quarta-feira, 31 de julho de 2013

JANELAS DE FERMI

As meninas do grupo se espantaram quando Aélia publicou um artigo, bem ‘mulherzinha’, numa revista feminina. A novidade espantava, porque sua extensa bibliografia continha apenas teses e participações em livros e revistas científicas. Aélia Mossato, pesquisadora associada do SETI Institute, era um nome reconhecido na Astrofísica e Meteorologia Planetária, especialista em erosão eólica.

Minha amiga explicou o motivo daquela extravagância repentina. Três meses antes, Reginaldo Balbo, um falastrão da televisão, que se metia a entender de tudo, escreveu uma matéria provocativa: ‘Solteirona porque chata? Ou vice versa?’ Aélia ficou possessa, telefonou para uma conhecida da editoria e se propôs a redigir uma resposta técnica e elegante. Produziu um texto interessante e inusitado, porém, não muito otimista: ’As Janelas de Fermi e os homens inteligentes’.

Era previsível, a cabeça de Aélia, desde garota, havia sido abduzida pela pesquisa de alienígenas, assim abordou o eterno problema da busca do parceiro ideal com base no famoso Paradoxo de Fermi sobre inteligência extraterreste, mais precisamente usando o argumento das ‘Janelas de Oportunidades’.
Uma ocasião o físico ítalo-americano – Nobel de 38 – na hora do almoço, numa conversa casual, perguntou: “Se existe tantas possibilidades de vidas extraterrestres, como dizem, porque nunca encontramos nenhum indício?” Minha amiga, sardonicamente, também indagava: “Se metade da população é masculina, porque é tão complicado arrumar um namorado legal?”.

Apesar do jargão técnico, a ideia das ‘Janelas de Oportunidades’ é simples e instigante. O universo tem 15 bilhões de anos, a vida humana inteligente apenas 6 mil; ou seja, a duração da chama de um fósforo numa semestral noite polar. Considerando a eternidade e as grandezas cósmicas, somente uma coincidência excepcional permitiria que duas chamas se avistassem, e apenas um milagre demiúrgico possibilitaria o contato. Na revista popular Aélia tripudiava: "encontrar a outra metade é igualmente difícil, portanto, como casamento é uma opção – não uma imposição – se o homem inteligente não aparecer, é melhor permanecer solteira."


A tese fez sucesso, virou gozação nos e-mails do grupo e rolavam piadas. Uma delas dizia que, pelas previsões mais otimistas, Reginaldo Balbo morreria 150 anos antes de conseguir entender o artigo. Por isso, quando Aélia inaugurou o novo apartamento, de amplas janelas, no alto de uma torre na região de Cerqueira Cesar, o bando se cotizou e a presenteou com um telescópio para procurar homens inteligentes. Era brincadeira, porém a cientista gostou do hobby, dois meses depois, aconselhada por colegas astrônomos, comprou um equipamento muito mais poderoso. Confesso que não fiquei muito surpresa quando, numa noite de vinhos brancos alemães, me confidenciou que as novas lentes estavam permanentemente focadas numa janela específica. Num pequeno loft reformado, sem divisão de ambientes, de parede frontal inteira de vidro, na Praça Roosevelt. Parecia uma casa de boneca, podia acompanhar o dia a dia do morador. Pena que o dono controlava as cortinas.

Aélia estava vivendo um semestre sabático astrofísico, aproveitava uma bolsa europeia para estudar o efeito diferencial dos ventos nas paisagens planetárias, passava muito tempo em casa. No ultimo mês havia iniciado um novo e prazeroso projeto paralelo: observar o habitante do loft alvo, potencial candidato a homem inteligente. Abriu uma pasta especial, montou planilhas e fazia anotações metódicas. Tratava-se de um rapaz moreno, de mais ou menos 38 anos, que, como ela, passava o dia inteiro em casa. Levantava tarde, malhava, cozinhava, lia, assistia filmes e ouvia música. Quase sempre nu, ou de sunga. Quando escurecia ajeitava a barba, tomava banho, se perfumava e, por volta das oito horas, cuidadosamente vestido, saia para a noite. Retornava de madrugada e ia direto para a cama. Duas vezes por semana recebia amigos para ouvir música, conversar ou assistir jogos de futebol. Tinha uma camisa do Palmeiras emoldurada e gostava de uísque, cerveja e comida natural. ‘Breno não bebe vinho’, estava negritado no relatório. O espécime já estava batizado e contemplado com seu primeiro defeito.

