sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Origem d'O Horla – Frank Miller


Meio, o anão replicado, de repente, pulou na frente do carro.

“– Para aqui mesmo Doc, lá tá muito cheio.”

Era um flanelinha que trabalhava no Bixiga, em todos os lugares e em vários serviços. Nunca vi dois juntos, mas aposto que existem umas 50 réplicas dele. O restaurante era longe, uns 300 metros, na rua paralela, mesmo assim obedeci e paguei o que pedia. Estava quente e as ruas começavam a ficar congestionadas.

O almoço com os amigos acabou às 4 da tarde. Tinha tempo, fim de semana prolongado, 92 horas sem plantão, só ia pegar a estrada no fim da noite. Resolvi dar a volta no quarteirão, arriscar um Café novo. No meio do caminho havia um sebo; sempre há um sebo novo no Bixiga. Proliferam antiquários no bairro, surgem e somem misteriosamente, porém os donos não mudam, devem fazer rodízio, são sempre os mesmos.

Meio estava sentado na porta. “– Entra Doc, tem muito gibi por aí”.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Painel de Azulejos do Largo da Memória

O ‘Obelisco do Piques’, ou ‘Pirâmide do Piques’, e um nó desconexo no meio da cidade de S. Paulo. Cheio de enigmas, lendas e histórias. Ninguém sabe direito porque foi erigido e o que homenageia. Já comentei este mistério em 2014, quando o monumento fez duzentos anos (clique e veja). 
Todo mundo conhece o lugar, passam por lá apressados e sem prestar muita atenção. Assim, acho importante ressaltar um item esquecido desse monumento: o painel de azulejos, que envelhece e se empana na sombra da figueira centenária. Utilizando para isso fotografias e ampliações de detalhes. As imagens evocam a própria Ladeira do Piques nos seus dias de glória. Revisitar era uma mania do autor, Wasth Rodrigues.
O 'Largo do Piques' sempre foi um dos portais de S. Paulo, por ele os Bandeirantes saíram para inventar e inventariar o Brasil.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

7 VARIAÇÕES SOBRE SONETOS

Já podes dormir coração cansado


Soneto da Fidelidade



Os dias mortos, sim, onde enterrá-los?

Rugia nos  meus centros cerebrais


Sete anos de pastor Jacó servia

Ora (direis) ouvir estrelas!



A garupa da vaca era palustre e bela

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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Carta de H.P. Lovecraft para J.L. Borges


10 Barnes St., Providence R.I.,
Outubro 2, 1928    
Caro Señor Jorge Luís Borges:–

Receber uma carta de Buenos Aires, da distante Argentina, elogiando ‘The Colour Out of Space’ me deixou surpreso e encantado. Não calculava que a Amazing Stories chegasse tão longe e alcançasse leitores tão variados e interessantes. Suas observações acerca do conto são instigantes. Destaca o paradoxo de tentar descrever uma cor que induz o próprio sentido da visão ao engodo; correlaciona a poeira cinzenta, que vento nenhum dissipa, com o fim dos tempos; e lembra que sete homens testemunharam a transubstanciação da cor num raio luminoso apontado para Deneb. Depois de tudo isso não me espantou saber que é escritor, a elegância e articulação da missiva não deixam dúvidas. Desconfio também que foi alfabetizado em inglês.

Procurei Buenos Aires no globo, constatei que fica na foz de um rio, como Providence – só que muito maior. Na verdade, cada vez que examino o mapa da América do Sul embarco numa viagem de divagações.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Deise, Dóris e Dalva

Quem primeiro viu Dalva parada e perdida na esquina foi Dóris. Olhou, virou a cabeça para ver melhor e latiu abobalhada. Alertada, Deise foi até a janela, sexto andar, e viu uma mulher, atarantada e assustada, olhando para cima e para todos os lados. O farol mudou duas vezes e a moça não saiu do lugar.

