terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

BR2049 - A Morte e a Morte de Joi

BR2049 - A Morte e a Morte de Joi

Blade Runner 2049 não recebeu indicação para o Oscar, mas foi o melhor filme do ano. Talvez competindo com Dunkirk, sobretudo por causa do sofisticado andamento jazzístico, dos três tempos descompassados, premeditado por Nolan.

Nenhum outro lançamento foi tão visionário, pertinente e atual. Nenhum apresentou tantas indagações e questionamentos sobre nosso incerto futuro, compartilhado e dependente de gadgets, com os aplicativos extrapolando os aparelhos e invadindo as ruas e o cotidiano. Nenhum discutiu melhor as alternativas, limites e potencialidades da humanidade.

Visualmente ousado, inovou sobre a arquitetura cyberpunk, decadente, escura e disruptiva do BR-19, inspirada nos Filmes Noir. Mostrou o futuro como uma rota de fuga enganosa, corroída e sobrecarregada por erros, lixos e excessos do passado.

Horrível, arrastado. Genial. Repetitivo.  Melhor que o anterior. Todas avaliações são possíveis. Contudo, como não se maravilhar e estarrecer com os subúrbios de Los Angeles, geométricos, fractais e vazios. Tomados por replicantes avariados e homens decaídos. Não se estranhar com Las Vegas pós apocalíptica e deserta, com abelhas guardando escombros da memorabilia americana. Tudo superexposto, alucinado e disfuncional.

Sempre é bom relembrar que BR-49 é uma continuação, e sequências enfrentam os mesmos problemas das montagens de óperas: precisam inovar e explorar as possibilidades do tema e do enredo, sem trair demais a música e o livreto original. A analogia seria perfeita se tivessem reutilizado e feito uma releitura da trilha original de Vangelis.

BR-49 alcançou completo sucesso, contou uma história parônima de BR-19. Um caso de amor avassalado por uma investigação com interesses divergentes, conflitos, violências e perigos – como é clichê nos Filmes Noir – com a reprise da paixão entre duas entidades ontologicamente diferentes. As tramas têm similaridades, mas as tessituras são distintas. Villeneuve é mais espesso e intrincado. Em 2019 o emprenho de Deckard é a meta padrão dos detetives: cumprir a missão e sossego. Em 2049 o impulso de ‘K’ é a jornada do herói, desvendar sua origem e mudar o mundo.

Entretanto, como BR-2049 é uma sequência, porta também o vírus do Filme Noir: girar em torno da ‘femme fatale’. Assim, Joi, a omnipresente Joi, é o aplicativo-heroína da saga, emanada pelas ruas, outdoors luminosos, avatares gigantes e lares tristes. E talvez seja a personagem mais inspirada do filme, vale a pena acompanha-la. As comparações com Her são inadequadas, o filme de Jonze trata do amor impossível com uma entidade incomensurável.

 

***

 

A comparação entre Rachael e Joi comporta muitas estranhezas. A replicante de ‘olhos verdes’ era única, idealizada como humana perfeita, só ficava a dúvida se tinha alma ou não. Joi, ao contrário, não tem corpo, é um aplicativo produzido em série e distribuído para a Terra e outros nove mundos – aparentemente – com o mesmo rosto, funções e características. Duas questões intrigantes para a ‘femme fatale’ tremeluzente: Seria possível amar uma delas entre todas? Ou a Joi-aplicativo se rebelou e evolui?

 

Na primeira aparição Joi é como a ‘Siri’, intrometida, inoportuna, brincando de casinha, dando informações desnecessárias e fazendo sugestões atrapalhadas. Capaz de variar roupas e penteados sem alterar o rosto. Então ganha de presente do ‘K’ replicante o ‘emanador’. Upgrade contido num controle que permite a ela escapar do apartamento, se materializar e acompanhar o namorado em qualquer lugar. A partir daí as coisas mudam.

