sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

CAPELA CRISTO OPERÁRIO - Breve Utopia

A Capela Cristo Operário passa os dias escondida atrás dos muros de uma instituição da Ordem Dominicana, no Alto do Ipiranga, na Rua Vergueiro, 7.290. Não está interditada ao público porque celebra missas periódicas e aceita visitas agendadas. A igrejinha – como muitas outras – é uma dessas gemas preciosas da cultura paulista perdida nessa imensidão de cidade. Pequena e delicada, sem regras e cuidados, não suportaria acesso livre e irrestrito.

Nasceu de um projeto audacioso e instigante do Frei João Baptista Pereira dos Santos, um dominicano ligado ao movimento francês 'Economia e Humanismo'. Concebia uma utopia, desejava fundar uma ”comunidade operária autogestionária constituída em torno de uma capela e de uma fábrica de noveis”(1), com direito a trabalho digno, educação, esportes, atividades culturais (jornal, teatro, artes plásticas...). Trabalho, Diversão e Arte, mas com divisão dos lucros entre os participantes.

Começou com a igreja, construída em 1950 a partir de um velho armazém. Nos dois anos seguintes o espaço foi decorado por grandes artistas graciosamente. Mais de 20 obras de arte compõem o acervo da Capela. Três paredes receberam amplos afrescos de Alfredo Volpi, que também criou os vitrais (2). Simples e belos, homenageiam os quatro evangelistas. Os jardins foram projetados pelo ubíquo Burle Marx. As imagens sacras são da artista russa ortodoxa Moussia Pinto Alves. A sacristia é iluminada por um vitral do concretista Geraldo de Barros (2), que colaborou na implantação do desafio comunitário e desenhava os moveis da UNILABOR, a fábrica de móveis da comunidade. A lista de atrações é grande.

Em 1954 a UNILABOR iniciou a produção de excelentes móveis de escritório que alcançaram forte sucesso de vendas. Durou treze anos o empreendimento, em 1967 a indústria foi desativada. De alguma forma, o fim da aventura social deveu-se à Revolução de 64. Os terrenos, edifícios e, principalmente, a Capela perduraram dentro dos muros da Ordem Dominicana.

Vale a pena visitar a Capela Cristo Operário, principalmente pelos maravilhosos afrescos e vitrais de Volpi, que se distanciam de suas obras tardias – as bandeirinhas – porém ilustram, de forma diferente, seus trabalhos iniciais.

Também, todos os itens do acervo – inclusive os trabalhos dos consagrados Volpi e Burle Marx – ostentam alguma coisa estranha, incomum e extraordinária. As obras foram criadas dentro de uma comunidade operária, mas com inspiração e influência do MAM e de artistas próximos a Ciccilo Matarazzo; assim o resultado final é ambíguo: por um lado parecem refinados produtos de galeria, por outro, lembram artesanatos altamente sofisticados.


(1) A História inteira da experiência, com ênfase no segmento industrial, esta contada no livro UNILABOR – Desenho Industrial, Arte Moderna e Autogestão Operária (Editora Senac), de Mauro Claro - Professor de Desenho Industrial da Universidade Mackenzie.

(2) As fotos abaixo foram colhidas na visita realizada em maio de 2011.

Veja álbum completo das fotos da Capela Cristo Operário 

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

OBELISCO DO PIQUES - MEMÓRIA, HISTÓRIA

Entre os milhares de monumentos espalhados por S. Paulo, o ‘Obelisco do Piques’, ou ‘Pirâmide do Piques’, é especial, porque foi a “primeira obra inútil” construída na cidade. O que diferenciava a ‘Pirâmide’, de tudo que veio antes, era a absoluta gratuidade. “Era apenas um monumento. Sua função não dizia respeito a nenhum aspecto prático da vida”, ao contrário de um chafariz, de uma ponte ou, até, de um pelourinho. A conclusão que Roberto Pompeu de Toledo (A Capital da Solidão) tira dessa extravagância é, ao mesmo tempo, óbvia e brilhante: “Quer dizer que os moradores tiveram a ideia de enfeitar a cidade – e quando se quer enfeitar alguma coisa é porque se gosta dela.”

Numa leitura transversal, pode-se dizer que 1814 – o ano da inauguração da ‘Pirâmide do Piques’ – é um divisor na psicologia paulista. A população da Província de S. Paulo estava mudando de mentalidade; ao invés de desbravar sertões e caçar índios; agora queria se assentar e procurar outro jeito de ganhar a vida. O Ciclo do Café acabava de ser lançado. O paulista sempre teve viés cosmopolita, antes queria a ajuda do índio, depois dos escravos, agora era a vez dos imigrantes.


O ‘Obelisco do Piques’ foi projetado pelo Coronel e Engenheiro Daniel Pedro Müller – quer terá vida agitada na futura política paulista – e construído pelo português Vicente Gomes Pereira (Vicentinho). É dúbio o evento que motivou a homenagem oficial: pode celebrar o fim da presidência interina do Bispo D. Marcus; ou pode agradecer o fim de uma longa estiagem. Em todo caso, foi uma novidade erguer um monumento para relembrar algum acontecimento; procedimento tão esquisito que o Largo e a Ladeira anexa passaram a se chamar ‘da Memória’. Na alvoraçada e volúvel História Paulista – que adora mudar e reinventar – foi um milagre o nome e o monumento resistirem por dois séculos.

