segunda-feira, 21 de julho de 2014

O BIXIGA E AS DOBRAS DO TEMPO

No Bixiga – que esnoba o pomposo nome de Bela Vista – acontecem coisas espantosas, inexplicáveis e inacreditáveis. Parece que nele o passado insiste, resiste e se retorce para não morrer e ser enterrado. Suas ruas antigas guardam com zelo e carinho as sementes de todas as 'paulistanices'. Adoniram; a miscigenação permanente dos migrantes, emigrantes e nativos; os antiquários; a casa que acolheu as loucuras e insanidades de Dona Yayá. Além dos teatros antigos e resilientes.

O bairro, que dois séculos atrás – 1819, abrigou Saint-Hilaire, o mais simpático e otimista dos estrangeiros que visitaram S. Paulo, deve ficar dentro de uma sutil dobra do Tempo. Um bolsão irreal costurado com agulhas mágicas e linhas esquisitas. Com limites indefinidos e geografia incerta.

É possível, por exemplo, fazer uma viagem no tempo na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, número 1308.



Parece que a onda de revivescência dos sobradinhos é cíclica, alguns meses atrás registrei a revitalização de um quarteirão inteiro da Rua Maria José, esquina com a Brigadeiro Luís Antônio. O post teve mais de 300 mil visualizações, ninguém acreditava, diziam que era montagem.



Talvez, num trecho da Rua dos Ingleses exista um portal do passado, com seus ares – não cores – novecentistas. Às vezes, nos dias de sol, aparece uma ladeira inteira para se paulistar. Perto do Teatro Ruth Escobar, atrás das cantinas da Rua Treze de Maio e no alto da escadaria da Praça Dom Orione, que, nos domingos, esconde o busto de Adoniram e recebe um mercado das pulgas onde são comercializadas as escamas dos tempos idos.


Apesar das fronteiras móveis, o Bixiga ocupa um lugar privilegiado na geografia paulistana: no sentido norte-sul fica entre a Avenida Paulista e o Centro Velho; no sentido leste-oeste divide a Liberdade e Aclimação de Higienópolis e Cerqueira Cesar. Considerando o mapa e as facilidades de acesso, não existe melhor ponto para se morar, é perto de tudo, mas diferente de todos os outros lugares.


Andando pelo Bixiga essa sanha de restauração parece um pouco com um despertar do Realismo Fantástico, depois de cem anos de sonho deslembrados.

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8 comentários:

  1. Impressivas dobras do tempo e geografia incerta! Maravilhosa síntese, ampliada na tessitura de magia e beleza e afetos entrelaçados aos portais do tempo que saltam aqui e ali. Belo, Douglas Bock. Sua escrita é pura fruição!

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  2. Impressivas dobras do tempo e geografia incerta! Maravilhosa síntese, ampliada na tessitura de magia e beleza e afetos entrelaçados aos portais do tempo que saltam aqui e ali. Belo, Douglas Bock. Sua escrita é pura fruição!

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    1. Vilma Silva, passear pelo Bixiga, para os paulistanos, é como virar as páginas de um álbum de fotografia começada pela avó, continuado pela mãe e, agora, em nossas mãos. As ruas são fotos superpostas.

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  3. Este seu blog é ótimo por vários motivos, dentre os quais a maneira suave como você retrata as lembranças e a sobrevivência de pequenos pedaços da história paulistana, e o texto atraente sem saudosismo, como merece ser tratada uma senhora dama como é a nossa cidade.
    Numa dessas raras coincidências paulistanas, essa casa ao lado da 1308 pertenceu a um sobrinho (por parte do primeiro marido) de uma velha tia. De família de boas posses, ele nunca deixou de morar nessa casa, mesmo podendo ir para bairros mais abastados, e pelas mesmas razões que você expôs.
    Lindas lembranças. Obrigado pela oportunidade de revivê-las!

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  4. Eu vivi muitos momentos mágicos e importantes da minha vida, no Bixiga.Andei por muitos anos, por suas ruas, onde vivi momentos e situações mágicas.Fiquei encantada ao ver a foto dos sobradinhos da Rua Maria José!

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  5. Ida Zami, o Bixiga é um lugar mágico dentro de S. Paulo, tenho quase certeza que foi nele que nasceu o tipo 'paulistano'

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    1. Eu nasci na Maternidade São Paulo,onde vi a luz da vida, pela primeira vez. Morei, na minha infância, adolescência e começo da mocidade, na Rua Cezário Mota Jr, com Consolação.Foi naquela ladeira que conheci os paulistanos, oriundos de todos os lugares:descendentes de portugueses, italianos, japoneses, árabes, africanos,alemães, etc.Enfim, brinquei com amiguinhos que eram oriundos de todas as etnias.E,no Bixiga,todos juntos e misturados,o jeito paulistano, levado às ultimas consequências.Infelizmente, hoje, muito empobrecido e maltratado.Mas, agora, felizmente, como você mostrou, renascendo das cinzas.

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  6. Wilson Colocero, entre os mistérios do Bixiga esta o de ser um bairro eterno que de voz em quando volta à moda.

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