segunda-feira, 31 de outubro de 2016

O Cerco dos Jaguadartes no Bixiga


Esperei uma semana inteira antes de entrar no Beco dos Arquitetos, evito transitar no espaço-tempo da polícia. Não gosto do jeito como os gambés nos olham. Para as pessoas grandes os miúdos são invisíveis, porque somos todos parecidos. Ninguém consegue enxergar direito o rosto dos Meios. Quando nos fitam, ao invés de ver, projetam em nossas faces uma imagem qualquer que trazem pronta na cabeça, de algum livro, circo ou filme. Quase sempre com as feições de uma criança esquisita. É melhor assim, passamos despercebidos, viramos coletivos indistintos. Os meganhas são diferentes – deve ser treinamento – nos encaram esquadrinhando cada traço, comparando com algum catálogo interno de aberrações.

Por isso fiquei distante, esperei tranquilo que fizessem o trabalho deles, coletassem as provas e fossem embora. Dei mais dois dias para evitar problemas, somente depois entrei no beco. De bicicleta, imitando um moleque, no fim da noite, na hora exata em que o garoto foi atacado. Tinha lido os jornais, assistido os noticiários e ouvido as conversas nas ruas. Mas era pouco, precisava compreender direito o que estava acontecendo. Suspeitava que algum miúdo, excluído do Consenso, estivesse envolvido ou precisando de ajuda.

As últimas reportagens confirmavam que o rapaz permanecia em coma. Havia sido dilacerado por algum animal desconhecido, ou – pelas informações desencontradas – um bando de bichos juntos: tigre, lobo, onça, tamanduá, gavião ou pela própria quimera dos gregos. Estavam tentando reimplantar o braço esquerdo decepado.

Da entrada da viela, a trinta metros de distancia, seu brode assistiu a agressão. O relato era cinematográfico, uma sequência de luta num filme de horror mal iluminado. Mencionava garras, dentes, bicos, pelagens, manchas, patas e asas, porém sem esclarecer nada. Meteco, a testemunha, ouviu os gritos de socorro da vítima sobrepostos por grunhidos, urros, berros e silvos. Tudo muito rápido, simultâneo, um turbilhão de cores faiscantes, sombras e movimentos. A investida durou pouco, acabou de repente e o agressor desapareceu sem correr para lugar nenhum.

O amigo confessou que não entrou no beco porque tinha medo. Lut era mais corajoso, ousava atravessar o beco a qualquer hora da noite. Quase sempre encontrava coisas jogadas pelo chão, chaveiros, carteiras e bolsas, raramente dinheiro. Voltava gozando do parça precavido e contando vantagens. O garoto ferido, nos momentos de lucidez, contou história semelhante, com mais desespero e menos detalhes.

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Os Meios sabem que têm uma vantagem sobre os humanos. Além dos cinco sentidos possuem o Consenso. Quando acorrem situações de pânico, incerteza, estranheza, pavor ou quaisquer outras premonições ou novidades impactantes, podem compartilhar telepaticamente os sentimentos com todos os outros miúdos, ás vezes até involuntariamente.

Nos últimos meses uma dissonância cinza incomodava o sossego e o sono dos Meios, provinha de dois acontecimentos distintos e não correlacionados. O desaparecimento de uma garotinha de sete anos e a nova mania do bêbado Rubinato, conversar com coelhos grafitados.

Os episódios, por si mesmos, não afetavam diretamente nosso povo, porém, inexplicavelmente, assustavam e inquietavam cada um de nós. Foi o ataque no Beco dos Arquitetos que alterou o padrão. Provocou quase um tsunami no mar interior dos Meios. Um assobio turvo e estridente se sobrepôs ao ruído de fundo do Consenso.

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Sou diferente, uma exceção entre os Meios, tenho um rosto público porque foi marcado pela garra pulsa-tempo do Jaguadarte. Um talho fundo do lado esquerdo, entre o nariz e o queixo, me presenteou com um perpétuo sorriso maroto. Não sou mais esquecível, os espichados quando me olham lembram se de mim.

