terça-feira, 9 de agosto de 2016

Casa de Alfredo Volpi


Nesta casa sem graça, comum e camuflada – Rua Gama Cerqueira, 154 / Cambuci – morou Alfredo Volpi, talvez o maior pintor brasileiro. Durante muitos anos ali foi seu atelier, de lá saíram milhares de obras primas (entre 3 a 5 mil), hoje imensamente valorizadas. Entretanto, nenhuma placa homenageia o mais ilustre e fiel morador do bairro. 

Muitos críticos, prêmios e estudos recentes têm apontado e consagrado o ítalo-paulistano como o mais criativo e revolucionário pintor nacional. Na Bienal de 1953/54, aquela que exibiu Guernica e mudou a geografia da Arte no Brasil, a indicação do melhor artista foi dividida entre Volpi e Di Cavalcanti. A contagem da votação registrou 8 a 1 para Di, mas como o ‘1’ era Herbert Read – a grande autoridade internacional especialmente convidada – então a eleição previamente combinada (conforme relata Décio Pignatari), teve que ser reformada para um empate. Os 'modernistas' nunca engoliram direito esta nova matemática. 


Curioso o percurso de Volpi. Começou como pintor de parede e decorador das mansões paulistas; em 1912 cometeu sua primeira tela; em 1940 integrou o Grupo Santa Helena; só em 1953/54, quando premiado pela 2ª Bienal, virou figura nacional.



No princípio era um paisagista naïf, pintou marinhas, casarios, fachadas e barcos, no meio disso eclodiram as bandeirinhas, que viraram sua marca registrada. Através delas tornou-se um mestre colorista e um refinado abstrato parônimo.

Coincidência intrigante, as bandeirinhas são contemporâneas da Bossa Nova e do Cinema Novo. Um portal estético-temporal aberto que permitiu ao Brasil ousar um jeito diferente e inesperado, com formulas simples, de resolver as eternas e inextrincáveis equações da Arte.

Contudo o ‘ingênuo’ Volpi foi muito mais além, surfando na onda da guerra fria inventou a sofisticada e engajada série ‘Ogivas’, que dialoga com a possibilidade do colapso armamentista e o perigo do Armagedom provocado. Ou seja, pensou no mesmo horizonte de eventos dos outros grandes movimentos artísticos mundiais da época.


Uma exposição acontecida em Londres em junho/julho 2016 – no viés de novas reavaliações – questionou se Volpi seria mesmo ‘naÏf’. Interessantes tempos, talvez a fama do pintor cresça ainda mais no futuro, numa rota alterada e amplificada. Deixando para trás as chaves e avaliações da Semana de 22.


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4 comentários:

  1. Obrigado pela visita e comentário, Sonia.

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  2. A genialidade dele está em persistir num tema com criatividade, de forma que podemos identificar o autor sem considerá-lo repetitivo! As suas pinturas trazem à tona a ingenuidade de quem as admira, então nós é que deveríamos ser considerados "naïf"...

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  3. Wilson Colocero, obrigado pelo comentário. Volpi estudou muito Giotto, era um colorista fantástico, sua pintura ficou clássica, começava com a preparação do pigmento. Seus quadros, mesmo quando parecem iguais, variam imensamente nas cores.

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