Os problemas de Deise naquele dia estavam na sua agenda superlotada de compromissos. Precisava fazer um monte de ligações, dar um jeito na casa, levar Dóris para passear e passar pelo consultório. Não havia conseguido desmarcar várias consultas. Ficar sem empregada era como nadar num tsumane prologado.

Uns 20 minutos depois Dóris voltou a latir assanhada e esganiçada. Deise, de novo, foi até a janela. A mulher continuava no mesmo lugar olhando as ruas e os prédios, aflita e desamparada.

“O que esta acontecendo com aquela coitada?”

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Carta de Ricardo Reis para Mário de Andrade


Rio de Janeiro, 10 de Dezembro 1935

Querido Mário de Andrade:

No começo de nossa amizade, em 1921, firmamos um ‘pacto pagão’. Combinamos que nossas conversas seriam sempre face a face, francas e livres. Sem segredos nem discussões religiosas, políticas ou morais. Penso que fui eu a propor o acordo porque tenho a cabeça panda de incoerências. Sobre Religião coleciono certezas absolutas, sobre Política (como monarquista ou sebastianista sem rei) não sei me explicar direito e ainda estou inventando uma moral para caber dentro dela.

Concordamos, acima de tudo, em não trocar correspondências. As cartas são como fotografias, tentam deter o rio de Heráclito. E as relações humanas são dinâmicas, repletas de nuances, até as lembranças são falazes e enganosas. Sempre é melhor conversar, viver o momento e falar da cor real de cada coisa. Sei que és um missivista compulsivo e que nossos encontros são esparsos, mas calculo que a decisão foi acertada.

Estou quebrando a regra acordada porque fui te procurar em S. Paulo e não encontrei. Sabes que, no Brasil, és meu mais próximo e confiável amigo. Era imperativo te falar sobre as estranhezas que aconteceram comigo duas semanas atrás.

Todas as tribulações começaram num espelho, no fundo de um corredor numa quinta no Cosme Velho.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

ELIS REGINA, SEM NADA POR BAIXO


A mais certa das certezas é que o publico do show Falso Brilhante de Elis Regina cresce continuamente. Sempre que pergunto para alguém se assistiu o show mítico, respondem: “Claro, eu estava lá.” Inclusive os mais jovens, que nasceram depois de 1977.

Bom, ‘claro, [eu também] estava lá’. E por duas vezes. Mas a historia curiosa aconteceu na primeira, em 1976.

Meu amigo Marcião era mitômano, embusteiro e imprevisível, mas, apesar de tudo, boa gente. Assistiu ao show quase na estreia e voltou com uma dica sigilosa e excitante. Das cocheiras, dizia, porque gostava de apostar em cavalos.

Era no Teatro Bandeirantes, Avenida Brigadeiro Luiz Antonio. Lá, de um conjunto de 12 ou 15 lugares,

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

'Guernica', 'As Meninas' e a 'aura'


Estive demoradamente defronte dois dos 10+ quadros da História da Pintura Ocidental: Guernica de Picasso e As Meninas de Velasquez.

As telas são largamente conhecidas e infinitamente reproduzidas (em livros e na Internet). Também é fácil encontrar todo tipo de fotos e ampliações de detalhes e peculiaridades publicadas. Porém, nada disso se compara com o sentimento de deslumbramento, magia e reverência de estar diante dos originais.

Talvez pela fama, talvez pelo tamanho (Guernica 3,5 x 7,8 m e As Meninas 3,2 x 2,8 m), talvez pela fortuna crítica, talvez pela ‘aura’ da Arte – sei lá o que mais – a experiência de conhecer esses quadros célebres de perto é completamente diferente de ver cópias ou fotografias.

Guernica e As Meninas impressionam pela grandiosidade. Vêm-se coisas,

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O Último Concerto (A Late Quartet)


Tudo depois deste parágrafo é suspeito e exagerado, porque sou adicto de Quartetos de Cordas.

Assisti ao filme O Último Concerto (A Late Quartet),  que mostra as turbulências – artísticas e pessoais – de um conjunto de Música de Câmara, o ‘Quarteto de Cordas Fugue’, quando um de seus membros, o cellista, contrai Parkinson.

