sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Próxima Música


(Ideia original de Marco Antonio Souza)

Cada vez que ligava o som, na tela, aparecia um totalizador que me desafiava: 101,6 days. Gritando que levaria mais de três meses para ouvir – 24 horas por dia – todas as 32.264 músicas guardadas. Quase 2.500 horas. Quanto mais o número crescia, mais me incomodava. Depois dos três dígitos ficou insuportável. Então, num fim de noite, entre um gole e outro, tomei uma daquelas resoluções tolas e irreversíveis que jamais conseguimos explicar direito. Não iria comprar, baixar ou copiar mais nada até ouvir a coleção inteira.

Logo depois dessa decisão extrema comecei a ficar preocupado. Como seria a longa audição? Como controlar a ordem? Botar ‘random’ e mandar pau?
Melhor levar a questão para o bar, o encontro de quinta feira com o pessoal de Som. Me chamaram de chato, demente e compulsivo, mas Heliol, nosso especialista em Informática, abraçou o problema.

“– Bom, usar ‘random’ puro é absurdo, vai ser terrível se depois da sedosa ‘Autumn Leaves’ entrar a trepidante ‘Fortuna Imperatrix Mundi’, da Carmina Burana? Pode trincar o gelo no copo, detonar a noite, espantar o tesão. Aconselho uma randomização ponderada para gerar sequências mais agradáveis e homogêneas. Se quiser preparo um ‘plugin’ para levar em consideração a hora do dia, a temperatura, a adequação entre as músicas, essas coisas, para montar as playlists.” Topei, Heliol era foda.

Uma semana depois recebi o aplicativo. Já estava indeciso sobre o projeto, pelos cálculos mais otimistas duraria no mínimo cinco anos. Duvidava que tivesse tanta perseverança, afinal o tempo muda tudo. Mesmo assim resolvi começar no dia seguinte, sexta feira.

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Instalar o ‘plugin’ foi fácil, o Media Server ficou uns 15 minutos pensando e apareceu ‘Pronto’ na tela. Só isso, nada de números, estatísticas e outros constrangimentos. Se quisesse informações – Heliol explicou – bastava teclar “Control ?”.

Diminuí as luzes, preparei um whisky sem gelo, sentei, tomei um trago e apertei play. Brilhou no monitor:


Próxima Música
Sonny Rollins: The Bridge [5:59]

Ouvi o saxofone soprando poderoso no alto da ponte, fechei a garrafa, guardei dentro do saco de papel e coloquei no bolso. Ajeitei o cavalete e a caixa de tintas no ombro esquerdo e comecei a subir os degraus. O sax parecia mexer com a paleta de cores e com o equilíbrio do universo, tinha mudado meu rumo, ampliado os horizontes.

Muito tempo atrás, batendo pernas pela Rua Delancey, vi, no alto da Ponte Williamsburg, um cara tocando. Fiquei curioso, subi para ouvir e reconheci Sonny Rollins, um saxofonista famoso. Repetia o mesmo tema, o mesmo trecho, a mesma nota centenas de vezes. Ou então partia para improvisações que visitavam todas as músicas do mundo. Estava procurando alguma sutileza que só ele sabia qual era.  Aquele ensaio infinito me iluminou, parecia com a minha busca, eu queria mudar os rumos da minha arte, mas não imaginava como.

Quase todo dia, em qualquer estação, o cara estava lá, 15, 16 horas seguidas, sua corneta imperando sobre os apitos dos rebocadores do rio, o barulho dos carros e o estrondo dos trens do metro. Comecei a subir para ouvi-lo – era como me elevar ao céu, escutar a trombeta de um anjo lutando para não cair. Comecei a levar cavalete e tintas, tinha resolvido pintar e repintar a Ponte do Brooklyn ao entardecer até descobrir a cor e o desenho de minha alma. O Pastor King já havia me prevenido que eu era igual a uma pedra, só tomava sol de um lado, precisava rolar.

As primeiras duas telas, quando acabei de pintar, despojado de mim, avaliei por mais de uma hora cada intenção e cada pincelada. Depois retirei o pano do chassi, com o estilete cortei no tamanho de cartas de baralho e joguei no rio. Na segunda vez Sonny parou de tocar e acompanhou meu rito de destruição. Na terceira, quando me viu avaliando o resultado, colocou o sax debaixo de braço e veio dar uma olhada.

