terça-feira, 15 de março de 2016

Perfumes do Machado


Publicado como e-book na Amazon



Ao Leitor Paciente

Tinha uns 16 anos quando a grandeza de Machado de Assis foi captada pelo meu radar. Surgiu como um desafio, um professor provocou: “só vai entender direito depois dos 25”. Foi como atear fogo num pavio, comecei a lê-lo imediatamente, parecia a porta de entrada para o mundo dos adultos.

Desde então nunca parei, passeio regularmente pelas obras completas do nosso gênio da raça. Em especial pelos seus cinco grandes romances. Sempre estou relendo algum deles. De repente – enquanto revisitava
Dom Casmurro – fui tentado pela ideia de um conto. Durante a escritura o projeto evoluiu para uma proposta mais ambiciosa: cinco noveletas curtas recontando as maiores obras do Bruxo.

Desse desatino, homenagem e diversão resultou o livro
'Perfumes do Machado’.

A temerária aventura de retomar as principais histórias de Machado virou um repto com regras rígidas. Os acontecimentos seriam transferidos para S. Paulo, contudo os temas principais (como os percebia) e os inventivos esquemas narrativos do mestre deveriam ser preservados e obedecidos.

Assim,
“Dom Casmurro, in pectore” gira em torno de uma dúvida jamais elucidada. “Quincas Borba IV” conta uma paixão pós 68 atropelada pela ingenuidade política. “mpbc.com” é uma decifração do sentido da vida revelada por emails enviados por um morto. “Isaú+Jacó” e “‘Memory All’ de Aires” estão interligados, têm o mesmo narrador. O primeiro acompanha a trajetória dos gêmeos que vivem o mesmo destino, porém em dois momentos diferentes. O segundo segue as tribulações de uma ‘viúva’, com nome de ópera, que tenta superar os desacertos com o antigo parceiro.

Foi muito bom jogar este jogo e tramar situações inusitadas para recontar as incríveis criações do nosso escriba maior, talvez interessantes, mas, indubitavelmente, sem o mesmo brilho.

Douglas Bock

segunda-feira, 14 de março de 2016

AS MUSAS IMPASSÍVEIS, PASSEIAM

A Musa Impassível, como uma deusa envolta em lendas, ocupa o núcleo de um vasto conjunto de histórias paulistanas. E, desde que a escultura foi replicada, o ciclo da musa-poema tem duas ramificações. A primeira, a versão em mármore, esculpida por Victor Brecheret, entre 1921 e 23, está exposta na Pinacoteca. A segunda, a cópia em bronze, moldada pelo Liceu de Artes e Ofícios em 2007, enfeita o túmulo da poetisa no Cemitério do Araçá. Ambas versões são visitáveis.

O emaranhado de lendas que envolve a musa de pedra, com alma de moça séria, tem de tudo: fofocas, dúvidas, palpites. Falam de batalhas literárias; de morte misteriosa; de extremos de fidelidade conjugal; de um antigo amor secreto; de provas de amizade. Existe até um filme bonito e ambíguo, sobre TOC, inspirado na escultura.

A origem desse universo em expansão é um lindo poema, Musa Impassível. Um par de sonetos de Francisca Júlia publicados no livro ‘Mármores’, em 1895 (1 - veja abaixo). Foi a partir destes versos que Brecheret concebeu sua musa. De mármore, feito o livro.