 

Na participação seguinte, quando ‘K’ descobre os filhos de Rachael, parece que Joi já sabe muito sobre ele. Porque, através do ‘emanador’, pode ouvi-lo e observa-lo o tempo todo, mesmo pausada. Durante a cena de fusão se comporta como uma companheira cúmplice, interessada e ciumenta. ‘Não prefere a sua chefe?’ Comenta que é apenas um aplicativo, simples e binaria, feita de ‘1 e 0’s, porém ele, por causa das memorias que guarda, pode ser especial, filho unigênito da replicante gravida, nascido de um ventre, um milagre.

 

Segundo as premissas da Inteligência Artificial, uma entidade é ‘senciente’ quando demonstra consciência, intenções e sentimentos. Todo o discurso de Joi reforçando as desconfianças do namorado sugere (talvez por se sentir amada) que ela tenha ‘senciência’. Resta a dúvida: natural e espontânea ou atribuída e programada?

 

Em outra sequência, no fim do segundo segmento do filme, Joi, lindíssima, vestida de oriental (homenagem a Meggie Cheung do filme ‘Amor à Flor a Pele’ de Kar-way Wong) recebe Mariette, a prostituta replicante, contratada para ajudar, com o truque da ‘incorporação’, ela e ‘K’ experimentarem a sensação de sexo real.

 

As falas de Mariette são buracos de minhoca no roteiro, relevam coisas e ligações. Quando ouve a som do ‘emanador’ (Pedro e Lobo de Prokofiev) comenta: ‘Você não gosta de mulheres reais’. Talvez ai – Joi pausada, porém atenta – tenha tido a ideia do ‘ménage à trois’. Depois do encontro com Joi/’K’, ao partir, Mariette provoca Joi: ‘Eu já estive dentro de você. Não há tanto aí como você pensa’.

 

No início do segmento da busca por Deckard, Joi, para evitar que suas memorias prejudiquem o parceiro, pede ao namorado para apaga-la da rede/nuvem e baixa-la no ‘emanador’. Mesmo sabendo que se o ‘controle’ for destruído ela morrerá. ‘Sim. Como uma garota de verdade’. É um ‘spoiler’, porque Joi é morta pisoteada por Luv, a replicante vilã. Suas ultimas palavras, inclinada em direção a ‘K’. ‘Eu te amo’

  

Como ela própria disse, Joi é um conjunto de comandos, uma longa sequência binária de zeros e uns. Passível de ser baixada da rede/nuvem para um equipamento. Feito uma foto comprometedora, que depois de transitar pela Web, é impossível ter certeza absoluta que já foi apagada. Sempre pode sobrar uma cópia em algum lugar.

 

Uma boa aposta seria Mariette, que na transa em três colocou um sinalizador no do bolso de ‘K’, o que permite resgatá-lo depois do encontro com Luv. Joi, ou uma versão antiga de Joi, pode subsistir dentro do cérebro replicante de Mariette, que já teve a ‘famne fatale’ dentro dela e sabe que a aplicativo ‘não e tanto quanto pensa que é’.

 


A próxima morte de Joi será na continuação, em dois mil e alguma coisa.


 







Nos últimos 30 anos a evolução das espécies no mundo fonográfico e audiófilo foi turbulenta e implacável. Pulamos do império do Vinil para a prevalência dos arquivos digitais. E mesmo estas opções modernosas já estão na terceira ou quarta geração de códigos (WAV, MP3, DSD...). Durante este salto tecnológico o CD foi engolido, nasceu, cresceu e definhou. Pior, quase levou junto as gravadoras. Atualmente o resiliente vinil – um espécime mítico – ainda sobrevive e recrudesce em alguns desvãos sofisticados.

O mais espantoso desta marcha acelerada é como os amantes das mídias musicais (qualquer um que tenha mais de 500 unidades de uma espécie) reagiram a estas metamorefoses.