sexta-feira, 9 de outubro de 2015

'Guernica', 'As Meninas', a 'aura' e o BBB


Quem para defronte os quadros mais famosos da História da Pintura Ocidental, como Guernica de Picasso e As Meninas de Velasquez, sente a magia da 'aura'.

As duas telas são largamente conhecidas e infinitamente reproduzidas (em livros e na Internet). Também é fácil encontrar todo tipo de fotos e ampliações de detalhes e peculiaridades publicadas. Contudo, nada disso se compara com o sentimento de deslumbramento, êxtase e reverência de estar diante dos originais.

Talvez pela fama, talvez pelo tamanho (Guernica 3,5 x 7,8 m e As Meninas 3,2 x 2,8 m), talvez pela fortuna crítica, mas, de uma forma ou doutra, a ‘aura’ da Arte – ou algo mais – a experiência de conhecer esses quadros célebres de perto é completamente diferente de ver cópias ou fotografias.

Guernica e As Meninas impressionam pela grandiosidade. Vêm-se coisas,
camadas, texturas e detalhes nas telas – com as dimensões propostas pelos autores – impossíveis de serem observadas nas reproduções ou fotografias.

Obviamente que existe grande prazer em admirar estas pinturas através de livros e monitores. Mas é uma vivência diferente, feito música ao vivo versus gravações.

Walter Benjamin, o filósofo mártir judeu alemão, no ensaio A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica analisa o fenômeno da ‘aura’ que cerca as obras de arte. Argumenta que quando mais o original é reproduzido, mais  perde o ‘véu sagrado’ que o envolve. Os grandes museus do mundo sabem disso e vendem exatamente esta ‘vivência transcendental frente ao original’. Por isso estão cada vez mais superlotados.

Benjamin explica ainda que o Teatro consegue manter essa ‘sacralidade', porque, à cada representação, os atores físicos presentes recriam a  mágica da ‘aura’. No Cinema isso não acontece, porque a câmara e o projetor são aparatos (máquinas) que não são capazes de captar e portar esse ‘véu sagrado’.

A publicidade e os produtores de espetáculo sabem disso e gastam fortunas tentando ‘mitificar’ os astros e estrelas. As grandes turnês das bandas negociam a ‘aura’ dos músicos. O que a espectador compra não é o som, mais a proximidade com o ídolo e, sobretudo, a ‘sacralidade’ do ídolo, intensificada pela propaganda.

Talvez o cúmulo dos absurdos sejam os BBBs, que já não se preocupam com a Arte original, mercadejam apenas a ‘aura’. Na verdade uma ‘aura’ falsa e transitória, criada pela ultra saturação do marketing.

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