quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Carta de H.P. Lovecraft para J.L. Borges


10 Barnes St., Providence R.I.,
Outubro 2, 1928    
Caro Señor Jorge Luís Borges:–

Receber uma carta de Buenos Aires, da distante Argentina, elogiando ‘The Colour Out of Space’ me deixou surpreso e encantado. Não calculava que a Amazing Stories chegasse tão longe e alcançasse leitores tão variados e interessantes. Suas observações acerca do conto são instigantes. Destaca o paradoxo de tentar descrever uma cor que induz o próprio sentido da visão ao engodo; correlaciona a poeira cinzenta, que vento nenhum dissipa, com o fim dos tempos; e lembra que sete homens testemunharam a transubstanciação da cor num raio luminoso apontado para Deneb. Depois de tudo isso não me espantou saber que é escritor, a elegância e articulação da missiva não deixam dúvidas. Desconfio também que foi alfabetizado em inglês.

Procurei Buenos Aires no globo, constatei que fica na foz de um rio, como Providence – só que muito maior. Na verdade, cada vez que examino o mapa da América do Sul embarco numa viagem de divagações.
Aquela gigantesca cordilheira que desenha a costa oeste, mais os dois rios colossais – um no norte outro no sul – entre os maiores do mundo, que drenam todo o território, não parecem coisas naturais. O subcontinente inteiro já esteve no fundo do mar, foi um dos primeiros a emergir como terra firme. Não é despropositado imaginar que tenha estreitas ligações com as lendas de Atlântida. Quem sabe, em outras idades da Terra, como nos tempos de Cthulhu, foi manipulada por forças e poderes ciclópicos. Conhece minha série de noveletas sobre este tema? Se não, terei prazer em enviar algum material.

Diferente dos confins da Ásia e da África, conhecidos há milênios como prolongamentos elásticos do imaginário europeu, a América do Sul é a nova fronteira do assombro e da novidade. Lá a realidade é mais extravagante do que a fantasia. Acredita-se no fantástico, tudo é possível naquela geografia – incerta e insondável – recentemente aflorada na mentalidade ocidental. Por exemplo, meu tio Franklin C. Clark falava de um velho missionário escocês, o Pastor David Brodie, que garantia ter visitado uma tribo primitiva, os Mlch, que viviam na fase da aquisição da linguagem e da fabricação dos conceitos. Estavam passando do urro à fala. Eram poucos, infelizmente devem ter sido dizimados pelo progresso.

Por causa da saga de Cthulhu acompanho atentamente as campanhas do Coronel Percy H. Fawcett pelo coração das selvas sul-americanas. De alguma maneira nossos interesses, apesar das diferenças, convergem. O arqueólogo inglês procura comprovar a realidade das lendas, eu me contento em engendra-las. Fawcett – um herói audaz – busca a cidade perdida de ‘Z’, para ele um posto avançado, ou uma colônia, das civilizações Atlântidas ou até mais velhas. Eu – nas silenciosas noites da Providence – invento histórias sobre ruínas e seres imemoriais. Gostaria que ‘Z’ fosse encontrada, seria uma maravilhosa corroboração para os mitos que estou desenvolvendo.

Entretanto, até o momento que escrevo, o Coronel Fawcett permanece perdido nas úmidas florestas brasileiras.  Em 1925, junto com seu filho mais velho, Jack Fawcett, e o fotógrafo Raleigh Rimmell, partiu numa expedição ambiciosa e temerária. O grupo não manda notícias há mais de três anos. Pelos planos pretendia explorar a região da Serra do Roncador – belíssimo e sinistro nome – e retornar até 1927. A última comunicação, de maio de 1925, é otimista, garante que a cidade de ‘Z’ existe e brevemente será alcançada. O ponto intrigante da aventura é uma instrução oblíqua que deixou antes de partir: caso não voltasse, nenhuma força de busca deveria seguir seus passos.

