quinta-feira, 6 de junho de 2013

SEIS AMORES DE GEORGE CINCO

Quando voltei do primeiro almoço com Glauco Moura, os colegas da nova empresa vieram me procurar para contar um segredo e fazer um alerta sobre as preferências sexuais do meu vizinho de sala. Começaram com indiretas e sugestões, porém, quando passamos a almoçar regularmente juntos, mudaram de tom, passaram a usar bicha, veado e boneca para se referir a ele.

Apesar do falatório, o comportamento de Glauco era insuspeito, correto e discreto. Soberano, ignorava as grosserias e nunca sobrepunha ou extrapolava sua escolha íntima. Considerava um dado anódino, não escondia, mas também não anunciava sua preferência por homens. Nas nossas conversas somente alguns meses depois adquiriu confiança para mencionar a pessoa com quem se relacionava. Falava do parceiro com carinho, nunca disse seu nome verdadeiro, chamava o companheiro de George Cinco, com alguma ironia triste na voz.

Com o tempo, juntando as raras confidências de Glauco e as fofocas e mitologias que prosperavam na empresa consegui entender as linhas gerais do caso. Era intrigante e fora do comum. Durante anos contive minha curiosidade, nunca me atrevi a fazer perguntas diretas, aguardava que me contasse, espontaneamente, o que quisesse.

Enfim conheci o príncipe decantado. Numa das visitas de B.B.King a São Paulo, eu e uma namorada errante dividimos uma mesa com Glauco e George Cinco no Via Funchal. Formavam um par bonito. Glauco era alto, 1,87, 44 anos, cabelos escuros, grisalhos, lisos e penteados do lado; ria largo e usava óculos. George era imenso, um jogador de basquete de 30 anos, negro, cabeça raspada e dentes brancos de comercial, músculos malhados e desenhados, gentil e delicado. Movimentava-se como uma pantera poderosa e usava um brinco acintoso, um diamante de quatro quilates na orelha esquerda. Brinco de noivado, enfatizava Glauco acidulado.

Os parceiros viviam uma relação desbalanceada, dois meses de cio intenso e dez meses de distanciamento. Enquanto durava o afastamento, Glauco e a mãe compartilhavam uma vida pacata, rotineira e previsível. Entretanto, nos meses entre fevereiro e abril – a visita de George Cinco – dependendo do Carnaval, tudo mudava. Dona Rosa se eclipsava, partia para o Rio, era hora de paparicar a filha e os netos, então o namorado ocupava o castelo. A agitação principiava no fim de janeiro, Glauco esvoaçava apressado para preparar o ninho. Tinha prática e método: os móveis da mãe e do amigo ficavam guardados num depósito, só precisava cambia-los e repintar o quarto para pendurar os quadros preferidos do visitante cometa.

Era a melhor fase de Glauco, vivia uma estação de magia e encantamento, de pavão em acasalamento. Mudava de visual, renovava o guarda roupa, trabalhava pouco, passeava muito e tirava férias integrais. Comparecia holograficamente na empresa, seu espirito habitava outras dimensões. Nossos almoços eram suspensos, só voltavam a acontecer em maio, repletos e histórias e novidades. Uma pergunta surgiu centenas de vezes na minha mente, porém nunca tive coragem de formula-la: “Quanto a mãe sabia desse voo nupcial?” Presumo que tudo, mas, por amor e respeito, fingia ignorar. Nos infalíveis jantares de aniversário de Glauco – de pratos amazonenses, para poucos e raros convidados – o assunto era proibido.

Por cinco anos, através do humor de Glauco, acompanhei as aparições do cometa George Cinco. Observava sua aproximação, sua chegada, os dois meses de apogeu, quando iluminava o céu com seu brilho feérico, e, então, o afastamento. No sexto ano alguma tragédia cósmica aconteceu. Na segunda quinzena de março Glauco ficou mal humorado e tempestuoso, cancelou as férias e se encafurnou na sua sala. Apesar da minha postura amiga e solidária passou vários dias sem trocar nenhuma palavra comigo. Uma segunda-feira chuvosa abriu a porta e me convidou para almoçar.

