terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Hel 2 – A Ginoide Sampaulista


A caixa de aço chegou de Metropolis, Alemanha, em dezembro de 2025. Entregue pelo correio sampaulista(1), era imensa e pesada, reforçada por cintas e cantoneiras. Em letras cobre-avermelhadas, grandes e brilhantes, estavam gravados o nome do remetente – Carl A. Rotwang. Ao lado brilhava o selo de Salomão (o pentagrama) e uma seta indicando o lado de cima. Podia abrigar folgadamente uma pessoa adulta.

Menor, em tinta negra, constavam a destinatária, C. Blunt, e o endereço da minha loja de antiguidades e decorações na Bela Vista, especializada em Art Decó, no sofisticado Morro dos Ingleses. A guia de exportação declarava conter uma escultura.

Por acaso acabei me tornando uma das raras amigas de juventude do temido, poderoso e recluso cientista louco de Metropolis – um aglomerado de 50 milhões de habitantes que os jornais chamam de Neue Babel.
Minha amizade com Carl sempre foi temperada por temores. Permaneci ao seu lado nas disputas contra Joh Fredersen por insistência de Héloïse, que não queria deixa-lo isolado e sem nenhum amigo quando se casou com Joh. Até mudar para Sampaulo continuei sua aliada fiel. Era a única ligação entre ele e Hel. Mesmo assim fiquei espantada quando recebi sua carta pedindo um favor, guardar uma encomenda durante algum tempo. Nem cogitei recusar.

Para não correr riscos, sem mexer em nada, coloquei o ‘esquife’ no escritório, de pé, ao lado do cofre. Sempre que olhava a caixa selada meditava sobre os mistérios e tribulações da vida lendária de Rotwang. Mesmo depois de noticiarem sua morte nas violentas revoltas populares de Metropolis, em 2026, não tive coragem de violar o legado.

Por três anos a caixa ficou intocada, virou suporte para livros e revistas. Então, em setembro de 2028, recebi uma mensagem, num envelope branco, com meu nome por fora.

Charlotte,

Abra a caixa e o berço de aço, então repita três vezes, alto e de forma bem articulada: 'Hel, geboren mir zum Glück'. Depois tudo acontecerá sem sua intervenção. Apenas ajude no que for necessário.

Dentro coloquei um generoso pagamento pelos gastos e incômodos.

Por favor, seja discreta.

Carl A. Rotwang

O ‘por favor’ me deixou mais inquieta do que saber que Carl estava vivo.

Esperei a loja fechar, foi preciso soltar seis parafusos para abrir o ‘ataúde’. Dentro havia um cofre dourado com uma alavanca e um pacote com três barras de ouro. Acionei com cuidado e as portas deslizaram para os lados exibindo uma belíssima mulher de metal. Dependendo da luz, os reflexos cambiavam entre prata e cobre. Reconheci o rosto da minha amiga, que morreu muitos anos atrás ao dar a luz a Freder, o filho de Joh. Porém, seus traços estavam estilizados, aplicados numa musa impassível, deusa ou guerreira armada.

Obedeci as instruções de Rotwang, repeti três vezes “Hel, geboren mir zum Glück (Hel, nascida para minha felicidade).” E não fiz mais nada, apenas esperei. Sete minutos depois a mulher-máquina abriu os olhos, mexeu a cabeça e deu três passos à frente. Recuei assustada e assombrada. Olhou nos meus olhos, e, sem esboçar sinais de reconhecimento, disse com voz mecânica e distorcida.

“Preciso um lugar isolado para completar a transformação.”

Guardei o ouro e fechamos a caixa, Hel vestiu uma capa e fomos para casa. Morava perto, na Avenida 9 de Julho – o principal eixo sampaulista – no alto da esguia torre do Iapetec, um edifício comercial art decó reformado. No quarto de hóspedes a mulher de metal fechou a janela, abaixou as cortinas e ficou parada do lado da cama, estática, com os olhos cerrados. Uma aura azulada coruscante saiu de uma tomada próxima e  envolveu seu corpo, anéis circulares de luzes varriam a musa impassível, da cabeça aos pés; que parecia se dissolver em campos de forças opacos.

Durou 27 horas o sono restaurador. Fiquei em vigília assistindo a metamorfose. Devagar, lentamente, seu corpo e suas feições iam se humanizando. Perdiam a angulosidade e a rigidez metálica das estátuas modernistas e ganhavam formas graciosas e delicadas. A guerreira de amadura ficava cada vez mais parecida com a jovem estudante que fascinava Joh e Carl, os dois principais estudantes da Universidade de Metropolis, e rivais em tudo.