‘Quarteto de Cordas’ é um nome propenso a confusão, tanto pode se referir à forma musical, quanto ao conjunto que a executa. Em todo caso, o titulo original do filme é bonito e sutil, lembra os ‘Late Quartets’ de Beethoven, os quatro quartetos tardios, os últimos compostos pelo alemão, considerados o apogeu dessa modalidade musical.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Coletânea Grande Baile do Castelo Literário

Foram publicados seis poemas meus no livro ‘Coletânea Grande Baile do Castelo Literário’, publicado pela Editora Bookess. São 20 participantes, excelentes poetas, colaboradores regulares do Grupo do Facebook ‘Castelo Literário’, dedicado à Literatura.
Esta disponível como ebook ou edição impressa no site da Editora
Clique >>> http://www.bookess.com




sexta-feira, 4 de setembro de 2015

MOLHO DE TOMATE COM BANANAS

Desde criança molho para macarrão é o componente culinário que mais me intriga e desafia. Quando visitava minhas tias maternas (seis), além da fome de garoto, a principal motivação era apreciar a versão particular de cada uma delas para este componente.

Minha avó, Dona Catarina Rossi, deve ter ensinado a mesma receita para todas as filhas, porém cada uma – com salutar rebeldia – desenvolveu uma maneira diferente de obedecer à nona.  

Tia Maria se atinha às carnes, preparadas à parte, antes de entrar na orgia da panela.

Tia Francisca cuidava dos tomates, cozidos e despelados manualmente antes da confraternização geral.

Dina, a tia mais séria, cuidava dos temperos, ervas cultivadas na horta do fundo da casa, porém usados como penitência, com parcimônia e comedimento.

Tia Onofra, homenagem ao santo beberrão, era ousada e audaciosa, em seus molhos apareciam coisas que nunca havia comido antes. Acho que vêm desta irmã caçula minhas infrações culinárias.

Na Colômbia cansei de comer banana: ‘patacon’ o tempo todo. Então, durante as excursões, talvez influência peri-espiritual de minha tia Onofra, me ocorreu que nunca tinha experimentado molho de tomate com sabor banana. Voltei para casa determinado, resolvi avassalar.

Gosto de transgredir nos meus molhos – preparo vários inspirados em minhas tias. Pensei muito antes de ir para a cozinha, decidi preparar um combinado de carne moída, berinjela e alcaparras. Com temperos exagerados, impensáveis para minha tia Dina. A banana entrou no fim  como a tia Onofra que chegou temporã  semi-verdes, em rodelas, quinze minutos de cozimento, esmagadas com a colher nas paredes da panela.

Ficou ótimo, muito além dos meus mais otimistas prognósticos, comi dois pratos cheios, com meia garrafa de vinho. O que me sobrecarregou com o compromisso de ser rigoroso no jantar.


Vou treinar mais duas vezes antes de convidar meus queridos amigos glutões.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Cláudio Pastro - Basílica de Aparecida


Participei de uma visita pela Basílica de Aparecida guiada por Cláudio Pastro, nas últimas décadas responsável pelos trabalhos de ambientação do vasto e imponente monumento religioso do Vale do Paraíba. O mais concorrido santuário no Brasil.

Claudio Pastro, o ‘Michelangelo Brasileiro’ é considerado um dos maiores artistas plásticos vivos, no Brasil e no mundo. Especializado em Arte Sacra está realizando e coordenando o acabamento artístico do templo colossal dedicado a Nossa Senhora Aparecida. Também, à pedido do Papa Francisco, está finalizando a escultura dedicada a virgem que será instalada, brevemente, no Vaticano.


O genial paulista trabalha em Aparecida há muito tempo, há muitos papas. As grandes catedrais levam séculos para ficarem prontas e o artista está edificando uma das mais bonitas e mais 'agraciadas' do hemisfério sul.