Escolheu o lugar, mas preferi dirigir porque ele estava alterado, distante e distraído. Fomos num restaurante conhecido, Sopas e Saladas, na Haddock Lobo. Ocupamos uma mesa nos fundos, Glauco de costas para o salão. O trajeto inteiro tinha guardado silêncio, sentamos calados e fizemos os pedidos sem trocar comentários. Seu humor estava denso e tenso, resolvi cutucar a ferida:

“E com George Cinco, tudo bem?”

Ele sorriu excruciante. Murmurou “George Cinco! O príncipe de Philadelphia!”, e desabou num choro convulsivo, resfolegante e interminável. Por trinta minutos soluçou ruidosa e copiosamente, debruçado sobre a mesa. Fiquei desnorteado, envergonhado, sem saber como reagir. Os clientes olhavam intrigados, os garçons se acercavam assustados, porém não ousavam interferir. O maitre observava de longe, solícito e incomodado. Os homens riam irônicos e gozadores, divertidos com a tragicomédia. As mulheres disfarçavam, com reprovação ou simpatia. Alguns viravam o rosto com preconceito, outros, muito poucos, solidários, ignoravam o desastre.

Quando a crise passou Glauco foi para o banheiro, retornou dez minutos depois recomposto. Esperei firme como um guarda imperial inglês, sem mover nenhum nervo da face, com aquele chapéu preto, imenso e ridículo enfeitando a cabeça. Os pratos chegaram, ele não tocou na comida porque estava contando seu romance.

Conheceu o namorado num Natal em Philadelphia, a família era de lá. Desde o momento em que se falaram não se separaram mais, Glauco viveu uma semana de idílio. Na noite antes da separação tiveram uma longa conversa. George informou que procurava relacionamentos estáveis, poucos e escolhidos. Entretanto, não conseguia ser monógamo, de vez em quando precisava variar de parceiros, e geografia. Sua vida estava arranjada de forma perfeita. Não trabalhava, tinha um harém cosmopolita, cinco casos em cinco cidades do mundo – Los Angeles, New York, Paris, Barcelona e Amsterdam – passava dois meses como hóspede de cada amigo. Entre novembro e dezembro descansava, ficava na Philadelphia com os parentes. Seu par de Barcelona, um tenor maduro, havia morrido. Gostava do Brasil, não muito de São Paulo, mas faria um esforço. Glauco aceitou ser o quinto companheiro, era a única forma de ficar perto de George Cinco.

“Assim! Na boa? Sem ciúmes, nem crises?”

“Mais ou menos. Eu me programei para pensar em George como um pirata, explorador dos sete mares, que, em terra, dedicava todo seu tempo para mim. Nunca quis saber nada, nem o nome dos outros. Funciona bem, exceto com a cara de Amsterdam, um pintor talentoso. George chegava impregnado com o cheiro dele, e às vezes passava dias me chamando de Gregor. O pior era aquele brinco de noivado que ganhou na Holanda. Pegou a mania de acariciar a joia com ar sonhador. Acho que fazia isso para me provocar. Contudo, agora não importa mais.”

“Por quê? O que aconteceu?”

“O anfitrião de Paris ficou doente. A família reprovava o relacionamento, trancou o apartamento e levou o cara para convalescer no interior. George não se abalou e foi para Veneza. Lá conheceu Luigi, que mora defronte o Grand Canal e tem uma lancha particular imensa e aconchegante. Foi convidado para experimentar esta vida aristocrática, mas tem que ser no Carnaval, porque o veneziano é casado. Garantiu que a aventura na cidade dos canais será passageira, somente por um ou dois anos, depois pode voltar. Não acreditei! Discutimos, chutei o balde e desisti de tudo!”

