terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Sorriso de Beatriz - Aleph - Borboletas


A Cultura Pop tem uma curiosa relação com temas, autores e obras, prefere mais gravitar em torno do assunto do que abordar diretamente o objeto de interesse. Lembra aquelas belíssimas borboletas de Lorentz da Teoria do Caos, que resultam da plotagem das reiteradas tentativas de correlação com atratores estranhos. O que sugere que a beleza está na busca, não na decifração do mistério.

A Divina Comédia é um dos principais atratores estranhos da Cultura Pop. Filmes, romances, sagas, teses e músicas orbitam este colossal monumento do inicio do Renascimento.

Na verdade a obra prima de Dante, ela mesma, já prenunciava uma produção Pop, porque promoveu a mais ampla reavaliação, popularização e ressignificação de todos os grandes sistemas, poemas e epopeias que a precederam. Vasta e ousada súmula, escrita em italiano vulgar, que popularizou, avaliou e classificou todos os episódios e personagens da historia e ficção antiga, realocando-os nos seus tríplices mundos – Inferno, Purgatório e Paraíso. Assim ler Dante é embarcar numa viagem guiada pelo poeta para muito além do Renascimento.

A enumeração das influências da Divina Comédia na cultura recente poderia começar pelo O Senhor dos Anéis, por exemplo. A caminhada dos hobbits para destruir o anel remete também à peregrinação de Dante e Virgílio pelo Inferno e Purgatório. Continuar com Hannibal, o canibal – romance, filme e série – que revisitam horrores e assombros dantescos. Prosseguir com o Inferno, agora de Dan Brown, que passeia pelo velho poema  sugerindo correlações entre a superpopulação e as paisagens infernais. As visitações e homenagens ao poeta e sua criação são infindáveis, um universo em perpétua expansão.

Lendo o Leitor da Divina Comédia

Durante o segundo semestre de 2017, induzido pela excelente biografia Borges: Uma vida de Edwin Williamson, que explora longamente a figura do argentino como leitor de Dante, resolvi empreender uma demorada e detalhada releitura da Divina Comedia, com uma novidade, substituir os guias Virgílio e Beatriz pelo Google, muito mais esperto. Foi uma peregrinação reveladora, interessante, variada e inesperada.

Borges, um dos epígonos da pós modernidade e também um atrator estranho da Cultura Pop, se acreditava um leitor privilegiado, quase um confidente do florentino. No Último Sorriso de Beatriz (Nueve Ensayos Dantescos [1982]) deixou uma interpretação icônica do poema. Argumenta que a despedida do vate e sua musa é a mais doce e dolorida cena de adeus de toda a Literatura.

Fissurado na presumida proximidade entre Borges e Dante, Edwin Williamson, o biografo inglês, desenvolveu uma tese arriscada – e talvez excessiva – que pretende decifrar o sentido da vida do memorioso cego de Buenos Aires.
  • (a) Como Borges acreditava possuir uma interpretação reveladora da obra de Dante. Apostando que o poema havia sido escrito para possibilitar ao florentino realizar um sonho impossível. Especificamente, dizia que os 100 Cantos da obra eram somente um pretexto para fantasiar seus encontros e conversas imaginários com Beatriz, coisa que jamais fez em vida.
  • (b) Por similitude e emulação, Para o biógrafo inglês, o mestre portenho passou a acreditar que, se também encontrasse sua Beatriz, conseguiria inspiração para escrever uma obra prima que sobreviveria ao Tempo. Por isso buscava em toda mulher de quem se aproximava a revivescência da musa antiga.
Curiosamente, no conto mais conhecido de Borges, Aleph – dedicado a Estela Canto, uma das candidatas à musa – o nome da personagem feminina central é Beatriz, que aceita a corte do autor, porém não lhe concede o amor.

