sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Origem d'O Horla – Frank Miller


Meio, o anão replicado, de repente, pulou na frente do carro.

“– Para aqui mesmo Doc, lá tá muito cheio.”

Era um flanelinha que trabalhava no Bixiga, em todos os lugares e em vários serviços. Nunca vi dois juntos, mas aposto que existem umas 50 réplicas dele. O restaurante era longe, uns 300 metros, na rua paralela, mesmo assim obedeci e paguei o que pedia. Estava quente e as ruas começavam a ficar congestionadas.

O almoço com os amigos acabou às 4 da tarde. Tinha tempo, fim de semana prolongado, 92 horas sem plantão, só ia pegar a estrada no fim da noite. Resolvi dar a volta no quarteirão, arriscar um Café novo. No meio do caminho havia um sebo; sempre há um sebo novo no Bixiga. Proliferam antiquários no bairro, surgem e somem misteriosamente, porém os donos não mudam, devem fazer rodízio, são sempre os mesmos.

Meio estava sentado na porta. “– Entra Doc, tem muito gibi por aí”.

“– Trabalha aqui também?” Nunca disse a ele que colecionava!

“– Estou dando uma ajuda p´rum amigo.”

“– E meu carro?”

“– Relaxa Doc, tá tudo dominado.”

Tex, Fantasma, Superman, Batman, edições avulsas, nada se encaixava na minha coleção de Graphic Novels. Estava saindo quando vi a escrivaninha do dono, perto da única janela do salão. Iluminação de teatro, uma nesga de sol destacava desenhos de uma HQ aberta dentro de uma pasta de couro negro, velho e verdadeiro. Nem precisava olhar, sabia que os olhos de Meio me seguiam.

Estranho e esquisito. Umas 15 páginas soltas, tamanho ofício, ilustradas apenas numa face, com tinta nanquim. Peguei algumas folhas e examinei de perto: O Horla – Origem. Pareciam legítimas, papel antigo, grosso e rústico, dava para ver as marcas das penas e pincéis utilizados. Ou a tinta e papel eram falsificados ou tinham mais de cem anos. Contudo, o mais espantoso era a arte – qual o propósito de simular isso? – o estilo e os traços lembravam desenhos de Frank Miller na série Sin City. Imitações, sem dúvida, porque conceber que fossem do autor seria absurdo. Meio estava ao meu lado, na sombra.

“– Está a venda? Quanto Custa?” Pela primeira vez assisti Meio titubear.

“– 1.500.”

“– 1.000.”

“– 1.200, em dinheiro.”

“– 1100. Tenho 700. Dou a diferença em cheque.”

“– Não precisa, confio no Doc. Paga o resto na semana que vem, na 'Roperto'.” Como sabia dos jantares bimensais da minha turma naquela cantina!

*****
Era um enigma e uma preciosidade. Levei minha compra para a praia dentro de uma bolsa robusta e a prova d’água. Li o material cinco vezes seguidas, estarrecido, cada vez mais interessado e incrédulo. Contava uma história fantástica, estilo weird, que se passava na cidade de S. Paulo antes de 1888 – ainda haviam escravos. As citações no corpo do texto indicavam que a inspiração havia sido o conto O Horla de Guy de Maupassant.

Consultei o Google, o francês é uma das grandes influências de H.P. Lovecraft. Alguns especialistas garantem que o conto O Horla foi umas das fontes de inspiração para HPL conceber o horror cósmico, sua grande contribuição para Literatura Fantástica.

Contudo, o mais extraordinário do meu achado não eram as curiosas referencias literárias da trama. O que assombrava e desafiava o entendimento eram os desenhos centenários explicitamente baseados em Frank Miller e Sin City.

Claro que seriam necessárias cuidadosas averiguações e datações técnicas e científicas. Porém, e se os desenhos fossem legítimos e autênticos? O caos e a celeuma estariam instalados. Quem foi o artista? Como antecipou a arte de Frank Miller? Deslocamento no tempo?

As hipóteses desassombradas e as teorias extravagantes pululariam.

*****
Terça feira de manhã, quando saia da minha garagem na Rua dos Alemães, Meio pulou de novo na frente do carro, agitando um maço de notas na mão. Estava assustado, falando rápido, gesticulando.

“– Doc, preciso pegar o gibi de volta. O dono tá puto comigo, queria vir junto resolver essa parada. Falei que não precisava, que era boa gente, que deixasse comigo. Tá aqui seu dinheiro.”

“– Mas eu quero ficar com o gibi, Meio, pago os 1500.”

“– Não é grana, Doc. O cara não quer negociar, só desfazer o negócio. Tá enfurecido. Eu devia apenas olhar a loja, não era pra vender nada.”

