quinta-feira, 18 de abril de 2013

SAGA DE PIQUEROBI – CAPELA DE SÃO MIGUEL


Quando São Paulo foi fundada, em 1554, tinha três caciques: Tibiriça (Vigia da Terra) e seus dois irmãos, Caiubi (Flecha de Madeira) e Piquerobi (Lambari Azul). Talvez não fossem irmãos de sangue, mas apenas no conceito Tupi de família, que considera – vejam só – cunhados como irmãos e sobrinhos como filhos.


Tibiriça morava onde é o Mosteiro de São Bento, protegia o Norte, e, pelos tropeços da sorte, acabou  membro da Ordem de Cristo, um Cavaleiro Templário português de tanga e cocar.

Caiubi vivia no alto da Tabatinguera (a rua dos frascos e fragrâncias), vigiava o Leste, mas gostava de passear pelo Itaim, Santo Amaro e Ibirapuera.

Piquerobi não morava em lugar nenhum e não protegia nada. Devia ser o mais novo, era o guerreiro rebelde da família. Não aprovava os costumes dos brancos e se mantinha longe deles. Em 1560 brigou com os irmãos e fugiu sorrateiramente, no oco da noite, levando seu bando inteiro com ele.

Os jesuítas mandaram o andarilho Anchieta procurar a tribo perdida. O moço tinha lábia, encontrou os índios transviados lá pelos lados de Guarulhos, perto de Cumbica, lugar de nuvem baixa, que ainda não recebia avião. A região se chamava Ururaí e ficava numa belíssima curva do Rio Tiete. O padre pacificou os índios, gostou da posição estratégica da aldeia e decidiu construir uma capela dedicada a São Miguel, o arcanjo guerreiro que vence o Mal. Reedificada em 1622, é a igreja mais velha do Estado.

O Beato não conseguiu reunificar as tribos, os dissidentes resolveram ficar por lá mesmo. Quando irmãos (ou cunhados?) se desentendem, é melhor cada um morar em sua própria casa.

Briga de família nunca termina. Dois anos depois da cisão, em 9 de julho de 1562, Jaguaranho (Onça Feroz / Cão Bravo) o filho de Piquerobi, e sob seu comando, atacou e sitiou São Paulo por dois dias (o famoso Cerco de Piratininga). Alguns autores dizem que Jaguaranho foi morto pelo tio, Tibiriça, com uma espada de madeira, quando forcejava a porta da Capela do Pátio do Colégio.

Também contam que Tibiriça, antes do ataque, revelou a ameaça para o Padre Anchieta durante uma confissão. O jesuíta – hoje São José de Anchieta – quebrou o segredo do confessionário para alertar os brancos e pedir ajuda para João Ramalho.

Mais drama ainda, a resistência das mulheres foi comandada por Antônia Rodrigues, casada com um degredado lusitano, irmã de Jaguaranho e filha de Piquerobi.

Uma escura e sangrenta história familiar, merecia um morubixaba Shakespirobi para levar a tragédia para o palco.


12 comentários:

  1. QUANTA IGNORÂNCIA! NA VERDADE O CLÃ GUAYANÃ ERA FORMADO DE QUATRO CACIQUES, ORIGINALMENTE TEBERI ESSÁ (ESSÁ QUER DIZER OLHO, VISÃO E ERA ASSIM CHAMADO POR QUE ERA O FILHO MAIS VELHO).
    KAIOBY SIGNIFICA MATA E RIOS AZUL TURQUESA FOI O CHEFE DO ESCAMBO NAS MARGENS DO RIO GUARAPIRANGA EM JURUBATIBA (ZONA SUL DE SÃO PAULO), PIKEROBY ERA O TERCEIRO IRMÃO, CACIQUE DE URURAI (HOJE SÃO MIGUEL PAULISTA) ANDAVA MUITO PORQUE VIVIA TAMBÉM NO LITORAL DE SANTOS E SÃO VICENTE! AJUDOU MESTRE COSME FERNANDES PESSOA, SEU GENRO A CONSTRUIR O PORTO DE TUMIARÚ ENTRE AS DUAS CIDADES E FOI O GRANDE LÍDER DA INTENTONA CONTRA A ALDEIA BRANCA DE PINHEIROS, ONDE TEBERI MATOU O FILHO DE ARARAI, O QUARTO IRMÃO MAIS NOVO! SEU FILHO CHAMAVA-SE JAGUANHARO (CÃO FEROZ). ARARAI SE TORNOU TAMOIO FUNDANDO A ALDEIA GUAYANÃ DE PARATY!

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  2. Muito obrigado pela atenção e pelos comentários.

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  3. Gostei do texto ,embora o comentário anterior seja extremamente grosseiro e não prova com quem está a verdade. Parabéns Bock!
    Esther Saba

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  4. Obrigado pela visita e pelo comentário, Esther Saba.
    Bem, existe a verdade - talvez inalcançável - e a verdade que satisfaz cada pessoa.

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    1. Uma bela e educada resposta, meu caro Douglas Bock. Você é sempre ponderado e isso me agrada muito. É do bom costume fazer uma crítica com moderação e sem jactância e sem ofensas. Quem é o sabedor absoluto da verdade, ó Heitor Kaiowá? Enquanto você discorda do Douglas Bock é sinal de que a Verdade VERDADEIRA ainda não foi alcançada. Você sozinho não é o senhor da verdade. Por que tanta jactância? Será uma carteirada pelo seu nome, Kaiowáq?

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  5. Obrigado pelas suas palavras, Carlos Gonçalvez;

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  6. Bom dia,na verdade gostei de todos os comentários , pois se tratam de hestórias e a verdade verdadeira morreu com os protagonistas , meu muito obrigado e bom dia a todos , sempre me surpreendo com os comentários e minha admiração por vocês cresce a cada dia e minha paixão por SP também , se puderem um dia contem também hestórias sobre as bandas do Grajaú e jordanopoliz onde nasci e não encontro nada sobre o assunto .

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  7. Obrigado pela atenção, Grajaú e Jordanópolis devem ter histórias interessantes, era uma região onde os Jesuítas mantinham fazendas.

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  8. Muito obrigado pela interessante descrição dessa pequena parte dos primórdios da nossa cidade - resultado de pesquisa séria mas sem objetivo de doutoramento, pois o meu caso (assim como da maioria dos seus leitores) é conhecer, divertindo-se! Um bom dia para todos!

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  9. Obrigado Wilson Colocero, meu viés é do cronista, não do pesquisador acadêmico. Importa mais a emoção e o espírito da cidade. S. Paulo, nos primeiros seculos, a rede de familiar e o parentesco preponderam sobre a ‘Politica’. No vasto livro ‘O Banqueiro do Sertão’, Jorge Caldeira demonstra isso à exaustão.

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  10. Gosto muito da história do Brasil, e por coincidência sou devota de São Miguel Arcanjo.Abração.

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  11. É uma história curiosa, Dulcinea, e a capela esta muito bem preservada. A imagem de São Miguel foi atacada a martelo alguns anos átrás, hoje esta protegida num museu interno.

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