segunda-feira, 11 de julho de 2016

Em Busca do Paraíso Perdido


Por 50 anos, do vigésimo sexto andar do Edifício Louvre, assisti S. Paulo se deteriorar. Quando voltei, em 1964, nos horizontes distantes ainda se podia enxergar muito verde, contudo as novas construções avançavam audaciosas, como chagas urbanas assintomáticas. Agora, das minhas janelas, depois do pequeno bosque da Praça Dom José Gaspar, avista-se um cenário de filme apocalíptico. Desdobra-se uma terra desolada, devassada por horrores, uma proliferação gigantesca de enormes conchas corroídas, que assustam os olhos e a alma.

Nos dias de sol a cúpula da Catedral da Sé ainda brilha resplandecente, feito uma pérola esverdeada perdida no monturo de ostras geométricas. Como um grito de socorro aflito, abafado pelos prédios feios. Não desço mais para as calçadas, temo as superpopuladas ruas Blade Runner.


Comprei o apartamento e decorei para recém-casados, mas Edo jamais cruzou a porta de entrada. Atravessei meio século cumprindo a solitária transição de jovem esposa para viúva velha. Acabei uma mulher desesperançada e exilada no passado, rememorando os seis anos de serena felicidade em Berna, ensaiando com nosso Piano Trio. De repente, no dia 18 de outubro, exatamente no sexagésimo aniversário do casamento com Edo, recebi um email estranho.

Senhora Sissa Edo Dahcam,

Acreditamos que temos os recursos e as tecnologias necessárias para ‘reviver’ o Sr. Edo Dahcam.

Não somos uma instituição religiosa, trabalhamos com cibernética e inteligência artificial, oferecemos a imortalidade virtual.

Se estiver interessada responda este email usando três vezes a expressão ‘f(SUM)’ num texto coerente.

Após sua manifestação, se ela acontecer, representados pelo Frater Joaquim, faremos uma visita para esclarecer dúvidas, no dia e hora mais convenientes.

f(SUM) Fraternitas Solvere Ultimum Mysterio


Imaginei que fosse alguma brincadeira desses irritantes garotos plugados, então, desafiadora, respondi o email com um poeminha pretensioso e marquei o encontro. Não porque acreditasse naquela baboseira de imortalidade virtual, porém achei gentil atentarem para nossa data de casamento. Como sabiam? Na verdade, penso que desejava conversar com alguém sobre Edo, que, cada vez mais, se confundia com um fantasma evanescente habitando minha mente.

Violino sem cordas
de alma quebrada
que cala saudades
f(SUM)
f(SUM)
f(SUM)
expiro com um suspiro.

Quinta feira próxima, 15 horas.


Nos três dias que antecederam a entrevista não fiquei em S. Paulo, me transportei para Berna, para o passado, 1954. Deslizei para a encantada rotina do apartamento com vista para o Rio Aar, sublocado da velha Dona Dora, neta de uma professora do Rio Grande. Falava bem português, me chamava de Sissa Edo Dahcam, escandindo as sílabas e com voz cheia de enigmas. Nesse ninho, durante seis anos, Edo e eu vibramos num acorde perfeito.

Nossas vidas se entrelaçaram quando me convidou para formar um Piano Trio, junto com Elias, um violino de Munique. Precisavam de uma celista para fazer o mundo girar, dar sentimento e sensualidade ao conjunto. Antes da primeira apresentação já estávamos casados.

Cinco anos de escandalosa felicidade. No sexto, 1959, Edo começou a ficar inquieto com a situação politica da Nigéria – sua terra natal – que se preparava para a independência. Decidiu passar alguns meses no país para entender o que estava acontecendo. As primeiras cartas eram entusiasmadas e diárias, depois se tornaram rarefeitas, semanais, quinzenais e, abruptamente, acabaram. Meu parceiro sumiu, desapareceu. Viajei para Benin, o último endereço, mas nunca consegui encontrá-lo. Sua família não tinha notícias, sabiam apenas que havia se envolvido com grupos militantes do interior.

Voltei para a Suíça dilacerada, somente o violoncelo me recebeu, absorveu, possuiu e salvou. Conversava dia e noite com ele, punha o instrumento entre as pernas e atulhava seu bojo oco com as atrozes saudades do meu amado. Lentamente emergi da crise. O violino Elias disse que meu som havia encanecido, ganhado transcendência. Arrumou um novo pianista e insistiu em ressuscitar o conjunto, o Trio Bernês. Logo que começamos a gravar e fazer sucesso adotei o nome inventado por Dona Dora: Sissa Edo Dahcam. Era um recado para o meu marido, onde ele estivesse saberia que permanecia fiel e ansiosa para recebê-lo.

