quarta-feira, 28 de maio de 2014

AUDIÓFILOS 'HOLBERIANOS' (+ Holbein ao vivo)

Visitei diversas vezes as salas de som do Holbein Menezes em Fortaleza, as Gesso Filled I e II, assim denominadas por brincadeira e reverência à mítica Sand Filled, construída, muito anos atrás, em Florianópolis, com paredes de tabuas costaneiras, preenchidas com areia de rio. Observando o trabalho incansável do Mestre para aprimorar suas salas-setups, me ocorreu que – como quase tudo na vida – os audiófilos podem ser divididos em dois grupos: podemos chama-los de holberianos não-holberianospara homenagear o decano.

Os 
não-holberianos são avassaladora maioria, mais de 98%. O interesse preponderante deste grupo é a reprodução de som com alta qualidade, através dos avanços técnicos dos aparelhos. Em geral, entendem razoavelmente bem de eletrônica e acústica, também acompanham revistas, feiras, audições e reviews de novos lançamentos e, como todos os audiófilos, gostam de experimentar, testar e ouvir equipamentos.

Os 
holberianos são raríssimos, poucos e loucos, no máximo 2%. Têm amplo conhecimento técnico de acústica; estudam os princípios da audição humana; entendem profundamente – e na prática – de eletrônica; características das mídias e construção de equipamentos. Almejam construir a Máquina Ideal Para Ouvir Música.

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Para ilustrar as diferenças entre as duas categorias audiófilas,

quarta-feira, 14 de maio de 2014

UMA EPIFANIA PAULISTANA


A moca bonita cruzava o exíguo triângulo, arborizado e ajardinado, formado pela Avenida Ipiranga e pelas ruas Araújo e Major Sertório. Mais precisamente, Praça Darcy Penteado, um artista plástico pioneiro dos movimentos LGBT. Curiosos os nomes desses pequenos enclaves urbanos, merecem uma tese, celebram personagens secundários, pouco conhecidos, mas que ajudaram a urdir a trama da cultura paulista.

Uma beldade, de longos cabelos castanhos e olhos cor de mel. Estava de branco, leve e esvoaçante, simples e sofisticada, porque uma sutil e elegante fita dourada, em espiral, enfeitava o vestido e envolvia o corpo da garota, desde os ombros até a barra, parecia um presente. As sandálias baixas, também traziam tiras douradas, que subiam trançadas pelas pernas e rimavam com os longínquos anéis, pulseiras e brincos.

A ambígua senhorita desfilava pelas alamedas de pedriscos soltos da praça como se estivesse na passarela da SPFW, com a naturalidade de uma menina caminhando pelos corredores de um hipermercado. Carregava na mão uma minúscula sacolinha de papel, dessas de lojas femininas.

A procedência da deidade era dúbia: não parecia vir da Federação de Xadrez, perto dalí; talvez viesse da Major Sertório, uma rua mal falada, que só melhora de fama depois de passar pela provação do escuro Minhocão. Aparentemente se dirigia para o Copan, um edifício icônico onde moram famosos e mortais. Parou na calçada da Ipiranga para esperar o sinal abrir.

Neste momento, as insondáveis leis do acaso atuaram e a sacolinha se rompeu. Dois 'polenguinhos', um iogurte e uma maça caíram, se livraram dos guardanapos e rolaram pela calçada. Mais de duas centenas de olhos acompanhavam embevecidos a cena. A beldade se inclinou graciosa, recolheu seus tesouros e levantou, agora sustentando a traiçoeira sacola com as duas mãos, uma na alça, outra no fundo.

Era uma dia de semana, espontânea e sincronizadamente, todos os motoboys, pedestres, passantes e clientes dos bancos, bares e restaurantes aplaudiram longamente. A moça tinha espírito de  palco, como uma prima dona bem treinada, se curvou num cumprimento teatral para os quatro pontos cardeais e seguiu seu caminho sorridente e sobranceira. Carregando as alças da sacolinha infiel com cuidado, como se fossem flores, que toda diva recebe no fim do espetáculo.

