terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Painel de Azulejos do Largo da Memória

O ‘Obelisco do Piques’, ou ‘Pirâmide do Piques’, e um nó desconexo no meio da cidade de S. Paulo. Cheio de enigmas, lendas e histórias. Ninguém sabe direito porque foi erigido e o que homenageia. Já comentei este mistério em 2014, quando o monumento fez duzentos anos (clique e veja). 
Todo mundo conhece o lugar, passam por lá apressados e sem prestar muita atenção. Assim, acho importante ressaltar um item esquecido desse monumento: o painel de azulejos, que envelhece e se empana na sombra da figueira centenária. Utilizando para isso fotografias e ampliações de detalhes. As imagens evocam a própria Ladeira do Piques nos seus dias de glória. Revisitar era uma mania do autor, Wasth Rodrigues.
O 'Largo do Piques' sempre foi um dos portais de S. Paulo, por ele os Bandeirantes saíram para inventar e inventariar o Brasil.
Entretanto a partir da implantação das ferrovias a rota perdeu importância. Os paulistas que iam para o interior, agora, partiam da Estação da Luz. Em consequência o Largo da Memória começou a decair e mudar de função, virou interligação menor entre o Centro Velho e os novos bairros residências da Consolação, Vila Buarque e Higienópolis.
Certamente, por causa dessa função pedonal, em 1919, na febre das modernizações paulistas, o espaço inteiro foi remodelado. Um novo chafariz foi construído (agora apenas decorativo), emoldurado por um magnifico painel de azulejos, destacando e valorizando o velho ‘Obelisco’, erguido em 1814, no tempo colonial, reinado de D. João IV.
O novo conjunto foi cercado por um vasto sistema de escadarias, em terraços, que cobriam a encosta inteira, facilitando o trânsito dos pedestres por esse desvão íngreme, encravado no meio do novo mapa urbano da cidade. Deve ter ficado lindo, dos bancos dava para apreciar a colina histórica iluminada pela luxuosa luz do por do sol.
O arquiteto responsável pela restauração foi Victor Dubugras, considerado por muito o introdutor da Arquitetura Moderna na América do Sul. Os desenhos dos azulejos foram obra de José Wasth Rodrigues, um dos pintores que redefiniram a imagística paulista, e talvez o mais paulistano e civilista deles todos.
E fácil encontra-lo decorando dezenas de igrejas e palácios do começo do século XX. Por exemplo, quatro pinturas logo na entrada da humilde Igreja das Almas (Capela De Santa Cruz das Almas dos Enforcados) na Praça da Liberdade. Todas, curiosamente, relembrando templos demolidos de S. Paulo: Igreja do Pátio do Colégio; Igreja dos Remédios; antiga Catedral da Sé e a velha Capela dos Enforcados. Mais estranho, as três primeiras baseadas em cópias de fotos de Militão Azevedo.

O ubíquo Wasth  junto com Guilherme de Almeida, o poeta  também foi autor do brasão de Cidade de S. Paulo, usado pela primeira vez na azulejaria que enfeita o Chafariz do Piques. Um modelo simplificado, sem as torres, os ramos de café e o belo dístico ‘non ducor duco’.
Fotografias e Ampliações:

Det. 1 – Tropa de mulas e burros dos tropeiros.




















Det. 2 – Despedidas e reencontros de viajantes.
























Det. 3 – Namoros, passeios e encontros em torno do chafariz
























Det. 4 – Negociantes de escravos e mercadorias em geral



















Brasão da Cidade de S. Paulo - Primeira utilização.


















Painel de Azulejos em Dez/2015









Vista do Largo do Piques em 1860
















Vista do Largo do Piques no fim do Sédulo XIX
















Desenho do Projeto de Victor Dubugras















2 comentários:

  1. Um lugar lindo que, se fosse conservado, seria um oásis de paz no centro da nossa cidade.

    ResponderExcluir
  2. Sabe, Wilson, o que mais me incomoda é o apagamento do nome do lugar da saga emocional de S. Paulo. Acho que o nome da estação de metro deveria ser Anhangabaú/Ladeira da Memória.

    ResponderExcluir