O Largo da Memória, que teve muitos nomes, sempre foi um lugar especial na geografia de Piratininga, mesmo antes da fundação de S. Paulo. Primeiro funcionou como um privilegiado ponto de descanso da Trilha Peabiru, entre o litoral e o interior. Depois virou “uma espécie de boca da cidade voltada para o sertão”, mercado de escravos e animais, local onde as pessoas pararam antes de entrar ou sair da cidade.


A História gosta de dar laços e empilhar significados, escolheu bem a localização do nosso primeiro monumento. O Largo da Memória comporta múltiplos significados, o ‘Obelisco’, quem sabe, poderia ser uma esotérica estela demarcatória do Caminho de Peabiru, ou poderia esconder uma homenagem cifrada ao Movimento Bandeirante, o principal empreendimento do povo paulista.

O Largo da Memória, este intrigante desvão topográfico – sujeito a terraplanagens, acidentes telúricos e metroviários – de alguma forma vai ficar eternizado na interessante novela de Geraldo José Vieira – A Ladeira da Memória. O livro vai ajudar a preservar o mistério e a mágica do nome e do lugar.

Porque, é bom lembrar, apesar da transcendente beleza da rosa, na memória cognitiva humana, o que prevalece é o nome.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

MEU CAFÉ COM GERALDO VANDRÉ


O encontro foi curto e casual, contudo eletrizante e inesquecível. Demorei a compreender o significado e a transcendência daquele presente que o acaso me oferecia: falar com um mito aureolado pela História, meio erodido pelo ocultamento e pelos mistérios. Até a lembrança do evento, com o tempo, vai ficando granulada., por isso resolvi escrever.

Foi no Teatro Municipal, num domingo, no dia 9 de novembro de 2008. O espetáculo estava marcado para as onze horas, porém, minha parceira e eu chegamos antes para tomar café e observar a pintura do teto. É magnífica, predispõe o espírito para a Música.

A programação era densa, constava a estreia brasileira da Sinfonia #7 de Vaughan Williams, com a Orquestra Experimental de Repertório, regida por Rodrigo de Carvalho; mais a soprano Martha Herr e as vozes femininas do Coral Paulistano. A segunda parte teria a Abertura ‘As Vespas’ e a Fantasia sobre um tema de Thomas Tallis, apresentada pelo Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo.

A cafeteria rapidamente ficou superlotada, mas na nossa mesa, num canto, sobrava uma cadeira. De repente um senhor magro, de estatura mediana, barba rala e longos cabelos grisalhos  de maestro  se aproximou; vestido de camisa social branca e calça cinza chumbo. Gentilmente, perguntou se poderia apoiar a xícara na mesa. Tinha quase certeza de que era Geraldo Vandré.

“Por favor, sente-se e tome o café sossegado.”, respondi ajeitando a cadeira.

Ele agradeceu, sentou e comentou: “Antes do almoço é a melhor hora para ouvir Música Clássica”.

Obviamente concordei. Naquele tempo estava interessado em Quartetos de Cordas, vivia focado nestas obras e conjuntos. Na verdade não sabia nada sobre o resto do programa.

“Vim por causa do Quarteto de Cordas.”

“Também gosto de peças de Quarteto de Cordas, estruturalmente são como concertos e sinfonias reduzidas ao essencial, entretanto, experimentando com soluções orquestrais.” Sua resposta era magnânima, concordava comigo, talvez por elegância e generosidade.

As falas eram intercaladas por longos silêncios. O café dele acabou, levantou, agradeceu, despediu-se e foi embora. Saída de cena perfeita, porque não sei se resistiria – minha admiração por ele, por sua figura célebre e envolta em lendas e histórias desencontradas, era muito grande – logo começaria a falar de suas obras primas Pra não dizer que não falei de flores e Disparada. E no embalo começaria a chamá-lo de 'Drezão'.    

A breve conversa foi um acontecimento marcante, irreal, quase miraculoso, porque, na época, Geraldo Vandré vivia recluso, isolado, mudo, invisível e inexpugnável. Somente em setembro de 2010 foi exibida, na GloboNews, a famosa entrevista de Geneton Morais Neto tentando explicar (ou confundir mais) as ideias e trajetórias do grande gênio enublado da MPB.

Na volta do Intervalo Marcelo Jaffé, o viola do Quarteto, anunciou a presença de Geraldo Vandré. O artista voluntariamente eclipsado se levantou na terceira fileira – duas à minha frente – tímido e incomodado. A plateia inteira aplaudiu de pé, demorada e torrencialmente. Acompanhei a homenagem entusiasmado, porém com maior intimidade.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A OUTRA CASA DE DONA YAYÁ


A vida de Dona Yayá parece uma peça em dois atos. Por 32 anos mostra a história de uma heroína romântica e ousada; de repente vira a tragédia arrastada de uma louca autodestrutiva, 42 anos internada num manicômio particular. Yayá jamais conheceu a felicidade plena.

