quarta-feira, 9 de outubro de 2013

SAMPAULO: VERTENTE 1641


um

Adoro ler, sou professora de Literatura, participo do Clube de Leitura de Jane Austen, e, debaixo do seio esquerdo – perto do coração – tenho tatuado Mr. Darcy. Apesar das tentações, nunca tive coragem de cruzar a linha imaginária que separa as teses e monografias das ficções criativas. E nem pretendo fazer isso agora, sobretudo com essas confusões de tempos paralelos e realidades alternativas. Apenas desejo colocar em ordem minhas memórias sobre Juzé. Meus motivos são o espanto e a perplexidade, os mesmos que, Aristóteles garante, deram origem à FilosofiaNão preciso pedir perdão pela narrativa enfadonha e cronológica, ninguém vai ler, são apenas exercícios para aquietar minha ansiedade.

Tudo começou (ou acabou?) dois meses atrás, no meio da primavera, quando voltei do Litoral Norte. Tinha aproveitado os feriados acumulados para descansar uma semana inteira na praia, na casa de um amigo. Levei meu baú cor-de-rosa de leituras atrasadas, sempre abarrotado. Adoro me bronzear enquanto leio, tenho a doce sensação de que estou fazendo dupla jornada, cuidando da alma e do corpo ao mesmo tempo. Na volta encontrei um recado do porteiro do prédio de Juzé. Segunda-feira passei na portaria, atrás do balcão Gaspar parecia soturno.

“Dona Marina, desde quarta-feira passada seu Juzé desapareceu. Achei bom avisar. A senhora era a única pessoa que ele recebia em casa.”

 “Desapareceu! Como desapareceu?”

“Quarta-feira passada entrou no apartamento no fim da tarde e sumiu, não saiu mais.”

“Você procurou no apartamento? Avisou alguém?”

“Só falei com a senhora, porque não entendi direito o que aconteceu. Quinta de manhã duas pessoas aparecem com documentos e disseram que iriam esvaziar o apartamento.

“Levaram todas as coisas? Os livros, os móveis, as caixas?”

“Esta vazio e limpo. Sexta e sábado embalaram tudo, carregaram dois caminhões e levaram embora."

Achei tudo muito insano e despropositado. Fora o telefone, que Juzé raramente  atendia, não tinha outro contato com meu amigo desaparecido. Estranhada, comecei a relembrar nossa convivência esparsa, de 12 anos. Me dei conta que Juzé era completamente opaco e desconhecido. Nunca respondeu nenhuma pergunta direta, tudo que sabia dele, ou tinha sido espontaneamente informado, ou eram lendas e fofocas que os vizinhos e o pessoal da Biblioteca contavam e aumentavam.

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Juzé morava na rua Rua Quirino de Andrade, em frente à Biblioteca Municipal, foi meu primeiro endereço em São Paulo. Uma kitchenette apertada e escura, por isso preferia estudar na Biblioteca, cruzava com meu vizinho com frequência, no elevador e nos salões de leitura, acabamos conversando. Ele nunca mudou, tinha a figura dos profetas bíblicos do cinema: saudáveis 60 anos, barba e cabelos brancos e longos, calças jeans e tênis preto. Por cima uma bata de algodão cru, caindo bem abaixo da cintura. Na primeira vez que falamos estava entretida com Alvares de Azevedo, minha tese era sobre os poetas românticos da Faculdade de Direito de S.Paulo. Dei um pulo na cadeira quando ouvi sua voz de baixo profundo atrás de mim, com um sutil sotaque lusitano.

“Se calhar, tenho um poema inédito do Álvares, algures, manuscrito e autografado.”

Fui convidada para tomar chá e ler o poema. Vivia no penúltimo andar de um edifício antigo, num apartamento grande, sem paredes e com três janelas voltadas para a praça arborizada. O mais espantoso do lugar era sua inquietante normalidade. Tudo parecia velho e novo ao mesmo tempo. Os objetos e móveis eram comuns e inusitados, sem data, nem estilo. O ambiente ostentava um imediatismo e uma eternidade surreais, suspensos no ar, paralisados no tempo. Feito os quadros de Salvador Dali ou os desenhos de Maurits Escher. Apesar disso, era agradável e acolhedor. Passei tardes incontáveis tomando chá com Juzé, um interlocutor cativante e um orientador magnífico. O ritmo de sua voz era suave e relaxante, várias vezes acabei cochilando durante as conversas.

