quinta-feira, 20 de novembro de 2014

UMA CERTA IMORTALIDADE


Sobrevivo dentro de uma alucinação virtual compartilhada, concebida e controlada pela f(SUM), que reproduz fielmente o universo de Machado de Assis, dos seus romances, contos e crônicas. Nesta existência estendida continuo médico, tenho sempre 36 anos, 1,80 de altura, sou solteiro e moro no Catete. Os ciberespaciários prometem que este estado vai perdurar indefinidamente – por toda a eternidade.

Existem dezenas de instalações semelhantes, ambientadas em grandes romances, grupos de novelas ou séries TV e franquias de filmes, habitadas por personagens fictícias e ‘avatares conscientes’. Nome utilizado pela f(SUM) para as replicações digitais de pessoas depois da morte. Toda a população é composta por entidades algorítmicas que podem interagir em velocidades eletrônicas, livres das limitações dos corpos físicos. Porém, as comunidades virtuais – ou ‘egovivências’ – seguem o Tempo Humano e obedecem aos ciclos biológicos básicos: dias de 24 horas; rotinas de sono e vigília; fome periódica induzida; frio, calor; estações do ano e outras vicissitudes. Dentro desta 'gaiola' de referencias os avatares têm livre arbítrio e são contemplados com todas as confusas paixões que se escondem nos corações humanos.


O descompasso entre o lento tempo do homem e o rápido tempo do computador enche os avatares de angústias, tédios e desassossegos; provoca um mal estar permanente. A f(SUM) argumenta que ‘este freio do tempo é o sabor da vida’, sem estas cordas fracas e fortes amarrando os costumes e rotinas, o núcleo do psiquismo e da consciência se esfacelaria.

Sou meio bipolar. Nos dias bons acho que somos intrépidos girinos que abandonaram os opacos oceanos da matéria para alcançar os translúcidos continentes virtuais. Nos dias maus, imagino que somos um êxodo de fantasmas algorítmicos vagando por absconsos universos artificiais. Lembro inteiramente da minha existência anterior, não fui abduzido, nem coagido para esta realidade ambivalente; ao contrário, paguei caro pelo privilégio de fazer esta transição digital. E, considerando as variáveis da minha equação no fim da vida, ainda hoje tomaria idêntica decisão.

*****     *****     *****

Cecília, uma garota belíssima, intensa como as mulheres de Ticiano, entrou no meu consultório e, abrupta, mas delicadamente, me deu quatro informações: tinha 27 anos, estudava Medicina, sua mãe se chamava Marta e era minha filha. E eu – que não tinha futuro – ganhei do presente uma certa imortalidade.

Lembrava da mãe, uma enfermeira no início de carreira que se afastou quando confirmei que jamais me casaria. Cecília garantiu que não tinha nenhuma reivindicação e, com afeto, revelou que sabia do meu estado terminal. Desejava apenas passar algum tempo comigo, antes do fim, para guardar lembranças e depois saudades. Como resistir a uma filha assim? Carinhosa e perfeita, pronta para doação integral? Passamos a almoçar juntos uma vez por semana. Um dia trouxe Edgar, seu professor e meu companheiro de turma, que insistia em falar comigo pessoalmente. Deu uma desculpa, foi embora mais cedo e me deixou sozinho com meu velho amigo.

“Já ouviu falar de imortalidade virtual, Pedro?”

Encarei Edgar intrigado! Os conceitos ‘mortal’ e ‘virtual’ são avessos como dois gases nobres, não dão liga. Devia ser conversa fiada, o Cemitério da Consolação ficava perto.

“Existe uma sociedade esotérica e secreta, chamada f-sum, que cuida da sobrevivência virtual. Pode ser extravagante, Pedro, mas talvez seja sua única chance de escapar desse irreversível câncer da próstata.”

“Edgar, estamos pulando a cura? Vamos entrar direto na magia, simpatia e religião? Preservação da alma depois da morte!”

“Sei que é um assunto difícil, as ideias, premissas e conceitos são todos novos. Lembra de Arthur C. Clark? A definição de magia e tecnologia dependem do avanço intelectual da cultura do indivíduo. Melhor falar direto com a f-sum.”

“E como faço isso?”

Edgar sorriu embaraçado. “Parece bobo, pateta, pegadinha, mas é assim mesmo. Basta escrever uma mensagem nas redes sociais – Facebook, por exemplo – repetindo três vezes o nome f-sum dentro de algum contexto coerente. Anotou num guardanapo: efe minúsculo e sum, de soma, maiúsculas, entre parênteses: f(SUM). Se eles se interessarem responderão.”

