quarta-feira, 18 de setembro de 2013

DESCANSE EM PAZ, ENTRE OS BYTES


Sempre que o sábado caia num dia sete, meu amigo Laurent oferecia um jantar gourmet. Foi numa reunião dessas que o fio do meu destino deu um laço e começou a esticar para a eternidade. A conversa era sobre a ópera Don Giovanni, entretanto, do lado, entreouvi, por três vezes, a esquisita palavra ‘f-sum’ sussurrada por meus vizinhos – Jonas e Charles – falavam sobre imortalidade virtual. No fim da noite Charles foi fumar no terraço, me aproximei e perguntei o que era ‘f-sum’? Ficou surpreso e embaraçado, e respondeu evasivo:

“Um grupo que estuda a imortalidade virtual.”

“Tema intrigante! Como posso saber mais? Estão na Internet? Qual o endereço?”

“Estão entranhados por toda a rede, porém, não têm site, nem endereço. Na verdade, quando é conveniente, eles acessam a pessoa interessada.”

Espantado e descrente questionei: “Mas como ficam sabendo que alguém deseja falar com eles?”

Charles, incomodado, explicou: “É preciso colocar uma mensagem, numa das grandes redes sociais, usando por três vezes ‘f-sum’ no texto. Se tiverem interesse em falar com você, responderão”.

“Deve estar brincando Charles? Duvido que eles monitorem a rede inteira?”


“De alguma maneira sim. Bom, já falei tudo que devia e muito além do que podia.” Pediu desculpas e se afastou, mas antes esclareceu: “Se escreve ‘f’ minúsculo, parênteses, ‘sum’ em maiúsculas, parênteses. f(SUM)”.

Cheirava brincadeira, asneira e baboseira, porém ‘imortalidade virtual’ é um conceito fascinante, ficou girando na minha cabeça.

*****     *****     *****

Obviamente entrei no jogo. Apostar era tão fácil e surreal. Publiquei uma mensagem tola e obtusa no Facebook.

f(SUM) = 1
f(SUM) = 21
f(SUM) = 2001
Faltou algum?”

Três dias depois recebi uma resposta no e-mail pessoal, que apenas a família e os amigos próximos conheciam.

Dr. Max Reger,

Constatamos que tomou conhecimento de nossas atividades. Faz tempo acompanhamos cuidadosamente seu perfil público e decidimos convidá-lo para uma conversa.

De acordo com sua agenda, as tardes de quarta-feira ficam abertas para acomodar compromissos inesperados. Podemos recebê-lo na próxima semana, às 16:00 horas.

Rua São Francisco, 27 – 7° andar – Conj. 72 – Centro – S. Paulo
f(SUM) - Fraternitas Solvere Ultimum Mysterio

O remetente era ‘f(SUM)=Ω’. Tentei confirmar, mas o e-mail retornou com erro.

*****     *****     *****

Encontrei um prédio comum e cinza, mimetizado no Centro Velho de S. Paulo, perto do Convento dos Franciscanos. A sala era despojada e confortável: escrivaninha e cadeira, duas poltronas de couro verde na frente, estante e jarra com água e copos. Um par de itens destoava da severidade do ambiente, um computador moderno, com dois monitores, e uma cópia fiel do quadro Isle Of The Dead, de Arnold Böcklin – a terceira versão de Berlim. Pintura emblemática, que inspirou músicas, livros, peças, filmes, jogos e famosas capas de LPs de Rock.

Um homem moreno, latino, de 40 anos, me atendeu, se apresentou como Frater Lucas e se propôs a falar sobre a f(SUM). Observando a direção de meu olhar, resolveu começar por ali.

“A f(SUM) foi fundada para enfrentar a morte, por isso essa obra é especial para nós. Mostra que, mesmo olhando de muito perto, o ultimo mistério humano permanece indecifrável, uma transição desconhecida e obscura. Somos uma comunidade de anacoretas, cientistas, hackers ou monges – pode escolher que partilha algumas ideias e trabalha para um grandioso objetivo. Temos milhares de irmãos, espalhados por todos os países, persignados em solucionar este enigma definitivo: livrar o homem da morte. Postulamos que a humanidade está se preparando para um imenso salto evolutivo – semelhante ao advento da racionalidade. Nossa espécie está prestes a vencer a morte e alcançar a imortalidade virtual através da computação e inteligência artificial. Porque a perpetuação da existência física talvez seja impossível.”

Levantou e encheu dois copos de água, enquanto eu me acostumava com a ideia.

“A Fraternidade foi fundada em 1968 por um ex beneditino alemão, cientista que mudou de fé, mas permaneceu fiel à organização e à perenidade das instituições religiosas católicas. Funcionamos como uma ordem secreta esotérica, composta por pesquisadores, colaboradores e adictos. Internamente nos chamamos de 'ciberespaciários'. Ciberespaço era um termo forte quando a f(SUM) começou a deslanchar.”