“– E se eu falar com ele?”

“– Não adianta, ele só quer a pasta de volta. Se eu não levar agora vão me fuder Doc, tem gente no Bixiga que não dá p’ra brincar, não são desse mundo.”

Estava com a pasta no carro, planejava mostrar para Jusé, um especialista na História de S. Paulo. Fiquei com pena de Meio, entreguei-lhe a sacola plástica com tudo dentro. Agarrou o pacote, me deu o dinheiro e saiu correndo. Faltavam cem reais. Conclui que era justo, eu tinha tido o privilégio de ler.

Encontrei inúmeras vezes Meio pelo Bixiga. Quando perguntei me olhou estranhado, disse não saber nada daquilo. Deve ser outro anão, sempre achei que são replicados. O sebo também sumiu, não consigo achar nem a porta naquele trecho da rua.

Neste caso inteiro fui bobo, imprevidente e precipitado. Ou enganado, não sei. Não mostrei para ninguém os desenhos, não fotografei nem tirei cópia. Por isso, para preservar as lembranças, resolvi escrever uma espécie de roteiro da Graphic Novel que li, e estou estudando a História de S. Paulo. Quem sabe descubro alguma coisa.



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O Horla - Origem 

"E aqui está, meus senhores, para acabar, um pedaço de jornal que me chegou às mãos e que vem do Rio de Janeiro. Eu leio: “Uma espécie de epidemia de loucura parece grassar há algum tempo na província de S. Paulo. Os habitantes de várias aldeias fugiram, abandonando terras e casas e pretendendo-se perseguidos e comidos por vampiros invisíveis que se alimentam de sua respiração enquanto dormem e que, além disso, só beberiam água e às vezes leite!”
O HorlaGuy de Maupassant (primeira versão – 26/12/1886)

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As pessoas evitam o Anhangabaú, um vale sinistro. Os índios não bebem do ‘rio onde o diabo lava a cara’, nem se banham em suas águas.

Todo mundo, sem saber por que, teme a cerrada mata fria, depois do Mosteiro Franciscano, que cobre as íngremes margens do ribeirão. Debaixo das árvores a neblina nunca se dissipa, mesmo com o Sol a pino. A cidade acaba antes da floresta e as pessoas receiam se aproximar.

O trecho mais temido é um bosque soturno, cheio de plantas estranhas, antes do vermelho Córrego do Bixiga. Os indígenas chamam o lugar de Portal de Anhangá e os negros se reúnem ali quando querem invocar seus deuses proibidos. Proliferam lendas sobre criaturas esquisitas que transitam por lá.

Sebastião Flecha não acredita nestas coisas, ás vezes passa dias e noites embrenhado naqueles grotões. Mas ele é diferente, comentam que é um dos Caifazes de Antonio Bento. Homem sem medo, desassombrado e libertador de escravos.

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A menina estava sozinha, agachada olhando os peixes. Não se assustou quando ele chegou.

– Como é seu nome?

– Iba.

– O que esta fazendo aqui sozinha?

– Minha mãe mandou esperar por ela.

– Faz quanto tempo?

– Quatro dias.

– Está com fome? Sentiu frio à noite?

– Não. Quando Novelo me embrulha a fome e o frio vão embora.

– Quem é Novelo?

– Esta mancha clara atrás de você.

A menina estava delirando, precisava leva-la embora. A mãe tinha sido recapturada e devolvida aos seus donos.

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Quando entrou na casa da irmã, Cecília, viu a menina refletida no espelho. Brincava com uma boneca de pano e bichinhos de madeira, a imagem parecia embaçada. Tinha levado um livro ilustrado das Fábulas de La Fontaine, Iba iria adorar ouvir as histórias e ver as gravuras.

– Novelo também está gostando, fica brilhando atrás do seu ombro.

Virou-se rápido, mas não viu nada, apenas sentiu um arrepio na espinha.

– Não estou vendo nada.

– É mais fácil quando ele aparece no espelho.

Foi embora inquieto. Iba se despediu dele e do Novelo.

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As notícias que Cecília trazia eram boas, Iba estava saudável, alegre e feliz. Diferente dele, cada vez mais fraco e prostrado. Passava noites insones, sobressaltado, dormitando pouco e acordando assustado e ofegante. Sonhava que uma luz embaçada o envolvia e sugava suas forças.

Morava na Rua Nova de São José, seu quintal se estendia até a beira do ribeirão de águas turvas, quase sempre vermelhas, por causa dos matadouros do Bixiga.

Nas madrugadas inquietas, quando abria as janelas para respirar melhor, sobretudo nas noites de lua nova, enxergava um miasma reluzente sobrenadando o riacho. Inflado, pulsante, como se estivessem bebendo daquela água amaldiçoada.