A relação de suas obras é vasta e estrelada, só tem maravilhas. Basta ver no Google para confirmar e se espantar. Quem visitar o Pátio do Colégio – onde o artista vai às missas – poderá conhecer parte de sua arte, foi o escolhido para promover a última reforma da Capela.

Gostei muito de uma fala do artista durante o passeio monitorado pela igreja. Lembrou aquela antiga historinha edificante.

   Um frade pergunta para dois trabalhadores de um templo:
   “– O que estão fazendo?”
   “– Cortando pedra.” Responde o primeiro distraído.
   O segundo olha para o céu e fala emocionado: “– Construindo uma catedral.”

Claudio Pastro também olhava para o teto da Basílica quando anunciou sua perspectiva de trabalho.

   “Numa templo as obras não podem ser apenas decorativas,
    o artista deve pensar num horizonte de 500 anos, como Michelangelo.”

Fique pensando neste parâmetro que o artista estabeleceu para si próprio. Não achei descabido seu paradigma. Ninguém é capaz de prever as preferências artísticas e estéticas que a pátina do tempo vai marcar. Meio milênio, 500 anos é muito tempo, contudo Claudio Pastro é inspirado e brilhante, vai deixar sua marca para sempre.




segunda-feira, 15 de junho de 2015

Olhar do Fotógrafo - Com e Sem Câmara

O conto Las Babas del Diablo, de Júlio Cortázar(*), serviu de inspiração para uma das obras primas de Michelangelo Antonioni: Blowup (Blow-up - Depois daquele beijo). É antigo, de 1966, da era romântica e química das películas, porém, no que se refere aos processos criativos de composição da imagem pelos fotógrafos, permanece atual, interessante e intrigante.

A trama do conto, e do filme, é curiosa: um fotógrafo, durante seu trabalho, está tão interessado na composição da foto que não percebe que registrou um possível assassinato no fundo. O crime só se ‘revela’ durante a 'revelação' química. Intrigante a sobreposição das metáforas da 'revelação'.

É um filme de e para fotógrafos, nele o diretor capta com perfeição o olhar dispersivo e seletivo desses artistas da imagem. O passeio da câmara tenta reproduzir a forma ambígua como os fotógrafos veem o mundo no dia a dia. 

Logo no início do conto, Cortázar descreve como funciona o olhar do fotografo quando sai de casa armado com sua câmara, e como se transmuda quando sai sem ela. É um trecho brilhante e didático. Contudo, talvez redundante para os fotógrafos – amadores ou profissionais  – poque já detectaram neles mesmos essa forma dupla de enxergar a realidade.

Entretanto, vale a pena conhecer o texto curto onde o brilhante contista argentino descreve essa metamorfose do olhar. (Abaixo uma atrevida tradução e o original espanhol). 
“Entre as muitas maneiras de combater o tédio, uma das melhores é tirar fotografias, uma atividade que deve ser ensinada cedo para os garotos, porque exige disciplina, educação estética, olho bom e dedos firmes. Não se trata de ficar tocaiando mentiras como qualquer repórter, para flagrar a silhueta de personagem incauto que deixa a 10 da Downing Street, porém, ao andar com a câmera, há como que um dever de ficar atento, para não perder o brusco e delicioso reflexo do raio de sol numa pedra, ou o balançar das tranças de uma garota retornando com pão ou uma garrafa de leite. Michel sabia que o fotógrafo sempre trabalha com a permutação de sua maneira pessoal de ver o mundo com aquela que lhe impõe a câmera insidiosa (agora passa uma grande nuvem quase negra), contudo não desconfiava que seria suficiente sair sem a Contax para recuperar o tom descontraído, a visão sem enquadramento, a luz sem diafragma ou 1/ 250. Agora mesmo (que palavra, agora, uma mentira estúpida) poderia apenas se sentar no parapeito sobre o rio, observando as lanchas pretas e vermelhas, sem necessidade de pensar fotograficamente as cenas, nada mais do que se deixando ir no deixar ir das coisas, correndo imóvel com o tempo.”
***   ***   *** 
“Entre las muchas maneras de combatir la nada, una de las mejores es sacar fotografias, actividad que deberia enseñarse tempranamente a los niños, pues exige disciplina, educación estética, buen ojo e dedos seguros. No se trata de estar acechado la mentira como cualquier repórter, y atrapar la estúpida silueta del personajón que sale del número 10 de Downing Street, pero de todas maneras cuando se anda con la cámara hay como el deber de estar atento, de no perder ese brusco y delicioso rebote de un rayo de sol en una vieja piedra, o la carrera trenzas al aire de una chiquilla que vuelve com un pan o una botella de leche. Michel sabía que el fotógrafo opera siempre como una permutación de su manera personal de ver el mundo por otra que la cámara le impone insidiosa (ahora pasa una gran nube casi negra), pero no desconfiaba, sabedor de que le bastaba salir sin la Cóntax para recuperar el tono distraído, la visión sin encuadre, la luz sin diafragma ni 1/250. Ahora mismo (qué palabra, ahora, qué estúpida mentira) podia quedarme sentado en el pretil sobre el rio, mirando pasar las pinazas negras y rojas, sin que se me ocurriera pensar fotográficamente las escenas, nada más que dejándome ir en dejarse ir de las cosas, corriendo inmóvil con el tempo.”
 (*) Las babas del diablo – Las armas secretas – Ediciones Catedra, 1978