O castigo 
de quatro décadas, aconteceu na Casa da Dona Yayá, na Rua Major Diogo, 353. Um monumento preservado e visitável, um museu mantido pela USP. Entretanto, lá, D. Yayá não viveu, apenas ficou confinada.

Antes da tragédia, a famosa dama paulista, Sebastiana de Melo Freire, de Mogi das Cruzes, residiu e perseguiu a felicidade no seu Palacete na Rua 7 de Abril. Onde, hoje, se erguem a Galeria das Artes e a Galeria Sete de Abril, que dão passagem para a Praça Dom José Gaspar, e também para a Biblioteca Mário de Andrade. A jovem dama enlouquecida acabou deixando uma marca definitiva na cultura paulista: a USP herdou sua fortuna; a Biblioteca Municipal, por longo tempo, funcionou na mansão onde morava antes do confinamento; e a Hemeroteca da Biblioteca Mário de Andrade, recém-inaugurada, ocupa um pedaço de seus antigos jardins.

Yayá perdeu pai e mãe com 13 anos; as irmãs lhe foram roubadas antes, em acidentes banais; o irmão foi a última subtração, em 1905. Aos 18 anos estava absolutamente sozinha e era herdeira de uma das maiores fortunas paulistas. Poucas pessoas são capazes de lidar com qualquer uma dessas armadilhas do destino. As duas juntas só acontecem quando Deus e o diabo fazem apostas, como na história de Jó.

Foi guerreira, se sobrepôs aos castigos e, por 12 anos, buscou bravamente sua realização pessoal. Promovia saraus com as amigas do Colégio Sion, frequentava e patrocinava artistas plásticos, se divertia armando ‘pegadinhas’ de pastel de algodão para convidados incautos, e viajou meses pela Europa. Quando ainda era notável e abusado dirigia, desvairada, seus dois automóveis pela paulicéia e pelas toscas estradas do interior paulista. Pioneira da fotografia, montou um laboratório em casa, porque gostava de retratar santos. Nunca teve namorado, temia pretendentes aventureiros, mas curtiu uma paixão não correspondida por Edu Chaves, o aviador aristocrata.

'O Grupo dos Cinco' Anita Malfatti
Numa História alternativa é possível imaginar Yayá participando do ‘Grupo dos 5’, o quinteto que tramou e precipitou a Semana da Arte Moderna. Tinha idade e interesses compatíveis com eles, e talvez fosse amiga de Tarsila e Oswald. A herdeira rica gostava de arte, modernidade, velocidade, aviação e transgressões. Se Tarsila, Oswad, Mário, Anita e Menotti se apertassem um pouco, poderia acolher Yayá, e os cinco virariam seis, caberiam no automóvel – para as descidas desembestadas serra abaixo até as praias  os carros eram grandes naqueles tempos.

No ‘Grupo dos 5’, os homens escreviam e as mulheres pintavam. Yayá poderia fotografar. Quem sabe, orientada por Mário de Andrade – mestre e inspiração para tantos no Brasil – não aceitaria fazer o registro definitivo e extensivo da iconografia religiosa brasileira.

Neste passado utópico, a Casa da Dona YaYá, na Rua Major Diogo, então, guardaria apenas sua memória fotográfica, não a triste e deprimente história de suas alucinações.






segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

SHERAZADE & NOSTRADAMUS


Durante dois anos, pegar a saída da Raposo Tavares, a segunda depois da ponte, era o pior tormento do dia – uma rendição  porque conduzia ao meu condomínio, levava também à Creusa e às discussões intermináveis, repletas de rancores, silêncios e desamor. Retardava o momento, estendia o expediente, dirigia devagar e combatia a compulsão de ignorar o desvio e seguir em frente na rodovia, deixando para trás aquela parte conflitada da minha vida.

Numa sexta-feira, de feriado prolongado, parei num bar perto da USP para tomar um whisky e esperar o transito acalmar. Lá pela meia-noite criei coragem, coloquei um CD na bandeja, e, vagarosamente, rumei para casa. Quando cheguei ao desvio indesejado uma força esquisita – ou uma decisão transcendental – me compeliu a continuar em frente. Estava ouvindo Trocando em Miúdos do Chico pela última vez. Continuei dirigindo entorpecido, surpreso pela minha audácia, ou loucura, até que o sono me parou num hotel de posto de gasolina, depois de São Roque.


Acordei cinco da manhã, com cantos de galos e relinchos, num rancho no meio do mato. Apenas uma parte de mim despertou assustada, a outra sabia que estava numa estalagem de pernoite. Um telheiro amplo, baixo e escuro, sustentado por colunas de madeira, com viajantes dormindo espalhados pelo chão, ou em redes. Ao redor, dezenas de mulas amarradas em estacas zurravam. Dentro da cabeça a confusão era maior, duas pessoas dividiam meu cérebro: um marido fugitivo e um advogado chamado Inácio Flecha Cartaxo voltando para casa.