segunda-feira, 20 de abril de 2015

O PARAÍSO DE CADA UM


Ninguém entendeu direito (nem eu) quando publiquei esta mensagem cifrada no Facebook, mas, curiosamente alguns curtiram.
“Se é este o céu que a morte me destina f(SUM)
Quem dirá f(SUM) se eu morrer f(SUM) que é teu o erro?”
Contudo funcionou, três dias depois recebi uma resposta no e-mail pessoal.

Sr. Tomas Cavaleiro,

Sutil e elegante citação de Michelangelo, apropriada para suas intenções e incertezas. Com alguma complacência poderia ser um bom lema também para nossa Ordem.

Não esperávamos seu contato, assumimos que o Prof. Ângelo Simone havia declinado do convite. É incomum, porém já aconteceu.

Todavia, parece que, antes de entrar em coma, seu parceiro revelou nossa existência e nossas competências para o senhor. Inclusive ensinado a forma de fazer contato. Resolvemos aceita-lo como interlocutor.

Poderemos recebê-lo na próxima quinta feira, às 16 horas.

Rua Quirino de Andrade, 29 – 9º andar – Conj. 92 – Centro – S. Paulo
f(SUM) - Fraternitas Solvere Ultimum Mysterio

Li várias vezes a mensagem, sempre espantado, nas entrelinhas indicavam saber tudo sobre mim, devassavam todos meus pensamentos e dúvidas.


Ângelo falou da f(SUM) uns quatro anos atrás, quando voltou de um jantar com velhos amigos. Se encontravam cada vez que o dia sete caia num sábado, exceto nos fevereiros, meses anómalos. Contou que Max Reger, um advogado alemão seu conhecido, havia falado de uma ordem religiosa agnóstica que garantia a imortalidade virtual e a sobrevivência do ego depois da morte. Meu amigo era cético e inflexível, achava tudo isso pseudociência, teorias esdrúxulas, besteiras, lendas urbanas, meros zumbidos culturais.

“Imagine, Tommaso, para entrar em contato com eles é preciso escrever três vezes f(SUM) – igual uma fórmula matemática de função – em qualquer rede social, num texto inteligível. Afirmam que monitoram a rede mundial inteira, o tempo todo, se tiverem interesse respondem. Absurdo.”

Diferente de Ângelo, fiquei impressionado e deslumbrado com a ideia, entendia que esta maravilha representava um avanço previsível e desejável da Informática e Internet.

*****     *****     *****
Era um salão amplo e sem divisórias, no penúltimo andar do edifício antigo, com três janelas voltadas para os arborizados jardins da Biblioteca. O que mais me inquietou foi a esquisita normalidade do lugar, tudo parecia informal e impessoal, novo e velho ao mesmo tempo. A profusão de estantes sobrecarregadas de caixas e livros sugeria labirintos. Limpos, vazios e silenciosos. Perto das janelas, sobre um vasto tapete oriental, uma mesa de aço e vidro dominava o espaço despojado, com dois amplos monitores em cima. Ao redor duas cadeiras e duas poltronas verdes. Num canto, discreta, se escondia uma geladeira pequena, que servia de suporte para bandeja, xícaras e copos. Não havia plantas nem enfeites, o foco de atenção estava direcionado para uma cópia fiel, tamanho real, do quadro A Ilha dos Mortos de Arnold Böcklin, com sua escura mancha de interrogação no centro.

Um homem de 40 anos, de traços italianos, se apresentou como Frater Júlio e me conduziu até uma das poltronas. Enquanto apreciava a pintura, me trouxe um copo de água.

“É a reprodução da versão de Berlin?”

“Sim, a melhor das cinco.” Junto com sua voz ouvi música baixa, talvez saindo das paredes, A Marcha Fúnebre, ou Eslava, de Tchaikovsky.

Sentou-se e começou a falar. “É inusitado negociamos a imortalidade virtual com terceiros, porém, conhecemos as absolutas limitações do Professor Ângelo, e sabemos que o senhor é seu companheiro e herdeiro oficial, por isso concordamos em abrir uma exceção.” Procurou os meus olhos, não fiz comentários, Frater Júlio continuou.

“Acho melhor começar falando de nossa Ordem. A Fraternitas Solvere Ultimum Mysterio foi fundada por um ex-beneditino, por isso funcionamos como uma irmandade laica, secreta, exotérica, cientifica e agnóstica. Temos interesses e especialistas em varias áreas, porém nossos principais alvos de pesquisas são Informática, Telecomunicações e Computação. Contamos com milhares de monges colaboradores que vivem como hackers, cientistas, pesquisadores e engenheiros de jogos. Estamos espalhados pelas empresas, universidades e institutos do mundo. Gostamos de nos chamar de ‘ciberespaciários’, porque começamos a nos organizar em 1968, junto com o filme 2001, quando ‘ciberespaço’ começou a virar moda.”

Tomei um gole de água. Estava incomodado, Frater Júlio era um espectro? A música subliminar parecia emanar de seu corpo e o volume acompanhava a modulação de sua fala.

