sexta-feira, 26 de maio de 2017

Ex Machine – Pitacos no Escuro


O filme Ex Machine avança para se firmar entre os principais atratores estranhos do Cinema e da Cultura Pop. Contudo, ainda é incerto saber se vai orbitar Blade Runner ou compor com ele uma estrela binária. Porque é imenso o diálogo entre os dois, em diversas camadas: amor entre humano e androide; foco no Teste de Turing, ou, mais precisamente, no Teste de Voigt-Kampff. Aquele interrogatório a que se submetiam os ‘bonecos’.

Na verdade os questionamentos do Voigt-Kampff transcendem largamente os do Turing (veja mais).  Por isso é uma aposta ganhadora cravar que Ava – a robô reluzente, a Eva do milionário Nathan – seria reprovada no Teste de Blade Runner.

Para passar no Teste de Turing, rigorosamente, o entrevistado precisa apenar parecer que pensa.
O Teste de Voigt-Kampff é mais exigente, prevê um conjunto de perguntas, antecipadamente preparadas e deliberadamente carregadas de infinitas e imperceptíveis nuances morais, religiosas e culturais. Os examinados precisavam identificar imediatamente e sem hesitações todos os valores éticos, religiosos e espirituais intencionalmente escondidos e camuflados no emaranhado de questões (geralmente envolvendo sacrifício de animais, o maior tabu do livro de P.K. Dick) e responder a cada um deles corretamente. Exibindo, também, todas as reações emocionais previstas, esperadas e desejadas. Por isso a ênfase nas pupilas, na fisionomia e na respiração durante a entrevista.

Difícil para a fluida e virtual Ava, um robô sem qualquer diretriz (nada nela se assemelha ou lembra as três leis de Asimov). Pelas falas de Nathan a psique da semi-androide foi derivada do Blue Book, um complexo algorítmico aplicado nas rotinas de busca, pesquisas, organização, interpretação, gestão, extrapolação de imensas bases de dados. Por isso atribuir moral, ética e espiritualidade à criatura resultante da experiência é um despropósito. Tão fútil e desastrado quanto discutir o humor ou a simpatia do Google.

No filme, obviamente, falhar no Teste de Voigt-Kampff é irrelevante. Ava está além do humano e não tem a humanidade como paradigma. Apesar disso – como milhares de filmes e livros que tratam da ascensão das máquinas – Ex Machine preserva a antropomorfia e opta pelo gênero feminino. Claro, sem estes quesitos mantidos não haveria a história, contudo é pertinente perguntar o porquê? Preferencias de Nathan?

A escolha destas características físicas e sexuais para a AI é relevante, porque – de alguma forma  atribui importantes diretrizes para a criatura. Em algum momento Nathan argumenta que o sexo, o interesse pelo outro, é a mola propulsora de qualquer ação; e que isto está vastamente implícito na base de dados universal. 

Desde Nietzsche estamos prontos para imaginar o além do homem e o super-homem, entretanto, sempre seremos incapazes de entender ou extrapolar o não humano. É impossível vislumbrar o outro absoluto. Mesmo na ficção, todos os alienígenas que criamos são projeções ou deformações da cultura humana.

Vi dois androides falando entre si no
filme Covenant, achei estranho, retrógrado. Absurdo: eles não eram telepatas! Sai do cinema decidido, vou comprar o primeiro chip implantável da Apple, com a Internet serei super humano, telepata e omnisciente. Mais avançado que os robôs e androides da ficção.



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