Foi uma epifania paulista, breve e menor, quem sabe provocada pelo campo de força dos três grandes edifícios de cercam a pracinha - Itália, Hilton e Copan. Não importa se o motivo foi banal ou transcendental, a tarde de toda a plateia ficou muito mais alegre.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

O LICEU ESTÁ EM TODO LUGAR


No dia 4 de Fevereiro de 2014 o Centro Cultural Liceu de Artes e Ofícios pegou fogo. Algumas das grandes obras da instituição, principalmente mobiliários, se foram com as chamas, nunca mais poderão ser apreciadas. Uma perda definitiva.

Entretanto, é impossível apagar o Liceu da cultura paulistana, é quase omnipresente na nossa paisagem urbana, basta paulistar por aí para esbarrar com obras concebidas ou construídas nas suas oficinas: o lustre do saguão do Teatro Municipal; reproduções de célebres esculturas na Praça Buenos Aires; as esquadrias do MASP, o Monumento aos Bandeirantes (Ibirapuera), fundição de quase todas as estátuas monumentais de nossas praças e jardins, e, até, máquinas para bancos 24 horas e registros de água para a Sabesp.

Por exemplo, o altíssimo monumento equestre do Duque de Caxias na Praça Princesa Isabel, na Avenida Rio Branco, é duas vezes obra do Liceu de Artes e Ofícios, foi esculpida por Victor Brecheret, antigo aluno, e fundida nas oficinas da escola. O cavalo do único Duque brasileiro está trotando com um pé levantado, sinal que o guerreiro morreu devido a ferimentos de batalha. Contudo, no caso, deve ter valido mais a lenda e o aviso que todo escultor sabia: "estátua de militar montado / cavalo com pé levantado." É mais heróico para o homenageado e mais fácil de receber o combinado
.

No século passado, quem não queria ser advogado, médico ou engenheiro, entrava no Liceu. Santos Dumont, Eliseu Visconti, Renina Katz e, vejam só, Adoniram Barbosa, estiveram lá.

Apesar da garantia da esposa do compositor, era difícil de acreditar naquele samba: “com a corda mi, do meu cavaquinho / fiz uma aliança para ela, prova de carinho.” Contudo, parece ser verdade, 0 'Charutinho' possuía competência técnica para produzir aquele mimo para a amada, afinal o Liceu fez dele um metalúrgico ajustador.

Portanto, seu dialeto que juntava palavras de todas as etnias, não resultava da falta de escolaridade, era mais uma homenagem ao povo. Ou pura sacanagem.

sábado, 3 de maio de 2014

ARCOS DA 23 DE MAIO


Os Arcos da Avenida 23 de Maio é mais um desses paramentos esquisitos e insólitos que enfeitam (e espantam em) S. Paulo. Lembrados – por todos os paulistas – contudo, pouco conhecidos. Permanecem, ainda, envoltos em mistérios e desinformações.

Parece inverossímil, porém conta a lenda que foram redescobertos por Jânio Quadros depois da demolição de um conjunto de cortiços – um enclave de abusos e contravenções – no Bixiga, quase no coração da cidade.

Fazem parte de um estranho conjunto de obras de arte rodo-urbanas muito peculiares – de função ou destinação duvidosa – concebidas para serem apreciadas exclusivamente de dentro dos automóveis, porque é impraticável, desmotivado e quase proibido, visita-las a pé (já tentei). Um museu meio onírico, fantasmagórico, fantástico e irreal de imagens avistadas de relance, de passagem, durante os deslocamentos diários, feito propaganda subliminar, porque nunca ficam nítidos na memória.


Compõem um vasto acervo, bizarro e bisonho, de ornamentos públicos: grandes murais, como os painéis de Clóvis Graciano na Av. Moreira Guimarães; ou esculturas como o Monumento aos 80 Anos da Imigração Japonesa, da centenária Tomie Ohtake; ou a homenagem a Airton Senna (de Melinda Garcia), o piloto mártir paulistano. Os exemplos ão inúmeros de todos tipos e tamanhos.

Atualmente, este museu aberto esta sendo rapidamente populado por grafites, autorizados ou clandestinos.

Desconfio incluve que S. Paulo incentiva os engarrafamentos, assim essas obras todas, quem sabe, acabem melhor conhecidas.