quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

MEU CAFÉ COM GERALDO VANDRÉ


O encontro foi curto e casual, contudo eletrizante e inesquecível. Demorei a compreender o significado e a transcendência daquele presente que o acaso me oferecia: falar com um mito aureolado pela História, meio erodido pelo ocultamento e pelos mistérios. Até a lembrança do evento, com o tempo, vai ficando granulada., por isso resolvi escrever.

Foi no Teatro Municipal, num domingo, no dia 9 de novembro de 2008. O espetáculo estava marcado para as onze horas, porém, minha parceira e eu chegamos antes para tomar café e observar a pintura do teto. É magnífica, predispõe o espírito para a Música.

A programação era densa, constava a estreia brasileira da Sinfonia #7 de Vaughan Williams, com a Orquestra Experimental de Repertório, regida por Rodrigo de Carvalho; mais a soprano Martha Herr e as vozes femininas do Coral Paulistano. A segunda parte teria a Abertura ‘As Vespas’ e a Fantasia sobre um tema de Thomas Tallis, apresentada pelo Quarteto de Cordas da Cidade de São Paulo.

A cafeteria rapidamente ficou superlotada, mas na nossa mesa, num canto, sobrava uma cadeira. De repente um senhor magro, de estatura mediana, barba rala e longos cabelos grisalhos  de maestro  se aproximou; vestido de camisa social branca e calça cinza chumbo. Gentilmente, perguntou se poderia apoiar a xícara na mesa. Tinha quase certeza de que era Geraldo Vandré.

“Por favor, sente-se e tome o café sossegado.”, respondi ajeitando a cadeira.

Ele agradeceu, sentou e comentou: “Antes do almoço é a melhor hora para ouvir Música Clássica”.

Obviamente concordei. Naquele tempo estava interessado em Quartetos de Cordas, vivia focado nestas obras e conjuntos. Na verdade não sabia nada sobre o resto do programa.

“Vim por causa do Quarteto de Cordas.”

“Também gosto de peças de Quarteto de Cordas, estruturalmente são como concertos e sinfonias reduzidas ao essencial, entretanto, experimentando com soluções orquestrais.” Sua resposta era magnânima, concordava comigo, talvez por elegância e generosidade.

As falas eram intercaladas por longos silêncios. O café dele acabou, levantou, agradeceu, despediu-se e foi embora. Saída de cena perfeita, porque não sei se resistiria – minha admiração por ele, por sua figura célebre e envolta em lendas e histórias desencontradas, era muito grande – logo começaria a falar de suas obras primas Pra não dizer que não falei de flores e Disparada. E no embalo começaria a chamá-lo de 'Drezão'.    

A breve conversa foi um acontecimento marcante, irreal, quase miraculoso, porque, na época, Geraldo Vandré vivia recluso, isolado, mudo, invisível e inexpugnável. Somente em setembro de 2010 foi exibida, na GloboNews, a famosa entrevista de Geneton Morais Neto tentando explicar (ou confundir mais) as ideias e trajetórias do grande gênio enublado da MPB.

Na volta do Intervalo Marcelo Jaffé, o viola do Quarteto, anunciou a presença de Geraldo Vandré. O artista voluntariamente eclipsado se levantou na terceira fileira – duas à minha frente – tímido e incomodado. A plateia inteira aplaudiu de pé, demorada e torrencialmente. Acompanhei a homenagem entusiasmado, porém com maior intimidade.

4 comentários:

  1. foi um encontro casual, mas uma bela recordação.


    Dulci Bock

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  2. Muito obrigado pela visita Dulcinéia, volte sempre.

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  3. Tenho em mãos o Noites Tropicais, relido nos últimos dez dias. Nele, Nelson Motta cita carinhosamente o trabalho e a personalidade ímpar de Vandré, com respeito e admiração que também acho devidos. Sobre sua crônica, fazem um bem danado essas evocações à flor da pele.

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  4. Obrigado Fernando Marchini Dias, Eu li Noites Tropicais, Nelson Motta. Ele esteve presente nas últimas décadas da MPB. Se ainda não viu, recomendo a reportagem que o Geneton Moraes Neto fez (com e) sobre ele. Tem no Youtube.

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