“E agora?” 

“George está obcecado por Veneza. Disse que veio até aqui para me explicar pessoalmente a situação e se despedir, porque tem muito carinho por mim. Me convidou para visita-lo no Natal, em Philadelphia. Posso até ficar com a família. Mas me conheço bem, sei que nunca faria isso. Não quero ser uma transa passageira para preencher noites solitárias.”


Ser trocado por um cara mais velho por causa da grana abalou o psiquismo e o sistema de valores de Glauco, sua vida degringolou. Parecia seguir um plano rigoroso de autodestruição. Insistia em chegar tarde sem dar quaisquer explicações. Vivia aéreo, nervoso, irritado e impaciente. Respondia e-mails e telefonemas com rispidez e recusava tratar de alguns assuntos, mesmo quando urgentes. Duas vezes, por insinuações sobre sua opção sexual, reagiu com violência. Fazia comentários desdenhosos sobre a política  da empresa e chamava todos de burros ou acéfalos.

Afastou-se dos amigos e nos esparsos almoços que participou só falava de baladas, aventuras, transas casuais e noites em claro. Três meses depois foi demitido. Nunca mais procurou ninguém. Pelos corredores fiquei sabendo que processava a empresa por preconceito, alegando demissão homofóbica. Um ano depois soube que havia morrido.


Quando rememoro minha amizade com Glauco, cada vez mais parece uma ópera em dois atos desemparelhados  'allegro com fuoco' e 'adágio assai'  com dois protagonistas distintos. O primeiro é um exemplo didático do mais apaixonado caso de amor alternativo, que dá certo, apesar da bizarrice. Digno, sem excessos, concessões ou tergiversações. Pena que com final infeliz. O segundo me lembra as figuras ultrarromânticas dos dramas e novelas antigos, feito Werther, Emma Bovary e outras, que se deixaram queimar no holocausto das chamas de um amor não correspondido.



4 comentários:

  1. Não é para mim dificuldade em entender este folhetim de ópera já que um conto também serve para conduzir um enredo rico de paixões. O amor construído em dominador e dominado tem o seu foco regido pela paixão. O dominado exercita-se pelo entendimento de que o amante seja um complemento do que lhe falta o espírito. Guarda o amante como uma coisa, um objeto e, por decorrência desse fato, lhe pertence. Quando o perde é como perdesse algo de seu, da sua natureza. Daí reparti-lo é como perdesse algo de si mesmo para outrem. É um "minus". O amante é um ser egoísta que avalia o quanto vale como objeto do ser amado e dele usufrui o valor que acredita vigorar em seu papel. Nessa relação só resta, realmente o sacrifício do amado. Isto é amor próprio.

    ResponderExcluir
  2. O conto, Carlos, tenta acompanhar uma equação que tem variáveis demais, por isso de solução impossível, como as óperas dramáticas. E, você tem razão, o amado, invariavelmente, é uma coluna de egoísmo.

    ResponderExcluir
  3. Trabalhei há milênios com um Glauco, que na realidade era Cláudio, apaixonado por um George Cinco, na verdade Francisco n(elevado ao quadrado). Não havia essa devoção carinhosa e fiel mas apenas revolta com os muitos enes de Francisco, sempre renovados. Uma bela noite, em uma das muitas sombras ao redor da Biblioteca Mário de Andrade, Cláudio se entope de Pervitin e, desatinado, busca Francisco nos inferninhos da Galeria Metrópole... Nunca mais soubemos de ambos, se vivos, se mortos. Uma tragédia banal entre miseráveis, sem glamour e sem memória, apenas este "flash" provocado pela pantera negra.

    ResponderExcluir
  4. Fernando Marchini Dias - Os histórias dos Glauco, Cláudios, Georges e Francisco pululam, somente os nomes mudam. Em comum têm adjetivos como loucas, ácidas, doces e 'pateticas' como talvez preferisse Tchaikovsky.

    ResponderExcluir