segunda-feira, 18 de novembro de 2013

VALUZ – A LUA BAILARINA


1 – Rizoma

Por milhares de anos, quando o cálido sol amarelo-alaranjado de Rizoma se escondia, somente as estrelas – as iluminadas e distantes moradas dos deuses – brilhavam nas trevas. Então, um dia, uma rutilante flor bailarina brotou na escuridão, e as noites nunca mais foram as mesmas. O povo criou lendas para explicar o aparecimento do satélite Valuz nos céus do planeta.

Os bisavôs contavam que, muito tempo atrás, surgiu no céu um pequeno ponto de luz, quase invisível, perdido entre as menores moradas divinas. Nas noites seguintes perceberam que a luzinha se movia. Alguns afoitos inventaram que Mui, o príncipe tímido, havia criado coragem de visitar Slia, sua namorada. Constataram, porém, que a cintilação aumentava e mudava de forma, ficava parecida com uma flor.

Com o tempo uma gérbera imensa resplandecia na noite, dezenas de pétalas douradas se abriam em torno de um pontudo botão prateado. Como um cometa passou rápido por Rizoma e se eclipsou atrás do sol. Reapareceu do outro lado num movimento valsante, feito uma flor soprada por ventos brincalhões. Deu algumas voltas dançantes em torno de Rizoma e se aquietou. As pétalas encolheram, igual a um botão fechando, e a estranha flor bailarina se transformou numa semente cumprida. Lembrava às alvas vagens volantes e esponjosas que carregavam as três castanhas das altíssimas árvores-torres.

Foi uma época de medo, deslumbramento e desassossego.


Desde de o avistamento do ponto brilhante até o repouso da vagem cor de ouro, rajadas de emoções se agitavam em conflito – terror, incertezas e esperanças – varrendo as mentes dos rizoides. Entretanto, o tempo, a quietude serena e a beleza da visitante acalmaram a população. Aceitaram a flor como um presente dos deuses. Porque se parecia com as vagens esvoaçantes das sagradas árvores-torres, e, como era luminosa e coruscante, ganhou o nome de vagem de luz – Valuz – e o sexo feminino.

Os rizoides ocupavam as terras mais férteis do planeta, viviam em comunidades alegres, sossegadas e pacíficas. Praticavam a agricultura como uma atividade social, ritual e cerimonial, mas preferiam a coleta e a caça. Eram um povo disperso, andarilho e festeiro. Adoravam vagar pelos bosques, rios e lagos. Quando os recursos rareavam, ou obedecendo a cifradas ordens divinas, organizavam as ‘propagações’. Vastas caravanas festivas que atravessavam longas distâncias passeando e desbravando novos territórios.

As marchas migratórias eram acontecimentos culturais. As populações estabelecidas preparavam festas grandiosas para receber os peregrinos. Estes congraçamentos eram importantes para a civilização rizoide, promoviam a revitalização e miscigenação das comunidades. Porque, durante os deslocamentos, muitos participantes abandonavam a peregrinação e permaneciam no lugar visitado, enquanto outros aderiam à jornada migratória e partiam em busca de aventuras.

As ‘propagações’ eram conduzidas pelos vetustos – rizoides que já haviam feito a transição para a quietude. Machos e fêmeas que, depois de passarem por uma metamorfose física, se retiravam da vida errante e desgarrada. Normalmente, escolhiam uma região remota para se estabelecer, construíam uma casa e montavam uma escola ou comunidade. Os rizoides viviam uns 200 anos e desde a adolescência eram sexualmente hiperativos, mas somente no ultimo terço da existência, quando alcançavam a condição de vetustos, se tornavam férteis.

Os sábios, sacerdotes e governantes eram todos vetustos. Foi entre esta casta que apareceu uma curiosa explicação para a vinda de Valuz. Tratava-se de um presente, uma dádiva divina, portanto, seria um desrespeito não tentar ir até ela para aceitar a oferenda. Essa compulsão, absurda e desatinada, nascida entre um povo que não conhecia a arte do voo, acabou arrebatando a população inteira.



