segunda-feira, 15 de junho de 2015

Olhar do Fotógrafo - Com e Sem Câmara


O conto Las Babas del Diablo, de Júlio Cortázar(*), serviu de inspiração para uma das obras primas de Michelangelo Antonioni: Blowup (Blow-up - Depois daquele beijo).

É antigo, de 1966, da era química e romântica das películas, porém, no que se refere aos processos criativos – quase mágicos – de composição da imagem pelos fotógrafos, permanece atual, desafiante e intrigante.

A trama do conto, e do filme, é curiosa: um fotógrafo durante seu trabalho está tão interessado na composição da foto que não percebe que registrou um possível assassinato no fundo. O crime só se ‘revela’ durante a 'revelação' química do negativo. Intrigante a sobreposição das metáforas da 'revelação'.

É um filme de e para fotógrafos, nele o diretor capta com perfeição o olhar vagabundo, contudo atento e seletivo desses artistas da imagem. O passeio da câmara do mestre italiano pelo paisagem tenta reproduzir a forma ambígua pela qual os fotógrafos veem o mundo no dia a dia. 

Logo no início do conto Cortázar descreve como funciona o olhar do fotografo quando sai de casa armado com sua câmara, e como se transmuda quando sai desarmado dela. É um trecho brilhante e didático. Pedagógico para os leigos, mas, talvez, redundante para os fotógrafos – amadores ou profissionais  – poque já detectaram neles mesmos essa forma dual de enxergar a realidade.

Seja qual for o caso, vale a pena conhecer o texto curto em que o brilhante contista argentino descreve essa metamorfose do olhar e as muitas camadas da arte de fotografar. (Abaixo uma atrevida tradução e o original espanhol). 
“Entre as muitas maneiras de combater o tédio, uma das melhores é tirar fotografias, uma atividade que deve ser ensinada cedo para os garotos, porque exige disciplina, educação estética, olho bom e dedos firmes. Não se trata de ficar tocaiando mentiras como qualquer repórter, para flagrar a silhueta de personagem incauto que deixa a 10 da Downing Street, porém, ao andar com a câmera, há como que um dever de ficar atento, para não perder o brusco e delicioso reflexo do raio de sol numa pedra, ou o balançar das tranças de uma garota retornando com pão ou uma garrafa de leite. Michel sabia que o fotógrafo sempre trabalha com a permutação de sua maneira pessoal de ver o mundo com aquela que lhe impõe a câmera insidiosa (agora passa uma grande nuvem quase negra), contudo não desconfiava que seria suficiente sair sem a Contax para recuperar o tom descontraído, a visão sem enquadramento, a luz sem diafragma ou 1/ 250. Agora mesmo (que palavra, agora, uma mentira estúpida) poderia apenas se sentar no parapeito sobre o rio, observando as lanchas pretas e vermelhas, sem necessidade de pensar fotograficamente as cenas, nada mais do que se deixando ir no deixar ir das coisas, correndo imóvel com o tempo.”
***   ***   *** 
“Entre las muchas maneras de combatir la nada, una de las mejores es sacar fotografias, actividad que deberia enseñarse tempranamente a los niños, pues exige disciplina, educación estética, buen ojo e dedos seguros. No se trata de estar acechado la mentira como cualquier repórter, y atrapar la estúpida silueta del personajón que sale del número 10 de Downing Street, pero de todas maneras cuando se anda con la cámara hay como el deber de estar atento, de no perder ese brusco y delicioso rebote de un rayo de sol en una vieja piedra, o la carrera trenzas al aire de una chiquilla que vuelve com un pan o una botella de leche. Michel sabía que el fotógrafo opera siempre como una permutación de su manera personal de ver el mundo por otra que la cámara le impone insidiosa (ahora pasa una gran nube casi negra), pero no desconfiaba, sabedor de que le bastaba salir sin la Cóntax para recuperar el tono distraído, la visión sin encuadre, la luz sin diafragma ni 1/250. Ahora mismo (qué palabra, ahora, qué estúpida mentira) podia quedarme sentado en el pretil sobre el rio, mirando pasar las pinazas negras y rojas, sin que se me ocurriera pensar fotográficamente las escenas, nada más que dejándome ir en dejarse ir de las cosas, corriendo inmóvil con el tempo.”
 (*) Las babas del diablo – Las armas secretas – Ediciones Catedra, 1978