Nos últimos meses os jornais e revistas começaram a especular sobre o trágico destino da jornada, sugerindo hipóteses aterrorizantes: atacados por doenças ou feras, devorados por tribos canibais ou afogados em rios traiçoeiros. Cada andarilho e garimpeiro sul-americano conta uma versão diferente do encontro com Fawcett. Ou virou cacique de um grupo de indígenas primitivos; ou, desmemoriado como o Rei Lear, vaga pelas selvas sonhando com a cidade de ‘Z’; ou, rejuvenescido, vive feliz integrado a uma tribo de homens loiros de olhos azuis. A família rejeita todas estas suposições desvairadas. Declara e reitera que Fawcett continua vivo e lúcido. Paciente, aguarda o retorno triunfal do Coronel.

Por uma dessas travessuras do destino chamadas coincidências, enquanto estava respondendo sua carta, recebi um curioso relato de um antigo correspondente residente na Flórida. Nunca sei quanto devo acreditar em Isidoro Acevedo, é um fabulista de piratas e caças aos tesouros que gasta o tempo visitando bibliotecas pelo Caribe. Contudo seus argumentos para o desaparecimento de Fawcett são inusitados e consistentes.

De acordo com o flibusteiro Isidoro, faz uns dois anos, Fawcett vive clandestinamente na costa colombiana, na Ilha de Providence (outra coincidência?), reescrevendo suas memórias. O arqueólogo, depois de vagar treze meses pelas florestas sul-americanas, com a saúde debilitada e abalado pela morte do fotógrafo Raleigh Rimmell, resolveu abandonar definitivamente a busca pela cidade perdida de ‘Z’. O problema era passar pelo constrangimento de admitir a derrota. Para contornar o impasse se juntou com garimpeiros e viajou clandestinamente para a Bolívia. De lá contatou a família e juntos tramaram um plano de ação extraordinário. Camuflar o Coronel e construir uma rede de controvérsias para obscurecer o desaparecimento do herói.

O estratagema era simples e eficaz: divulgar periodicamente novidades e contrainformações sobre o desbravador e negar taxativamente a morte do patriarca. Com essas diretrizes poderiam preservar o aventureiro romântico e manter total controle sobre a versão mais conveniente de sua biografia. O arranjo tinha uma vantagem tática valiosa: um ícone desaparecido sempre pode produzir notícias espetaculares, mesmo conflitantes. Fora o sempre adiado clímax do personagem reaparecer, se e quando necessário. Apostavam que a Historia Oficial, algum dia, adotaria como verdade esta mitografia construída e romanceada.

Meu caro J.L.B., minha resposta à sua carta enveredou para o Coronel Fawcett. Foi premeditado, porque, como este homem singular era frequentador assíduo do Brasil e da Bolívia, pode ser que tenha desaguado no Rio da Prata noticias sobre suas andanças. Se souber alguma coisa, por favor, me informe. Também, gostaria de ler seus trabalhos, afinal parece que ambos somos parodistas involuntários de Poe. Caso tenha escrito contos fantásticos em inglês, quem sabe podemos publica-los na Weird Tales, se quiser sob pseudônimo.

Yr most obt Servt
H.P.L.

******************************************
Comentário de Monteiro Lobato com lápis vermelho:
“Quem é Jorge Luís Borges?”
******************************************


Notas.

a) Carta foi encontrada (já traduzida, datilografada e com a anotação final) dentro do livro de Monteiro Lobato – 'O Presidente Negro ou O Choque das Raças: romance americano do ano 2228’ – São Paulo/Rio de Janeiro, Cia. Editora Nacional, 1926 (Primeira Edição). Carimbo na página três: “Célia Regina Lane / professora de inglês”. Comprado num sebo do Bixiga, bairro de S. Paulo.

b) Monteiro Lobato, entre Maio de 1927 e Março de 1931, residia em Nova York e servia ao Brasil como Adido Comercial, portanto é inexplicável como esta correspondência, se verdadeira, chegou às suas mãos.

c) Algumas hipóteses, entretanto, podem ser adiantadas. Talvez, durante a tentativa de publicar o livro ‘Presidente Negro’ nos Estados Unidos, alguma cópia dos originais traduzidos foi enviada a H.P. Lovecraft. E o Cavalheiro de Providence, um missivista compulsivo, por um lapso, confundiu os dois escritores sul-americanos e trocou os endereços nos envelopes.

d) Nesta vertente, não seria perdulário imaginar a existência de outra carta extraviada, de H.P. Lovecraft para Monteiro Lobato, despachada, quase na mesma data, para J.L. Borges por engano.