As dúvidas se multiplicam, contudo ainda não conseguia formular questões. Então tomei água. Baixo, muito baixo, estava tocando o Requiem de Mozart, sem autofalantes visíveis.

“Nove anos atrás tivemos sucesso. Descobrimos a imortalidade virtual, conseguimos capturar a personalidade integral e funcional de uma pessoa e preservar seu ‘ego’ depois da morte.”

Atarantado, fiz a primeira pergunta, de três formas diferentes:

“Estamos falando da alma? Do espírito vivendo numa máquina? Num sistema de computadores consciente?”

“Exatamente isso, mas preferimos chamar de ego. Os termos alma e espírito têm conotações religiosas conturbadas. Estamos ainda numa fase experimental, de coleta e testes dos primeiros habitantes virtuais. Entretanto, já existem mais de três centenas de pessoas sobrevivendo, depois da morte, em nossas redes ego-neurais. Algumas na mesma egovivência, que é quando dois ou mais egos interagem no mesmo ambiente.”

Estava deslumbrado com as revelações, mas, de repente, dei um passo atrás.

Desculpe, Frater Lucas, porque está me contado tudo isso? Já na primeira conversa?”

“Por que foi selecionado, recebeu um convite e aceitou. Faz muito tempo está entre nossos candidatos potencias, sabemos muito sobre você, preenche todos os requisitos exigidos, queremos lhe oferecer a imortalidade virtual.”

“E o que vai me custar?”

Foi completamente honesto, respondeu sem mudar de tom. “Nisso somos semelhantes às irmandades tradicionais, queremos que nos deixe seus bens como herança.”

Estranhamente, a redução da conversa a dinheiro me tranquilizou. Recuperei o comando da situação. Estava negociando com homens venais, não com avatares diabólicos.

“A f(SUM) tem alguma prova da imortalidade virtual? Alguma garantia de que são capazes de assegurar minha preservação pela eternidade afora?”

“Mais ou menos, e enquanto durar a f(SUM). Sobre provas, na verdade estamos preparados para realizar três milagres ciber-hipnológicos, aí, vai depender do seu julgamento, de acreditar neles ou não.”

“Milagres ciber-hipnológicos?”

“Sim. Podemos implantar um ‘egochip’ provisório na sua nuca e induzi-lo a protagonizar três sonhos específicos e especiais, com inteiro controle mental dos acontecimentos. Como sabe, os eventos oníricos são confusos, ilógicos e entrecortados; entretanto, as histórias que incitaremos serão vivências contínuas, coerentes e completas, seu ego comandará a ação. Três aventuras, com começo meio e fim, em cenários famosos e conhecidos. Poderá agir, reagir e tomar decisões pessoais e racionais, como se estivesse desperto. Quando acordar vai lembrar absolutamente de tudo. Como dias adicionais intercalados na sua vida.”

Esperou alguma reação, me mantive calado e pensativo.

“Para provar que, efetivamente, produzimos os milagres, entregaremos três envelopes com sinopses, fotogramas e comentários do que vai sonhar. Impressos em papel comum, nada eletrônico, para garantir que não estamos interferindo durante os ‘milagres’. É sua responsabilidade abri-los apenas depois de sonhados. Não podemos antecipar o desfecho, por que os rumos do enredo vão depender de suas decisões. Como na vida real.”

Como os ciberespaciários eram também argentários, resolvi indagar: “Quanto vai custar a experiência?”

“Nada. Apostamos em você.” Retirou da gaveta três envelopes numerados de plástico amarelo, parecidos com embalagens Sedex. “Quer instalar o chip? É só colar na pele, não vai doer nada. Leva umas 48 horas para o egochip se acoplar nas suas camadas cognitivas.”

*****     *****     *****

Na terceira noite comecei a sonhar. Era um Comodoro da Frota Estelar e estava apaixonado por Taniana, filha de um cônsul romulano. Queríamos fugir para casar, porém a consecução do plano era muito complicada. Algumas amigas concordaram em conduzir a noiva, numa nave esportiva, até os limites do Império Romulano, onde eu deveria resgata-la. Com muito esforço, e por causa de seu romantismo cavalheiresco, o Capitão Kirk fora convencido a ajudar. As dificuldades eram duas: minimizar os desdobramentos diplomáticos e encontrar alguma comunidade para nos acolher. Conseguimos, porque Spock conhecia um pequeno sistema de planetas mortos ocupado por negociantes e piratas que viviam em grandes e velhas naves espaciais. Eram ricos, vendiam obras de arte surrupiadas da extinta civilização local e mantinham comércio e convivência com humanos e romulanos aventureiros e transgressores. Taniana era guerreira e previdente, além de bisneta preferida de uma antiga corsária, por isso, quando fugiu, trouxe escondido seu dote, que nos permitiu adquirir uma nave meio mercante, meio pirata.