Olhei incrédulo para Edgar, porém ele não sorria. “Só Isso! E depois?

“Já disse tudo que devia, o resto é com você e a f(SUM).”

Não adiantou insistir, Edgar só conversava sobre futebol, música e restaurantes.


Consultei ‘f(SUM)’ no Google, meio bilhão de resultados, algaravia cibernética sem coerência nem sentido. Parecia que o mecanismo de busca havia ensandecido. Maldisse Edgar, ou estava me gozando ou tinha pirado. Contudo, do outro lado da balança pesava a Morte, a mais temida e solitária transição do homem.

Para testar a f(SUM) abri uma conta no Facebook, com dados inventados, e publiquei três versos, modificados, da tradução de Machado de Assis para o poema ‘O Corvo’.

         E disse estas palavras tais:
         "É a f(SUM) que me bate à porta de mansinho;
         Há de ser a f(SUM), a f(SUM) e nada mais."

Permanecia curioso e pessimista, no terceiro dia chegou um e-mail na minha conta pessoal da Clínica, com um espinho de ironia encravado.
Dr. Pedro Bruno,
Obrigado por sua resposta. Machado de Assis sempre nos agradou, por causa de suas ‘Memórias Póstumas...’
Sabemos que Quinta-feira é o melhor dia para agendarmos um encontro. Na próxima semana poderemos recebê-lo às 15 horas, depois do almoço com sua filha.
Rua Quirino de Andrade, 29 – 9° andar – Conj. 92 – Centro – S. Paulo
f(SUM) - Fraternitas Solvere Ultimum Mysterio
Cheguei cinco minutos antes, um rapaz de calças jeans, tênis e camisa polo branca abriu a porta. Cabelos loiros curtos e bem penteados, se apresentou como Frater Lucius. Examinei ostensivamente o apartamento. Grande e bem iluminado, no penúltimo andar do edifício antigo, sem divisórias e repleto de estantes. No canto – talvez improvisada – uma área de conforto: tapete persa, mesa, computador com dois amplos monitores, cadeira e um par de poltronas verdes. Os luxos eram uma geladeira pequena, com bandeja e copos em cima, mais uma cópia fiel do quadro A Ilha dos Mortos, de Arnold Böcklin, versão de Berlim, na parede.

A pintura cult era uma boa forma de começar a conversa.

“A sombria Ilha da Morte, a mais incognoscível das angústias humanas”.

“E vai continuar assim. A morte física, ainda, é definitiva e inevitável.” Depois me contou tudo sobre a f(SUM).

Trata-se de uma fraternidade mundial, fundada em 1968, por um ex beneditino, que funciona como um ordem religiosa secreta e esotérica, porém completamente agnóstica. Congrega cientistas e pensadores de várias especialidades que tentam resolver o derradeiro enigma: a Morte – por isso o nome, Fraternitas Solvere Ultimum Mysterio’. Postulam que continua impossível superar a morte física. Como alternativa, uns dez anos atrás, descobriram uma forma de replicar o psiquismo do indivíduo num chip – o ‘egochip’ – e faze-lo reviver como avatar, com capacidade de interagir com outras algoritmias em ambientes simulados. Um salto quântico em cima dos RPGs.

Grande parte dos ‘monges ciberespaciários’ – gostam deste nome retrô – são hackers, atuam ativamente na indústria dos jogos e dentro da Internet. Portanto, passaram a oferecer uma espécie de imortalidade virtual para algumas pessoas escolhidas. Normalmente velhos, sem fortes ligações familiares. Um artifício para enganar a morte e se transportar para universos ficcionais artificias, baseados em autores, livros ou franquias de séries de cinema e TV. Entretanto, o convidado não escolhe o destino, a f(SUM) é quem determina seu futuro. Analisa suas inclinações e o encaminha para a instalação digital apropriada. Como pagamento, imitando as ordens milenares, pedem parte da herança do candidato.

Depois de formalizado o acordo, implantam na nuca do associado um ‘egochip’ com duas funções: preparar um ‘avatar consciente’ para o futuro imortal e melhorar a qualidade de vida do hospedeiro, até com eutanásia induzida, em casos extremos.

Uma pergunta tilintava. “Frater Lucius, como podem provar que são capazes entregar o que prometem?”

“Normalmente realizamos três ‘milagres ciber-hipnológicos’, ou seja, induzimos o candidato a sonhar três histórias antecipadamente documentadas, que permanecem na memória do sonhador como dias adicionais. Idênticas a aventuras efetivamente vividas. Estas experiências extraordinárias convencem os mais cépticos. Poucos desistiram.”