7 Salvados do Inferno

Durante minha leitura da Divina Comédia alguns personagens me pareceram descolados no Inferno de Dante, então resolvi escrever poemas sobre sete deles para registrar esta estranheza. Na ocasião lembrei de um curioso procedimento criativo que o pessoal do Cinema, depois do Dogma 95, curte: dogmas. Daí, para brincar, decidi criar um dogma como paradigma para o trabalho planejado. Assim nasceu o Dogma Dante com algumas regras básicas:

1 - Os poemas seriam compostos em tercetos de Dante. Deveriam ter cinco estrofes, o verso intermediário do quinto terceto retoma a rima dos versos exteriores do primeiro. Quinze versos na seguinte estrutura: aba bcb cdc ded eae). Ou seja, formariam ‘sonetos de Dante ou dantenetos'.

2 - Um pouco inspiração e homenagem ao excepcional A Máquina do Mundo de Drummond, os versos seriam longos, wagnerianos, dissonantes, com 13,14 ou 15 sílabas. 

3 - Cada poema teria uma referência transversal, ou intervenção de um comentador externo.

4 – E (a regra de ouro de qualquer bom dogma) todas as exceções necessárias seriam permitidas.

Os poemas estão aqui >>> '7 Salvados do Inferno' – Clique


sexta-feira, 10 de novembro de 2017

7 SALVADOS DO INFERNO

[...]
MINOTAURO INVERTIDO
Na antiguidade clássica o Minotauro tinha cabeça de touro e corpo de homem, morfologia que poderia sugerir o domínio da bestialidade. Borges insiste que na ‘Divina Comédia’ Dante imaginou um Minotauro invertido, com cabeça humana e corpo de touro, por isso, talvez, possuidor de livre arbítrio.

BERTRAN DE BORN 
Trovador Provençal de Périgord (Limoges/França), cantava armas, batalhas, guerras e amores. Ezra Pound e outros autores sugerem que foi mais longe, entendia que armas, batalhas, amores e guerras eram as regras do 'jogo da vida', os valores mais importantes para qualquer cavaleiro.
Dante o colocou no oitavo círculo do Inferno, com o castigo de caminhar pela eternidade com a cabeça separada do corpo, porque provocou cizânias entre pais e filhos. 

FRANCESCA E PAOLO
Para a História a noiva Francesca da Ramini, metida num casamento arranjando com Giovanni Malatesta, nunca amou o marido. Preferia o cunhado Paolo.

A Divina Comédia conta que um dia os dois enamorados, lendo o livro ‘Lancelot em Prosa’ - que narra uma traição - no trecho do beijo de Guinevere e Lancelot, o casal imitou o romance. O irmão/marido flagrou e matou ambos. Os amantes habitam o segundo círculo do Inferno, condenados a girar eternamente no vento das paixões, porém têm a felicidade sofrerem juntos.

OS CORRUPTOS
Ficam quase no fim do Inferno, próximos do próprio Lúcifer – atraídos pelos poderosos. São pecadores impiedosos, oportunistas e broncos. Incapazes de entender sentimentos complexos. Roubam sempre no plural, vários ao mesmo tempo. Como são atoleimados raramente se arrependem. Dante mostra que mesmo cumprindo pena continuam a pecar, pensando que são ‘espertos’.
Depois da implantação das Repúblicas a corrupção virou falha institucional, superlativa – além dos pecados clássicos – muito mais perigosa. São cisnes sujos e pegajosos como abutres.


TIRESIAX
Condenado pela florentino a caminha eternamente no oitavo circulo do Inferno com a cabeça virada para trás, olhando as costas, como castigo por prever o futuro.
Foi o maior adivinho da antiguidade e, porque interrompeu o coito de duas serpentes, passou sete anos transformado em mulher. Zeus e Hera discutindo sobre quem gozava o melhor sexo, homem ou mulher, chamaram TiresiaX para decidir. O vidente indicou a  fêmea, nove vezes mais. Hera irritada o cegou, Zeus apiedado deu-lhe o dom da profecia.


RAQUEL
A pastora contemplativa, citada quatro vezes na Divina Comédia, era amiga de Beatriz e conviviam felizes na eternidade celeste.
Foi mãe de José do Egito e Benjamim, transavó de Saul, primeiro rei de Israel.  Por mais  de 2000 anos permaneceu no Limbo (um lugar sem sofrimento mais corroído pela desesperança). Jesus, depois da ressurreição, a levou para o Paraíso.
Curiosamente parece que Lia, sua irmã gêmea e rival (de estranhos olhos, feito Capitu), foi direto para o Céu. Porque isso Dante?

