sexta-feira, 11 de outubro de 2013

2001 / SOLARIS / BLADE RUNNER / MATRIX E OS 'OUTROS'

Depois da II Guerra, talvez por causa do avassalador argumento da bomba atômica, Ficção Científica passou a ser um gênero ascendete em Hollywood, apropriado para discutir os caminhos da humanidade. 50 anos de produção intensa: sagas, séries, sequels, sidequels, prequels... Centenas de obras interessantes e de qualidade.

Contudo, ainda, os quatro filmes do titulo continuam mandando no pedaço, impuseram novos conceitos e perduram no tempo. Marcos cinematográficos e ícones culturais – populares e acadêmicos. Inspiraram livros, teses e estudos sérios, Criaram comunidades, clubes e fóruns de discussões. São pautas científicas, temas de estudo e disciplinas: 2001logia, Solarística (termo da próprio filme), Bladerunnerologia e Matrixólogia.

O quarteto fodástico foi produzido num espaço de 31 anos: 2001 em 68 – o ano de esperanças imensas e desilusões enormes; Solaris em 72; Blade Runner em 82; e Matrix em 99. Todos eles, e por motivos diferentes, deixaram uma marca na História do Cinema. 2001, o casamento das imagens com a trilha sonora; Solaris, a quebra de convenções e paradigmas, a estranheza narrativa e imagística (a resposta soviética à 2001); Blade Runner, a arquitetura, cenários e figurinos ciberpunks; Matrix, questionamento da realidade e simulacros, os voos de imaginação, a dinâmica das lutas, o efeito bala, o visual retrô, dark e gótico. 

Nos dois primeiros ainda existe o alienígena, nos ultimos só so homem e suas criaturas. Contudo, o ponto mais intrigante do quarteto vai além de sua diversidade e sobrelevada qualidade artística; reside na convergência das obras para um mesmo problema. Em todas elas a pulsão dramática que conduz os roteiros é uma velha, básica e fundamental questão humana: o outro  o  enfrentamento do diferente.

Todos os quatro filmes procuram responder a esta questão: Quem é o outro? Quais as diferenças entre eles e nós? Em cada filme o outro muda, se metamorfoseia, mas o diálogo perdura, e acaba construindo um interessante arco de respostas alternativas.

O assunto explícito em 2001 é o primeiro encontro com extraterrestres, o outro absoluto do homem. Porém o impulso dramático, o dilema a ser resolvido, vem da disputa entre os cientistas/tripulantes e um computador que se tornou autodeterminado, que adquiriu livre arbítrio. Uma batalha mais apropriada, um outro de dimensões terráqueas. Porque o primeiro contato alienígena será um acontecimento cósmico, avassalador e transcendental, ninguém sequer imagina que  efeitos provocará. Nesta escala, os únicos sentimentos cabíveis são o espanto e o assombro. O cérebro eletrônico é um outro muito mais próximo. 

Entre Solaris e 2001 o diálogo é evidente. Um grupo de cientistas numa estação espacial tentando desvendar os segredos de uma inteligência extraterrestre, no caso russo um oceano consciente. Entretanto, também desta vez, a tensão dramática não é o outro alienígena. O desafio vem de dentro da alma, contrapõe o homem à seus sonhos, desejos, medos e pesadelos. Um outro diferente, muito mais intimo e sutil, contudo, igualmente desconhecido: aquilo que trazemos dentro de nos mesmos.

Em Blade Runner não aparecem extraterrestres para atrapalhar. O conflito é agudo e direto, contrapõe os homens e os replicantes  androides perfeitos e superiores ao ser humano. O outro é perfeitamente identificado, existe, inclusive, um procedimento definido para reconhece-los: o Teste de Voigt-Kempff. O problema é que o outro, física e funcionalmente, é idêntico ao homem. A diferença está na cabeça, na alma, na Moral, na Religião (enfatizada na novela origem de Philip K. Dick), e, talvez, no inefável, no indizível e no simples preconceito.

No ultimo filme, Matrix, acorre uma inversão interessante. As máquinas (criadas pelo homem), organizadas numa consciência centralizada, são o inimigo explícito, porém não são o motor dramático, não são o outro do filme. A humanidade inteira está adormecida, os indivíduos, foram abduzidos de seus corpos desde o nascimento. São compelidos a compartilhar um sonho coletivo, viver numa realidade virtual, programada e controlada. Neo, o personagem principal, luta para se tonar um outro, retomar a consciência, recuperar seu corpo e se religar à sua humanidade primitiva. Ou seja, o outro agora é o homem desperto que se contrapõe ao homem inerte, suspenso em vida vegetal.  O herói deve escolher ser entre a sono perpétuo e a consciência plena – pílula azul ou vermelha. Viver quieto e protegido, numa existência dormente, onírica, tranquila e segura, sob os cuidados das máquinas (afinal, foram criadas para ajudar o homem). Ou virar um outro, ativo e capaz de tomar decisões, de receber e comandar implantes cibernéticos e superpoderes (como os replicantes?) e se transformar pelo uso da mente num super homem imbatível.

Alguma coisa mudou: evolução ou involução? Nos três primeiro filmes o encontro com o outro resultava sempre em conflito e impasse; num escolha excludente: ou ele ou eu? No quarto, Matrix, o dilema é muito mais primígeno. Revisitamos o Mito da Caverna de Platão, somos acordados e convidados, podemos sair para o mundo exterior cheio de novidades e perigos ou permanecer confortáveis na oca ilusão das cavernas. Temos escolha: pílula azul ou vermelha?

Rachel ou Trinity?  

Para uma abordagem mais agrangente da questão do outro no filme Blade Runner:
Clique >>> O Caçador de Androides, o Quarto Chinês e o Teste de Turing

5 comentários:

  1. Excelente texto. Curto todos os filmes e confesso que não tinha ainda descoberto o lado intrínseco das "batalhas" travadas em cada um deles. Obrigado !

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  2. Marcello.

    Obrigado pelo comentário.
    Quando a gente olha bem, extraterrestres são um grande enigma, um desfio, mas não geram bons plots dramáticos.

    Douglas

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  3. Excelente Douglas. Muito bom, nada mais nada menos. O cinema, real e definitivamente tem um quê de mágica. Mesmo quando aborda histórias dentro de temas científicos, dilemas sobre a existência humana e sua origem. Além de sua eterna luta para defender-se do perigo que o até então desconhecido torna-se realidade, ou "virtual realidade" que a mente humana cria, ou faz a humanidade temer.

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  4. O Cinema é a Arte dos nossos tempos, Ronaldo Lima. Alguns filmes vão mais fundo do que os velhos tratados da Filosofia Clássica. De alguma forma são como as catedrais, criações coletivas que sobrepõem múltiplas camadas de conhecimento.

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  5. Excelente, como já disse, Douglas Bock!!!

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