segunda-feira, 20 de abril de 2015

O PARAÍSO DE CADA UM


Ninguém entendeu direito (nem eu) quando publiquei esta mensagem cifrada no Facebook, mas, curiosamente alguns curtiram.
“Se é este o céu que a morte me destina f(SUM)
Quem dirá f(SUM) se eu morrer f(SUM) que é teu o erro?”
Contudo funcionou, três dias depois recebi uma resposta no e-mail pessoal.

Sr. Tomas Cavaleiro,

Sutil e elegante citação de Michelangelo, apropriada para suas intenções e incertezas. Com alguma complacência poderia ser um bom lema também para nossa Ordem.

Não esperávamos seu contato, assumimos que o Prof. Ângelo Simone havia declinado do convite. É incomum, porém já aconteceu.

Todavia, parece que, antes de entrar em coma, seu parceiro revelou nossa existência e nossas competências para o senhor. Inclusive ensinado a forma de fazer contato. Resolvemos aceita-lo como interlocutor.

Poderemos recebê-lo na próxima quinta feira, às 16 horas.

Rua Quirino de Andrade, 29 – 9º andar – Conj. 92 – Centro – S. Paulo
f(SUM) - Fraternitas Solvere Ultimum Mysterio

Li várias vezes a mensagem, sempre espantado, nas entrelinhas indicavam saber tudo sobre mim, devassavam todos meus pensamentos e dúvidas.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

SP – CAPITAL MUNDIAL DO GRAFITE?


Pesquisando para esta crônica consultei o Google sobre grafite e pichação. O resultado foi espantoso e revelador. Parecia auto explicativo, tão surpreendente que quase desisti de escrever o texto.
  
Faz muito tempo  muito antes do Haddad e Doria São Paulo tem se proclamado como a ‘Capital Mundial do Grafite’. Um pouco pela fama de alguns grafiteiros paulistas pelo mundo afora, outro pouco pela quantidade e variedade das intervenções que cobrem as paredes e muros da cidade.

O senso comum percebe diferenças entre 'grafite' e 'pichação', embora não seja fácil definir cada uma dessas intervenções. Aliás a língua portuguesa é uma das poucas em que estes dois conceitos estão separados. Um truque bacana para entender as características destas duas manifestações é digitar “grafite São Paulo” e “pichação São Paulo” no Google, pelas fotos as diferenças ficam evidentes (veja acima).