Me aproveito disso, falo pelos miúdos na imprensa e faço comerciais para a televisão. Também, sempre que é preciso, os diminutos me encarregam de conversar com graúdos. Fui escalado para descobrir porque a estranha agressão ao garoto provocou abalos e turbulências na confortável ondulação do Consenso.

Para compreender melhor o enguiço era imprescindível entrar no Beco dos Arquitetos, porque havia um nexo curioso entre os casos que agitavam a consciência coletiva dos Meios. Os três acontecimentos estavam relacionados a Grafites ou Arte de Rua.

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A garotinha desapareceu enquanto brincava perto de um muro grafitado com risonhos rostos de felinos amistosos. O único depoimento sobre o acontecido veio de sua amiguinha. Contou que um gato desenhado se desprendeu do muro, conversou com Alice e convenceu a menina a segui-lo para dentro de um buraco no muro. Não havia nenhum indício de violência, nem aberturas no muro.

Ninguém viu nada e poucos acreditavam na versão do desenho vivo e falante. Não consegui examinar os grafites suspeitos, dois dias depois da alegada abdução, o dono do terreno mandou pintar tudo de cinza para se livrar das perguntas é do assédio dos curiosos.

A participação do bêbado Rubinato na saga era mais complicada e retorcida. O cara é doido, vive caminhando erraticamente pelos desvãos do Bixiga falando sozinho ou com coisas inanimadas. Um dos sintomas de suas esquesitices sempre foi discutir com grafites. Nos últimos tempos, depois do misterioso rapto da garotinha, sua mania ganhou um viés peculiar, dedicou-se a cochichar com insólitos coelhos brancos de olhos rubros – uma pintura em estilo vazado – que começou a proliferar pelas paredes do bairro.

Suas conversas com as lebres replicadas retomavam sempre o mesmo assunto. Rubinato se recusava a acompanhar o animal pintado que pedia sua ajuda para salvar uma fadinha perdida. Ninguém levava muito a sério suas obsessões, porque, periodicamente, encontrava motivos novos para justificar suas desavenças dementes com os grafites. Além disso, o coitado tem bom coração, devia ser seu jeito desajeitado de tentar ajudar na procura da menina.

Quando tentei sondar o povo graúdo sobre a infestação dos coelhos brancos nos muros do Bixiga as respostas tergiversavam, sugeriram propaganda, ou, quem sabe, uma piada maldosa, ou de mau gosto, relacionada com a tragédia da guria.

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Sem dúvidas, foram os ferimentos impostos ao garoto que me deixaram preocupado, tratavam-se de lacerações verdadeiras, examinadas e documentadas por médicos. Por isso, enquanto esperava que a polícia se afastasse, fui examinar os coelhos brancos de perto. Eram apenas cópias vazadas, comuns, pintados com cartolina e spray. Contudo, às vezes, repentinamente, pareciam se descolar das paredes, inflados por cintilações e reflexos extranaturais. Os olhos vermelhos rebrilhavam e os pelos se eriçavam.

Os diminutos aceitam, respeitam, entendem e temem as interpenetrações de realidades. Sabem que acontecem em algumas pinturas célebres, murais e painéis cosmogônicos, porém, sobretudo, em paredes centenárias manchadas e borradas aleatoriamente. Todos estes suportes podem – se houver comunicação entre consciências dos dois lados – se transformar em ótimas janelas e biombos para interligar dimensões e universos avessos ou paralelos.

Para o pessoal espichado os desenhos das lebres de olhos vermelhos e gatos sorridentes continuam sendo apenas aberrações absurdas, inexplicáveis e incompreensíveis, talvez de mau gosto, como todos os outros grafites. Porém nós, os miúdos, temos certeza que as resplandecências e oscilações das lebres remetem a coisas muito mais perigosas do que engodos da imaginação.

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Os becos pululam em qualquer cidade, são suportes de uma psicogeografia intrincada e misteriosa. Uma realidade mutável e avessa a mapas. Impossível de ser cartografada racionalmente.

