sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

1911 - CAMPEONATO SAMPAULISTA DE FUTEBOL


Faz três anos que o Professor Cláudio Esteves é meu instrutor de ‘permeação’, a arte de transitar entre realidades alternativas. O dom – ou superpoder – de viajar por tempos paralelos depende de uma mutação genética invulgar, que contempla um indivíduo em cada três milhões. Como qualquer doença rara, aberração ou graça divina.

Meu ‘treinador temporal’, para quem conhece sua dupla biografia, é famoso por duas especialidades e uma extravagância. Dentro da Ordem Nova Templária Miçtomundos, o Cavaleiro Esteves figura entre as maiores autoridades na técnica ‘permeante’, o deslocamento por mundos múltiplos. Na vida linear está entre as sumidades na Filosofia de Aristóteles, respeitado tanto na São Paulo matriz, quanto na Sampaulo da Vertente 1641 (a derivação temporal criada pela Ordem naquele ano [Clique >>> SAMPAULO: VERTENTE 1641]). Sua excentricidade é mais discreta e popular: torcedor de futebol, apaixonado, obstinado e compulsivo.


Não entendo nada de ficção-científica e realidades multiplicadas, exceto o que aprendi com Juzé – o Cavaleiro Tempo-templário José Abrantes – descobridor do dom ‘permeante’ que possuo e meu mentor na Ordem. Explicou que as famosas e milenares rotas terrestres, como o Caminho de Santiago, a Rota de Seda e a Appalachian Trail, funcionam como veios místicos e telúricos que envolvem o globo inteiro. A América do Sul é cortada pela Trilha de Peabiru, que vai do Atlântico ao Pacífico – e passa pelo centro de São Paulo. E, mais importante que tudo, em alguns pontos destas trajetórias extraordinárias existem portais que permitem a transição entre tempos paralelos.

Tudo é muito confuso, fico desnorteada com a topologia multifacetada destes mundos sobrepostos. Para complicar as coisas, sou noviça na Ordem e Juzé, meu amigo há 15 anos, está retido na Vertente 1641 por causa das oscilações quânticas do portal. A ligação entre São Paulo e Sampaulo ficará fechada por 21 anos, é impossível transitar entre as cidades siamesas enquanto durarem as turbulências.

A única alternativa para comunicação com Juzé é trocar bilhetes e cartas, mas a logística é complicada. As mensagens são transportadas por ‘permeantes’, que voltam no tempo, até antes do fechamento do portal, e deixam as remessas com depositários. As correspondências (e eventuais pacotes) são guardadas para serem entregues aos destinatários nas datas especificadas. Um exercício de paciência, pode demorar anos, os papeis chegam envelhecidos e amarelados. Apesar de que, no tempo absoluto, o envio e a remessa, a escrita e a leitura, podem ser próximos, até simultâneos.

São estes paradoxos que me atrapalham. Sou uma moça romântica, sócia do Clube de Leitura de Jane Austen, tenho Mr. Darcy perto do coração, tatuado debaixo do seio esquerdo. Portanto, estudar ‘permeação’ é uma provação, prefiro ler poesias e novelas. Talvez para me distrair, ou facilitar minha integração na Ordem, Juzé conta fofocas sobre os Monges Tempo-templários residentes em São Paulo. Na última carta sugeriu que perguntasse ao Professor Esteves sobre o Campeonato Sampaulista de Futebol de 1911, e o que achava de Maradona.

Perguntei sobre o campeonato. O Professor Cláudio Esteves sorriu constrangido, depois gargalhou, digerindo devagar um orgulho dissimulado.

“Melhor saber desta história direto por Juzé, aposto que a versão dele será muito mais interessante e confiável. Silogizando: sou torcedor e apaixonado, logo, parcial e tendencioso.”

Lembrei da segunda questão. “O que acha de Maradona?”

“Outra isca do canalha Juzé, que tem pretensão a profeta?” Continuava de bom humor. “Quem viu a performance de Ferenc Puskás regendo os Mágicos Magiares em 1954; depois testemunhou o garbo do Kaiser Franz Beckenbauer comandando a Seleção Alemã em 1978; só pode achar que Diego Armando Maradona é uma involução. Tem talento mas não elegância, nas quatro copas que assisti parecia um orangotango conduzindo a bola, meio empurrando, meio tropeçando nela”.

