sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Eternos 33 Segundos


Aconteceu em dezembro, numa das últimas tardes da primavera. Daquelas em que o sol fica imenso, desfocado e avermelhado retardando sua caminhada para o poente. Hospedado no sítio de um amigo em São Lourenço da Serra, o passeio antes do jantar era um convite, desafio e provocação para o inesperado e extraordinário. Longe, enlaçado pela curva em declive da estrada de terra um campo de futebol verdíssimo, com traves e linhas de cal recém-pintadas exibia-se, vaidoso e convidativo. Estava sendo molhado, por isso sobre o gramado pairava uma nuvem tremeluzente de gotículas e vapor.

Enquanto avançava devagar em direção ao campo, as memórias das partidas de futebol disputadas na juventude começaram a ser reprisadas dentro da cabeça de menino que mora dentro da minha. Revisitei na câmera lenta das lembranças sinultâneas  os gols, quase-gols, vitórias e derrotas que havia vivido como jogador. De repente, se sobrepondo ao fluxo das reminiscências, com a quietude impressentida mencionado por Carlos Drummond de Andrade, “a Maquina do Mundo se entreabriu”, "sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável”. Abriu-se para caridosamente realizar um desejo secreto que há muito guardava escondido no fundo de mim mesmo, já desesperançado de encontrar a lâmpada mágica do gênio para me conceder três pedido. 
Na intermediária, do lado esquerdo, atrás do círculo central, de cabeça ganhei a bola do adversário que tentava me chapelar e disparei para o ataque. Abobalhado, na linha do meio campo, o lateral apenas assistiu minha corrida. O volante vencido, três ou quatro passos atrás, me perseguia indignado. Porém, eu continuava avançado livre e determinado. Driblei o zagueiro atrasado que tentou interceptar a arrancada e comecei a me deslocar para a direita, a minha perna boa. O goleiro, aflito e desesperado, abandonou a pequena área e também foi driblado. Então respirei fundo, acertei os pés no chão e chutei com firmeza. A rede balançou e a eternidade se deteve. Sobreveio aquela sensação de plenitude, prazer e êxtase absoluto, que o Renato Gaúcho garante ser igual ao orgasmo.
A jogada durou exatamente 33 segundos. Posso vê-la, revê-la e cronometra-la quantas vezes quiser. A 'Máquina do Mundo' me permitiu retroceder 45 anos e no vigor da juventude reviver como protagonista um gol absolutamente fabuloso, igual aquele que César Sampaio marcou contra o São Paulo na semifinal do Brasileirão de 1993.

'A MÁQUINA DO MUNDO"
de Carlos Drummond de Andrade
foi eleito como o mais importante
poema brasileiro  no século XX.

2 comentários:

  1. Grande Texto!
    Eu posso atestar que foram 33 segundos, pois eu estava-lá, realmente foi espetacular!
    Quanto à comemoração do gol, durou uma ETERNIDADE!
    Saudações AlviVerdes!

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  2. Pois é, Teruo Ogura, os que viram não esquecem jamais, os que viram são todos privilegiados.

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