Entretanto, uma vez por semana, as atividades se alteravam e fugiam da rotina. Toda quinta-feira, sem falha, Breno saia para almoçar fora e voltava acompanhado por uma bela mulher. Íntima, estranha e misteriosa. Efetivamente, esta quebra de padrão, esta mudança de comportamento, constituía a maior preocupação de minha amiga; queria conversar comigo sobre estas visitas enigmáticas, achava que, como psicóloga, poderia ajudar. A moça era loira, bonita e de gestos elegantes e seguros. Aélia havia registrado quatro destas tardes especiais, não sabia se eram uma exótica cerimônia de acasalamento, uma brincadeira insana ou um ritual alienígena. Chegou a pensar que o rapaz sabia que estava sendo observado e queria confundir e provocar a voyeur intrometida. Os acontecimentos confrontavam a lógica, era impossível compreende-los.

No primeiro encontro, em pleno julho, os dois armaram uma arvore de Natal, felizes e despreocupados, trocando beijinhos, como dois pombinhos apaixonados. Breno tolerante, carinhoso e solícito; ela como uma adolescente brincando de casinha. Na segunda semana, a namorada, fantasiada de colombina, euforicamente, teimava em dançar, insistindo para o namorado acompanha-la; contudo, desajeitado, sisudo e sem graça, ele reclamava e resistia aos convites, agarrado ao computador. A terceira tarde foi esquisita. A mulher, de novo vestida de colombina, porém triste, se isolou inquieta no sofá até o parceiro se aproximar com uma carta na mão, leram juntos. Breno pareceu ter ficado satisfeito com a mensagem, abraçava e beijava a visitante seguidamente, que permanecia distante e desconfiada. Então começaram uma longa discussão acalorada, entrecortada por gestos enfáticos. A colombina falava mais, de repente tirou a aliança do dedo e entregou para o noivo, que não acreditava no que estava acontecendo.

A última quinta-feira foi quase uma repetição da semana anterior, a mesma tensão, o mesmo longo e agitado diálogo, só que acabou em reconciliação. Quando a moça devolveu a aliança, Breno a abraçou sôfrego, falando e suplicando, foram até o quarto juntos e olharam longamente a cama vazia. A mulher teve uma crise de choro convulsivo, o rapaz recolocou amorosamente a aliança no dedo da companheira e a confortou com ternura e proteção.


Li os registros e via as fotos: quatro encontros, nas quatro semanas de monitoramento, sempre quintas-feiras, no meio da tarde. As anotações eram resumidas e esquemáticas; entretanto – minha amiga garantia – as visitas eram muito mais complexas e ambíguas. Todos os quatro episódios não reproduziam comportamentos normais, cotidianos ou conhecidos. Aélia não excluía a hipótese do casal estar tentando confundi-la e engana-la. Depois existiam as excrescências: gestos grandiloquentes, falas excessivas e silêncios demorados e demasiados. Perguntei por que somente agora tinha me chamado? Respondeu que uma coisa curiosa havia ocorrido no último encontro. No fim da tarde, antes da mulher partir, Breno escreveu uma data na lousa branca, 19 de agosto, e sublinhou três vezes. Os dois ficaram de mãos dadas olhando meditativos para a data. 19 de agosto era amanhã, quinta-feira, ela não sabia o que fazer. Formulei a pergunta óbvia.

