segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

A OUTRA CASA DE DONA YAYÁ


A vida de Dona Yayá parece uma peça em dois atos. Por 32 anos mostra a história de uma heroína romântica e ousada; de repente vira a tragédia arrastada de uma louca autodestrutiva, 42 anos internada num manicômio particular. Yayá jamais conheceu a felicidade plena.

O castigo 
de quatro décadas, aconteceu na Casa da Dona Yayá, na Rua Major Diogo, 353. Um monumento preservado e visitável, um museu mantido pela USP. Entretanto, lá, D. Yayá não viveu, apenas ficou confinada.

Antes da tragédia, a famosa dama paulista, Sebastiana de Melo Freire, de Mogi das Cruzes, residiu e perseguiu a felicidade no seu Palacete na Rua 7 de Abril. Onde, hoje, se erguem a Galeria das Artes e a Galeria Sete de Abril, que dão passagem para a Praça Dom José Gaspar, e também para a Biblioteca Mário de Andrade. A jovem dama enlouquecida acabou deixando uma marca definitiva na cultura paulista: a USP herdou sua fortuna; a Biblioteca Municipal, por longo tempo, funcionou na mansão onde morava antes do confinamento; e a Hemeroteca da Biblioteca Mário de Andrade, recém-inaugurada, ocupa um pedaço de seus antigos jardins.

Yayá perdeu pai e mãe com 13 anos; as irmãs lhe foram roubadas antes, em acidentes banais; o irmão foi a última subtração, em 1905. Aos 18 anos estava absolutamente sozinha e era herdeira de uma das maiores fortunas paulistas. Poucas pessoas são capazes de lidar com qualquer uma dessas armadilhas do destino. As duas juntas só acontecem quando Deus e o diabo fazem apostas, como na história de Jó.

Foi guerreira, se sobrepôs aos castigos e, por 12 anos, buscou bravamente sua realização pessoal. Promovia saraus com as amigas do Colégio Sion, frequentava e patrocinava artistas plásticos, se divertia armando ‘pegadinhas’ de pastel de algodão para convidados incautos, e viajou meses pela Europa. Quando ainda era notável e abusado dirigia, desvairada, seus dois automóveis pela paulicéia e pelas toscas estradas do interior paulista. Pioneira da fotografia, montou um laboratório em casa, porque gostava de retratar santos. Nunca teve namorado, temia pretendentes aventureiros, mas curtiu uma paixão não correspondida por Edu Chaves, o aviador aristocrata.

'O Grupo dos Cinco' Anita Malfatti
Numa História alternativa é possível imaginar Yayá participando do ‘Grupo dos 5’, o quinteto que tramou e precipitou a Semana da Arte Moderna. Tinha idade e interesses compatíveis com eles, e talvez fosse amiga de Tarsila e Oswald. A herdeira rica gostava de arte, modernidade, velocidade, aviação e transgressões. Se Tarsila, Oswad, Mário, Anita e Menotti se apertassem um pouco, poderia acolher Yayá, e os cinco virariam seis, caberiam no automóvel – para as descidas desembestadas serra abaixo até as praias  os carros eram grandes naqueles tempos.

No ‘Grupo dos 5’, os homens escreviam e as mulheres pintavam. Yayá poderia fotografar. Quem sabe, orientada por Mário de Andrade – mestre e inspiração para tantos no Brasil – não aceitaria fazer o registro definitivo e extensivo da iconografia religiosa brasileira.

Neste passado utópico, a Casa da Dona YaYá, na Rua Major Diogo, então, guardaria apenas sua memória fotográfica, não a triste e deprimente história de suas alucinações.






10 comentários:

  1. Essa é uma das matérias mais comoventes que li sobre Dona Yaya...existem poucos registros sobre ela,o que é lastimável,mas ainda há aqueles que resistem e contribuem para a permanência de sua memória.

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  2. Eliana,

    Obrigado pelos comentários.

    Vejo Dona Yayá como uma heroína trágica, no sentido clássico. As provações desabavam sobre ela gratuitamente, que tentava, tenazmente, sobreviver e ser feliz.

    Alguns médicos atuais, analisando os registros de suas loucuras, acreditam que sua doença era apenas depressão profunda. Hoje facilmente controlável por remédios. O que faz dela uma personagem duplamente castigada.

    Douglas

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  3. Excelente registro histórico de uma sofrida alma de artista!

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  4. Muito obrigado pela visita Vólia Loureiro do Amaral Lima. a historia dessa velha dama paulista parece uma tragédia grega, um castigo. Talvez com os avanços de hoje o desfecho poderia ser outro.

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  5. Eis as façanhas do tempo, o que podia ser e não foi. Ali à mão, havia uma área luminosa, caminho de salvação talvez, ou não, quem sabe, por ela Yayá pudesse adentrar e vibrar nessa luz das imagens que se revelam somente de dentro da escuridão.

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    1. Vilma Silva, Dona Yayá talvez seja a grande personagem trágica paulista do último século. Uma rosa exuberante mergulhada num poço de cal virgem.
      E pensar que hoje bastariam medicamentos para controlar seus males.

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  6. Douglas Bock,que emocionante sua narrativa sobre Dona Yaya! Como saber se essa loucura não fora plantada,por interesses escusos.Quem é louca afinal? Quem incomoda?Ainda cita Jó em uma analogia brilhante. Passando por tantos vieses contrários a vida ela ainda soube a seu modo por um tempo ser feliz,estar feliz...Obrigada!

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  7. Suely Sette, é um privilégio ter leitoras sensíveis como você. A história de Dona Yayá é uma tragédia, um absurdo e uma lição. Gostei de ter percebido a citação de Jó no corpo do texto, mas o destino dela parece mesmo uma aposta do bom contra o mal.

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  8. História de uma mulher fantástica. Minha conterrânea de Mogi das Cruzes! Uma pena que tantos acontecimentos ruins, tiraram seu brilho... Para quem quiser saber mais sobre Dona Yayá, este link é bem objetivo: http://netleland.net/hsampa/yaya/yaya.html

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  9. Obrigado pela visita e pelo comentário Greice

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