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Só tinha paz com um livro na mão, nestes momentos se sentia pleno, libertado. Sabia que a criatura adorava leitura que, por trás dos seus ombros e através dos seus olhos, acompanhava cada linha com interesse.

Quando retirou Alice nos País dos Espelhos do armário lembrou-se de Iba e de sua fala: “é mais fácil quando ele aparece no espelho”.

Na manhã seguinte mandou Ezequiel – um escravo liberto e jubilado por ele, que se negava a abandona-lo – pedir emprestados três espelhos. Junto com o seu podia cobrir os quatro lados do quarto.

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À noite, sem nenhuma vela acesa, deitou-se e ficou atento. Devagar começou a entrever, multiplicada pelos espelhos, a indescritível e bizarra estrutura luminosa se formando.

Uma teia de aranha compacta, complexa, construída em três dimensões. Uma distorção ou deformação de reflexos luminosos trincando os espelhos. Um novelo – como dizia Iba – mas um novelo formado apenas por linhas retas. Milhares de segmentos de raios luminosos se cruzavam, irradiavam, convergiam e se embaralhavam formando uma nuvem elíptica. Uma mancha achatada, do tamanho de um rapazote, de luz mortiça e pulsante.

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Foi acadêmico de Direito, como o pai e o avô, porém apreciava as Matemáticas. Tinha certeza que o novelo não era orgânico, não tinha curvas, sinuosidades, era um poliedro anômalo de infinitas faces, contraído e achatado.

Mas conhecer as características físicas, a constituição do novelo de luz, não era suficiente. Porque, nas noites sem fim, a coisa continuava a envolvê-lo, roubar sua vitalidade, iniciativa e vontade. Deixava-o sobreviver apenas para continuar como hospedeiro.

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Três meses depois, desesperado, Ezequiel convocou Antonio Bento, o líder abolicionista e chefe dos Caifazes, para resolver o problema e curar seu senhor.

Magro, inteiriço como um tronco, vestido de capote preto e cartola. Brancos, somente a gola e o peitoril da camisa. ‘Rijo cavaignac de arame’, o olhar galvanizava a figura, engastado ‘nos óculos azuis como uma lâmina no estojo’. Entrou empertigado, com passos medidos e parou defronte a cama. Avaliou demoradamente o doente, como num exame clínico, porém sem toca-lo. Sentou-se, meditou um largo tempo e começou a dar ordens.

– O senhor vai tirar umas longas férias na Europa, França. Vou arrumar dois confrades da faculdade para acompanha-lo. Pode levar o Ezequiel junto. Acho que daqui a duas semanas a viagem estará preparada. Fique pronto para embarcar. No dia da partida quero revê-lo, preciso confirmar se ainda está com este banzo, essa melancolia negra dependurada no pescoço.

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As semanas de travessia do Atlântico foram terríveis, só suportáveis por causa da arca de livros que Antonio Bento havia providenciado. Hipnotismo, Mesmerismo, Espiritismo, Comunismo, tudo que se discutia na Europa. Novelo acompanhava, mas não se interessava por esta Literatura. Enfraquecia no mar. Permanecia recolhido a cabine, saía apenas para atacar os depósitos de água doce do navio.

Entramos na França por Le Havre e embarcamos numa galera branca para subir o Sena. Era maio, prenúncio de verão, meus acompanhantes estavam entusiasmados e viviam embriagados. Todo dia estendiam uma bandeira brasileira entre os mastros e promoviam festas barulhentas, que contagiavam os passageiros.

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Uma tarde, sentado no convés, eu lia, desanimado e taciturno. Passando por Biessard, perto de Rouen, na sombra de uma montanha magnífica, vi uma bela casa branca no meio de jardim florido. Um homem, talvez o dono, refestelado debaixo de uma árvore, também lia e tomava vinho. Senti uma inveja intensa daquela despreocupação e felicidade.

Foi como despertar de um pesadelo, me livrar de uma pressão no peito, emergir de um mergulho apneico ou sair de uma caverna abafada. Soube, com certeza absoluta, que aquele emaranhado de horrores – que Iba chamava de Novelo – havia partido. Desembarquei em Rouen ressuscitado.


Ah! Ah! lembro-me, lembro-me da bela galera brasileira que passou debaixo das minhas janelas, subindo o Sena, no dia 8 do passado Maio! Achei-o tão bonito, tão branco, tão alegre! O ser vinha nele [sic passim], vindo de lá, onde a sua raça nascera! E viu-me! Viu a minha casa também branca; e saltou do navio para a margem. Oh! Meu Deus!


O Horla – Guy de Maupassant (segunda versão – 1887)


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