sábado, 14 de abril de 2018

CONVERSAS TRANSVERSAS


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São Paulo – 07 / Julho / 2019
||  Parceria Parônima com Paulo Bomfim  ||
Sou leitor de Paulo Bonfim e, às vezes, nas minhas caminhadas sigo seus passos nas crônicas desta 'Insólita Metrópole'. Converso com ele sobre as metamorfoses desta nossa paulicéia trepidante, louca e desvairada.
Suas poesias eram perfeitas, longamente pensadas, tinham o preciso peso e medida dos paulistas de antes dos anos cinquenta.

Como cronista tinge tudo de saudade, nos relembra de como era a cidade antes do gigantismo desenfreado.

Coimbra – 27 / set / 2015

Em Coimbra visitei a Quinta das Lágrimas, queria conversar com a Rainha em ossos coroada. Não encontrei a ‘linda Inês, posta em sossego’ de Camões, e, menos ainda, a inquieta ‘linda Inês, nunca em sossego’ de Jorge de Lima.
Resolvi aguarda-la na Fonte das Lágrimas que deságua no Mondego e nasceu do choro da Rainha executada. De repente eclodiu deslumbrante uma terceira manifestação dela, junto com um verso. ‘Estavas, ígnea Inês, envolta em chamas’. Por isso me ocorreu esta pergunta.

“– Rainha cambiante que viveu uma paixão que atravessa a morte. O amor verdadeiro é chama ou brasa?”
Antes de responder me olhou magicada, e o fogo da lembrança dela permanece dentro de mim.
 As labaredas se apagam e as brasas viram cinza. O verdadeiro amor é o calor que emana do coração e aquece a alma, porque, depois, o espírito fica pra sempre incandescente.”
Não se surpreendeu a amplitude da resposta, as musas sempre sussurram o impensável.

Wittenberg - Lutherstadt – 17 / set / 2017

Em Setembro de 2017 visitei Wittenberg / Lutherstadt, a cidade estava festiva, comemorava 500 anos das 95 teses contra as Indulgências que Martin Luther havia pregado na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, o inicio da Reforma Protestante.
Andando pela cidade passei pela casa de Johann Faust – Astrólogo e Alquimista. Como os tempos modernos andam conturbados resolvi consulta-lo. Tímido não se deixou fotografar. Anunciei minha encomenda.
“– Doktor Faust quero comprar um pouco de `Pó de Paciência’.”
“– Não mercadejo, não possuo temperamento sórdido. Posso apenas instruí-lo no preparo.”
Mesmo temente de nova repreensão ousei perguntar.
“– De quais elementos vou precisar?”
“– Quaisquer. Pode usar o que quiser. O único componente imprescindível é o Tempo. Precisa moer por 700 dias, prazo para suas ansiedades virarem poeira.
Agradeci, Herr Doktor não me acompanhou até a porta.


Aix-en-Provence – 29 / set / 2016

Muita vez Cezanne – teimoso, porém ainda não famoso – saia para caminhar, voltava com uma nova pintura do Mont Sainte-Victoire, juntou 60 telas. Numa das manhãs resolvi acompanha-lo, era difícil, marchava apressado.
Durante o percurso em aclive, sem fôlego, perguntei:
“– Porque pinta tanto o Sainte-Victoire?”
“– Não pinto a monte, pinto o Tempo. Me fascina, desafia e amedronta como ele transforma tudo, nós e a montanha.”
Fiquei calado, a dúvida havia se expandido epistemologicamente.
“– Gosto de olhar as telas pintadas para lembrar como eu era ontem. Para combater o Tempo todo dia invento um jeito novo de pintar.”
Aderi à inquietação do pintor, menos talentoso, comecei a colecionar fotografias.


Paris – 10 / out / 2016

Nas Catacumbas sob Paris me detive para conversar com os companheiros de viagem, não conhecia nenhum deles, mas sabia que tínhamos o mesmo destino.
Fiz a pergunta óbvia – é inescapável, nas conversas com grupos fazemos sempre as perguntas óbvias.
“– Como é a coisa na hora do salto?”
Responderam num coro dessincronizado.
“– Não dá para explicar, para cada um é diferente.”
Persisti, com outra pergunta óbvia.
“– E como são as coisas do outro lado?”
Responderam de novo em uníssono, agora mais afinados (o treito é tudo).
“– Não sabemos, ainda estamos no meio do salto. E talvez nunca acabe.”
Calei a boca, o silêncio ulula menos do que o obvio.