O vasto apartamento era sobrecarregado de estantes, mas continha apenas algumas centenas de livros, o resto era tomado por pastas e caixas etiquetadas, repletas de jornais e revistas. Num canto ensolarado, sobre um grande tapete persa, ficava a área de conforto e convívio. Minimalista: um sofá-cama, escrivaninha e cadeira, duas poltronas e uma mesa de centro; no canto, um mancebo-cabide com uma blusa, uma calça jeans e uma bata novinhas penduradas. Uma pedra de granito fixada na parede sustentava uma bomboneira com bolachas, sachés de chá, uma jarra elétrica, um açucareiro e algumas xícaras. Mais tarde foi acrescentada uma garrafa de cognac e dois cálices. Juzé dizia que era em minha homenagem. Talvez existisse uma cozinha, mas nunca visitei. Por doze anos foi assim, nunca mudou. Estava sempre escrupulosamente limpo e organizado, como uma instalação artística, sob uma campânula, num museu pouco visitado.

As lendas urbanas sobre Juzé eram muito mais interessantes. Diziam que frequentava a Biblioteca desde a fundação, sem parecer envelhecer; que possuía e habitava mais quatro apartamentos-gabinetes espalhados pelo Centro Velho; que havia sido amigo de Mário de Andrade, Arthur Friedenreich e Adoniram Barbosa; que convivia com Geraldo Vandré; e que conhecia muito melhor o futuro do que o passado. Nunca dei atenção aos falatórios, achava tudo divertido e delirante, anedotas e invencionices que exageravam as excentricidades de meu amigo querido. Entretanto, sobre os apartamentos replicados, um colega da faculdade, especialista em culturas indígenas, me garantiu que as cinco estúdios bibliotecas existiam e ficavam na rota da milenar Trilha de Peabiru, no coração de S. Paulo.

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Logo que comecei a ganhar melhor comprei um apartamento na Praça Roosevelt, bem iluminado e com vista maravilhosa. Era perto, continuamos a tomar chá uma ou duas vezes por mês. Depois de seu sumiço, quando pude rememorar minuciosamente nossas inúmeras e inconsequentes conversas ao longo dos doze anos, concluí que várias das divagações vadias de Juzé, e alguns pequenos incidentes ocorridos, pareciam corroborar as lendas urbanas.

Sou uma moça dedicada à poesia e ao romance, não entendo de ficção-científica e fantasia, estes assuntos me confundem. Entretanto, uma vez, falando sobre o Caminho de Santiago de Campostela – a rota de peregrinação e expiação que corta a França e a Espanha – Juzé desenvolveu uma hipótese assombrosa: a teoria de que os grandes caminhos milenares do mundo funcionavam como portais cósmicos

Argumentou que estas trilhas imemoriais, mapeadas pela terra inteira, são muito mais do que aparentam. A Rota da Seda, na China; a Appalachian Trail, na costa leste norte-americana; ou o Caminho de São Tomé (ou Peabiru), que atravessa a América do Sul do Atlântico ao Pacífico; na verdade funcionam como marcadores e sinalizadores telúricos e místicos. São ‘singularidades espaço-tempo’, frestas temporais que abraçam e atravessam o planeta. Comentou que, em alguns pontos, existe a possibilidade de se transitar de uma realidade alternativa para outra, ou até viajar pelo tempo. Por causa disso, os relatos de encontros com Sumé, e outras entidades mágicas que habitam estes caminhos, são sempre ubíquos e desencontrados. Não apresentam registros precisos e bem datados, os encontros acontecem repetidamente, ao longo de vários séculos. Quando fiquei interessada, porque estas trilhas me fascinam, e pedi maiores explicações, Juzé ficou incomodado, contou que leu sobre isso num antigo livro espanhol.

Numa outra ocasião, num dos nossos chás, de repente, me presenteou com os quatro volumes da Nobiliarquia Paulistana Histórica e Genealógica, de Pedro Taques de Almeida Paes Leme. Adorei, era exatamente o que necessitava para a minha tese naquele momento, estava pesquisando sobre as mentalidades e as velhas tradições paulistanas. Comentei a coincidência com Juzé, que sorriu enviesado e nebuloso. Recomendou que eu lesse atentamente sobre a Guerra dos Pires e Camargos, no século XVII, era um dos episódios decisivos da História de S. Paulo. Em casa constatei que se tratava da primeira prensagem da edição Itatiaia/USP de 1980. Os livros tinham mais de 25 anos, mas pareciam novos e recém-impressos, ainda exalavam um forte cheiro de tinta fresca. Não consegui explicar o mistério, achava antipático fazer perguntas diretas e aceitava as idiossincrasias de meu amigo. Foi um presente premonitório, mais tarde, dentro dele, encontrei a decifração para o enigma de Juzé, Sumé ou São Tomé.