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Ganhei uma ‘sobrinha’ de 19 anos para passar férias comigo. Hel, a melhor colega da escola, renascida com um terço da minha idade. Reconheço que fiquei com inveja deste rejuvenescimento, mais o sentimento maior era de apreensão e estranheza.

Fisicamente a nova Héloïse era uma cópia perfeita da minha amiga, porém aprimorada, mais atlética, robusta e resistente. Sua personalidade, entretanto, estava alterada e instável. Vaidosa, voluntariosa e volúvel, cheia de manias e reações imprevisíveis. Não era mais a garota carinhosa, atenciosa e agradável da nossa juventude. Achava difícil conversar com ela. Sobretudo, não conseguia entender sua recente, louca e inamovível paixão por Carl.

Nos primeiros dias levei Hel para visitar os principais lugares sampaulistas. Ficou deslumbrada com a cidade, queria conhecer todas as praças, ruas e avenidas, experimentar tudo. Uma curiosidade vasta e insaciável, entretanto seca e cumulativa, apenas catalogadora. Parecia uma criança precoce e superdotada, fascinada por tudo e cheia de ‘por quês’. Tinha sempre infinitas perguntas, mas jamais fazia comentários. Quando questionei, respondeu que gostava de receber informações, trocar opiniões era inútil e irrelevante. Depois de uma semana disse que preferia passear sozinha. Achei indelicada, mas fiquei agradecida, Hel 2 era lacônica, chata e desagradável.

Acompanhei intrigada a evolução de Héloïse, no começo passava horas intermináveis andando pela cidade: entradas do Túnel 9 de Julho, Biblioteca Mário de Andrade, Praça Antonio Prado, Pacaembu e lugares semelhantes. Calculo que, como eu, apreciava a arquitetura art decó. De repente, talvez telecomandada, virou uma dondoca fútil e extravagante. Só pensava em maquiagem, roupas, joias e acessórios. Adotou o visual ‘Lolita’, a moda que pretende perpetuar a adolescência e preservar a menina fofa, ingênua e delicada. Preferia o estilo Lolita Classic a jovem escolar elegante, refinada e recatada, que nunca se torna adulta.

Achei espantosas estas variações da personalidade de Hel 2, mas não me surpreendeu muito, afinal era uma mulher-máquina, meio boba e descontínua, persignada, compulsiva e exagerada. Só mais tarde entendi por que escolheu o visual ‘Lolita’.

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Três meses depois do despertar da nova Héloïse, no meio da tarde, Carl me telefonou avisando que iria buscar Hel 2, já haviam combinado. Disse que gostaria de me encontrar para conversar. Concordei satisfeita, apesar do timbre e da dicção – perfeitas demais. Bem diferente da fala atropelada do meu velho amigo. Me preparei para novas revelações e surpresas.

Quando entrei em casa encontrei Hel 2 vestida como uma boneca de vitrine, de mãos dadas com um rapaz loiro, bonitão e elegante, aparentando uns 30 anos. Era um Carl dândi remoçado, idealizado e expurgado de todos seus defeitos. Estavam felizes e formavam um par bonito, pareciam personagens de uma novela ultrarromântica. Meu amigo repaginado levantou, me cumprimentou educadamente, e agradeceu a ajuda como anfitriã de Hel. Achei esquisitas duas coisas: a polidez inesperada e a ausência de explicações sobre o visual esnobe de ambos. Aproveitei a conduta bizarra e fiz as duas perguntas que me afligiam.

“O que aconteceu em Metropolis? De onde vêm Hel e você rejuvenescidos?”

“E uma história bastante atribulada. Vim para conta-la, será a primeira pessoa a ouvi-la.”

Me servi de uma dose longa de cognac, não ofereci para Hel e Carl, não sabia direito como trata-los.

“Desde que conhecemos a Hel mortal, Joh e eu iniciamos uma guerra total, surda e sem tréguas. Viramos inimigos íntimos. Ele precisava dos meus inventos, eu dependia do seu dinheiro. Meu oponente ganhou a primeira batalha, se casou e teve um filho com Hel. Mas ela morreu no parto. Joh passou a viver por Freder e para acumular fortuna e poder. Minha paixão por Hel era maior, infinita. Quando se foi, dediquei cada hora da vida para ressuscitar minha amada e destruir meu rival e seu filho.”

Hel 2 realmente não era Héloïse, ao lado de Carl 2 ouvia alheada sua pré-história, como se fosse de uma estranha.