No Brasil – como na Nigéria – as coisas estavam se encrespando. Resolvi fixar residência em S. Paulo, precisava experimentar a inquietude das ruas, as agitações políticas. Queria compreender o que aconteceu na cabeça do meu parceiro. O que lhe deu coragem para me trocar pela Política. Descobri conformada que éramos diferentes, Edo nasceu flecha, eu arco.

*****     *****     *****
Frater Joaquim chegou cinco minutos antes da hora marcada, eu já estava ansiosa desde a madrugada. Devia ter 35 anos, afrodescendente, cabelos curtíssimos e barba recém-escanhoada. Cumprimentou-me com mãos tépidas e sentamos no sofá. O aparador com água, chá e bolachas estava entre nós, mas ninguém tocou em nada. Devo ter esquecido o som ligado, porque ressoava baixo, longe, a Canção Lídia do Quarteto 15 de Beethoven, que toquei uma vez quando era uma estudante feliz.

Assisto filmes compulsivamente, muitos de ficção científica. Por isso, observando os gestos calmos e calculados de Joaquim comecei a desconfiar. O olhar franco e convidativo; o tom de voz seguro, amistoso e subordinado; o sorriso correto e o discurso afinado com as expectativas do interlocutor eram excessivos. Todo aquele acúmulo de perfeições corroboravamm minha tese absurda: Frater devia ser um androide. Ou a melhor imitação possível daquelas criaturas. No momento apropriado abordou o motivo da visita.

“Certamente a Maestrina não sabe nada sobre a f(SUM) – Fraternitas Solvere Ultimum Mysterio. Preferimos que seja assim, não incentivamos a publicidade. Somos uma comunidade mundial de engenheiros de computação, cientistas, filósofos, designers, hackers e outros especialistas, dedicados a pesquisar o último e maior mistério humano: a Morte. Iniciamos nossos estudos por volta 1968, liderados por um ex-beneditino alemão. Funcionamos como uma ordem religiosa secreta e exotérica, contudo completamente agnóstica. Gostamos de nos chamar ciberespaciários.”

Olhou fundo nos meus olhos, para confirmar se estava entendendo, e continuou.

“Ainda não conseguimos vencer a Morte, mas encontramos uma boa rota de fuga. Cerca de uma década atrás desenvolvemos um dispositivo inovador o egochip que, quando implantado na nuca do indivíduo, depois de acoplado ao sistema cognitivo, é capaz de replicar o psiquismo do hospedeiro, capturando integralmente suas memórias e personalidade. Podemos então criar uma cópia digital da pessoa, um avatar concebido para viver num universo simulado”.

Frater Joaquim ficou em silêncio, aguardando que eu assimilasse as informações e esperando perguntas. Permaneci calada, confusa e estarrecida.

“A f(SUM) mantém dezenas destes mundos fictícios –  egovivências – baseados em romances, filmes, séries, franquias e épocas históricas. Nestes ambientes artificiais nossos convidados, preservados para a imortalidade virtual, podem prolongar suas vidas para sempre. Quando cumprem o curso da vida física são acordados em mundos novos, porém familiares, como se tivessem chegado de uma viagem pelo tempo ou espaço. Preservam completo domínio de suas lembranças, desejos, manias e habilidades. Em geral escolhem renascer num corpo jovem e saudável – entre 25 e 35 anos – inume às doenças, deficiências e envelhecimento.”

Tudo parecia irreal, onírico, maravilhoso e mentiroso. Uma brincadeira de mau gosto, um bizarro inferno-paraíso post-mortem, contudo fascinante e irrecusável. Ninguém despreza examinar uma alternativa para a Morte, qualquer que seja ela.

“Porque está me contando tudo isso, Frater Joaquim?”

“Por dois motivos Dona Sissa. Primeiro o carinho – vários monges ciberespaciários são seus admiradores, conhecem bem e veneram seus discos e carreira. Segundo o interesse – na sua biografia existe uma peculiaridade, um problema desafio que ainda intriga a f(SUM): a persistência da memória. Um dos fraters fundadores, dedicado à questão, apresentou uma proposta de pesquisa inusitada: reviver Edo Dahcam a partir das lembranças que guarda de seu marido. O plano é ‘salvá-los’ ambos e despertá-los como avatares parceiros numa de nossas ‘egovivências’. Assim poderão curtir a vida juntos pela eternidade. Se quiserem. Vai ser estimulante, nunca testamos nada semelhante.”