BEATRIZ
Foi o grande amor de Dante, tinha cinco anos a primeira e (única) vez que o poeta a viu. Nunca mais se falaram.
No poema, quando o vate está perdido no Inferno, alertada por Santa Luzia, Beatriz intercede para salva-lo. Pede para Virgílio conduzi-lo até as portas do Paraíso, onde ela própria se torna sua guia até fim da jornada. Nunca sorriu para Dante, porque se o fizesse - por causa do esplendor -  ele viraria cinzas. A última vez que Dante a vê está sorrindo contemplando Deus.
Jorge Luis Borges diz que o ‘Sorriso de Beatriz’ é a mais tocante despedida da Literatura: infinitamente bela, radiante e definitiva.


sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Rachael tinha olhos verdes?


Aposto que todos os fãs de cinema com data de ativação antiga, sempre que  olham para a deslumbrante Rachael lembram com saudades da imensa galeria de mulheres fatais dos filmes noir.

Quando Eldon Tyrell manipulou os genes e Ridlley Scott editou as cenas para criarem juntos a melhor das femmes fatales cyberpunks, dispunham de farto material de referência. Porque nesta fértil e subterrânea vertente do Cinena as damas misteriosas imperavam, eram ícones imprescindíveis a serem amadas, celebradas, decifradas e conquistadas. É impossível imaginar um bom filme noir sem uma figura feminina dominante, como vítima, suspeita, manipuladora, criminosa ou donzela em perigo ou dama salvadora. E nos casos de maior sucesso ocupavam vários desses papeis ao mesmo tempo. 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Suspenso no tempo - Atelier de Angelo Taccari


No fim de setembro/2017 visitei o atelier de Angelo Taccari, importante escultor e ceramista italiano que adotou e foi adotado por São Paulo. Um prédio antigo e discreto, entre as árvores, na beira da represa Itupararanga em Ibiúna. Mantido por sua filha  Maria exatamente como ele o deixou quando mudou para outra dimensão em 2004.

Havia uma estranheza atemporal suspensa, dessas de filme de ficção científica e fantasia. Uma singularidade intrigante magicava as obras interrompidas em vários estágios de completude e espalhadas pelos cômodos do atelier. Apesar da poeira – a passagem do tempo materializada – não seria espantoso ver o artista, de repente, entrar pela porta e retomar seu trabalho e paixão.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Ouvindo a Berliner Philharmonie < a Sala >


Em setembro/2017 tive oportunidade de ouvir a Berliner Philharmonie.

A Sala, porque a Berliner Philharmoniker < orquestra > venho ouvindo com prazer e admiração faz muitas décadas, através de gravações.

No programa – conduzido pelo Maestro Marek Janowsky – constavam duas peças: novidade e garantia. A aposta era ‘Três Prelúdios da Ópera Palestrina’, de Hans Pfizner. Um excelente compositor lírico que, pelos azares da sorte, foi contemporâneo de Richard Strauss e por ele eclipsado. Apesar de vários especialistas listarem esta ópera entre as melhores do século XX. A Quarta Sinfonia de Bruckner era o sucesso garantido.

Foto 1
Estava bastante curioso, a Grande Sala, para 2440 pessoas, tem uma concepção arquitetônica inovadora. São três pentagramas de tamanhos progressivamente maiores que se sobrepõem de maneira irregular, possibilitando a criação de várias plateias e terraços-camarotes em torno do palco. A orquestra ocupa o meio excêntrico desse surpreendente arranjo. Tão inusitado e bonito que a Berliner Philharmoniker Foundation – que cuida da orquestra e da sala – adotou o desenho resultante como seu logotipo. (Foto 1)