– Gostei da Lua. Tem dia que também sinto um gosto de sangue na boca, e nada tem a ver com meus dentes ruins. Como é teu nome, bro?”

– Bart S.” Naquela versão a Ponte do Brooklyn estava corroída e em ruínas, sobre um rio de brilho violáceo. A Lua era Marte, uma íris congestionada cheia de veias vermelhas. Comecei a soltar a tela do chassi.

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Sempre que um novo quadro ficava pronto Sonny vinha avaliar, e fazia comentários. Numa das versões, em que os arranha-céus da cidade replicavam o desenho das colunas da Ponte de Brooklyn, disse: “– O instrumento precisa falar a voz do povo, o mesmo sotaque. Um eco, não um som divergente e pessoal. Daqui pode-se ver até muito longe, a cidade muda, porém permanece igual”.  Em outra ocasião, quando as pinceladas salientavam os cabos, os parafusos e as estruturas da construção, concluiu, um pouco conformado: “É impossível esconder os andaimes, os ganchos das harmonias.”

No último outubro, na entrada do inverno, depois de pintar e destruir telas por quase dois anos, meu trabalho havia mudado, estava mais aventureiro e envolvente, entretanto, ao mesmo tempo, mais duro e menos atraente. Conhecia cada ranhura, cada tessitura da Ponte de Brooklyn, conseguia acompanhar o sol acariciando aquela estrutura colossal como uma íntima mão de amante. Às vezes sentia que meus dedos seguravam os pincéis com a mesma destreza e hesitação que um saxofonista pressiona os pistões.

De repente um quadro intrigante começou a brotar dos pincéis. Os tons azuis e as variações de um branco luminoso predominavam. O perfil da ponte – que conhecia de cor – havia ganhado uma feição estranha, recalcitrante e fugidia. Quando mais eu corrigia e retocava, mas diferente se mostrava. O trabalho estava desgastante, rendia pouco. Antes de ir embora Sonny parou para dar uma olhada. Aceitou um trago na boca da garrafa, olhou a pintura e explodiu em risadas incontroladas. Nunca tinha visto isso antes, fiquei desconfortado. “– A ponte está errada Bart, você esta tentando fazer nosso autorretrato. Mas tá ficando bom, vai em frente.” Olhei o trabalho atarantado, meu amigo estava certo, o cavalete mostrava a Ponte Williamsburg, não a Brooklyn. Descemos as escadas gargalhando.

Por alguns dias trabalhamos sem nos falar, eu pintei a nossa ponte como um palco feericamente iluminado, com três Luas como poderosos holofotes. O quadro continuou azul e branco, a única coisa amarela, ensolarada, era um saxofonista sobre um dos pilares. Eu o acrescentei quando Sonny me avisou que não viria mais ensaiar. Não destruí esta tela, antes de voltar para casa, deixei com Lucille, a mulher do jazzista.

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Tirei o saco de papel do bolso, abri a garrafa e tomei um gole, li na tela:


Próxima Música
Beatles: Norwegian Wood (This Bird Has Flown) [2:05]

O vinho escorreu pelo queixo, limpei com a manga da jaqueta, não havia cadeiras na sala, sentado no tapete não conseguia parar de olhar para a boca da garota, para o beicinho lindo que fazia quando dizia "– Isn't it good? / Norwegian wood".

3 comentários:

  1. Li 3 vezes seguidas com sorriso aberto. Z, como sempre textos deliciosos de ler.

    Forte abraço

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  2. Muito obrigado pelo comentário Miro.

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  3. Wran R. M. Accorsi | por email
    Douglas,

    Que maravilha, o conto é muito envolvente (como todos os seus contos o são) e extremamente original, fazendo com que nós sonhemos em outros planos possíveis da existência.

    Gosto também do sutil senso de humor e ironia que está por detrás de cada comentário.

    Como disse o Edison Cristianini (não com estas palavras), trata-se de um escritor já acabado e completo em suas habilidades, "contumaz" e com status de profissional, porém sem perder o necessário ardor do amador ao expressar o veio criativo.

    Parabéns, pelo blog mais uma vez, o qual consegue ser totalmente interessante e entrar no mundo da sensibilidade.

    Um grande abraço,
    Wram

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