segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

SHERAZADE & NOSTRADAMUS


Durante dois anos, pegar a saída da Raposo Tavares, a segunda depois da ponte, era o pior tormento do dia – uma rendição  porque conduzia ao meu condomínio, levava também à Creusa e às discussões intermináveis, repletas de rancores, silêncios e desamor. Retardava o momento, estendia o expediente, dirigia devagar e combatia a compulsão de ignorar o desvio e seguir em frente na rodovia, deixando para trás aquela parte conflitada da minha vida.

Numa sexta-feira, de feriado prolongado, parei num bar perto da USP para tomar um whisky e esperar o transito acalmar. Lá pela meia-noite criei coragem, coloquei um CD na bandeja, e, vagarosamente, rumei para casa. Quando cheguei ao desvio indesejado uma força esquisita – ou uma decisão transcendental – me compeliu a continuar em frente. Estava ouvindo Trocando em Miúdos do Chico pela última vez. Continuei dirigindo entorpecido, surpreso pela minha audácia, ou loucura, até que o sono me parou num hotel de posto de gasolina, depois de São Roque.


Acordei cinco da manhã, com cantos de galos e relinchos, num rancho no meio do mato. Apenas uma parte de mim despertou assustada, a outra sabia que estava numa estalagem de pernoite. Um telheiro amplo, baixo e escuro, sustentado por colunas de madeira, com viajantes dormindo espalhados pelo chão, ou em redes. Ao redor, dezenas de mulas amarradas em estacas zurravam. Dentro da cabeça a confusão era maior, duas pessoas dividiam meu cérebro: um marido fugitivo e um advogado chamado Inácio Flecha Cartaxo voltando para casa.


Como um ator interpretando personagens gêmeos, lembrava todos os detalhes, segredos e pensamentos dos meus dois habitantes interiores. Sabia tudo que tinham sentido ou vivenciado. Um caso estranho de personalidade dividida, sem alternância nem hiatos, apenas sobreposição. Constatei que havia sofrido uma metamorfose, era outro: um advogado, idêntico a mim mesmo, até na marca de nascença no pulso esquerdo, porém, de cabelos longos e barba cerrada. Havia sido abduzido por um doppelganger temporal e deslocado para o passado. Estava condenado a assumir o destino do meu abdutor, que morava no Centro de S. Paulo, na Rua Direita, no ano de 1819.

Inácio, meu duplo, também se arrastava dentro de uma relação encalacrada. Desde que Ana Genebra nasceu, sabia que seria sua esposa, decisão tácita das famílias. Por sorte os dois se amavam e foram felizes durante cinco anos. Acabou quando Ana descobriu a escrava mestiça, uma prima bastarda que o marido mantinha num sitio em Sorocaba. Era conveniente, podia aproveitar as viagens de negócios para visita-la, descansar e passar alguns dias com os filhos adulterinos.

Genebra não brigou nem exigiu explicações, apenas transferiu sua cama para outro cômodo e passou a se comunicar com Inácio através de Quita, a mucama. Não alterou nada no casamento público, continuou a cuidar da casa, frequentar a igreja e acompanhar o marido nas festas e eventos sociais.


Não é fácil, de repente, retroagir dois séculos na mentalidade. Foram meses de desintoxicação cultural forçada. Privado de Internet, televisão, rádio, telefone, discos e luz elétrica. Os raros livros e jornais que conseguia falavam de coisas antigas e já conhecidas – para mim tudo aquilo era História, não havia novidades. A cidade fechava às sete horas da noite, mergulhava no silêncio e nas trevas. A única aventura era vestir um longo casacão de lã, levantar a gola, colocar um chapelão e ir caçar prostitutas na Rua das Casinhas (Rua do Tesouro). Sem remédios eficazes, não valia a pena o risco de doenças venéreas, melhor permanecer em casa, lendo e relendo literatura clássica madrugada afora.


