sexta-feira, 6 de março de 2015

Odete Lara Me Beijou ou Não?


Por volta dos 18 e 19 anos havia uma constelação de deusas loiras para se apaixonar, difícil de resistir. Catherine Deneuve, Liv Ullmann, Monica Vitti, Jane Fonda. Ursula Andress, Susanaah York... Mesmo preferindo musas os cabelos negros, como Suzanne Pleshette e Anouk Aimée, era impossível ser fiel. Havia também uma deusa brasileira, Odete Lara, tão deslumbrante e classuda como qualquer estrela estrangeira.

Virei fã de Odete, resolvi oferecer para minha dama uma prova definitiva de idolatria. Em 1968 comprei ingresso para ‘O Cinto Acusador’, no Teatro Itália, resolvido a conhecer pessoalmente minha paixão. Eu e um amigo (Castro? Freitas?) esperamos uma hora até Odete sair. Foi um momento epifânico, quando entrei no camarim ela sorriu, foi gentil, autografou o programa, e até me deu um abraço e um beijo. Recordo até hoje de seu perfume, da macia calidez dos seus lábios. Fiquei sem fazer a barba do lado direito durante um mês.

Porém, entretanto e sobretudo, de acordo com o teimoso Google, cada vez que eu o interrogo seriamente, ele afirma e repete que este momento sublime jamais pode ter acontecido, porque Odete Lara nunca encenou ‘O Cinto Acusador’, em nenhum lugar.

Vasculhei meus arquivos pessoais
mas não encontro o programa autografado  até recordo sua cor, vermelho sanguíneo, com uma moça em negro – sumiu, desapareceu, ou foi roubado. Igual ao meu amigo Castro ou Freitas que nunca mais encontrei. Começo a desconfiar que 10 milhões de paulistas e todos os institutos culturais estão envolvidos nesta pegadinha maldosa.

O Google, intrigante e criador de cizânias, acintosamente garante, e tem provas, inclusive da Enciclopédia Itaú Cultural, que na montagem que pretendo ter assistido atuavam Yara Amaral e Walderez de Barros, ex esposa de Plínio Marcos.

Não tenho nada contra essas duas senhoras, boas e competentes atrizes, com uma longa lista de trabalhos sérios, contudo ambas são morenas. Tenho certeza absoluta de que elas não estavam presentes quando me encontrei com Odete, minha diva loira.

Diante da rígida teimosia do Google sobram duas alternativas:

Ou minha lmemória está me enganando? E as memórias adoram iludir porque são falazes e traiçoeiras. Já tentaram me consolar dizendo que a peça pode ter sido outra, num teatro diferente, num outro ano. O encontro pode ter ocorrido num canal de televisão, na saída de um show. Que o Castro, ou Freitas, pode nem ter ido comigo. Sei lá?

Será que Melpômene, a musa da tragédia (Porque ‘O Cinto Acusador’ é um drama, eu acho?), teve compaixão de mim, e solidária com meu amor de sapo por estrela, ajudou e implantou esta vívida lembrança romântica na minha cabeça, com um beijo da minha doce e idolatrada Odete?

Uma outra explicação, que eu ainda não descarto inteiramente, é que o Google não passa de um reles enganador mentiroso.

Infelizmente, como minha deusa loira faleceu recentemente (que Melpôneme a tenha e me guarde um lugar do seu lado) não posso pedir seu testemunho. E, se fosse viva, quem sabe, é possível que nem se lembrasse mais de mim.

Então fica minha palavra contra o Google. Podem escolher. Mas não compartilhem este texto, não quero que o Facebook inteiro duvide de minha memória.

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