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Eternos 33 Segundos


Aconteceu em dezembro, numa das últimas tardes da primavera. Daquelas em que o sol fica imenso, desfocado e avermelhado retardando sua caminhada para o poente. Hospedado no sítio de um amigo em São Lourenço da Serra, o passeio antes do jantar era um convite, desafio e provocação para o inesperado e extraordinário. Longe, enlaçado pela curva em declive da estrada de terra um campo de futebol verdíssimo, com traves e linhas de cal recém-pintadas exibia-se, vaidoso e convidativo. Estava sendo molhado, por isso sobre o gramado pairava uma nuvem tremeluzente de gotículas e vapor.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Solo Sagrado do Futebol

Partida entre Palestra Itália e Corinthians realizada nos anos 1920
Os deuses do futebol desembarcaram no Brasil em 1894/95, agarrados às primeiras bolas. Quando as pessoas começaram a chuta-las com prazer e adora-las com paixão, decidiram ficar por aqui. Deram-se bem.

Os fiéis de S. Paulo adotaram entusiasmados as novas divindades, lhes prestavam culto em todos os cantos e campos. Onde se juntassem 22 pessoas e uma bola elas se faziam presente. Porém, em 3 de maio de 1902, quando o Mackenzie College venceu o Germânia por 2 a 1, começou a ser celebrado oficialmente o mais antigo rito da religião no Brasil – o Campeonato Paulista de Futebol. Foi neste dia que os deuses da bola sacramentaram seu Solo Sagrado, o Parque Antártica.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

POEMAS CORTANTES

[...]
O homem interroga o universo desde que abriu os olhos, jogava cara e coroa com ossos de animais. Do jogo de dados ninguém sabe a procedência. Argumentam que a roleta foi pensada por Pascal, aquele do ‘caniço pensante’.
O Xadrez foi prepotente, se acreditou a emulação da compelexidade do mundo até perder para o Deep Blue.
Agora apostamos na inteligência artificial. Vamos morder de novo maça?



sábado, 1 de julho de 2017

Clube dos Adoradores de Rene Russo


Um bando de amigos da Granja Viana, adictos de home theater, anualmente promove ‘A Noite dos Moinhos’, um excêntrico e monotemático festival de cinema. Começou em 6 de agosto de 2009 – aniversário de 10 anos do lançamento mundial do filme Thomas Crown Affair (Thomas Crown - A Arte do Crime) – e não parou mais.

Desde então, na quinta feira da semana de 6 de agosto, Pio Nero, um engenheiro italiano possuidor de uma cinemateca com treze confortáveis poltronas e som audiófilo convida 12 amigos para assistir seu filme preferido. Um número cabalístico de convidados, lembra 12 Homens e uma Sentença, 12 Homens e um Segredo, quem sabe 12 Macacos, e até os 12 (ou 13) apóstolos.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Ex Machine – Pitacos no Escuro


O filme Ex Machine avança para se firmar entre os principais atratores estranhos do Cinema e da Cultura Pop. Contudo, ainda é incerto saber se vai orbitar Blade Runner ou compor com ele uma estrela binária. Porque é imenso o diálogo entre os dois, em diversas camadas: amor entre humano e androide; foco no Teste de Turing, ou, mais precisamente, no Teste de Voigt-Kampff. Aquele interrogatório a que se submetiam os ‘bonecos’.

Na verdade os questionamentos do Voigt-Kampff transcendem largamente os do Turing (veja mais).  Por isso é uma aposta ganhadora cravar que Ava – a robô reluzente, a Eva do milionário Nathan – seria reprovada no Teste de Blade Runner.

Para passar no Teste de Turing, rigorosamente, o entrevistado precisa apenar parecer que pensa.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Quando Encontrei Horla (Livraria Lello / Porto)


Sempre surpeende como alguns livros chegam aos seus leitores. Parece que têm a candente capacidade de se tornar omnipresentes quando querem ser encontrados pela pessoa certa. Já contei como ’O Livro dos Cantares – She Keng’, uma vasta antologia de poesia chinesa, editada pelos Jesuítas Portugueses (Macau / 1979) colidiu comigo (< leia a crônica >). São tão malucos estes momentos que, deles, não se pode excluir nem a Sincronicidade de Jung, nem o encantamento quântico.

A manifestação do livro de contos fantásticos de Guy de Maupassant também foi extraordinária, numa hora inesperada e num lugar de desdobramentos, dimensões e desvãos mágicos.

