quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Repensando a 'Mulher Frívola'


Ouvindo comentários sobre o Oscar 2015 levei um choque de desfibrilador. Uma jornalista de Moda, comentando sobre os desfiles no ‘tapete vermelho’, argumentava que as atrizes optaram por vestidos mais contidos e minimalistas porque não queriam parecer ‘frívolas’.

O primeiro espanto foi a escolha do adjetivo ‘frivola’ em 2015, me pareceu datado e disfuncional. O segundo choque veio junto com uma questão: mas o ‘tapete vermelho’ não é o símbolo icônico da frivolidade?

Parece que não. Ou não mais. As divas, lideradas por Cate Blanchett, reclamavam que no ‘tapete vermelho’ são questionadas apenas sobre roupas, modas e joias; raramente indagam acerca dos seus trabalhos nos filmes.

Será que será? Apesar de passarem semanas escolhendo modelos, em verdadeiros conselhos estratégicos de guerra, não querem conversar sobre o que estão vestindo, usando e exibindo?

Desfibrilador de novo. O que estava acontecendo? As moças estavam repudiando a frivolidade como um comportamento reprovável ou reinvidicando a frivolidade como uma atitude socialmente aceitável, tanto que nem era mais preciso conversar sobre ela?

Fui no dicionário conferir e repensar 'frivola' e 'frivolidade'. 

Dá para apostar que todos homens e mulheres que gostam de ler, em algum nível de consciência, têm objeções à ‘mulher frívola’, Foram séculos de propaganda e doutrinação. “Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”. Este é o modelo temido da mulher frívola, repetido por Machado de Assis em ‘Memorias Póstumas’ e por toda a literatura romântica e realista, brasileira e europeia. A mulher leviana, fútil, falsa e interesseira era o demônio. Só perdia para a cortesã. E quase sempre se confundia com ela.

Mas exatamente o que é uma ‘mulher frívola’? A mais repetida crítica endereçada ao contingente feminino na Literatura, Teatro, Cinema e Televisão? Artes-espelhos nas quais os atos humanos são analisados?

Pesquisando definições e descrições das 'mulheres frívolas', dá para isolar dois componentes no conceito: a) fútil e consumista; b) volúvel e leviana. E normalmente ‘a’ implica em ‘b’. Mas não é necessária esta conexão, nem verdadeira estatisticamente.

A consequência ‘volúvel e leviana’ acontece em tramas que tendem ao trágico ou ao  dramático. Para contrabalancear, nos romances, novelas e filmes, também existem incontáveis mulheres ‘fúteis e consumistas’ que vivem felizes e fazem a felicidade dos maridos. Talvez a peça ‘Casa de Boneca’ seja um clássico porque desmonta as falácias desse mecanismo.


Voltando ao Oscar – o melhor lugar do mundo e o mais ressonante microfone para discursos arrevesados ou disparatados. Quem sabe as atrizes, representando as mulheres que trabalham e se sustentam (e segundo várias pesquisas, com melhores resultados do que os homens) estejam apenas reivindicando o direito de serem fúteis e consumistas. sem serem discriminadas ou recriminadas.

O que as vezes significa fazer simplesmente o que gostam. Afinal trabalham muito para comprar o que querem. Como os homens, quando viram colecionistas obsecados ou assistem horas de esportes na TV.

Sobre o segundo componente do conceito ‘mulher frívola': a leviana e volúvel? Bem isso é igual ao ‘homem galinha’ faz parte dos acertos e desacertos da vida, nesta nova reengenharia dos casais com poderes e direitos iguais.

4 comentários:

  1. O confuso mundo do ter...
    Amigo como sempre brilhante em tudo que faz,que maravilha ler esse artigo,crônica,de tamanha verdade,sem atropelar a tal vaidade...
    Acostumamos com tudo até com o que é ruim...Exceções aqui...
    Falácias sem conteúdo algum,pessoas sem argumentos.Frivolidades...
    Achar o que não existe egocentrismo e falta de objetivo cercam o mundo da moda e aqui não poderia ser diferente.
    Saudades do que conheci sobre mulheres como Coco Chanel,que escondeu sim sua realidade,mas mostrou sua força.
    Será que um dia Ser valerá mais que ter?
    Nesse mundinho ai penso que não.
    Abraço professor..
    Suely Sette

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  2. Suely Sette, muito obrigado pela visita ao Paulistando.
    Como disse na crônica, fiquei espantando das pessoas ainda usarem o adjetivo ‘frívola’ com o mesmo sentido – e preconceito embutido – que a Literatura Realista consagrou.

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  3. A revolução feminina só está se iniciando.A mulher foi objeto de consumo,em todos seus papéis, até a revolução feminista. Conseguiu liberdade econômica, e ceror respeito social,porém,afetivamente,jamais se colocou de forma tão carente e inferiorizada.Na busca do afeto masculino,se tornou fácil e mais objeto de consumo do que sempre. A reprovação aos modelitos super decotados e chamativos,talvez seja o início da tomada de consciência em relação aos aspectos que mencione acima.

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  4. Certamenta, Ida Guttenberg, a mulher e o homem devem ter igualdade. Contudo acho que a mulher tem uma forma especial de ver e estar no mundo, que não pode perder.

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