Compartilham da mesma imperceptibilidade dos Meios, são discretos e quase invisíveis. Eclodem como caminhos impostos pelo acaso ou pela necessidade. Nos bairros planejados parecem resultar de deslizes e lapsos dos urbanistas; nas cidades antigas preservam os traçados das forças da natureza. São como buracos de vermes, interligam dimensões e lugares distintos e incongruentes.

Os diminutos acreditam que becos grafitados são intersecções instáveis, duplamente perigosas, nódulos onde universos e realidades dissimilares se tocam.

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Desde que entrei no mal iluminado Beco dos Arquitetos constatei que o espaço-tempo estava desconectado, rutilava e pulsava. Era uma ponte para o além, um vão para o desconhecido. Abandonado, entulhado, esquecido, provisório e perpetuamente inacabado. Coberto de pixos retos e grafites desfigurados e fosforescentes. Coruscavam na noite, sugando a parca iluminação disponível. O eixo da distorção estava na parede curva de um velho depósito de bebidas. Um fulcro impreciso e mal delimitado – azul brilhante, verde escuro ou da cor do nada – corroía e deformava a realidade.

Um portal, todo beco abriga um portal, visível ou não. Imagens de criaturas extraordinárias saturavam o muro enganador. A horda de horrores vergava e subvertia as dimensões da superfície que a continha. Mistura instável de feras hibridas e diversas. Nenhuma delas inteiramente reconhecível. Reverberavam em cores cambiantes, berrantes e sombrias. No nível subliminar um riff grunge nirvânico, lento, grave, entorpecia o entendimento.

No centro mutante daquele pesadelo de cores absurdas, matilhas de Jaguadartes (ou uma um só fera multiplicada) se manifestavam intermitentes e pulsantes, como num filme flácido lento-acelerado. Polibênias caleidoscópicas de excessivas cabeças eclodiam na confusão das cores. Soma aterradora de todas as feras dos bestiários. Miscigenadas, confusas, desafiando e pervertendo os limites da razão.

Porém somente os Meios – ou mentes superexcitadas – poderiam assistir aquele ciclo de horrores. Um medo frio e encrespado se irradiou da minha coluna até a ponta dos dedos dos pés e das mãos. Resolvi voltar no dia seguinte, com o sol a pino, Era a única maneira de entender e enfrentar a legião de criaturas incognoscíveis.

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Na luminosidade plena da manhã de verão o beco aparentemente parecia mudado, porém, para os Meios, permanecia o mesmo, só mais assustador porque imóvel. Dentro dele o tempo tremia. Jaguadartes, as Polibênias de grafites, reluziam sub-reptícias, quase imóveis, espreitando dentro do halo cintilante e multidimensional que emanava da parede rugosa. Um dragão enrodilhado feito de feras costuradas retendo a respiração.

De repente o tempo se rasgou e uma garra afiada, férrea, fina, imaterial, vibrátil como um chicote desferiu um golpe supersônico. Pressenti – pela pontada na cicatriz do lábio – e pulei parta trás. As memórias do antigo ferimento se incendiaram, doeram de novo, várias vezes, como uma lembrança recorrente que são sai da cabeça.

Meu medo acumulado explodiu, imediatamente o Consenso me envolveu. A repulsa e obstinação do povo miúdo se fechou em torno de mim, como uma esfera de aço carbono impenetrável. A parede começou a tremeluzir e apagar-se em alguns pontos e planos.


Uma nesga do sol a pino brilhava no muro, lá resistia um hiato de paz. Centenas de pervicazes gatos Cheshires sorridentes e abobalhados começaram a se materializar na faixa iluminada. De repente, no meio deles, abriu-se um buraco nebulado, de dentro saltou uma menininha vestida de cor-de-rosa, atarantada e perdida, puxando pela mão o bêbado Rubinato.


Outro Conto no Bixiga com Meio >> Clique Link

         Origem d'O Horla – Frank Miller



Um comentário:

  1. – Transcrito do Facebook –
    Pedro Lamas – Me lembrei de HP Lovecraft...

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