“Foram muitos anos até conseguir criar uma mulher-máquina capaz de receber o espírito de Hel. Não falo daquela moça iludida, confusa e atrapalhada que Joh roubou de mim, mas da verdadeira Héloïse, que apenas eu conhecia e guardava no coração. A ‘maschinenmensch’ era a arma perfeita para vencer meu inimigo. Contudo, fui paciente e cuidadoso, aprimorei a invenção e esperei a hora certa. Com o tempo, convivendo com a Hel imortal, linda e perfeita, me ocorreu fabricar uma cópia semelhante a mim mesmo, para compartilhar o futuro com ela.”

“Sabia que Joh me vigiava e espionava. Logo que soubesse da existência da mulher-máquina tentaria se apossar dela. Sempre negociei mal com meu rival, temia seu poder, nunca consegui resistir às suas imposições. Então tomei precauções extraordinárias, criei dois casais de Hel’s e Carl’s imortais e enviei para duas cidades distantes. Assim poderia me vingar de Joh e Freder sem medo de morrer. Os novos seres máquinas que guardei escondidos eram muito mais avançados do que a Hel experimental, que reservei para ser entregue ao Joh.”

Hel 2, conspiradora, abraçou Carl e explicou. “Somos o casal sampaulista.”

“No começo de 2026 tudo estava preparado, dois pares de Hel’s e Carl’s dormitavam protegidos por aliados de confiança. Havia também outro homem-máquina, o Carl guarda-costas, desperto, ativo e camuflado em Metropolis, pronto para me ajudar. Então iniciei minha vingança. Indiretamente sugeri a Maria – a líder religiosa dos trabalhadores – levar as crianças para visitar o ‘Clube dos Filhos’. O que aconteceu depois foi amplamente divulgado pelos jornais, deve ter lido que perdi a segunda batalha.”

Carl enlouqueceu, se arruinou cegado pelo ódio e brilhantismo, pensei. Estranhava aquele discurso em primeira pessoa perguntei. “E o Carl de carne e osso? Morreu?” 

“Não. Foi salvo pelo Carl guarda-costas. Vive escondido num castelo secreto, próximo o Kiel, no Mar Báltico.

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Parecia um filme romântico, Hel e Carl 2 partiram como quem vai ser feliz para o resto da vida, que poderia ser bem dilatada. Perturbada permaneci na sala meditando sobre as doidices de Carl, o soturno amigo que Héloïse me deixou de herança.

Quando perdeu sua amada o Tempo de Carl colapsou. Acabou preso num casulo emocional de sonhos e desejos circulares, retido num agora eterno. O pensamento fixo era recuperar Héloïse, não importava a maneira. Hel 2 brotou deste nó insano. Uma garota bonita, inteligente e pueril; cheia de caprichos e ideias contraditórias exatamente como Carl imaginava que minha amiga fosse. Nasceu deformada por uma paixão avassaladora por um Carl, também, idealizado. Como seu criador, não tinha nenhuma perspectiva de evoluir ou amadurecer, porque ambos não entendiam as complexidades das pessoas, nem as relações humanas.

Sempre soube que o principal alvo do ódio de Carl, seu maior foco de inveja era Freder, o filho que Héloïse deu para Joh. O cientista ainda conseguia contemporizar e negociar com o pai, mas não suportava o filho. O plano que precipitou os confrontos de 2026 foi concebido para destruir o rapaz.

No fim da noite meio aplastada, meio estarrecida concluí que Carl deve ter dotado sua criaturas de fertilidade. Hel e Carl 2 teriam filhos. Então me ocorreu um velho pensamento vagabundo, assombrando minha mente esgotada: os homens-máquinas, 'os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam o numero dos homens(2).

Temi e tremi, a Guerra de Hel ainda teria outros combates, porque Joh e Freder haviam vencido a primeira batalha e permaneciam vivos em Metropolis. Ainda eram um desafio para Carl, escondido em Kiel. 


(1) Sampaulista’ era um adjetivo de naturalidade arcaico, que rivalizava com ‘paulista’, no século XVII. (Veja mais em Sampaulo: Vertente 1641 (http://www.paulistando.com.br/2013/10/sampaulo-vertente-1641.html)

(2) Tlön, Uqbar, Orbis Tertius – Conto de Jorge Luís Borges no livro Ficciones, 1941.
Borges atribuiu estas palavras a Bioy Casares, que afirmava (talvez por modéstia) tê-las lido na Anglo-American Cyclopaedia (NY-1917), num artigo sobre Uqbar, uma região perdida e lendária na Ásia Menor. Posteriormente, no conto, Casares prova ter dito a verdade sobre a fonte.

4 comentários:

  1. Obrigado, Gil Ordonio, pela atenção e comentário. A Hel é irresistível.

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  2. Muito obrigado pela declaração Cristina Costa. Eu a Hel sampaulistana ficamos muito emocionados.

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