Córdoba – 19 / set / 2018

Em Córdoba procurei Moisés Maimônides para conversar, ele nasceu lá. Admiro demais o filosofo/teólogo/medico que no escuro Século XII elaborou a mais sábia síncrese - análise - síntese das culturas judia, árabe e greco-romana. Talvez seu único deslize seja a prepotência de sua frase tumular:
 – “De Moisés a Moisés [nome de Maimônides], nunca houve ninguém como Moisés." 
Me aproximei e perguntei: 
“– Mestre Maimônides, depois de quase 8 séculos não acha excessivamente vaidosa sua comparação”?
– Não, de jeito nenhum. Eu fiz a prova sozinho, Deus soprou para o meu xará.”
Fiquei perplexo. Ele continuou.
“– Pela sua cara já está pronto para ler meu mais famoso livro: Guia dos Perplexos".
Fui procurar uma livraria.


Amsterdan – 22 / set / 2014

Fui visitar Chet Baker onde acabou sua caminhada. 13/maio/1988, Prints Hendrik Hotel, Centro de Amisterdan. Jogou-se (ou foi jogado?) do segundo andar.
Um trompetista maior e um cantor extrínseco à arte do canto, suaves sussurros. O provável modelo de João Gilberto.
Igual a todo mundo queria perguntar sobre o ato final, mas me contive. Troquei de pergunta.

“– Posso ficar ouvindo você e a praça cantado 'My Funny Valentine'?
“– Ok, então vamos cantar a versão do disco ‘Sings’ de 1954.” 
Foram apenas 140 segundos, 2,20 minutos e uma voz temperada com tudo o que de bom e ruim pode um homem expressar e experimentar. Um controlado ímpeto em busca da beleza sutil.
Parti alguns segundos antes do fim para que sua (dele) voz permanecesse na minha memória para sempre.


Bixiga – 17 / jun / 2018

Adoniram e eu gostamos da S. Paulo de cachecol, e do italiano mais milanês, por isso preferimos nos esbarrar por aí no inverno.
Não me agrada o Adoniran mito, logomarca, tatuagem, de chapeuzinho de aba curta e olhar paralisado. Prefiro trombar com ele por aí paulistando, namorando a cidade. A última vez foi no viaduto Major Quedinho.
“– Olá Adoniram passei uma tarde linda, num bar ouvindo você e vendo o por do sol em Florença”.
“– Sei disso. É preciso ir cada vez mais longe para me ouvir”.
Implícito, concordei com ele.
“– ‘Porque as rádios não tocam meus sambas? Por quê? Algum crime que fiz?’ (do CD Documento Inédito)”.
“– Pois é Charutinho (conheci Adoniran com este nome), nem o ‘Arnesto’ 
 aquele que convida p´ro samba mas não espera – sabe explicar”.
Nos afastamos pensativos, cruzei com uma garota com um ‘Adoniram’ tatuado na bunda. Não evocava nada, era um signo descolado de significado, um enfeite copiado, feito um clip na alça da blusa.

Frankfurt – 4 / set / 2017

Herr Johann Wofgang von Goethe é ícone da cultura germânica e mundial. Sabe disso e gosta de se exibir. Plural habita a casa de Frankfurt – onde nasceu e cresceu – replicado em bustos e quadros. Escolhi o mais elegante para conversar.
“– Herr von Goethe por que os alemães tem compulsão pela aventura de Fausto?”
“– Acho que temos excesso de coração e razão, somos exagerados e desgovernados. Jamais conseguimos harmonizar os dois. Ouvimos demais o Diabo da desmedida dentro de nós, cultivamos uma alucinação racionalizada.”
Era muita coisa para processar no hiato inter falas, permaneci calado.
“– Ouvimos pouco nosso coração. Meu Fausto não aproveitou o perfume da sua Margarida. O Fausto de Thomas Mann ficou receoso com as cintilações da cigana Esmeralda.
Agradeço a Herr von Goethe por aceitar brincar de tartaruga comigo.



Florença – 29 / ago / 2018

Entrei no ‘Museo Galleria dell'Accademia di Firenze’ com destino certo: conversar com o David original, aquele tocado por Michelangelo.
Encontrei um garoto enorme, cinco metros de altura, vestindo apenas sua própria pele. Olhava o futuro com serenidade, curiosidade, confiança e, sobretudo, sem pressa. Nenhuma perplexidade alterava sua face.
“– Tenho um par de perguntas, posso?”
Ele balançou a cabeça, vagarosamente.
“– Nunca temeu o gigante Golias?”
“– Não. O próximo passo é inexorável, não depende mais de nós, é resultado do percurso que traçamos. Olhar para trás é retroceder, procurar erros impossíveis de serem corrigidos.”
A outra pergunta. “– Por que você fala e suas cópias não. E só falo com ‘davids’ do seu tamanho. São mudos?”
“– Durante o processo da talha, eu, meu criador e o pastorzinho antigo nos emaranhamos quanticamente. Hoje a pedra, o artista e o pastor hebreu são a mesma coisa, viramos uma singularidade cultural, um episódio mental, um evento da inteligência. Somos todos emanações do universo comum que compartilhamos.”
Silêncio.
“– As cópias são apenas replicações ocas das carências humanas. Volta ao passado.”