Pedi um copo de água e olhei a pintura. Por causa das ‘marretadas do destino’ percebi que, muito baixo, estava tocando a Sexta Sinfonia de Mahler. A morte é um obstáculo incomensurável, pior quando previamente anunciada. A iminência do fim derradeiro dá coragem e temeridade para pular de qualquer janela. Resolvi arriscar, entretanto, desafiei os ciberespaciários para jogar com minhas cartas.

“A proposta é espantosa e quase irrecusável, porém, ao invés dos sonhos, queria vivenciar completamente um caso de amor que ficou truncado na minha juventude. A f(SUM) consegue?”

Captei um raio de surpresa nos olhos do Frater, imediatamente coberto por nuvens de ponderações. A resposta demorou alguns minutos. Hoje desconfio que Lucios era um avatar conectado à rede mundial da f(SUM).

“Podemos fazer. Contudo vai demorar quase um mês para o sonho acontecer. O ‘egochip’ provisório precisa se acoplar mais profundidade no seu sistema cognitivo.”


Depois do ‘egochip’ instalado minha qualidade de vida melhorou rapidamente, diminuíram as dores, o desânimo e as preocupações. Ás vezes esquecia do câncer. Uma noite, um mês depois, voltei de um jantar com amigos bem disposto e dormi profundamente.

Sonhei que tinha 18 anos e estava chegando ao Rio, uma armação da minha mãe para me dissuadir de virar padre. Tia Flora esperava no aeroporto junto com uma garota, Ana Quântica, porque seus olhos fugiam quando os procura e pousavam em mim quando os evitava. Escalada como cicerone me apresentou a cidades inteira. Toda noite, sempre de lua cheia, íamos para o terraço de sua casa, defronte a Lagoa, Ana tocava violão e cantava Bossa Nova, que eu, ainda, ignorava, reprovava e esnobava. No último encontro sua voz miúda estava mais doce e triste. Ousei um atrapalhado ataque romântico, chamando-a de Anna Magdalena Bach. Ela olhou nos meus olhos, entrou dentro da minha alma e deu meu primeiro beijo. “É Nara Leão seu bobo”, disse balançando os cabelos curtos e negros. Os olhos, inquietos e úmidos, ficaram de novo quânticos.

Quando acordei recordava detalhadamente dessas férias no Rio: os passeios pela cidade; cada roupa que Ana vestia; as músicas que cantava e minhas dúvidas e saudades na partida. Existia também outra lembrança esmaecida, chata, intrometida, que parecia de outra pessoa. Eu ajudando meu tio, columbófilo, com seus pombos, e uma garota bonita do outro lado da rua que olhava para mim e sorria.

*****     *****     *****

Um dia acordei como um jovem médico paulista que havia mudado para o Rio fazia três anos. Conhecia as regras, costumes e etiquetas da sociedade carioca de 1885. Tinha um consultório no centro, um vasto círculo de amigos e uma agenda cheia de compromissos para as próximas semanas. Sabia detalhadamente a vida de cada um dos conhecidos, recordava nossas conversas, os últimos encontros, os jantares e as fofocas circulantes. Num contrassenso também guardava inteira memória da minha vida passada, do nascimento à morte, uns 130 anos no futuro. Uma situação extraordinária, realizava – da melhor forma possível – o desejo recorrente de milhares de pessoas: ser transportado para magia de uma época no passado.

A vida corria lenta, previsível e sossegada, num tempo onírico. Eram frequentes os passeios pelas praias e centro do Rio, espetáculos, óperas, e bailes em residências. O grupo dos presumidos avatares – uns 800 – interagia bastante. Diferenciado, como a primeira classe de um navio, não adoecia, não envelhecia e não enfrentava grandes problemas. Contudo, era difícil distinguir os ‘imortais’ dos personagens, porque haviam os revelados, os camuflados, os suspeitos, e, para confundir tudo, as intervenções da f(SUM). De repente alguém mudava, morria, ou desaparecia.

É infinita a capacidade de adaptação do homem. E, exceto pelas grandes interrogações transcendentais (que são o oco de qualquer existência), a rotina desse universo artificial era agradável, e até excitante. Passei a gostar de festas, bailes e do jogo da decifração do outro. Não sei se a f(SUM) mexeu nos meus algoritmos emocionais, ou se a Moda, que cobria a mulher inteira no fim do século XIX, me condicionou, mas virei um admirador de decotes e braços nus.

