quarta-feira, 14 de maio de 2014

UMA EPIFANIA PAULISTANA


A moca bonita cruzava o exíguo triângulo, arborizado e ajardinado, formado pela Avenida Ipiranga e pelas ruas Araújo e Major Sertório. Mais precisamente, Praça Darcy Penteado, um artista plástico pioneiro dos movimentos LGBT. Curiosos os nomes desses pequenos enclaves urbanos, merecem uma tese, celebram personagens secundários, pouco conhecidos, mas que ajudaram a urdir a trama da cultura paulista.

Uma beldade, de longos cabelos castanhos e olhos cor de mel. Estava de branco, leve e esvoaçante, simples e sofisticada, porque uma sutil e elegante fita dourada, em espiral, enfeitava o vestido e envolvia o corpo da garota, desde os ombros até a barra, parecia um presente. As sandálias baixas, também traziam tiras douradas, que subiam trançadas pelas pernas e rimavam com os longínquos anéis, pulseiras e brincos.

A ambígua senhorita desfilava pelas alamedas de pedriscos soltos da praça como se estivesse na passarela da SPFW, com a naturalidade de uma menina caminhando pelos corredores de um hipermercado. Carregava na mão uma minúscula sacolinha de papel, dessas de lojas femininas.

A procedência da deidade era dúbia: não parecia vir da Federação de Xadrez, perto dalí; talvez viesse da Major Sertório, uma rua mal falada, que só melhora de fama depois de passar pela provação do escuro Minhocão. Aparentemente se dirigia para o Copan, um edifício icônico onde moram famosos e mortais. Parou na calçada da Ipiranga para esperar o sinal abrir.

Neste momento, as insondáveis leis do acaso atuaram e a sacolinha se rompeu. Dois 'polenguinhos', um iogurte e uma maça caíram, se livraram dos guardanapos e rolaram pela calçada. Mais de duas centenas de olhos acompanhavam embevecidos a cena. A beldade se inclinou graciosa, recolheu seus tesouros e levantou, agora sustentando a traiçoeira sacola com as duas mãos, uma na alça, outra no fundo.

Era uma dia de semana, espontânea e sincronizadamente, todos os motoboys, pedestres, passantes e clientes dos bancos, bares e restaurantes aplaudiram longamente. A moça tinha espírito de  palco, como uma prima dona bem treinada, se curvou num cumprimento teatral para os quatro pontos cardeais e seguiu seu caminho sorridente e sobranceira. Carregando as alças da sacolinha infiel com cuidado, como se fossem flores, que toda diva recebe no fim do espetáculo.

Foi uma epifania paulista, breve e menor, quem sabe provocada pelo campo de força dos três grandes edifícios de cercam a pracinha - Itália, Hilton e Copan. Não importa se o motivo foi banal ou transcendental, a tarde de toda a plateia ficou muito mais alegre.

8 comentários:

  1. Bela crônica epifânica! Douglas, sua sensibilidade está cada dia mais aguçada, da poesia à prosa. Um abraço!

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  2. Portando uma altivez que vem do berço, a protagonista conseguiu com naturalidade mudar a face do dia de muitos.
    De onde veio,não importa tanto,segue Senhora Menina ,altiva e bela sem se importar com a infidelidade que a cerca ,em um sacola ,ou quiçá na vida.
    Parabéns Douglas!

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  3. Obrigado Suely Sette, as mulheres tem 'coisas' dentro delas que as vezes afloram: fadas, deusas, bruxas, divas... Gosto quanto isso acontece.

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  4. Vera Helena Amatti, E preciso andar por São Paulo sem pressa, flanando, para perceber que existe sempre uma mágica elétrica no ar da cidade. - Sei que você sabe disso.- Então é possível enxergar as comadas de História de cada lugar guarda.

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  5. Pela idade da moça, Fernando Marchini Dias, não deu para ela conhecer o Scarabochio, talvez tenha ouvido falar dele pela mãe ou tias.

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  6. Gostei do conto: leve e gracioso como a personagem!

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  7. Obrigado Wilson Colocero. São Paulo e cheio de surpresas.

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