O autor francês, um dos contistas mais célebres da Literatura Ocidental, é influência declarada de vários ícones da Literatura Gótica Clássica e do Gênero Weird.

terça-feira, 9 de maio de 2017

PALAVRA APÓS PALAVRAS - BENTO FERRAZ


Li o livro azul de Bento Ferraz ‘Palavra Após Palavra’, página após página, poema após poema, porto após porto, paragem após paragem. Foi como navegar num barco a vela, porque a gente nunca sabe direito para onde o sopro da inspiração do poeta vai nos levar. Se a uma enseada, a uma noite estrelada ou à simples decifração dos mistérios arcanos. Os temas e as rimas são inesperados, incontáveis e surpreendentes como os rebrilhos das águas na superfície do mar.

O livro navega entre belezas e surpresas, nos carrega para o casulo mágico do autor, tecido entre vastidão do céu e a imensidão do mar. Às vezes os sentimentos poetizados e os achados poéticos são tão novos que precisamos ler outra vez para ir além da novidade e chegar ao entendimento e à fruição.

O conjunto de poemas semelha uma galáxia de maravilhas e espantos, de constelação de brilhos poéticos que supreendem, sempre e de novo. Nesse universo de assombros – com minha luneta finita – identifiquei três estrelas de primeira grandeza: ‘Ruptura’, ‘Neurônios de Orson’ e ‘Pelo menos até que a manhã chegue’.

Depois da leitura fiquei maior.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

‘Eppur si muove!’ – Theatro Municipal Sampaulista


Os chineses chegaram uma semana depois do carnaval – sabiam como as coisas funcionam no Brasil – e fecharam com tapumes o miolo do Centro Novo Sampaulista. Interditaram o Theatro Municipal, o conjunto escultórico dedicado a Carlos Gomes e os jardins de palmeiras adjacentes. O pátio de obras se espalhou pelas ruas em torno do teatro, grande parte da Praça Ramos de Azevedo, os baixos do Viaduto e metade do Vale do Anhangabaú. A misteriosa intervenção funcionava como formigueiro bem coreografado.

O compromisso de eficiência era explícito, anunciado por um luminoso no teto do teatro. O marcador contava, regressivamente, o cronograma da obra: 40 semanas / 280 dias, quase a mesma duração de uma gravidez.

A invasão era imensa, barulhenta e incômoda, porém limpa, eficaz e organizada.

sexta-feira, 17 de março de 2017

LABIRINTOS ― 8 Rotas de Fuga



Faz mais de dez anos que venho escrevendo poemas sobre as perplexidades do homem diante das complexidades das Ciências e das Artes Modernas. 

O livro se originou com os 8 epígonos, depois, em torno de cada uma deles – pelo mistério da Gravidade – se condensaram os poemas-planetas, criados para orbitar, contraditar e desafiar seus sóis.

Atravessar o Século XX não foi tarefa fácil. Tudo mudou muito e rapidamente. Olhá-lo em perspectiva revela uma pirotecnia em câmara acelerada. Deliciosa de ver, difícil de entender. Ainda não tivemos tempo de compreender e organizar todas as novidades oferecidas, nem avaliar os desafios propostos para o futuro.

A ‘Maquina do Mundo’ de Drummond, quando se manifesta, mostra somente relances da ciência sublime e formidável, mas hermética’. Por alguns momentos o enigma fica claro, acreditamos que tudo foi desvelado. Contudo, quando a máquina desvanece, ficamos de novo perdidos nas crepusculares estradas amarelas de Minas, maravilhados, porém, com as dúvidas-corvos aumentadas.


Para ouVer o livro inteiro >>> 
 Youtube - Versão sonora

terça-feira, 14 de março de 2017

Homenagem ao Rui Fernando


RUI FERNANDO entrevistado por Holbein Menezes
Márcia e Rui, no restaurante quando RUI me concedeu a entrevista abaixo.

Entrevista com o Engenheiro RUI FERNANDO, São Paulo(SP).

Pergunta um:
- Você é graduado em Técnica Eletrônica ou é formado por correspondência, ou ainda, apenas prático em eletrônica? Por favor, dê suas credenciais, os leitores agradecerão.