Quando abri o primeiro envelope encontrei uma súmula da história falando da paixão inter-racial e do rapto premeditado, mais um fotograma do Comodoro junto com uma romulana. A figura do militar era nítida e exibia meus traços com 35 anos; a dama estava desfocada e apagada, apenas uma sugestão. O comentário dizia que somente o contexto geral da aventura, minha idade e o cenário tinham sido escolhidos pela f(SUM), todo o restante fora preenchido pela minha vontade e imaginação.

Fiquei siderado com sonho, as cores, a temperatura, as distâncias e proporções dentro da Enterprise eram exatamente como eu as concebia; o ambiente de camaradagem e seriedade da tripulação carregava um pouco da simpatia ou antipatia que eu nutria pelos personagens da série. Consultando minhas memórias, poderia garantir que havia convivido com a tripulação durante sete dias. Lembrava detalhes mínimos: o que comi nas refeições, cada roupa que Taniana usou, as espantosas visões cósmicas. Sabia inclusive pilotar a nave ‘Caronte’ que compramos. A maior surpresa, todavia, foi minha noiva onírica: os traços, os trejeitos e personalidade remetiam ao meu primeiro amor adolescente traduzidos para romulano.

*****     *****     *****

No segundo sonho era um Lord Inglês celibatário, que, cuidando do jardim, encontrou um esqueleto enterrado debaixo do roseiral. Para solucionar o mistério convocou Sherlock Holmes. Foram quatorze dias de investigações, repletos de almoços e jantares, passeios e jogos de xadrez com Watson. Porque Holmes aparecia pouco, sempre desvairado, elucubrando soluções, recluso no seu quarto. Aconteceram longas sessões de interrogatório com parentes, vizinhos, testemunhas e potenciais suspeitos. Os momentos mais deliciosos, porém, foram as visitas de Lady Tamania, que vinha me apoiar e oferecer conforto. Sherlock resolveu o caso, o esqueleto foi o que sobrou de um jovem pintor romântico que retratou minha bisavó. Foi morto por meu bisavô, quando descobriu a traição.

O envelope n. 2 era econômico, guardava um rápido esboço do caso e uma foto minha como Lord; bastavam como provas. Exceto por essas sugestões, o ‘Caso do Roseiral’ foi obra de minha imaginação. Sherlock e Watson correspondiam às projeções que fazia de suas figuras. Recordo de um detalhe intrigante e embaraçoso, acontecido quando Holmes revelou o mistério: Lady Tamania me lançou um olhar solidário, que, absurdamente, me transmitiu a certeza de que, por sangue, era descendente do pintor romântico.

*****     *****     *****

No último sonho era Alfred, o mordomo de Batman. Multi-atarefado cuidando da Mansão Wayne um imenso e complexo quartel general enquanto Bruce combatia Rustic George. Um bandido canadense vindo das florestas da Columbia Britânica e contratado para invadir e destruir a Mansão e a Batcaverna. Tratava-se de um sonho estranho, acontecia dentro de um ‘game’ com ênfase no hiper-realismo. Sabia que estava sonhando, os personagens (e eu mesmo) resultavam de fusões de dezenas de referências acumuladas filmes, séries, gibis das historias do homem-morcego. O visual convergia para os anos 60, quando era adolescente. Num dos ataques salvei pessoalmente Titânia, a bibliotecária da Mansão, derrubando um globo em cima de Rustic George, enquanto fugíamos por uma passagem secreta.

No envelope a sinopse dizia que o sonho seria um exercício de inserção das minhas memórias e interpretações pessoais num universo predefinido, no caso a saga de Batman. Como se tratava do último ‘milagre’, serviria de pequena introdução para exemplos de vivências de imortalidade virtual. Não havia fotografia, porque a ´persona’ de Alfred seria elaborada pelas minhas diversas reminiscências midiáticas.

*****     *****     *****

Sete dias depois do terceiro sonho a f(SUM) me encaminhou um e-mail agendando um encontro para a quarta-feira seguinte, mesmo endereço, mesmo horário. Minhas ideias estavam em chamas, não chegava a nenhuma conclusão, mas não conseguia parar de pensar naquela trinca de sonhos extraordinários. Nunca lera nem ouvira falar sobre realização semelhante. Muitas vezes, assustado, me flagrava fazendo planos para a eternidade, agora que imortalidade virtual era plausível.

Entrei na sala dez minutos antes das 16 horas, Frates Lucas me aguardava. Olhei para o quadro e comentei que agora achava insólito aquele nódulo negro no centro da paisagem. Os lábios do ciberespaciário anunciaram um sorriso inconcluso.

