quinta-feira, 27 de outubro de 2016

HOTEL ESPLANADA - Sala de Visita da Paulícéia Desvairada


Até 1890 S. Paulo possuía apenas 64.934 habitantes. Além da vida acadêmica em torno da Faculdade de Direito, destacava-se como paragem de imensas tropas de burros em direção ao Porto de Santos, que, não raro, desfilavam pela Rua Direita. Escassos 32 anos depois, na Semana de Arte Moderna, chegou a quase 600 mil. A urbe que Mário de Andrade chamou de Paulicéia Desvairada havia se multiplicado por dez.

Nesse intervalo a capital dos paulistas se consolidou como maior entroncamento ferroviário do país. As acanhadas capelas e igrejas coloniais foram derrubadas, no lugar delas ergueu-se um magnifico conjunto de templos que, ainda hoje, enfeitam a paisagem da cidade. O Teatro Municipal eclodiu suntuoso do outro lado do sinistro brejo do Anhangabaú que, drenado, foi convertido num parque urbano sofisticado, cercado de palacetes e decorado com estátuas. Edifícios começavam a crescer por perto e bairros chiques brotavam em torno do Centro.
A louca Semana de Arte de 22 foi a festa de debutante da jovem metrópole e o anúncio de que surgia um novo e poderoso farol na geografia culta do Brasil. Entretanto faltavam acomodações de qualidade para receber os passageiros ilustres que desciam dos trens empolgados com o novo e alucinante polo comercial da nação.

O Hotel Esplanada abriu suas portas em 1923, era a sala de visitas da jovem cidade, de repente transformada em metrópole trepidante e locomotiva do Brasil. Desde a abertura – um ano depois da Semana de Arte Moderna – e por algumas décadas atraiu todas as pessoas importantes que passavam pela Paulicéia. Seu principal concorrente, o Hotel Terminus que perdia no quesito localização, era perto da Estação da Luz, mas longe do Centro.

Suas belíssimas instalações – projetadas por Joseph Gire, o mesmo arquiteto do Copacabana Palace – como todos sabem, era ao lado do Teatro Municipal, o orgulho paulistano, e com privilegiada vista para os Jardins do Anhangabaú. Por isso os artistas, escritores e endinheirados que chegavam à cidade convergiam para seus apartamentos e salões. Mais ainda, possuía um túnel que levava direta e discretamente ao Teatro, conveniente para as famosas atrações mundiais que se apresentavam no nosso mais refinado palco.


A relação dos celebridades acolhidas pelo hotel durante seus 34 anos de atividade (de 02/1923 a 12/1957) é extensa e fulgurante. Basta procurar no Google, existem centenas de crônicas documentando estas visitas. Se compiladas dariam um magnifico livro sobre a melhor época de S. Paulo. Enrico Caruso, Beniamino Gigli, Bidú Sayão, Magdalena Tagliaferro, Elvira Rios, Mario Moreno (Cantinflas), Carmem Miranda, Sylvio Caldas...

Para ficar no âmbito da literatura, além de ter sido personagem de vários romances e novelas brasileiras, dois ganhadores do Prêmio Nobel se hospedaram no Esplanada.

Em março de 1927 Rudyard Kipling, ciceroneado por Alexander Mackenzie, vice-presidente da Light, veio conhecer a Serra do Mar e as usinas da empresa. Durante sua estada escreveu a ‘Canção do Dínamo - Song of the Dynamo' (ver abaixo -  1. Kipling), um de seus principais poemas.

William Faulkner esteve no hotel entre 8 e 14 de agosto de 1954 (quase pegou o suicídio do Getúlio), para participar do Congresso Internacional de Escritores em São Paulo. Consta que atravessou os dias bêbado, entusiasmado e aéreo – às vezes os três estados ao mesmo tempo. Contudo, aproveitou a oportunidade para fazer um deslumbrante elogio aos olhos de Lygia Fagundes Telles: “Se os seus contos forem tão bonitos quanto os seus olhos, a senhora certamente é uma grande escritora”.

Oswald de Andrade era um frequentador assíduo, porém desmente que foi num dos seus quartos que bebeu champanhe com Isadora Duncan. Gostava tanto do lugar que, em 1927 – o ano do Kipling – escreveu a ‘Balada do Esplanada’ (ver abaixo > 2. Oswald), que Cazuza em 1987 adaptou, musicou e gravou (clique > Balada do Esplanada/Cazuza).


Helena e José Ermírio de Moraes casaram-se no Hotel Esplanada em 1925. Por causa deste viés romântico a família decidiu comprar o prédio em 1963. Adaptou o velho hotel para uso comercial, mudou o nome para Edifico José Ermírio de Morais e instalou lá a sede da Votorantim, um dos maiores complexos industriais do país.

Recentemente o Governo do Estado de São Paulo adquiriu o imóvel prometendo instalar no local a Secretaria da Agricultura e Abastecimento. No dia 03 de abril de 2014 Geraldo Alckimin fez até discurso de inauguração. Porém, atualmente, passando por suas calçadas, o prédio parece vazio e subutilizado. O térreo, mal iluminado serve apenas de estacionamento para carros e motos.

Uma pena dar ao belo prédio um uso tão insignificante. Os  planos e iniciativas de ocupação dos edifícios do Centro, pela Prefeitura e Estado, são muitas vezes ébrios, enigmáticos e erráticos; desarticulados, desencontrados e descontínuos. Talvez, seguindo exemplo de outras capitais mundiais, o elegante hotel devesse ser incorporado à Fundação Theatro Municipal para exposições permanentes dos cenários, figurinos e memorabilia da cena musical paulista.



(1. Kipling)


Song of the Dynamo

Brazilian Sketches, 1927

HOW do I know what Order brings
  Me into being?
I only know, if you do certain things,
 I must become your Hearing and your Seeing
Also your Strength, to make great wheels go round,
And save your sons from toil, while I am bound!

What do I care how you dispose
 The Powers that move me?
I only know that I am one with those
 True Powers which rend the firmament above me,
And, harrying earth, would save me at the last—

But that your coward foresight holds me fast!


(2. Oswald)

Balada do Esplanada

Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes de ir
Pro meu hotel.
É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada.

Eu queria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel
No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
É o hotel
Do menestrel

Pra me inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel

Mas não há, poesia
Num hotel
Mesmo sendo
'Splanada
Ou Grand-Hotel

Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador


3 comentários:

  1. Testemunho de grande parte da história da nossa cidade. Tão lindo, e lamentavelmente desprezado pelo governo. Obrigado por manter viva a história desse lugar marcante!

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  2. Wilson Colocero, em quase todo lugar do mundo os Teatros de Ópera são muito dinâmicos, têm vários tipos de atividades o dia todo. Acho que o Municipal precisa se pensar como uma instituição cultural que vai além dos espetáculos no palco.

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  3. Recebido via Facebook
    MARIA SATELES ― Que encanto, quanta riqueza! Muito obrigada isso não é uma matéria e sim um acervo!

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