, mantinha as dimensões de um ser humano adulto. As modificações eram fisionômicas e fisiológicas, aceleradamente ganhava traços humanos, ossatura e musculatura. A hipótese de Beau era simples: a massa de modelar artificial de que a entidade era feita precisava aprender a se comportar como células humanas verdadeiras. Atônita, a anfitriã se repartia em duas, uma parte se esvaia em leite, enquanto a outra assistia o bebezão avançar anos em horas.

No começo da tarde a dona da casa assaltou o freezer, mal os alimentos descongelavam e começavam a cozer e a cheirar como comida, ela os atacava, sem tempero, sem regra, nem ordem. A maratona de comer e amamentar durou o dia todo, às cinco da tarde os traços fisionômicos da criatura mostravam um menino de sete anos. Foi a última vez que a ama-de-leite lhe ofereceu os seios, durante a amamentação Beau, exausta, caiu num sono profundo e letárgico.

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Como não existe formula para medir o tempo onírico, nem calcular a duração dos eventos sonhados, Isabeau ressonhou todas as fantasias da garota boba que vivia dentro dela. As brincadeiras pueris; as primeiras amiguinhas; a decifração do mundo; as duvidas de menina; as estranhas interrogações do fim da infância; os contos de fadas. Depois veio a adolescência: o interesse pelos garotos; os planos e temores da vida futura; as primeiras descobertas e ousadias de mocinha; o orgulho e o medo da primeira menstruação; as transformações em mulher. Pulou a morte dos pais e relembrou os primeiros namoros; o sonho com o príncipe encantado e o encontro com Alberto. Antes de chegar à madrugada reviveu cada uma das noites de amor com o noivo.

As seis da manhã, três dias depois de encontrar o boneco articulado na praia, Beau acordou transformada, ainda não sabia o que era agora, contudo já não era, e jamais voltaria a ser, a mesma pessoa. Permaneceu mais de meia hora acordada, mas com os olhos fechados, se explorando e se tateando, tudo estava harmonizado e encaixado, a menina boba, a moça dilacerada e a mãe do homem artificial tinham se mesclado.

Antes de abrir os olhos Beau se apalpou com prazer, os seios estavam normais, macios e sem dores. Abaixou a mão e confirmou que estava molhada dos gozos noturnos. Sorriu e abriu os olhos com os sentidos expandidos e omniscientes: Alberto, nu e descoberto, repousava deitado ao seu lado, ressonando satisfeito. Passou as mãos pelos cabelos longos, pela barba cerrada, ambos negros e bastos, gostosos de acariciar. Como sempre fazia, retraçou com o dedo indicador os contornos da tatuagem de Lady Godiva, a amazona nua que o noivo trazia em cima do coração, uma referência à ópera que lhe deu o nome: Isabeau. Era a prova deliciosa que tinham mudado de fase e natureza. Tudo ia acabar bem.

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