Os grafiteiros mencionam, com certo orgulho, que a pichação paulista tem até uma assinatura própria o ‘pixo reto’. Aqueles escritos ininteligíveis com letras de linhas retas que cobrem as paredes da cidade. Sempre que encontrar este ‘estilo’ em qualquer lugar do mundo é porque um paulista ‘trabalhou’ lá.

quarta-feira, 8 de abril de 2015

DUAS CATARINAS


Catherine Deneuve de Paris  do Cine Bijou e de muitos corações  como as santas, Catarina de Siena e Catarina de Alexandria , era bonita e inteligente na mesma medida. E ambos os atributos foram determinantes para a consecução dos destinos de todas as três.  

A beldade francesa começou como atriz de comédias e musicais românticos, porém logo se transformou em referência cultural e símbolo sexual planetário.

Catherine Fabianne Dorléac emprestou seu corpo, coração, mente e sensibilidade para ilustrar todos os tons e papéis que colorem e ocupam as mulheres pelo mundo afora, sempre com verossimilhança e autenticidade.

Foi a fêmea fatal e a dona de casa normal, e ás vezes a instável e perigosa mistura das duas. Deslumbrante em cada performance, todos os diretores se apaixonavam e viam nela a mulher ideal para suas histórias, teses e divagações.

A eterna musa de Yves Saint Laurent e o rosto mundial do Channel Nº 5. Além da Marianne, a figura oficial da República da França, a mais feminina das nações.


Katharine Hepburn de Connecticut  das tardes nos cinemões e das sessões da tarde  foi poderosa como as rainhas-herdeiras, Catarina de Médicis e Catarina da Rússia, todas absolutas durante seus longos reinados, muito além do bem do mal.

Chegou à maturidade junto com o cinema, aprendeu que o sucesso é feito de dubiedades e persistências, de luzes, sombras e mistérios; que é preciso mudar e se reinventar de acordo com os acenos do público.

Cometeu e escondeu todos os pecados da velha Hollywood, até o mais proibido deles, a homossexualidade. Ou não, até hoje seus biógrafos – amigos e inimigos – estão incertos. Contudo seu melhor papel romântico foi como a ‘outra’ de Spencer Tracy, um homem casado e problemático. Uma parceira dedicada e confiável, até o último dia.

Conheceu apogeus e eclipses na carreira. Foi 'o veneno das bilheterias' e acumulou 12 indicações para o Oscar. Ganhou o primeiro aos 27 anos e outros três (68, 69 e 82), depois dos 60, já como uma atriz anciã, Há muito entronizada como a rainha-herdeira do reino de Hollywood, por voto direto das plateias do mundo.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

CCBB - PICASSO E A MODERNIDADE (OUTRA VEZ)

É preciso, imprescindível mesmo, visitar a mostra do CCBB-Centro Cultural Banco do Brasil – “PICASSO E A MODERNIDADE ESPANHOLA  Obras da Coleção do Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia”, porque ver o trabalho do minotauro sempre é enriquecedor. 

Entretanto, atropelando o poeta Drummond, acho que me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas, sobretudo porque talvez esteja ficando ‘over’ demais - uma saturação - de novo explicar e ilustrar o desenvolvimento da arte moderna através do genial espanhol.

Com certeza Picasso foi o artista plástico mais importante do século passado. É impensável a História da Arte Moderna sem o espanhol, mas existem tantas outras vozes, com inesperadas modulações próprias, que necessitam ser mais ouvidas. É recomendável visitar a mostra várias vezes, e dedicar muito mais atenção ao complemento do que à coleção protagonista.

Por exemplo, se deliciar com as poucas obras expostas de Joaquim Torres-Garcia, talvez o artista sul americano com maior trânsito entre os efervescentes europeus. Aquele mesmo pintor que em 8 de julho de 1978 perdeu mais de 80 obras – uma tragédia para sua Fase Construtivista, que durou duas décadas – no incêndio do MAM do Rio. Catástrofe que abaixou todas as notas internacionais de segurança museológicas do Brasil.

Estacionar um longo tempo frente aos não-picassos e fluir às telas de Juan Gris, um pintor de vida breve, morreu com 40 anos, mas que deixou registrado um viés cubista delicado e reflexivo.