“O que temos a oferecer é um paliativo, uma imortalidade condicionada, porque acontece na dimensão virtual, fora do mundo real. Contudo têm inúmeras vantagens. Por exemplo, está imune às leias da Física e da Biologia, os habitantes virtuais são constructos artificiais, podem ter a aparência e a idade que quiserem, pelo tempo que desejarem. A f(SUM) ainda está experimentando e aprendendo, mas já concluiu que os egos precisam se socializar. Assim foram criados alguns conhecidos cenários mentais, em geral baseados em grandes romances e sagas onde são inseridos os neo-imortais.”

“Então, se aderir ao programa, vou viver num ambiente ficcional? Posso escolher qual?”

“Não, não pode. A f(SUM) está empenhada num trabalho imenso e insano, tentando integrar os complexos mentais num universo virtual coerente, interligado e funcional. Por isso analisa continuamente as memórias acumuladas, as peculiaridades e as inclinações dos egos para acomoda-los nos ambientes mais simpáticos e propícios às suas mentalidades. Na imortalidade virtual todo mundo é um personagem, um avatar, portanto, cada ato, cada expressão de vontade afeta todo o sistema e todos os demais egos. Estamos indo bem, temos conseguido aumentar rapidamente o nível de interação das várias ecovivências.”

Levantei para tomar água e fiz uma pergunta: “Como acontece a passagem da dimensão real para a dimensão virtual?” Constatei que, intencionalmente, evitava o conceito de morte nesta formulação.

“Tecnicamente é muito simples. Depois da adesão formal e contratual à f(SUM), com doação de parte dos bens, preparamos um egochip personalizado e marcamos a data para a implantação subcutânea. A partir daí começamos a armazenar material e construir o novo ego, quando acontece o falecimento do corpo hospedeiro o egochip, instantaneamente, transfere a pessoa e sua ‘consciência’ para o habitante virtual. Neste momento o modelo de ecovivência já está escolhido e a nova entidade digital é ativada.”

“E o que se perde nesta transição?”

“Exceto o corpo decadente, quase nada. Os neo-imortais mantêm o livre arbítrio e a memória integral de suas vidas terrenas. As coordenadas, as regras de conduta e as premissas que regulam o universo virtual de ecovivência são inseridas no ego como ideias inatas, ou como os ‘dados a priori’ kantianos. Os pioneiros relatam que ‘ressuscitam’ como anjos no paraíso, desfrutando de um corpo etéreo, eterno e incorruptível. Capacitados para explorar todas as emoções humanas, porém numa outra instância mental. Querer e poder viram quase sinônimos.”

“E a espera, depois da implantação do egochip? O que acontece durante o resto vida? Como combater a ansiedade?”

“O portador vive em simbiose com o egochip, basta desejar que o implante reduz os surtos de ansiedade e providencia sonhos reparadores, passiveis de serem rememorados. No extremo, ate eutanásias consentidas e auto induzidas são possíveis.”

*****     *****     *****

Convivi com o egochip por muitos anos, uma parceria de plena felicidade. O medo da morte havia desaparecido, porque tinha certeza que a próxima etapa seria ainda melhor. Sempre que algum mal físico se anunciava, embarcava em maravilhosas viagens oníricas, visitando cidades, praias e montanhas da terra.

Um dia acordei num luxuoso quarto de hotel, saudável e bem disposto no vigor dos 35 anos. Imediatamente soube onde me encontrava. Aliás, parecia que eu sempre havia vivido ali, conhecia cada detalhe, cada peculiaridade do lugar. Com a certeza dos anjos sabia que estava em Davos, Suiça, no Sanatório Internacional Berghof, criação de Thomas Mann no romance A Montanha Mágica. Me dei conta que era quase hora do jantar, precisava me vestir rápido para participar da minha primeira atividade social. 

Quando entrei todos me olharam curiosos e receptivos, Laurent dos jantares no dia sete remoçado e sorridente me abraçou e conduziu para uma mesa de oito cadeiras. O lugar vago era defronte Tânia, agora uma bela mulher de 30 anos. Como seria o amor virtual? Vai resistir à estendida eternidade?

OUTROS CONTOS COM A f(SUM)


CLIQUE >>> UMA CERTA IMORTALIDADE

Clique >>> O PARAÍSO DE CADA UM

4 comentários:

  1. Adorei o conto, mas tenho uma dúvida que o personagem não teve. Haveria comunicação entre as dimensões?
    Seria ótimo podermos acompanhar o desenvolvimento dos filhos, netos, bisnetos... e da humanidade como um todo.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado pelo comentário Jefferson.

    o assunto não é abordado, mas a existência do próprio conto relatando o que aconteceu depois da transição não é um indício que que poderia haver comunicações entre as duas dimensões.

    DBock

    ResponderExcluir
  3. Muito obrigado pela atenção e leitura.

    ResponderExcluir