Fiquei descerebrada, catatônica. Ressuscitar Edo! Impensável! Desatino! Absurdo como conversar com Deus, ou ensaiar as Seis Suítes com o próprio Bach. Minha cabeça explodiu em ideias estilhaçadas, dezenas de reminiscências simultâneas, hipóteses incompletas, conclusões carentes de premissas. Nada que conseguisse formular como pergunta coerente. Precisava urgente de alguma coisa mais sólida do que pensamentos. Preparei chá como numa cerimônia japonesa, intui que Joaquim não iria aceitar.

“Infelizmente, Senhora, somente com recordações não é possível recriar entidades vivas. Precisamos de mais alguma coisa – consciência, ansiedade, intenção, desassossego – o fulcro motor da autodeterminação, vontade e causalidade. Podemos capturá-la, todavia ainda não sabemos como produzi-la. Assim, nos sentimos obrigados a alertá-la que, se não conseguirmos gerar esta singularidade humana a partir das suas reminiscências, nosso frater primitivo, líder do projeto, talvez seu maior fã, vai tirar dele próprio este fator incognoscível.”

“Então não será completamente Edo?”

“Talvez não. Mas, como seria seu marido hoje? Como ele realmente era? Afinal ninguém é completamente transparente. Até agora não permanecem misteriosas as motivação das suas últimas decisões nigerianas?”

“Vou viver com um desconhecido?” Enfatizei, conversando comigo mesma. Argumentar com Frater Joaquim era perdulário. Ele estava bem ensaiado, sabia todas as respostas. Ou lhe sopravam?

“Mas não é sempre assim, Senhora?” Perguntou e me deixou pensar por algum tempo.

“Considere que leva uma imensa vantagem, vai preservar a memória detalhada de toda sua vida vivida. Edo não, só poderemos recriá-lo até onde a senhora o conheceu. Tudo mais serão especulações e novidades. Vai ser o primeiro avatar consciente, nas ‘egovivências’ f(SUM), sem experiência de vida real. Um caso excitante, imprevisível, se tivermos sucesso."

*****     *****     *****
Acordei, e antes de abrir os olhos constatei que havia morrido. Senti o saudável vigor da juventude percorrendo minhas pernas, abdômen, peito e braços. Com naturalidade estendi a mão para tocar o corpo ao meu lado. Não precisava, ainda, revê-lo. Acariciei meu deus loiro renascido, dez centímetros maior do que eu. Tinha certeza que quando me olhasse no espelho veria uma jovem negra alta, longilínea de seios grandes, dentes brancos e olhos vivos e curiosos. Edo gostava que usava roupas folgadas, estampadas e multicoloridas. Dizia que me deixavam bonita, lembravam sua terra e ajudavam nosso Piano Trio. Diversidade, no violino e piano dois vikings de terno escuro, no violoncelo uma guerreira africana colecionadora de cores vivas.

Bateram na porta, graças às devassáveis mágicas da f(SUM) tinha consciência que era uma manhã de maio de 1920, morávamos em Berna, com vista para as corredeiras do Aar. A intrusa era Dora, a filha da professora do Rio Grande, rejuvenescida. Agora secretária do Trio. Pretendia discutir a viagem para a apresentação em Davos, no Sanatório Internacional Berghof, aquele de Thomas Mann, do romance A Montanha Mágica.

Passei alguns minutos avaliando minha futura vida eterna, meu paraíso reconquistado. Quanto teria de redundância e quanto de novidade? Contudo a questão mais importante ainda estava pendente, só saberia quando Edo acordasse. Meu marido ainda seria o parceiro perfeito?

Me surpreendeu a persistência dessa questão, tão cotidiana e vulgar.


OUTROS CONTOS COM A f(SUM)


Clique >>> O PARAÍSO DE CADA UM

Clique >>> DESCANSE EM PAZ, ENTRE OS BYTES

Clique >>> UMA CERTA IMORTALIDADE




Um comentário:

  1. || 18/jul/2016 || / Luis Garcia Bertotti – via Facebook
    Uma velha poltrona, um abajur de pedestal, a sala de estar de um apartamento da São Luiz. O sol poente de outono ilumina a cúpula da Catedral. Yo-yo Ma toca baixinho a suíte nº 1 de Bach, e o cheiro de café recém-coado vem da cozinha para completar o cenário. Douglas, suas histórias têm o dom de me transportar a lugares melhores do que os imaginados pelos cibermonges da f(SUM).

    Os finais abertos é que me mergulham na ansiedade.

    ResponderExcluir