- Fiz o curso técnico em eletrônica em escola equivalente aos três anos do nível médio, mais um ano de estágio, mas também sou Engenheiro Eletrônico e Economista. Acho que os cursos técnicos, tanto de nível médio (técnico), quanto superior (tecnólogo), são ótimas opções para o jovem ingressar no mercado de trabalho e depois ir complementando os seus estudos com o rendimento de seu próprio salário, sem onerar tanto a família.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

BR2049 - A Morte e a Morte de Joi

BR2049 - A Morte e a Morte de Joi

Blade Runner 2049 não recebeu indicação para o Oscar, mas foi o melhor filme do ano. Talvez competindo com Dunkirk, sobretudo por causa do sofisticado andamento jazzístico, dos três tempos descompassados, premeditado por Nolan.

Nenhum outro lançamento foi tão visionário, pertinente e atual. Nenhum apresentou tantas indagações e questionamentos sobre nosso incerto futuro, compartilhado e dependente de gadgets, com os aplicativos extrapolando os aparelhos e invadindo as ruas e o cotidiano. Nenhum discutiu melhor as alternativas, limites e potencialidades da humanidade.

Visualmente ousado, inovou sobre a arquitetura cyberpunk, decadente, escura e disruptiva do BR-19, inspirada nos Filmes Noir. Mostrou o futuro como uma rota de fuga enganosa, corroída e sobrecarregada por erros, lixos e excessos do passado.

Horrível, arrastado. Genial. Repetitivo.  Melhor que o anterior. Todas avaliações são possíveis. Contudo, como não se maravilhar e estarrecer com os subúrbios de Los Angeles, geométricos, fractais e vazios. Tomados por replicantes avariados e homens decaídos. Não se estranhar com Las Vegas pós apocalíptica e deserta, com abelhas guardando escombros da memorabilia americana. Tudo superexposto, alucinado e disfuncional.

Sempre é bom relembrar que BR-49 é uma continuação, e sequências enfrentam os mesmos problemas das montagens de óperas: precisam inovar e explorar as possibilidades do tema e do enredo, sem trair demais a música e o livreto original. A analogia seria perfeita se tivessem reutilizado e feito uma releitura da trilha original de Vangelis.

BR-49 alcançou completo sucesso, contou uma história parônima de BR-19. Um caso de amor avassalado por uma investigação com interesses divergentes, conflitos, violências e perigos – como é clichê nos Filmes Noir – com a reprise da paixão entre duas entidades ontologicamente diferentes. As tramas têm similaridades, mas as tessituras são distintas. Villeneuve é mais espesso e intrincado. Em 2019 o emprenho de Deckard é a meta padrão dos detetives: cumprir a missão e sossego. Em 2049 o impulso de ‘K’ é a jornada do herói, desvendar sua origem e mudar o mundo.

Entretanto, como BR-2049 é uma sequência, porta também o vírus do Filme Noir: girar em torno da ‘femme fatale’. Assim, Joi, a omnipresente Joi, é o aplicativo-heroína da saga, emanada pelas ruas, outdoors luminosos, avatares gigantes e lares tristes. E talvez seja a personagem mais inspirada do filme, vale a pena acompanha-la. As comparações com Her são inadequadas, o filme de Jonze trata do amor impossível com uma entidade incomensurável.

 

***

 

A comparação entre Rachael e Joi comporta muitas estranhezas. A replicante de ‘olhos verdes’ era única, idealizada como humana perfeita, só ficava a dúvida se tinha alma ou não. Joi, ao contrário, não tem corpo, é um aplicativo produzido em série e distribuído para a Terra e outros nove mundos – aparentemente – com o mesmo rosto, funções e características. Duas questões intrigantes para a ‘femme fatale’ tremeluzente: Seria possível amar uma delas entre todas? Ou a Joi-aplicativo se rebelou e evolui?