Buenos Aires – 27 / jan / 2016

Abaporu vai passar uma temporada no MASP, pretendo visita-lo. Lembro da nossa última conversa no MALBA, parecia muito bem instalado, era um dos destaques, mas estava triste e macambúzio. Conversamos em tons grises. Brinquei.
“– Porque esta perna não longa?”
“– Aquí sólo puedo hablar en español.”
Traduzi a pergunta.
“– ¿Por qué esta pierna tan ancha?
“– Para, cuando lo permitan, ir corriendo a Brasil.
“– ¿Por qué ese brazo tan robusto?
“– Para dar muchos abrazos a los brasileños que vienen a visitarme?
“– ¿Por qué esa cabecita tan pequeñita y triste?
“– Estoy aburrido y con nostalgia. Quiero volver a Brasil. Mis colores son para sambas, no para tangos.”

Ficamos em silêncio por muito tempo. Quando parti fiz sinal de positivo. Ele não respondeu, talvez porque lhe falte o polegar.


Bonn / Alemanha – 07 / set / 2017


Na casa de Beethoven em Bonn tivemos uma conversa telepática, porque ele é surdo e não é recomendável gritar dentro de museus.
“– Mestre, quando ouço a Terceira Sinfonia imagino o Allegro da abertura como um rodamoinho descontrolado passeando pela História.”
“– Não é a pior imagem, porque quase sempre é um idiota que segura as rédeas da História. Por isso tive que mudar o nome dela."
O silencio telepático do Ludwig era em adagio lento, feito a Canção Lídia do Quarteto 132.
“– Na nossa vida também nem sempre é a melhor parte de nós que está no comando.”
Depois disso ficou mudo, como a pedra de que era feito.


Leipzig / Alemanha – 19 / set / 2017

Ontem  ouvindo Bach no Festival de Inauguração do Órgão Grenzing na Catedral Evangélica de S.Paulo na Rua Nestor Pestana (fotos abaixo), embalado pela música fantástica lembrei da conversa que tive com o compositor-organista em Leipzig, onde ele descansa.
“– Perdão Mestre. O órgão é a melhor maneira de conversar com Deus?”
“– O homem não conversa com Deus, apenas fala com Deus, que nunca nunca responde, mas às vezes – Ele ou o acaso – parecem agir.”
Fiquei quieto, temi questionar, esperei que continuasse.
“– Eu gostava de falar com Ele através do órgão, Paganini preferia o violino, Jacqueline Du Pré o cello, Jimi Hendrix a guitarra.”
“– Os tempos modernos estão confusos. O homem fala com Deus, mas tenta ouvir os Ets.”
Não consegui pensar numa resposta adequada, deixei uma flor sobre a lápide.



MASCARAS E ÍCONES DO MUNDO

Frankfurt / Alemanha – 5 / set / 2017
Andando pelos corredores do Museu Städel em Frankfurt encontrei Simonetta Vespucci, talvez a mais bela top model da Renascença. Estava meio entediada de ficar naquela sala, olhando para o nada, resolvi puxar conversa.
“- Já encontrei você em vários lugares, sempre alheia e cada vez mais bela.”
“- Se gosta de museus, com certeza, estou em muitas paredes, ou alguém muito parecida comigo. Tive amigos que gostavam de me pintar. N’O Nascimento de Vênus’ - duas vezes - como a Flora e como a deusa”; também em excessivos retratos de mulheres e personagem da História, nem lembro mais quantos.”
“- De qual mais gosta?”
“- Sem dúvida daquela ‘Cleópatra’ de Piero de Cosimo, um artista estranho. Me arrepia e excita aquela serpente enrolada no pescoço.”
Antes de falar censurei Piero, panaca, devia te-la usado como modelo da virgem do MASP.  
“- Você posava para eles?”
“- Nunca. Tudo que viu são elogios ousados da imaginação e desejo deles. me homenageando.”




Borges - Genebra / Suíça – 24 / maio / 2016
Numa tarde de terça-feira de maio de 2016 fui visitar Borges em Genebra. Apesar de imortal, agora, passa todo o tempo neste jardim – perto de Jean Calvin, que frequenta o lugar faz muito mais tempo. Ouviu meus passos se aproximando e levantou a cabeça, estava com os olhos fechados, mais isso não mudava nada. Perguntei:
“- Jorge como é possível entender a América do Sul?”
“- Passei muito tempo lá, porém não aprendi, somos todos exilados com saudades da Europa, África, Oriente...”
“- Veja na Literatura de vocês, ‘A canção do Exílio’ é um dos maiores poemas”
“Então não existe chave para entendê-la?”
“-Talvez a resposta esteja no mapa do subcontinente. Parece um redemoinho fascinado pela Europa, mas com um frágil fio de comando ligado nos Estados Unidos.”