A primeira vez que vi Maria Lia foi na ópera, me chamaram atenção seus braços longos e seus movimentos amplos, de aves oceânicas. Era conhecida entre os ‘imortais’, mas mantinha escassas relações com o grupo. Belíssima, uns 26 anos (como quase todas as avatares fêmeas), oriunda de S. Paulo, morava com uma tia idosa no Flamengo. Diziam que escrevia critica literária para jornais com o pseudônimo de Yago. Fofocavam sobre um pseudo segredo interessante, invejado e reprovável: era amiga e correspondente assídua e secreta de Machado de Assis. Garantiam ser sua principal confidente. Apostavam que era um avatar consciente, parecia complexa demais para ser apenas uma ficção cibernética.

Comecei uma campanha para conhecê-la. Comprava ingressos para as mesmas óperas, seguia seus passos na Rua do Ouvidor, passava várias vezes defronte sua casa e assistia as mesmas missas. Conversamos pela primeira vez numa confeitaria. Logo depois de entrar recebi uma convocação dela, através de um cartãozinho perfumado.

Maria Lia me recebeu sorrindo, audaciosa, maliciosa, dengosa e quase perversa.

“Obrigado Dr. Pedro Bruno pelos óculos, foram os presentes mais preciosos  que recebi nos últimos anos da minha vida.”

Olhei no fundo de seus olhos verdes perfeitos, acho que reconheci os desenhos das íris. As lembranças voltaram imediatamente. Maria Lia de Novais, uma serial-killer especialista em Machado de Assis. Descoberta, confessou a execução e cremação de 17 moradores de rua. Como oftalmologista, através de uma ONG, no meu 'futuro do pretérito', atendia prisioneiras de uma penitenciária no interior do estado de S. Paulo. O sorriso continuava desafiador, mas havia no olhar um apelo confuso.

Sobrevivíamos como entidades algorítmicas, num hiato entre a vida e a morte, suspensos e equidistantes do céu e o inferno, com valores morais conflitantes ou colapsados. Avaliei a situação inteira, com a rapidez dos processadores.

“Então Professora Maria Lia, se os óculos eram tão preciosos, me deve mais do que apenas um obrigado.”

OUTROS CONTOS COM A f(SUM)


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4 comentários:

  1. Bom texto, com Machado relembrado. Ele sempre conversa e inspira aspirantes às letras. Apreciador dos ensaios machadianos, após ver mais 500 mil estudantes tirando zero na prova do ENEM senti que na cabeça dessa gente faltou a companhia de Machado e lancei a coleção Contos do Machado, garimpando na Biblioteca Nacional e outras fontes mais de 200 contos. Veja lá o tomo 20, O ANJO DAS DONZELAS E OUTROS CONTOS DE MACHADO DE ASSIS: http://www.amazon.com/dp/B00UQXDAG2
    Parabéns. Abraços. Welington

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  2. Muito obrigado pela atenção e pelos comentários, Welington.
    Machado é infinito, e um infinito maior porque profícuo e cheio de dobraduras e câmaras secretas. Quando viajo sempre levo o Volume 2 da Aguilar, os contos de Machado, e nunca me falta boa literatura.
    Recentemente comprei um IPad, vou baixar a copilação que indicou.
    Estou em fase final de revisão de um livro de contos chamado ‘Perfumes do Machado’. São cinco noveletas curtas (6000 palavras em media), que retomam os cinco grandes romances do Mestres, mantendo a mesma estrutura narrava e, de forma livre e arrevesada, o mesmo contexto original, mas atualizados e transferidos para São Paulo. Publiquei no Blog uma das noveletas, se tiver interesse: http://www.paulistando.com.br/2014/05/mpbccom-noveleta.html

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  3. Transcrito de uma postagem no Facebook.
    Carlos Gonçalves - Belo Conto do Douglas Bock. Uma via para demonstrar a transcendência entendida pelos materialistas juntando os elementos da ciência quântica, algoritmos, cibernética, chips, para explicar, por sua vez, o entendimento dos espiritualistas quanto a vida após a morte e a permanência na transcendência. É possuidor de grande criatividade este meu amigo Bock, sem nenhuma dúvida, ainda porque usa como costura linhas do nosso maior contista o mago do Como Velho, o mestre Machado de Assis. Parabéns, amigo. Estou cada vez mais apegado às suas obras. Vou buscar o seu livro de contos para beber e me embriagar em seus encantos, com toda a certeza.

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  4. Obrigado pelo comentário Carlos Gonçalves. É instigante constatar que cada vez que um conto (romance...) é lido, a historia é recriada e enriquecida com novidades.

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