2 – Terra

Quando o número de habitantes da Terra atingiu dez bilhões, sentimentos de frustração e derrota se espalharam entre os ambientalistas. A loucura e a imprudência haviam prevalecido, a espécie humana terminaria sua História dizimada pela superpopulação. Foi neste contexto que surgiram os Exo-humanistas, um grupo coeso, organizado, pragmático e poderoso. Seus programas políticos, filosofias e planos de ação eram simples e objetivos.
1) Cada exo-humano, ao nascer, deveria ter garantidas todas as condições ambientais, culturais e econômicas para se realizar como pessoa.
2) Isso implicava num rigoroso controle populacional e ambiental. A gravidez era importante demais, passou a ser uma questão coletiva, deveria ser aprovada. Cada vida precisava ser monitorada e protegida.
3) Essa utopia não seria possível na Terra ou Sistema Solar, os terráqueos tradicionais eram resistentes. Portanto a solução era empreender uma migração interestelar.
Fundaram a Companhia Interestelar para construir as flotilhas e organizar a migração. Planejavam dezenas de ondas de partidas. Para a primeira expedição – a Argos (nome previsível) – conceberam um projeto audacioso e maravilhoso. O veiculo, a trinave, seria composto por três estações independentes, mas coordenadas. Cada uma delas formada por três alvéolos sextavados e estanques, imitando favos de abelhas e montados em torno de uma espécie de cata-vento. Dois alvéolos do trio seriam habitados e o terceiro abrigaria depósitos e estufas de culturas hidropônicas. Os módulos seriam autossuficientes, cada alvéolo mediria 22 milhões de metros cúbicos e poderia comportar seis mil habitantes. Os nove alvéolos juntos transportariam 36 mil pessoas, 12 mil em cada trinca, com população sempre estável.

Para deslocamento a trinave utilizaria o vento solar, as três estações seriam atracadas nos três vértices de uma imensa vela triangular, que deveria, progressivamente, carrega-las a velocidades altíssimas. Cada conjunto ternário de alvéolos seria compelido a girar em torno de um eixo, obedecendo a um sistema cinético ativado pelos cata-ventos. O movimento de rotação providenciaria a gravidade.

O velame era um prodígio tecnológico, construído por nano engenharia, podia diminuir ou aumentar de tamanho, e, inclusive, ser reconstituído a partir de um retalho. Um empreendimento temerário. Foram elaboradas variadas e sofisticadas rotas e estratégias de navegação, também desenvolvidos incontáveis planos de contingência. Entretanto, para contrabalancear os perigos cósmicos, os viajantes contavam com um par de trunfos poderosos. (a) Desde a partida estariam vivendo a utopia Exo-humanista, se tornariam uma comunidade racional e planejada. (b) Eram completamente autossuficientes, não tinham intenção de voltar, podiam dispor do tempo que quisessem para encontrar um novo habitat.

O mais complicado era escolher um rumo, resolveram apostar na Constelação de Libra e na estrela Gliese 581, uns 21 anos-luz de distância. Partiram entusiasmados, eram temerários e soberanos. Podiam ousar, errar e mudar de curso durante o caminho.



3 – Rizoma

 A presença de Valuz nos céus de Rizoma mudou a destinação do povo rizoide.
Centenas de especulações – algumas contraditórias – tentavam desvendar o mistério da lua dançante. Entretanto, prevalecia a crença de que Valuz era uma dádiva divina. Um convite para se religar ao rizoma planetário. Quando os rizoides comessem os frutos das sementes celestiais seriam reconectados à raiz consciente que envolvia o planeta. Então poderiam entender as sagradas arvores-torres que conversavam entre si.

Cem anos depois do aparecimento da flor bailarina as Casas de Valuz – escolas de estudos e preparação para abordagem do satélite – comandadas pelos vetustos mais sábios,  estavam espalhadas por todos os lugares. A vagem dourada percorria uma órbita baixa, assim os rizoides trabalhavam com duas técnicas associadas: se elevar por balões estratosféricos e disparar longas setas tripuladas, impulsionadas por foguetes, para alcançar o alvo. Para retornar ao solo pensavam em artefatos como paraquedas e planadores que trariam os viajantes protegidos dentro de grãos duros, parecidos com as castanhas das árvores-torres.

O componente religioso do empreendimento era preponderante, centenas de jovens estavam dispostos morrer pelo sucesso do projeto. Os sábios vetustos eram persignados, acreditavam participar de uma missão sublime. Criaram Casas de Valuz especializadas em Metalurgia, Impulso, Planação e Conforto. O programa do projeto virou uma oração, um mantra recitado pelos rizoides.

Forjar com metais brilhantes
Flechas para os visitantes,
Asas grandes esvoaçantes,
Armaduras para os viajantes.

Foram trezentos anos de pesquisas, experimentos, ensaios e vidas sacrificadas, contudo os sábios vetustos nunca desanimaram. Teimaram até conseguir disparar uma flecha tripulada por três rizoides que quase tocou Valuz. Contudo, a reação dos deuses foi inesperada e assustadora. Quando a seta se aproximou a vagem dourada despertou e reagiu. Acendeu-se como uma tocha incandescente, se cobriu de fogos e luzes coloridas e uma força invisível e irresistível frenou a flecha e desviou a direção, impedindo que alcançasse o alvo.