Comecei a ler o presente assim que ganhei. Foi um prazer acompanhar a saga, exagerada e pretensiosa, da formação das primeiras famílias paulistas, entender o que movia os bandeirantes na conquista dos tétricos sertões. Mas no meio cansei e parei. Uma semana depois do desaparecimento de Juzé, atacada pelas saudades, fui procurar a coleção, era a única lembrança física do meu amigo querido. Retirei um dos volumes para folhear, o primeiro, o que conhecia melhor. Fiquei assustada e estarrecida, a capa era outra, o livro diferente e a editora desconhecida. Tudo havia mudado. Examinei com cuidado: Editorial do Protetorado Jesuíta Sampaulista, estampava uma cidade com muralhas douradas no topo de uma colina. Abri o livro, as arvores genealógicas eram diferentes, incluía famílias de que nunca ouvira falar. De repente, entre as folhas, no episódio dos Camargos e Pires, encontrei uma carta de Juzé, duas páginas datilografadas.


dois

Para Marina Camargo, com desvelos e saudades.

Nasci nas sombras do Castelo Almourol, no ano de 1462. Uma ilha-fortaleza no meio no Rio Tejo e no centro de Portugal, onde, juram os templários, já esteve guardado o Santo Graal. Fui guardião de suas muralhas. Minhas lembranças são de passadiços, torreões e seteiras; de manhas, tardes e noites fluviais; e do perene murmúrio das águas atacando os rochedos.

Esta poderia ter sido minha monótona biografia e a descrição completa da minha existência terrena. Todavia, com 42 anos, a flumínea febre das brumas me pegou e deixou de cama, delirante, por 12 dias seguidos. Isso mudou meu destino, um Cavaleiro da Ordem de Cristo (herdeira templar) de passagem, ouvindo meus devaneios, descobriu que eu era um permeante; que possuía a raríssima mutação genética que permite alguns humanos atravessarem os portais das realidades alternativas. Uma alteração ou deformação cromossômica conhecida pelos templários. Um prêmio, ou um castigo, concedido a uma entre cada três milhões de criaturas, e não transmissível para os descendentes. De alguma forma sou uma aberração.

Imediatamente me apartaram e conduziram para o Castelo de Tomar, onde fui curado e iniciado na Ordem Nova Templária Multimundos. Foram quinze anos de preparação e aprendizado sobre realidades alternativas, somente com 57 anos fui consagrado Cavaleiro Permeante. Meu batismo foi uma transição para a grande sede da Ordem Nova Templária, na ‘Vertente 1307’, cuja entrada, na época, se localizava na cidade de Pamplona, onde se juntam as duas rotas francesas do Caminho de Santiago.

Esta derivação templar foi a primeira bifurcação temporal provocada planejadamente pelos Cavaleiros PermeantesO descolamento que criou está realidade templar aconteceu em setembro de 1307, quando alguns Permeantes se deslocaram para o passado e convenceram Jacques de Molay  o último grão-mestre templário – a recusar um convite pessoal de Felipe IV e não comparecer ao casamento de uma princesa francesa. Esta alteração histórica premeditada salvou a Ordem  ao menos na Vertente 1307 – e transformou os templários numa organização multi-temporal. Jacques de Molay não era permeante, todavia ousou conceber um sonho supra-humano: instituiu a Ordem Nova Templária Multimndos, composta por Permeanteshomens e mulheres, leigos e religiosos, com a missão de proteger e perenizar a irmandade. Utilizando como recurso, sempre que imprescindível, as intervenções temporais.

Antes de prosseguir meu relato, querida Marina, é conveniente esclarecer algumas peculiaridades que acompanham os deslocamentos pelas realidades alternativas:

(i) A idade física do permeante fica congelada no momento da sua primeira transição, o envelhecimento é frenado e retardado. Por isso aparento eternos 60 anos. Entretanto não somos imortais, a expectativa de vida sobe para mil anos, como os antigos patriarcas bíblicos.