“Faz uns 10/12 anos criamos um dispositivo inovador – o ‘egochip’ – capaz de capturar e armazenar o psiquismo, personalidade e memórias do hospedeiro. Depois de ‘salvada’ a pessoa, podemos reativa-la em ambientes virtuais, como um avatar consciente. Chamamos isso de imortalidade virtual. Nossos especialistas em jogos e simulações conceberam vários universos digitais baseados em grandes romances, épocas históricas, sagas, séries e franquias famosas. Nestas instalações controladas, apelidadas de ‘egovivências’, as entidades replicadas podem perdurar eternamente, preservando suas lembranças, desejos, vontades e livre arbítrio, como um individuo normal. Mais importante de tudo: podem interagir em comunidades virtuais habitadas por avatares de pessoas revividas, vultos históricos e personagens fictícias, sem distinguir uma das outras.”

Espantado e perplexo perguntei: “Como o processo inteiro funciona?”

“Implantamos o ‘egochip’ na nuca do hospedeiro e, durante alguns meses – de três a seis – vai sendo construído o ego replicado. Quando o portador falece podemos ativar seu avatar consciente em qualquer um dos nossos universos virtuais.”

Temperei a voz com ironia e continuei a conversa. “Como são omniscientes devem saber que 27 meses atrás Ângelo entrou em coma profundo, aparentemente não tem consciência do mundo exterior. O implante funcionaria nele?”

Frater Júlio ignorou (ou não percebeu) o recado na minha voz e respondeu neutro. “Desde que recebemos sua mensagem no Facebook examinamos todos os exames do Prof. Ângelo que trafegaram pela rede. Estamos seguros que podemos capturar o ego e as memórias do seu companheiro e replica-lo.”

“Como podem comprovar que possuem mesmo esta tecnologia fantástica?”

“Normalmente, depois de implantar o ‘egochip’, induzimos o hospedeiro a sonhar três histórias, agradáveis e vívidas, que ficam na lembrança do sonhador como dias adicionais, ou memórias intercaladas. Previamente entregamos três envelopes selados documentando os sonhos futuros, com a indicação de que devem ser abertos apenas depois de cada  evento. Aí depende de o candidato acreditar ou não. Acatamos a decisão.”

Permaneci calado meditando. Júlio também se ausentou por alguns momentos antes de continuar.

“No seu caso é diferente. Poderíamos instalar o ‘egochip’ na sua nuca. Contudo, mesmo convencido pelos sonhos, precisaria tomar uma decisão que colide com o sistema de valores do seu parceiro.”

Ainda não tinha resposta para essa questão crucial: ignorar ou não as convicções de Ângelo. Indaguei meio bruscamente. “Quanto a f(SUM) cobra pela imortalidade virtual?”

“Não temos um preço fixo, cada situação é diferente. Como as Ordens tradicionais, cumprimos uma missão transcendental e supra humana. Nossa responsabilidade é garantir a sobrevida dos avatares conscientes por séculos, talvez milênios. Portanto, operamos em outra escala de tempo, preferimos receber como pagamento uma parte da herança dos candidatos. Entretanto, como sua situação é invulgar, nossa intenção é postergar a cobrança para o futuro, quando for decidir sobre o destino da sua herança, quem sabe estará pronto para se juntar ao seu parceiro na eternidade virtual.”

Aquela oferta me desmontou, fiquei encantado com a generosidade e assustado com a grandiosidade da f(SUM). Era como negociar com o incomensurável.

“Preciso pensar com calma.”

“Entendemos. Todavia, o tempo é decisivo para o professor, recomendamos a implantação imediata do ‘egochip’. Uma das funções do dispositivo é se acoplar no sistema cognitivo do portador e facilitar a vida do hospedeiro. Aliviar dores, induzir sonhos interessantes e exercitar todas as regiões do cérebro. Se sua decisão final for negativa, desabilitaremos o implante.”

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Aos 23 anos participava do grupo ‘Vozes Camerísticas’ que promovia recitais em clubes e residências. Uma das apresentações aconteceu em Valinhos, num sitio elegante. Por causa do programa, centrado em Tchaikovsky, uma sumidade estava na plateia: decano aposentado de Economia, consultor financeiro e grande investidor. Cantei algumas canções raras do russo, Ângelo veio me cumprimentar, imediatamente ficamos amigos. Daí para frente, tomou conta da minha vida, arrumou uma bolsa de estudos na Alemanha e incentivou minha carreira. Aos 30 anos mudei para sua casa.

Fomos felizes, nossas afinidades convergiam, por décadas viajamos pelo mundo, ou participando de, ou assistindo óperas, apresentações, concertos e festivais. Durante toda a nossa relação Ângelo cultivava uma ideia fixa que eu ajudava a alimentar. Era seu maluco ‘sonho escalafobético’, falávamos dele quase todo dia. Um desejo insano, estranho, absurdo e irrealizável que apenas nos dois compartilhávamos. No principio fiquei com ciúmes, contudo, a própria bizarrice da fantasia serviu como antidoto.