Picasso? Bem é impossível não nota-lo.


segunda-feira, 16 de março de 2015

GALOS DE CAMPANÁRIOS

Poema publicado num jornal xerocado chamado Exegese do Òbvio, Nome de um poema do meu primeiro livro, uma coletânea: Sol Na Garganta (clique>>>)

Parece que em Abril de 1973, mais de quarenta anos atrás, outra pessoa assinava seus poemas com meu nome. Um jovem poeta meio nietzscheniamo e temente a Deus, atento leitor de ‘Assim Falou Zaratustra.’

Á medida de caminhamos vamos deixando nossos outros para traz. Alguns poemas, algumas paixões, algumas convicções políticas, artísticas e morais ficam abandonados no passado como peles de cobras, precisam ser trocadas porque o novo corpo não cabe mais dentro das antigas medidas.





GALOS DE CAMPANÁRIOS   
'Fez-se a noite, e sobre o solitário
soprou o vendo frio.'
(Nietzsche)
I
      
Os cata-ventos giram
e o vento se imiscui
entre o silêncio e a espera.
É áspero e rascante
o silêncio friccionado.

Quando o silêncio é tangido
a cadência do ruído
rouba seu poder e mistério.
Torna-se um meio silêncio.

Silêncio total
é morte e desolação.
Mas o meio silêncio
é solidão.
Solidão eterna
sem remissão,
sem saudade,
sem esperança.

Enquanto houver alento
haverá algo, alguém, um objetivo,
um pensamento, um consolo.
Mas solidão sem esperança
é uma faca fria no peito,
é sentir Deus morto.

Solidão sem esperança
transcende Deus,
nem Ele próprio quis senti-la,
por isso criou o homem
e criou o vento.
É o vento quem carrega a solidão.
  
II
  
A solidão reside nos cata-ventos,
junto aos galos de campanário,
aves avessas e abandonadas.
Apenas de vez em quando
recebem a visita
de limpadores de chaminés,
pipas desgarradas,
corvos de Poe
e os pássaros de Hitchcock.

Nunca um galo de campanário
é reluzente e brilhante;
sempre pardo, cinzento.
São postos no alto
das cidades brancas
e ficam esquecidos
(menos das fotografias),
visitados por todos os ventos
e todas as solidões.

Quanto os cata-ventos
giram e gemem
é porque a solidão chegou;
então a corda rouca
do silêncio é tangida
e tudo mais emudece.

Se é noite,
as pessoas despertam fantasmas
e sonhos embalsamados:
moças casadoiras
invocam príncipes encantados;
loucos, por instantes,
recuperam a oca lucidez.
Gatos vadios eriçam os pelos
e cruzam os telhados molhados;
bêbados bebem mais um trago;
poetas fumam mais um cigarro
e descolam da alma outro poema.
Quietos e ensimesmados
todos lutam contra a langor
do silencio friccionado.
  
III
   
Ha também homens
de quem a solidão não se aparta:
são os profetas e anacoretas
(e loucos, mas estes não sabem),
que residem nos topos das colinas
em grutas e cabanas
sopradas a noite pelo vento,
aliás solidão.

E sofrem tanto
que Deus tem pena,
e lhes outorga o bênção
de compartilhar Seus sonhos.
Mas se a solidão persiste
então o diabo surge
e o medo espanta a solidão.
O medo pressupõe algo, outro,
enquanto a solidão
é a certeza do nada.

Mas para alguns,
como os galos de campanário
não ha Deus nem diabo,
apenas a solidão.  
                                    16/04/73

terça-feira, 10 de março de 2015

Empós uma Quimera / Após uma Fantasia

Mais uma colaboração com a vibrátil e ubíqua escritora e poetisa portuguesa Ana Júlia Machado (de Vianna do Castelo). Agora sou eu quem translitera um poema dela: Empós uma Quimera.

E sempre intrigante observar as sutis conversas e os efêmeros acordos entre as ideias e os vocábulos. As imagens poéticas são parecidas, mas as ênfases e cores mudam.