(ii) Além da transição, temos a capacidade de avançar ou retroceder no tempo até 30 anos. Quanto maior o deslocamento, mais perigoso fica.

(iii) Para se criar uma nova vertente é imperativo voltar ao passado e mudar algum acontecimento crucial dos atores protagonistas da História.

(iv) Cada Vertente temporal tem apenas um portal de entrada e fica numa das rotas milenares. Contudo, ao longo do tempo, tanto os caminhos telúricos, como as entradas podem mudar de lugar. Estas movimentações são diretamente responsáveis pela ascensão e queda das grandes cidades ou civilizações do passado, ao longo das trilhas telúricas. 

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Os Cavaleiros Permeantes despertaram para o Caminho de Peabiru  a rota telúrica sulamericana  a partir de 1550, quando as cartas do jesuíta Manoel de Nobrega começaram ser divulgadas na Europa, mencionavam um antigo herói lendário e místico, Sumé, Zumé ou São Tomé, andarilho e criador da trilha. Precisavam verificar em loco, despacharam batedores e constataram que um dos portais de transição se localizava no planalto de Piratininga, na minúscula e deslocada cidade de Sampaulo. Enviaram vigias residentes leigos para monitorar o portal. Permeantes eram raros e muito requisitados naqueles tempos perigosos.

Desde 1630 os relatórios dos observadores sampaulistas começaram a incomodar os templários, inclusive os da Vertente 1307. Falavam de ataques bandeirantes contra as missões de Guayrá; da expulsão dos jesuítas de Sampaulo e do acirramento da Guerra dos Pires contra os Camargos. Quando, em 1641, aconteceu a súbita morte de Pedro Taques, na porta lateral da Matriz sampaulista, a Arcana Ordem Nova Templária Multimundos resolveu interferir. Eu e mais dois permeantes fomos convocados para criar a Vertente Jesuíta 1641

Como já discutimos, menina Marina, os julgamentos da História são sempre transitórios, e podem mudar com a evolução da sociedade e das civilizações. Sobretudo agora, depois das intervenções permeantes, que oferecem cenários mais diversificados para comparação. Em todo caso, certos ou errados, os templários aprovavam a obra dos jesuítas, assim nossa incumbência era reforçar o poder da Sociedade de Jesus. Decidimos que o melhor ponto de torção era inverter o resultado do ataque traiçoeiro de 1641, na Sé de Sampaulo. Voltamos ao passado e alertamos a vítima sobre o atendado. Assim, quando Fernão Camargo se aproximou e sacou o punhal, Pedro Taques se antecipou e desferiu um golpe fatal contra o adversário. Os Pires prevaleceram, a História Sampaulista, na Vertente 1641, mudou completamente.

Os Jesuítas retornaram ao Pateo do Collégio. Aliados aos Pires e liderados por Pedro Taques recuperam o poder. Inspirados por um dos permeantes conclamaram as tribos para uma confederação e criaram uma fortaleza para abrigar a ‘Terra Sem Mal’, o ressonhado paraíso indígena. Localizaram e convidaram núcleos incas desgarrados, e conhecedores da arte da construção, para coordenar a edificação das muralhas de proteção. Cercaram inteiramente a colina triangular que abrigava a escola e o mosteiro jesuíta. Nos vértices do triângulo, e alguns outros pontos das muralhas, foi permitido às outras Ordens ergueram igrejas, mosteiros e conventos.

Em 1760, mais de um século depois do desvio temporal, na Vertente Jesuíta 1641, a Sociedade de Jesus estava forte e bem assentada, dominava a América do Sul inteira. Em consequência, o Marquês de Pombal não conseguiu expulsar os jesuítas do Brasil, nem bani-los do Vaticano. Os efeitos das politicas pombalinas resultaram exatamente no inverso, fortaleceram a irmandade, que arregimentou e concentrou forças, se transformando no principal tronco Católico. A colina amuralhada sampaulista era a maior referência religiosa e cultural do hemisfério sul, quase uma Cidade Santa alternativa. Colecionava e exibia refinada arquitetura e obras de arte inusitadas e maravilhosas, variações e misturas da estética renascentista e das tradições indígenas e incas. Os jesuítas ainda acatavam o Vaticano, todavia como pares, conselheiros e co-gestores da fé católica mundial.