 

Na primeira aparição Joi é como a ‘Siri’, intrometida, inoportuna, brincando de casinha, dando informações desnecessárias e fazendo sugestões atrapalhadas. Capaz de variar roupas e penteados sem alterar o rosto. Então ganha de presente do ‘K’ replicante o ‘emanador’. Upgrade contido num controle que permite a ela escapar do apartamento, se materializar e acompanhar o namorado em qualquer lugar. A partir daí as coisas mudam.

 

Na participação seguinte, quando ‘K’ descobre os filhos de Rachael, parece que Joi já sabe muito sobre ele. Porque, através do ‘emanador’, pode ouvi-lo e observa-lo o tempo todo, mesmo pausada. Durante a cena de fusão se comporta como uma companheira cúmplice, interessada e ciumenta. ‘Não prefere a sua chefe?’ Comenta que é apenas um aplicativo, simples e binaria, feita de ‘1 e 0’s, porém ele, por causa das memorias que guarda, pode ser especial, filho unigênito da replicante gravida, nascido de um ventre, um milagre.

 

Segundo as premissas da Inteligência Artificial, uma entidade é ‘senciente’ quando demonstra consciência, intenções e sentimentos. Todo o discurso de Joi reforçando as desconfianças do namorado sugere (talvez por se sentir amada) que ela tenha ‘senciência’. Resta a dúvida: natural e espontânea ou atribuída e programada?

 

Em outra sequência, no fim do segundo segmento do filme, Joi, lindíssima, vestida de oriental (homenagem a Meggie Cheung do filme ‘Amor à Flor a Pele’ de Kar-way Wong) recebe Mariette, a prostituta replicante, contratada para ajudar, com o truque da ‘incorporação’, ela e ‘K’ experimentarem a sensação de sexo real.

 

As falas de Mariette são buracos de minhoca no roteiro, relevam coisas e ligações. Quando ouve a som do ‘emanador’ (Pedro e Lobo de Prokofiev) comenta: ‘Você não gosta de mulheres reais’. Talvez ai – Joi pausada, porém atenta – tenha tido a ideia do ‘ménage à trois’. Depois do encontro com Joi/’K’, ao partir, Mariette provoca Joi: ‘Eu já estive dentro de você. Não há tanto aí como você pensa’.

 

No início do segmento da busca por Deckard, Joi, para evitar que suas memorias prejudiquem o parceiro, pede ao namorado para apaga-la da rede/nuvem e baixa-la no ‘emanador’. Mesmo sabendo que se o ‘controle’ for destruído ela morrerá. ‘Sim. Como uma garota de verdade’. É um ‘spoiler’, porque Joi é morta pisoteada por Luv, a replicante vilã. Suas ultimas palavras, inclinada em direção a ‘K’. ‘Eu te amo’

  

Como ela própria disse, Joi é um conjunto de comandos, uma longa sequência binária de zeros e uns. Passível de ser baixada da rede/nuvem para um equipamento. Feito uma foto comprometedora, que depois de transitar pela Web, é impossível ter certeza absoluta que já foi apagada. Sempre pode sobrar uma cópia em algum lugar.

 

Uma boa aposta seria Mariette, que na transa em três colocou um sinalizador no do bolso de ‘K’, o que permite resgatá-lo depois do encontro com Luv. Joi, ou uma versão antiga de Joi, pode subsistir dentro do cérebro replicante de Mariette, que já teve a ‘famne fatale’ dentro dela e sabe que a aplicativo ‘não e tanto quanto pensa que é’.

 


A próxima morte de Joi será na continuação, em dois mil e alguma coisa.


 







Nos últimos 30 anos a evolução das espécies no mundo fonográfico e audiófilo foi turbulenta e implacável. Pulamos do império do Vinil para a prevalência dos arquivos digitais. E mesmo estas opções modernosas já estão na terceira ou quarta geração de códigos (WAV, MP3, DSD...). Durante este salto tecnológico o CD foi engolido, nasceu, cresceu e definhou. Pior, quase levou junto as gravadoras. Atualmente o resiliente vinil – um espécime mítico – ainda sobrevive e recrudesce em alguns desvãos sofisticados.

O mais espantoso desta marcha acelerada é como os amantes das mídias musicais (qualquer um que tenha mais de 500 unidades de uma espécie) reagiram a estas metamorefoses.