“Você sabe onde é o prédio, conhece o rosto do rapaz e seus horários, nunca foi vê-lo de perto? Sei lá, sentir o cheiro, o impacto da presença física, estas coisas?”

“Claro que fui. Na porta do edifício tem um bar com mesas na calçada. Foi fácil, bastou sentar e esperar?”

“Só uma vez?”

“Só uma, na terceira semana, depois da colombina ter devolvido a aliança. Passou por mim apressado e tomou um táxi. É bonito demais, fiquei intimidada, não tive coragem de fazer nada. Porém senti seu perfume, para prolongar o momento de excitação pedi mais uma caipirinha. Depois fui embora.”

Além das atitudes de Aélia, estava achando a sequência de eventos muito estranha, quase absurda.

“Alguma vez flagrou eles transando?”

“Não, nunca fizeram nada no loft, devem transar em outro lugar, acho que no apartamento da noiva.”

Alguma coisa estava muito errada, ou no reino da Praça Roosevelt ou na cabeça de Aélia. Uma aliança no dedo e nenhuma intimidade, namoro ou sexo? Inacreditável!

“Será que Breno, sua cobaia, é gay?”

“Claro que não! Num mês de observação nunca percebi nada de ‘fresco’ no comportamento dele.”

“Uma certeza absoluta sem provas conclusivas? Onde está o rigor acadêmico Professora Doutora?”

Na despedida prometi me dedicar ao problema, porém restava pouco tempo, decisivo ou não, amanhã seria o dia marcado na lousa branca.


O efeito dos vinhos brancos e os irresistíveis braços do sono não me permitiram refletir sobre as tribulações de minha amiga, alias não tive tempo de fazer nada, porque Aélia me telefonou afobada e atarantada às 9 da manhã do dia seguinte.

“Desvendei o mistério de Breno. É fantástico, maluco e óbvio demais. Não entendi tudo antes porque fui uma ameba, uma procarionte unicelular descerebrada.”

“Explique devagar, acabei de acordar.”

“Hoje, quando abri o jornal, encontrei um anúncio com a fotografia de Breno abraçado com a moça loira, que se chama Klara. Fiquei trespassada, os dois são atores, vão interpretar Nora e Torvald Helmer na peça Casa de Bonecas de Henryk Ibsen. Uma montagem especial.”

Não dava para interromper o jorro de entusiasmo de Aélia. A cientista estava muito mais apaixonada pela sua cobaia do que eu calculava.

“O drama tem duas versões: um final feminista o mais famoso; e um final alternativo em que Nora não abandona a casa e os filhos. O diretor é Breno. Teve uma sacada genial, a plateia não sabe qual versão vai assistir, antes do espetáculo os atores jogam runas e decidem como vai acabar.”

Aélia desligou aflita e confusa, era só compulsão de falar, compartilhar. Naquele momento, não se importava com meus comentários, nem com minha opinião. Não me surpreendeu essa ansiedade e insensatez, sua voz estava carregada de amor, desejo e esperança. Pelo que me lembro era sua primeira paixão pós adolescência.

Recoloquei o fone no suporte pensando: rigorosamente, até agora, foi apenas um avistamento de ET, como e quando acontecerá o primeiro contato?


6 comentários:

  1. Maravilhoso! Espetacular! Do jeito que gosto, uau. Parabéns!

    Lígia Beltrão

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  2. Obrigado Lígia Beltrão pela visita ao Blog. Gosto de escrevr sobre mulheres, são guerreiras corajosas e persignadas.

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  3. Excelente Douglas! Gosto muito do teu estilo... serei assídua do teu blog!

    Katia Zoé

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  4. Muito obrigado Katia Zoé pela atenção e pelos comentários. Seja sempre bem vinda e volte sempre.

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  5. Espetacular.
    Breno deve ser audiófilo. Quem mais receberia os amigos para escutar música?

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  6. Mania de autor, Rafael Bardal, Breno além de audiófilo era palmeirense.

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