Depois de conhecer a f(SUM) compreendi que aquele capricho fantasioso poderia ser vivenciado. Mas será que Ângelo desejava efetivamente viver seu 'sonho escalafobético’? Aprovaria aquela vida de videogame? Ou escolheria apenas descansar em paz? Resolvi convocar os ‘ciberespaciários’ para me ajudar a resolver o dilema.

Foi intrigante, no dia que tomei a decisão recebi o e-mail da f(SUM) me convidando para uma nova conversa.

A proposta que apresentei ao Frater Júlio era uma provocação, imitava um daqueles desafios que aparecem nas óperas e novelas de iniciação. Primeiro, a f(SUM) deveria descobrir sozinha qual era o ‘sonho escalafobético’ de Ângelo e realiza-lo. Segundo, como o compromisso seria perene, exigi receber uma mensagem do meu parceiro aprovando ou não minha decisão. Alma e espírito são conceitos complicados, não sei se acompanhavam a replicação dos ‘avatares conscientes'.

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Meu querido Tommaso.

Acordei numa manhã ensolarada no quarto de um palácio em Moscou, decorado de creme e cor de rosa. Lembrava completamente da minha vida passada, até dos incríveis sonhos que tive durante o coma. Falava russo como um nativo e conhecia minuciosamente os costumes e as intrigas da corte e da alta sociedade mundial ‘fin de siècle’. Minha agenda estava repleta, com compromissos em Veneza e Viena. Alguns apontamentos envolviam o próprio Tzar Nicolau II. Contudo, a metamorfose mais extraordinária e estarrecedora aconteceu entre minhas pernas, tinha virado mulher.

Agora era a Condessa Nadezhda Filaretovna von Meck, mas com algumas mudanças. Neste universo acordei viúva e sem filhos e, para meu deleite, continuava musa e patronesse do meu querido Tchaikovisky, sua melhor amiga. Tinha apenas 35 anos, dois menos que o compositor. Apesar de ter despertado como Nadezhda, não precisava viver sua vida, estava livre para escrever uma nova história.

Meu ‘sonho escalafobético’ era ter uma relação íntima com o mestre russo, que admirava compulsivamente. E, confesso, muitas vezes senti inveja de Nadezhda. Portanto, a solução da f(SUM) talvez seja a forma mais inventiva de realizar cabalmente meus desejos espalhafatosos.

A parte mais difícil e também mais excitante é encaixar minha velha cabeça neste novo sexo. Mas tenho a eternidade para praticar.

Tommaso querido, tomou a decisão certa. Esta vida, mesmo programada, mesmo de videogame, é infinitas vezes melhor do que o Nada. Uma possibilidade assustadora depois da morte física.

E tem outra coisa boa. Breve – uma palavra elástica agora – poderemos nos reencontrar. Faça planos, me inclua e pense num ‘ménage à trois’.

Um beijo, com amor e saudades.

5 comentários:

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    1. Fernando Marchini Dias
      Desculpe, me atrapalhei e exclui seu comentário sobre o conto. Era apenas uma palavra: ‘Sofisticado’?
      Apesar do meu lapso gostei muito da concisão dele. Sempre apreciei contistas – Borges, Maupassant, Isaac Bashevis Singer - que tentam falar com a inteligência de quem está lendo.

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  2. De: ho.menezes [mailto:ho.menezes@uol.com.br]
    Enviada em: sábado, 7 de maio de 2016 13:54
    Para: 'Douglas Bock'
    Assunto: O Paraiso de Cada Um

    Rapaz, um ou outro senão gramatical e literário aqui e acolá, o conto é MUITO BOM! Você é mestre nesse difícil jogo entrecortado entre o ser e o parecer; entre a realidade e a fantasia; mas cria uma fantasia instigante e realizável: algum tempo poderá vir a ser assim. Nossa conhecida comum Kay Scarpetta criou numa de suas histórias um “mosquito cibernético” capaz de fazer o que o chipcibernético do seu conto, conta. Gostei muito... apesar de você teimar com “anos atrás”; por que não anos antes, pretéritos, essas substituições?

    Mas Tchaikovsky entrou no conto como Pilatos no credo... nada a ver com a obra musical do compositor; e, a meu ver, Tchai nada seria sem sua obra musical; enquanto ser humano, não passou de baitola.

    Abraços, Meu Amigo.

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  3. De: Douglas Bock [mailto:dbock@uol.com.br]
    Enviada em: domingo, 8 de maio de 2016 10:36
    Para: 'ho.menezes'
    Assunto: RES: O Paraiso de Cada Um

    Mestre Holbein,

    Obrigado pelo comentário.

    Vou rever, atento aos seus apontamentos.

    Se me permitir, vou transcreve-lo no Paulistando.

    Douglas.

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  4. Transcrito do Facebook, comentário no Blog Paulistando.
    Luiz Carlos Dos Santos: Li os contos da f-sum, os 4 de uma só vez e, adorei. Quero mais, pode ser? Gosto de ficção científica e a f-sum é o máximo. Melhor não nominá-la outra vez pra não me tornar um candidato. Sucesso!

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