segunda-feira, 14 de março de 2016

O PASSEIO DAS MUSAS IMPASSÍVEIS

A Musa Impassível, como uma deusa envolta em lendas, é o núcleo de uma bela saga paulistana. Desde que a escultura foi replicada (2006), o ciclo da musa-poema tem duas ramificações. A primeira, a versão em mármore, esculpida por Victor Brecheret, entre 1921 e 23, está exposta na Pinacoteca. A segunda, a cópia em bronze, moldada pelo Liceu de Artes e Ofícios em 2007, enfeita o túmulo da poetisa no Cemitério do Araçá. Ambas versões são visitáveis.

O emaranhado de lendas que cerca a musa de pedra, com alma de moça séria, tem de tudo: fofocas, dúvidas, palpites. Falam de batalhas literárias; de morte misteriosa; de extremos de fidelidade conjugal; de um antigo amor secreto; de provas de amizade. Existe até um filme bonito e ambíguo, sobre TOC - Transtorno Obsessivo-Compulsivo, inspirado na escultura.

A origem desse universo em expansão é um lindo poema, Musa Impassível. Um par de sonetos de Francisca Júlia publicados no livro ‘Mármores’, em 1895 (1 - veja abaixo). Foi a partir destes versos que Brecheret concebeu sua musa. De mármore, feito o livro.


Francisca Júlia César da Silva Münster viveu 49 anos, de 1871 a 1920 e é considerada a maior poetisa de sua época. Alguns críticos argumentam que o trio de ouro parnasiano, masculino (Olavo Bilac, Raimundo Correia e Alberto de Oliveira), deveria virar um quarteto misto e incluir Francisca Júlia. A qualidade de seus poemas publicados (60 ±) justifica esta pretensão.

A vida da autora, aparentemente simples, é repleta de vastas tribulações e gestos peremptórios. Falam da fuga de um amor truncado em Cabreúva; da mudança para S. Paulo – Guaianases; de seu exigente rigor artístico; de um casamento por amor com um telegrafista da E. F. Central do Brasil; da solidariedade na doença terminal do marido; da fidelidade conjugal; da recusa a assumir uma cadeira na fundação da Academia Paulista de Letras (condicionou a aceitação à entrada do irmão e parceiro – Jose Cesar da Silva – também poeta). Muitos ouviram a esposa amorosa afirmar que “jamais poria o véu de viúva”. Cumpriu a promessa, foi enterrada um dia depois do marido, acrescentando um possível suicídio ao ciclo de lendas.

Morreu em 1920, dois anos antes da Semana de Arte Moderna. É impossível dizer se seria ou não uma participante do festival. Sua poesia, marcadamente parnasiana e simbolista, representava tudo aquilo que o movimento abominava. Entretanto, a poetisa era muito respeitada por todos os semanistas, vários deles estiveram presentes no seu enterro e na missa do sétimo dia. Foi nestes eventos que apareceu a ideia de um mausoléu para a artista, que se consubstanciou na famosa e fabulosa Musa Impassível, de 2,80 m, feita de mármore de Carrara e esculpida em Paris.

Brecheret conseguiu captar com precisão a entidade evocada pelo poema, que parece representar o alter ego da poetisa: belíssima, altiva e distante. Plasticamente a figura é estranha, ambígua e desconcertante. Da cintura para baixo mostra uma mulher majestosa e sensual, os véus e drapejados mal conseguem esconder as formas femininas sensuais e excitantes. O torso, porém, remete a uma deusa-mãe interditada e a uma amante ressonhada. Sobretudo por causa dos túmidos seios rompantes e do rosto austero, porém dócil e benevolente. Existe um vão infinito separando estes dois recortes. Um abismo intransponível – intrinsecamente parnasiano – que contrapõe os desejos primitivos à serena busca de sabedoria e compreensão.

A musa de mármore ficou 83 anos (de 1923 a 2006) ao relento velando o túmulo de Francisca Júlia no Cemitério do Araçá. Impassível, esquecida e desprestigiada. Alipás, como a obra da poetisa, degredada pela revolução artística proposta pela Semana de Arte Moderna.

Aí aconteceu uma dessas coisas que às vezes evidencia a resiliência do velho espírito paulista e bandeirante. Em 2006, Sandra Brecheret, filha do escultor, redescobriu a belíssima obra do pai e começou a promover a recuperação da estatua. Foi montada uma ampla operação multidisciplinar de restauração. (Ver fotos da mudança na SP Antigo - http://www.saopauloantiga.com.br/a-historia-da-musa-impassivel/). A musa, remoçada e renovada, foi abrigada das intempéries num dos pátios da Pinacoteca. Hoje, talvez seja a principal anfitriã daquela instituição.

No túmulo da poetisa – a verdadeira e perene Musa Impassível – foi colocada uma cópia de bronze, mais resistente ao tempo, contudo, capaz de guardar as manchas verdes das saudades.

(1) - MUSA IMPASSÍVEL - Poema de Francisca Júlia

Musa Impassível

I

Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de um Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d'ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d'alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

II

Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.

Publicado no livro Mármores (1895).

In: JÚLIA, Francisca. Poesias.
Introd. e notas Péricles Eugênio da Silva Ramos.
São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 196


2 comentários:

  1. É linda essa escultura, simplesmente divina! representa maravilhosamente a poesia.

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  2. E verdade Clotilde, a Musa Impassivel é uma dessas preciosidades absolutas que a historia de São Paulo produz.

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