Mais surpreendente do que a viagem no Tempo, foi minha adaptação neste novo arranjo. Através das memórias de Inácio conhecia Ana Genebra intimamente. Seus medos, desejos, prazeres e ódios; sua nudez acanhada; suas preferências eróticas, seus gozos contidos e suas zonas de pudor interditadas. O marido respeitava e temia a determinação e as decisões da esposa, preferia conviver com Biana, a prima concubina, que se entregava e se amoldava a ele sem resistência. Apesar de compreender os matizes e nuances dos raciocínios e sentimentos de Inácio, fui me descolando dele, e, quatro meses depois da chegada, estava alucinadamente apaixonado pela minha própria esposa, a silenciosa e distante vizinha de quarto.

Era inevitável, tudo conspirava: o convívio com uma mulher bonita, segura e altiva; o recato da dama do passado, diferente de qualquer outra que jamais conhecera. Tão íntima e, ao mesmo tempo, tão distante e proibida. Contudo, não foram estes motivos que me precipitaram para minha parceira interditada – nem veio da cabeça de Inácio o impulso amoroso. Foi precioso guerrear e me sobrepor ao meu duplo para interromper as visitas à prima Biana. 

O que me fascinava e excitava era o perfume antigo, silvestre, primitivo e inocente que Ana Genebra exalava. Desencaixado dos sistemas de referências que havia trazido do futuro. As vezes ficava dentro de casa só para sentir a fragrância de seu corpo e de suas roupas. Mistura de cravo, canela, alfazema, flores do campo e frutos do mato.

Ana era uma excrescência no padrão feminino antigo, tinha estudado no Rio, lia e falava francês, e possuía seu próprio patrimônio. Dizia ter se preparado para agradar o esposo, estudante de Direito em Coimbra. Admirava e invejava essa abnegação ao ex-marido infiel que morada dentro de mim. Resolvi reconquistar Genebra.

Uma noite, a pedido do Governador, recebemos Auguste de Saint-Hilaire, o naturalista francês, para jantar. Foi uma sorte, porque tive duas inspirações salvadoras  o truque de Sherazade e o 'Efeito Nostradamus'  que me permitiram recativar Ana e suportar o exílio no passado.

A anfitriã foi perfeita, encantou o cientista com sua elegância e familiaridade com a literatura francesa, porém, como recomendava a discrição, às sete e meia se retirou deixando os homens conversarem. Usando meu conhecimento do futuro resolvi brincar com o 'Efeito Nostradamus' para impressionar o convidado. Plagiei uma predição dos livros dele e apresentei como ideia minha: Afirmei ‘que, quando o Brasil começasse a se industrializar, o processo se iniciaria em S. Paulo’. Usei argumentos dele para corroborar a ideia roubada. Saint-Hilaire elogiou minha antevisão da História. Quando nos despedimos percebi que a porta do quarto de Ana estava aberta. Então ela gostava de ouvir histórias?



Na noite seguinte, depois de Quita tirar os pratos, rompi o silêncio de anos e comecei, vagarosamente, uma narrativa.

Numa cidade do futuro, de nome Nossa Senhora dos Anjos, quando metade do povo já havia partido para o céu, começaram a aparecer demônios modificados, machos e fêmeas, que desejavam confundir e se misturar com as mulheres e os homens bons. Os frades chamavam as criaturas de homens-vis ou ‘vilhomens’.

Era muito difícil reconhece-los, porque eram parecidíssimos com os filhos de Deus. Apenas alguns monges preparados conseguiam enxergar e exorcizar suas almas perversas. Os exorcistas dos vilhomens eram chamados de ‘Fios de faca’, porque conseguiam penetrar fundo pelos olhos dos malignos, enquanto conversavam com eles como lâminas de punhal revelando, assim, suas verdadeiras identidades.

Ana, retida pela educação ou pela curiosidade, se atrasava, ocupada com bordados.

O vigário geral de Nossa Senhora dos Anjos andava muito preocupado com quatro vilhomens soltos, porque já haviam assassinado o monge que os perseguia. Por isso convocou Ricardo Decarde, o melhor de todos os Fios de faca para encontrar e exorcizar os cramulhões.

Os companheiros desconfiavam de Ricardo Decarde. Achavam que convivia demais com os vilhomens; que entendia demais desses demônios; que estava cada vez mais parecido com eles. Mas, sem dúvida, era competente, nunca desistia de uma perseguição.