7 comentários:

  1. Filipe Augusto de Vieira D’Oliveira (27/11/2015 - Comentário no Facebook 'Grupo História Alternativa')

    A aparição do Monteiro Lobato é SENSACIONAL! TWIST ENDING!

    " O subcontinente inteiro já esteve no fundo do mar, foi um dos primeiros a emergir como terra firme. Não é despropositado imaginar que tenha estreitas ligações com as lendas de Atlântida. Quem sabe, em outras idades da Terra, como nos tempos de Cthulhu, foi manipulada por forças e poderes ciclópicos. Conhece minha série de noveletas sobre este tema? Se não, terei prazer em enviar algum material."

    Calaboca Lovecraft, eu tive essa ideia primeiro...

    "a América do Sul é a nova fronteira do assombro e da novidade."

    Sai dai que essa é parte da minha premissa de Sentinelas do Norte...

    "O arqueólogo inglês procura comprovar a realidade das lendas, eu me contento em engendra-las. Fawcett – um herói audaz – busca a cidade perdida de ‘Z’, para ele um posto avançado, ou uma colônia, das civilizações Atlântidas ou até mais velhas. Eu – nas silenciosas noites da Providence – invento histórias sobre ruinas e seres imemoriais. Gostaria que ‘Z’ fosse encontrada, seria uma maravilhosa corroboração para os mitos que estou desenvolvendo."

    EU TIVE A IDEIA PRIMEIRO, DÁ O FORA LOVECRAFT!!!

    "Pelos planos pretendia explorar a região da Serra do Roncador – belíssimo e sinistro nome – "

    Putzgrila, essa eu nunca pensei. Nome sinistro mesmo. Imagina se ele soubesse do Anhanguera ou do rio Anhanbau, sem contar tantos outros nomes...

    ResponderExcluir
  2. Leon Lacerda (27/11/2015 - Comentário no Facebook 'Grupo História Alternativa')

    Hahaha. Legal! Fui ver se isso era verdadeiro e sequer encontrei outras notícias, mas procurei pouco. Bom, espero que seja Emoticon smile

    ResponderExcluir
  3. [Transcrição de um comentário do Facebook, em 15/03/2016]
    Luiz Garcia Bertotti > Douglas Bock, você se superou. Fawcett, Lovecraft, Borges e Lobato num único texto. Genial é uma palavra batida, mas não tenho outra no meu vocabulário para definir o texto da carta e suas notas de rodapé. Talvez amazing também seja adequada. Copiada na minha biblioteca. Um abraço cheio de admiração!

    ResponderExcluir
  4. Belo jogo de inventividade a carta de Lovecraft a Borges. Admirável. Borges ali passeia sob a escrita fictícia de Lovecraft: as notas ampliam o mistério e abrem um vácuo nos pressupostos delineados na carta, tudo afundado no turbilhão das possibilidades. É embaraçoso. A dupla carta enviada para destinatários equívocos deságua em um cenário de pura ficção: quem realmente escreveu a carta? O nosso necessário desejo de conhecer o real permanece irresoluto. Somos envolvidos nos pressupostos construídos para sair com um duplo sentimento de verdade: o das hipóteses construídas e o desconforto de que a verdadeira história e seu personagem estão em algum lugar a que não temos acesso.

    ResponderExcluir
  5. Vilma, muito obrigado pelo precioso e revelador comentário. Acho que gostamos de ficção (fantástica ou não) porque nas histórias escritas é muito mais fácil de enxergar a verdade, que se esconde encabulada e silente nas tribulações da vida vivida.

    ResponderExcluir
  6. A natureza fragmentada do mundo nos limita a uma percepção tormentosa e deficitária. O mundo da poesia e da ficção é a nossa salvação. É a arte que junta os fragmentos e entretece os retalhos num todo e nos amplia a percepção para além dos nossos estilhaços

    ResponderExcluir
  7. Vilma Silva, Por isso Don Quixote é meu ídolo, Literatura mais Vida e Loucura.

    ResponderExcluir