A missão falhou, não aconteceu a abordagem do satélite, nem foram recolhidas as cobiçadas sementes divinas. Mas a aventura realizou um feito ousado e inesperado, conseguiu acordar os deuses. Os habitantes do lado noturno assistiram o despertar e a fúria da flor celeste, se assustaram com a repentina iridescência multicolorida da visitante.

O projeto de abordagem foi interrompido, a tentativa de se comunicar com os deuses havia sido repelida. Era preciso orar e refletir muito para decidir se Valuz era uma dádiva ou uma ameaça.



4 – Constelação de Libra

60 anos depois da partida – pelo tempo relativo de Argos – a trinave chagou na Constelação de Libra, estava a três anos-luz da estrela Gliese 581. Seis décadas de solidão alteram bastante a mentalidade de uma população isolada e autossuficiente. A utopia dos Exo-humanistas estava em crise, os viajantes tinham propósitos divergentes. A comunidade estava dividida em dois partidos: os eólicos e os coerentes.

Os eólicos argumentavam que colonizar um planeta seria um retrocesso, um exílio voluntário e um risco de degeneração. Propunham uma viagem perene de circum-navegação do Sistema Solar, num raio de 20 anos-luz. Distância limite para comunicação com a Terra. Alegavam que a Argos era mais segura, conveniente e controlável do que qualquer planeta – como provavam os 60 anos de deslocamento.

Os coerentes – a maioria nascida na Argos – eram românticos e audaciosos, queriam viver as histórias e lendas contadas pelos pais e aprendidas nos livros e filmes. Sonhavam com uma existência livre na superfície de um planeta. Desejavam experimentar os espaços abertos, as incertezas dos rios, mares, montanhas e tempestades. Defendiam a preservação dos objetivos inicias da expedição: encontrar um exo-planeta compatível e fundar uma colônia.

O conhecimento acumulado sobre aquele setor de Libra era imenso. Havia três planetas candidatos a receber terráqueos, um deles, identificado como Destino, comprovadamente, podia abrigar uma vasta colônia humana. Porém, nas últimas décadas, as pesquisas tinham se diversificados, aconteceram importantes avanços nos campos de projeção holográfica e tele presença. Também foram projetadas poderosas naves de reconhecimento e abordagem que asseguravam a sustentação da vida por longos períodos. Era confortável, seguro e estimulante viver na estação e explorar o espaço.

As tensões se agravavam, impunha resolver a questão que cindia a tripulação. (1) Argos deveria se dirigir para o planeta selecionado e fundar uma colônia? (2) Ou deveria mudar de curso e percorrer uma rota de circum-navegação do Sistema Solar?

Convocaram um plebiscito e os eólicos venceram. Exatamente quando o resultado foi comunicado um grupo de onze extremistas coerentes invadiu a plataforma de comando e assumiu o controle de uma dos três módulos, o Atenas. A exigência era razoável: a trinave deveria conduzir os oito mil votantes coerentes (e seus filhos) para o planeta Destino, auxiliar na instalação dos imigrantes e depois seguir viagem.

O ultimato foi repudiado e, com uso de força, os rebeldes foram neutralizados. Durante o inquérito oito membros do grupo concordaram em se submeter a um monitoramento psíquico através de implantes cerebrais. Apenas três membros do grupo permaneceram irredutíveis: Calícori, uma bailarina que encenava espetáculos com projeções holográficas no espaço; Kazuo, praticante e mestre de artes marciais orientais; e Valquíria, uma poetiza, compiladora da língua híbrida que estava sendo gerada nas comunidades de Argos. Tinham menos de trinta anos e haviam nascido durante a viagem. Foram condenado a uma pena dura e exemplar. 



5 – Órbita de Rizoma / Calícore

Quando despertamos, imediatamente, ficamos conscientes e prontos, como aparelhos ligados. O primeiro pensamento foi sobre a acusação. Estávamos degredados, em hibernação holográfica, por tempo indefinido, na órbita de Destino, o quarto planeta da estrela Gliese 581. Seriamos reativados apenas se a nave fosse ameaçada ou abordada. O segundo pensamento veio carregado de interrogações. Como e porque fomos acordados? A presença de vida em Destino era conhecida, contudo não do nível inteligente e espacial. O terceiro pensamento registrava estranheza, saímos do sono induzido como avatares holográficos. Previsível, porque entre as especificações das naves Gérbera constava um sistema aprimorado de projeção holográfica.