Interrompi a narração, terminei o vinho e fui para o escritório. Minha ouvinte ficou intrigada, mas permaneceu calada. No outro dia, quando entrei na sala de jantar, percebi o cesto de bordado perto da poltrona.

Ricardo Decarde resolveu visitar a Abadia de Tyrellius, o maior prédio de Nossa Senhora dos Anjos, onde havia morrido o Fio de Faca anterior pelas mãos de um maligno. O Abade era tolerante com os vilhomens, acreditava que haviam sido feitos por Deus e que poderiam ser salvos e redimidos. Ninguém entendia mais destas criaturas do que ele, Eldonio Tyrellius.

O Abade conhecia o talento de Decarde e queria assistir uma demonstração do seu desempenho. Indicou Raquel, uma morena belíssima –  aí, sedutor, descrevi os traços e a figura de Ana Genebra – sua protegida e agregada da Abadia. Com poucas perguntas o Fio de faca constatou que a moça tinha alma maligna.

A narrativa da versão adaptada de Blade Runner rendeu quatro semanas de convívio noturno. O interesse de Ana Genebra aumentava toda noite – afinal meu truque foi utilizar as técnicas dos folhetins e das novelas – mas, desconfiada, não comentava nada, somente me examinava, intrigada e embaralhada. Sentia-se confusa, percebia mudanças e queria me decifrar. No último dia, quando Rick Deckard fugiu com Rachael, Ana quebrou o mutismo de dois anos:

“– Mas, Ricardo Decarde era ou não era um demônio?”

Olhei dentro dos olhos dela, com carinho, enquanto respondia.

“– Somente Deus sabe o que se esconde dentro de cada coração. Prefiro pensar como o Abade Tyrellius, todo homem pode mudar. Acredito que o Grandíssimo abençoou Raquel e Ricardo.”

Na noite seguinte comecei a contar Matrix, numa adaptação catolicizada. Foi mais fácil e divertido, o filme está carregado de referências religiosas: Trynity, a trindade; Neo, o novo homem, o eleito; a importância da fé no Oráculo; Morpheus, como um ativo profeta bíblico; e até o Cypher, o Judas. Minha ouvinte estava atenta, fazia perguntas, pedia explicações, prolongava a noite.

Na cidade de S. Paulo, em 1819, fazia muito frio. Uma noite, especialmente gelada, depois do jantar, Ana Genebra perguntou:

“– Não quer continuar a história na sua cama?”


Falta falar do 'Efeito Nostradamus', afinal ele me permitiu suportar o degredo no passado. Para atravessar minhas noites insones imitava (ou repetia) o profeta francês. Escrevi 600 quadras sobre o futuro de S. Paulo. Parodiando as Centúrias de Nostradamus, cometi as ‘Seis Centúrias Paulistas’, porem, não usei linguagem cifrada.

Sabia que as ‘Seis Centúrias Paulistas’ não alcançariam fama – quem sabe numa vertente alternativa – porque vivi 37 anos no futuro sem nunca ter ouvido falar delas. Entretanto, o livro ajudava a preservar as recordações, repassar minhas lembranças e garantir minha sanidade mental. Porque sem uso, sem acesso e sem necessidade, as memórias são inexoravelmente erodidas pelas areias do Tempo.

No fim da vida escrevi essa narrativa e mostrei para Ana Genebra. Ela leu divertida, como mais uma das minhas histórias malucas. Porém, esperançosamente, tirei seis cópias e escondi na capa de seis Bíblias, depois doei os exemplares para as maiores igrejas paulistas. Quem sabe algum dia sejam encontradas.

Afinal a veleidade é pior do que a vaidade.

4 comentários:

  1. O café perto da USP, era o Café Paris?

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  2. Exatamente este, onde tomei o melhor Irish coffee da minha vida.

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  3. Eu sempre pensei que tudo no mundo poderia acabar, menos o café Paris!Mas, infelizmente, acabou!!!

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  4. Também achava que era inextinguível.

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