CCBB-SP / Exposição Paul Klee – 20/março/2019
Uma das melhores tardes que tenho na memória passei no ‘Zentrum Paul Klee’, nos arredores de Berna. Três pavilhões ondulados que se mimetizam com as colinas em torno para melhor se encaixar na paisagem. A família do pintor guarda lá algumas centenas de milhares de obras do artista. Tesouros belíssimos, frágeis e delicados como corais e bolhas de sabão.
Passeando nesta longa alameda arenosa curtimos o perfil da cidade da Relatividade de Einstein e o tempo se alonga e quase para, o dia pode durar semanas.
Na Exposição de Paul Klee no CCBB-S.Paulo, parei defronte uma fotografia tamanho natural do velho mestre, tomado pela esclerodermia, e comentei.
- Paul, achei triste a ‘Fênix Idosa’ (detalhe), porque desenhou?
- Ela é mais completa, plena e feliz do que nós dois, de repente se auto incinera, renasce jovem e vive mais 300 anos. Não fica com inveja?


As Novas Proporções do Homem
Enfim superamos o homem vitruviano de Leonardo Da Vinci?





Hitchcock / MIS – 18 / julho / 2018
Hitchcock fica melhor a cada reprise. Talvez apenas dois artistas dominaram tanto e exploraram tão completamente seus respectivos campos de atuação, e deixaram uma obra (igualmente diversificada e vasta) que a partir dela se pode avaliar todas os aspectos e avanços das Artes que elegeram e tudo que os precederam: Back na Música e Hitchcock no Cinema.

Lucerna / Suíça – 1 / junho / 2016
Fui visitar Wagner em sua bela mansão, num promontório que avança intrépido pelo Lago Lucerna, O compositor estava omnipresente, multiplicado em bustos e estátuas.
Aproveitei para fazer a pergunta urgente e incômoda:
"Como conseguiu ser tão genial e tão canalha?"
O mestre respondeu:
"A genialidade e a canalhice são atributos humanos, e eu tenho excesso de humanidade. Assim explorei todas minhas boas e más potencialidades até o limite."
Fiquei pensando embaraçado em dúvidas. Ele, talvez com pena das minhas carências, acrescentou:

"Mas não se esqueça, quando eu fui apenas humano, escrevi o 'Idílio de Siegfried' e o dediquei à Cósima (que roubei de von Bülov) numa manha de natal, naquela escada que breve você subirá."


Montreux / Villeneuve / Suíça – 23 / maio / 2016
Quando findou a chuva primaveril, na beira do Lago Genebra, em Villeneuve, depois de Montreux, encontrei Oskar Kokoschka, o pintor noivo da ‘Noiva do Vento’.
Uma figura patética que vendeu tudo que tinha para comprar farda, espada e cavalo. Foi para a guerra, voltou ferido, perdeu a amante Alma (viúva de Mahler) e a razão crítica e prática, só lhe restou a faculdade de juízo estético.
Curou a dor de cotovelo dormindo com uma boneca cópia exata da amada.
Estava bidimensional e olhava fixamente para o lago.
Perguntei:
‘– Como é a vida assim, plana e dividida?'
Respondeu dúbio e desacostumado da fala:
‘– É boa, a gente vê os dois lados com clareza, esquerda, direita, sem zona cinza. Têm momentos na História que isso é imprescindível.'
Concordei. Calados, juntos, olhamos longamente a espelhada superfície do lago saciado de chuva. Cansado do silêncio me despedi e fui embora. Oskar ficou secando, atento ao vento do tempo.

Vevey / Lausane / Suíça – 23 / maio / 2016
O garfo no mar alude à sede mundial da Nestlé na cidade de Vevey, à beira de Lago Genebra.
O céu feroz induz meditações nebuladas. Machado de Assis disse “morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde”, quase o horário da foto.
Repensando, morre-se otimamente bem na Suíça, em torno do Lago Genebra. Os cemitérios estão repletos de defuntos estrangeiros e desgarrados, ilustres e notáveis. Jorge Luiz Borges, Charles Chaplin, Grahan Grenne, James Mason, Oscar Kokoschka…

Visto e fotografado – 8 / Out /16
Paul Cézanne (1839-1906) Retrato do Artista  /  1875
Museu d’Orsay Paris


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