Um departamento inteiro de uma universidade alemã, especializada em Holografia, integrava a expedição. Projeção holográfica, ou tele presença, logo se transformou na área de pesquisas mais avançada da trinave. Em qualquer local de Argos bastava se conectar a um computador para poder comandar um avatar pessoal, capaz de atuar até no espaço aberto. A sensação era de presença física, as pessoas se visitavam virtualmente, foram realizadas festas e competições fora da trinave.

Curiosamente, um desdobramento acidental do projeto resultou na Hibernação Holográfica. Quando o comando ‘pause’ era ativado no computador que controlava o avatar, a consciência do humano-emissor ficava suspenso num estado de espera. Foi assim que pudemos sobreviver por quase 400 anos (pelo tempo relativo da Terra). Também, foi por isso que acordamos abruptamente, como um equipamento que sai do ‘pause’. Os corpos físicos estavam preservados e ‘pausados’ nas câmaras condicionadoras.

Vistoriamos a Gérbera, tudo funcionava perfeitamente. Começamos a ler as mensagens armazenadas. Em quatro séculos a Terra havia se transformado num império estelar de 50 anos-luz. As comunicações falavam de viagens com ‘aceleração dentro da luz’. Tentamos contato, enviamos pedidos de socorro, porém nossos aparelhos funcionavam em velocidades infra-luz, a espera podia ser longa.

Situação esquisita e anômala. Sabíamos apenas que a Terra estava a 21 anos-luz. Argos, nosso lar ancestral, viajava por algum lugar desconhecido no tempo e no espaço. A unidade casulo Gérbera não havia sido projetada para longos deslocamentos, portanto, só nos restava o planeta anfitrião como alvo de exploração. Assim, por 45 anos, aproveitando as lendas do rizoides e as projeções holográficas, frequentamos Rizoma como deuses.

Constatamos, com surpresa, que os habitantes eram sátiros ou faunos. Como na mitologia grega, os faunos, quando envelheciam, sofriam uma mutação e viraram silenos, ou vetustos. As indivíduos chegavam a dois metros e de altura, os machos pareciam híbridos de homens e cabritos, as fêmeas misturas de mulheres e ovelhas. Possuíam uma cosmogonia vegetal intrincada, acreditavam que, por baixo do solo, todas as raízes estavam interligadas e eram conscientes, por isso chamavam o planeta de Rizoma. Consideravam os animais, e os próprios faunos, como frutos imperfeitos, porque não estavam conectados ao rizoma central, dependiam da flora para sobreviver.

Fomos recebidos como deidades, emissários divinos, enviados para recompensar os rizoides pelo desafio vencido. Haviam chegado até a flor dançarina e acordado as entidades adormecidas. Esperavam agora que cumpríssemos a nossa parte no pacto: ensina-los a falar com o rizoma planetário.

Demonstravam forte interesse pelos deuses que ainda viviam nos céus. Éramos cuidadosos quando falávamos da cultura terrestre, os vetustos sempre atribuíam conotações religiosas às nossas palavras. Num deslize, 35 anos depois do primeiro contato, Valquíria mencionou Asgard e contou que seu nome provinha de uma deusa guerreira, prisioneira dentro de um círculo de fogo e salva por um herói. Os faunos correlacionaram Valuz e Valquíria e resolveram construir, na montanha mais alta, uma nova Valhala para acomodar os deuses.

Os projetos silenos eram missões sagradas, dez anos depois o palácio ficou pronto. Fazia 45 anos que havíamos acordado da hibernação holográfica, estávamos desarvorados, nossos pedidos de contato não recebiam respostas. Éramos apenas três jovens, acostumados com espaços fechados. A experiência holográfica na superfície de Rizoma era estimulante, mas onírica e irreal. Nada poderia ferir os avatares. A decisão era difícil, Gérbera não podia suportar pessoas vivas por longo tempo. Para reviver nossos corpos seria preciso migrar para Rizoma. Mas, na superfície estaríamos desprotegidos, sujeitos à doenças desconhecidas, acidentes fatais, e, potencialmente, em poder dos rizoides.

Os precedentes históricos eram negativos, espécies mais poderosas sempre escravizam ou exterminam as mais fracas. Apesar de tudo – havíamos feito uma revolução para viver numa superfície planetária – resolvemos arriscar, começamos a alertar os faunos e a preparar uma naveta para descer até Rizoma.

Quando Kazuo deu o comando para iniciar o processo de revivescência dos corpos preservados, uma mensagem, curta, repetitiva e insistente, invadiu nossa consciência holográfica. A surpresa foi semelhante ao aparecimento de Valuz, contudo mais abrupta e inesperada.
“Atenção, somos da Terra, faz 300 anos que monitoramos Gérbera. Temos notícias de Argos e uma longa história para contar para vocês.”


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