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Agora que já conhece minha vida, Marina, posso me apresentar sem subterfúgios. Meu nome é, ou foi, José de Abrantes, desde a cisão, quase quatro séculos atrás, sou embaixador, ou porteiro, da Vertente 1641. Juzé foi o apelido que adotei para percorrer a Trilha de Peabiru, mas gostei e fiquei com ele. A paronímia com Sumé, Zumé e Tomé – o velho pajé de pele clara e cabelos brancos que veio do mar – ajudava nos contatos com os índios e facilitava doutrina-los para apoiar a missão jesuítica.

Quanto aos apartamentos distribuídos pelo Caminho de São Tomé no trecho sampaulista? Na verdade são nove, e funcionam como postos de observação do portal, também são centros de documentação e pesquisas para a imensa compilação que a Ordem Nova promove. A missão é comparar as Histórias das duas vertentes. Mais importante, tecnicamente, são contingências de tráfego, porque as forças telúricas às vezes oscilam e interditam alguns pontos de transição.

Imagino, Marina, que deve estar se perguntando: Porque me dei ao trabalho de escrever esta longa narrativa? E porque utilizei os intricados artifícios temporais para fazer a carta chegar às suas mãos? Tenho duas justificativas, ambas importantes: um pedido de desculpas e um convite-proposta para o futuro.

O cavalheirismo recomenda iniciar pelo pedido de desculpas. Repentinamente foram detectadas algumas esquisitas variações quânticas e o portal foi, preventivamente, interditado. Durante 21 anos será impossível transitar entre as realidades paralelas. Em consequência, por tropeços da sorte, vou ficar retido por duas décadas na Vertente Sampaulo 1641. Também por isso precisei abandonar a variante em que você vive, dramática e abruptamente, sem tempo de dar explicações.

Agora o convite. Uns cinco anos depois que começamos a tomar chá juntos você me falou de um sonho, contou que foi levada para visitar castelos de desenho inca no Centro Velho de Sampaulo. Descreveu as torres altas e a vista das janelas para um parque imenso na confluência de dois rios. Mencionou as alamedas brancas que riscavam e cortavam a área cuidadosamente ajardinada. Citou uma grande arena-auditório, ao ar livre, que aproveitava as encostas da colina. Fiquei espantado e desconfiado, você estava descrevendo a Sampaulo alternativa. Será que por descuido, bisbilhotice ou acidente tinha visto algumas imagens do arquivo da Ordem Arcana? Precisava ter certeza.

Não vai se lembrar, mas nos encontros posteriores introduzi o cognac em nossos chás? Era um truque, uma velha técnica e fórmula templária para induzir o interlocutor ao devaneio revelador. Depois disso você cochilou várias vezes durante os chás, seus sonilóquios induzidos serviram para confirmar que possuía a alteração genética dos permeantes.

Bem vinda ao clã, até onde sabemos, somos selecionados pelo fortuito e pelo acaso.

Agimos sempre vagarosamente, nos próximos meses alguém vai procura-la e falar dos permeantes. Se concordar, seu treinamento e aprendizado poderão ser iniciados. Vou voltar a vê-la daqui a 21 anos, estarei na metade da minha vida. Você, Marina, depois que fizer a transição, estará no princípio da sua. Todavia, funcionalmente, teremos quase a mesma idade, 55 e 60 anos (não me senti envelhecer em cinco séculos). Poderemos conviver, como iguais, por mais de 4oo anos. Então, teremos muito tempo para nos conhecer melhor.

Quero convida-la, e me candidatar como acompanhante, para sua primeira transição, poderemos passear juntos pelos jardins que vislumbrou nos sonhos. Das alamedas brancas poderá apreciar a majestosa e imponente beleza das muralhas douradas sampaulistas, chamadas assim porque são cobertas por um musgo cor de ouro que adere e cresce nas pedras e tijolos, conhecido como capim dourado mirim. Já tentamos desloca-lo para outras realidades alternativas, porém só medra na Vertente 1641, não sabermos por que. Ignoramos também sua origem, as lendas dizem que as primeiras mudas foram trazidas por Sumé.

Ate breve.


Para entender melhor o contexto do conto e saber mais sobre o Peabiru (ou Caminho de São Tome), consulte o linque abaixo:
TRILHA PEABIRU NO CENTRO DE S. PAULO





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