Escrevi para Juzé contando minha conversa com o Cavaleiro Esteves, mencionei meu espanto com o desprezo pelo jogador argentino, quase agressivo. Quinze dias depois chegou uma carta longa, relatando as tribulações futebolísticas do meu treinador, em folhas amareladas e vincadas, porque esperaram quatro anos para serem lidas.

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Saudades e carinhos, querida Marina Camargo.

A história que vou contar é interessante, não sei se verdadeira, porque as versões, como os mundos múltiplos, bifurcam e trifurcam até o emaranhamento.

Dentro da comunidade Tempo-templária Cláudio Esteves é um radical livre, um torcedor fanático de futebol. Vem de uma família de fazendeiros sampaulistas, entrou para a ordem em 1820 e construiu dois currículos admiráveis. Entretanto, na virada do século XX, estudando na Alemanha, desenvolveu um extremado interesse pelo novo esporte inglês. Como é esbelto, ágil e flexível, e se mantem em forma, virou um bom jogador. Nos tempos amadores defendeu valentemente – com o apelido de Clauves – o Clube Atlético Sampaulistano. Ás vezes ainda arrisca algumas peladas.

Certamente deve saber, Marina, que os adictos do futebol adoram os martírios e deleites reservados apenas aos que se propõem a torcer. Apesar de não conseguirem explica-los para adventícios. São capazes de guardar velhos rancores e fazer loucuras pelos seus clubes do coração. Clauves é fanático pelo CAS – Clube Atlético Sampaulistano, o time de maior torcida em Sampaulo. Talvez o desprezo por Maradona venha dai, das derrotas do CAS contra times argentinos, mais sequelas de família dos tempos da Guerra do Prata.

Para agravar, como Esteves também é cavaleiro ‘permeante’ e tem vida longa, pôde realizar façanhas impensáveis para o homem comum. Participou, com o amigo Charles Miller, da introdução do futebol nas duas cidades paralelas. Assistiu todas as Copas do Mundo. Acompanhou das arquibancadas todos os Campeonatos Paulistas e Sampaulistas. Contudo, sua maior façanha, foi intervir nestes dois campeonatos em 1911, e influenciar nos resultados.

Apesar dos rigores formais de sua cátedra, seu treinador, moça, é um torcedor irracional – um holligan lógico – não respeita limites no futebol. Viajando pelo futuro, fazendo prospecções e extrapolações, Clauves concluiu que o CAS e o CAP – os times replicados nas cidades paralelas – não teriam grande destaque na história futura do futebol. O que era injusto na sua visão do mundo da bola. Então, analisando as condicionantes, concluiu que um bom ponto de flexão desta tendência indesejada seria o ano de 1911. Se preparou para consertar as coisas.

O grande adversário se chamava AAP-Associação Athlética das Palmeiras, bicampeã dos anos 1909 e 1910. Era uma equipe em ascensão, ameaça açambarcar seu clube querido. Sobretudo, porque dividia com o CAS a representação do segmento mais conservador e afluente da torcida. Pior ainda, possuía inclinações muito mais elitistas, só admitia no time doutorandos, engenheiros e bacharéis de Direito.

O plano de Clauves era intrincado e astucioso, precisava fortalecer uma terceira força, o Sport Club Germânia (o atual Pinheiros, Marina), para derrotar e desbancar a Athlética das Palmeiras. A primeira providência foi alegar um período sabático, solicitar afastamento do CAS em 1910 e se eclipsar. Em segredo acompanhava atentamente todos os preparativos do Campeonato de 1911. De inicio ajudou os irmãos Francisco e José Vaz (ex Sport Clube Internacional, suspenso pela Liga) a se transferir para o clube teutônico, que escolheu como ferramenta para seus intuitos.

