segunda-feira, 30 de junho de 2014

Pereira Barreto - Um Monumento no Armário


Não é fácil, mas, quem for capaz de reprimir a raiva e ignorar o estrupício do  Minhocão – essa feia cicatriz que deforma e estraga o rosto da cidade – poderá admirar este belíssimo conjunto de estátuas dedicado ao médico, cientista e empreendedor Luiz Pereira Barreto. As musas que o acompanham aludem à Medicina e à Agricultura, campos de atuação do homenageado. Ao lado do monumento tem um playground, onde brincam as crianças, antes chamadas de 'esperança do Brasil'. Quem dera?
         
Num dia de sol é suportável e até agradável a visita.

A obra de 1929 – que não combina com o Minhocão – foi concebida e esculpida por Galileo Emendabili, e está localizada na Praça Marechal Deodoro, no bairro de Santa Cecilia, não distante da Santa Casa de S. Paulo.

Jorge Amado, na panfletária e transversa trilogia ‘Os Subterrâneos da Liberdade’, fala da Praça Marechal Deodoro, de 1937, como um lugar bonito, elegante e romântico, onde casais se encontravam para namorar.

S. Paulo – com seu desmando imobiliário – não costuma preservar o ‘clima, o espírito e a personalidade’ dos lugares. Entretanto, nesta praça assassinada, talvez porque o transtorno do Minhocão afugentou novos lançamentos, o conjunto de prédios ao redor continua periclitante e miraculosamente mantido.

Se a prefeitura fizer alguma coisa, como por exemplo, enfiar o 'Minhocão' dentro de um tubo colorido e antirruído, como algumas cidades do oriente fazem com vias elevadas, a bela praça talvez tenha chance de ressuscitar.

Um detalhe intrigante e surpreendente, o conjunto estatuário não estava pichado!  

terça-feira, 17 de junho de 2014

DILEMAS DE DOM QUIXOTE E SANCHO PANÇA


A Obstinada Resistência das Casas

Resistentes e frágeis – como os papéis de seda que envolvem velhas lembranças – algumas casas antigas sobrevivem apesar dos bombardeios e explosões imobiliárias. Atacadas por pichações, enroladas por fios elétricos e telefônicos ou cercadas por agulhões de concreto. Parecem rosas de Hiroshima indestrutíveis, ou pérolas salvadas no meio de conchas trituradas.




Algumas demolições são trágicas e irreversíveis, perder certas casas é como extinguir uma espécie rara. São universos de lembranças, emoções, esperanças e modos de vida que viram entulho. A História da cidade vai diretamente para as caçambas.

Será que num planeta com 7 bilhões de habitantes – e crescendo, que defende valores transversos e pouco racionais, é possível frear, organizar e direcionar o progresso? Podemos controlar a expansão das construções desgovernadas que avançam feito um rinoceronte cego derrubando tudo? Com incentivo ou inação pública.



O que resta são dois cenários de Ficção Científica. 

Primeiro, ou as casas antigas e os prédios históricos se transformam em itens ultra valorizados, objetos de desejo – como acontece em várias cidades do mundo – tonando-se curtidíssimo e refinado morar neles.

Segundo, ou teremos as vias Matrix e Blade Runner: declaramos nossa falência e as máquinas (ou ganâncias) obtusas tomam conta de tudo, destruindo integral e obstinadamente toda a memorabília humana.
A resposta, até agora, indica que a destruição é inevitável. A única regra vigente é ocupar áreas verdes e maximizar o uso do espaço urbano, porque a população aumenta e se concentra sem parar.








CASAS JÁ DEMOLIDAS


segunda-feira, 2 de junho de 2014

A Ilhota das Estátuas Calipígias


No Parque da Luz – um jardim público de 1825, o mais antigo de S. Paulo – ao lado da Pinacoteca, fica localizada ‘A Ilhota das Estátuas Calipígias’. Basta caminhar pelas sinuosas alamedas de pedestres para chegar até ela. Parece uma miragem nas manhãs ensolaradas.

Um paraíso de moças de curvas sestrosas entre dezenas de esculturas angulosas e enigmáticas que se manifestam como enigmas a serem decifrados.

A menina de braços elevados está ‘À Procura da Luz’ (Maria Martins, 1940); luz que nas primaveras e verões é farta nas manhãs paulistas, as vezes só depois da neblina.

A outra deidade fofa é uma ‘Carregadora de Perfumes’ (Victor Brecheret, 1924 - fundição 1998). A beldade rechonchuda já foi uma grande dama, participou do pomposo ‘Salon d’Automne’ de Paris, em 1924. Muita de sua carga de fragrâncias ainda hoje escapa de seus cântaros e enche de aromas silvestres o bosque encantado.


As ‘Vênus Calipígias’ são recorrentes no acervo clássico, representam a deusa apreciando seu próprio bumbum, como se o avaliando. Um momento íntimo, mágico e comum. Afinal, quantas infinitas vezes as mulheres não fazem o mesmo diante dos espelhos?


‘Calipígia’ é uma palavra de origem grega, porém, a tradução em português fica especialmente bonita, eufônica e inspirada: ‘bunda bela’. Carregando de ressonâncias africanas essa paixão nacional, decantada até por Carlos Drummond, no poema ‘A Bunda, que engraçada’.

Outra beldade de 'bunda bela' (portanto cidadã da ilhota) que enfeita a cidade é a indiazinha apaixonada, concebida pela poeta Olavo Bilac e esculpida por William Zadig (1920). Sonhadoramente entretida no idílio de um beijo eterno defronte à Faculdade de Direito do Largo São Francisco.

Não devem movê-la, é embaixatriz da Ilhota e merece descansar onde está, protegida pelos estudantes e pelas tábuas da lei, depois de ter sido mal falada, repudiada e expulsa de tantos lugares de S. Paulo. Exatamente por que tinha a bundinha empinada e maliciosa.