Na primeira quinzena de Junho de 1911 as coisas ficaram complicadas, por sorte as armações também estavam maduras. A Athlética ainda mantinha amplas chances de ganhar o titulo, Clauves decidiu reverter a situação. Disfarçado, junto com outro recém-emigrado, solicitou filiação ao clube alemão. Como previamente acordado foram aceitos, eram exímios futebolistas, aumentariam bastante as forças germanistas.

O jogo chave entre Germânia e Athlética aconteceu em 16 de julho no Velódromo Sampaulista, perto da Basílica da Consolação. Era decisivo, a AAP precisava vencer para preservar suas pretensões ao tricampeonato. Entretanto, o azul-negro entrou em campo com dois estreantes, desembarcados da Europa: Wilhelm Baumgartner, craque da ponta esquerda, comparável a Arthur Friedenreich, e um jogador inominado, que as crônicas não guardaram memória. O jogo avançava equilibrado. Indignada e desesperada a APP esgotava todos seus recursos técnicos, porém, quando o placar chegou a 4 a 3 contra, a violência deselegante explodiu. Um atleta foi ferido na cabeça e dois outros expulsos, a plateia entrou em campo e o juiz encerrou a partida e declarou o Germânia vencedor.

A Ordem ficou estarrecida com o abuso e petulância do Cavaleiro Cláudio Esteves, resolveu agir para minimizar as manipulações temporais indevidas. Entretanto, os Monges Tempo-templários também têm simpatias, torcem por times diferentes. Algumas predileções pensaram e as correções foram erráticas e dirigidas. Atualmente, é quase impossível garantir quais desdobramentos são lineares e normais e quais foram induzidos. Como resultado, o Futebol Brasileiro daquela época ficou difícil de entender, porque abriga uma excrescência histórico-temporal. Não suficiente para gerar uma nova Vertente, as fibras do tempo foram capazes de fagocitar o nó-cego de futuros truncados.

A Liga Sampaulista de Foot-Ball não acatou a reclamação da AAP sobre as irregularidades nas inscrições dos alemães e confirmou a vitória do Germânia. Sublevada a Athlética das Palmeiras, como já havia feito antes, se retirou do campeonato em protesto. Nos anos seguintes foi decaindo até se dissolver. A maioria dos atletas aderiu ao CAS, que passou ciclotímico pelo período de profissionalização, mas se firmou para alegria do Cavaleiro Esteves – como a equipe mais popular da Vertente 1641.

A Liga Paulista de Foot-Ball, na tua S. Paulo, validou a vitória do Germânia, e, mais uma vez, a AAP se retirou da competição. Porém, na São Paulo matriz, a Athlética e o Paulistano continuaram adversários ferrenhos até a profissionalização do futebol, quando, 1929/30, abandonaram as disputas oficiais.

Posteriormente, jogadores das duas agremiações dissolvidas, atletas que aceitavam a profissionalização, se uniram para formar o São Paulo Futebol Clube. Misturando as cores do CAP e Athlética. Para desgosto do Professor Cláudio Esteves, o novo time não alcançou a mesma prevalência do CAS da outra realidade.

Marina, para você que convive com o Professor Esteves é conveniente saber que, de acordo com as conversas livres e não oficiais no interior da Ordem, a frase final do parágrafo anterior deveria ser reescrita com os seguintes acréscimos e ênfases: “Para desgosto, E APESAR DOS ESFORÇOS, do Professor Cláudio Esteves, o novo time AINDA não alcançou a prevalência do CAS da outra realidade”.

Porque, os Cavaleiros da Ordem não têm dúvidas, o torcedor fanático trabalhou, trabalha e trabalhará para moldar os Campeonatos Sampaulista e Paulista aos seus desejos e vontades. É bom salientar que o facínora Clauves tem como identidade secreta um dos melhores ‘permeantes’, capaz de se mover entre as realidades com rapidez e eficácia fantásticas. Poucos detectam ou percebem seus rápidos deslocamentos temporais. Nas cidades simultâneas a presença do Cavaleiro é quase ubíqua, não é incomum participar de duas reuniões ao mesmo tempo.

Um beijo, Marina, preserve o olhar esperto e atento de Elizabeth Bennet.


Juzé

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