segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

AMOR SEM PRAZO DE VALIDADE


A expectativa de vida (no Brasil) é de 75 anos, e crescendo. A quantidade de homens e mulheres bonitos e saudáveis, com mais de 50 anos, sem relacionamentos ‘sérios / explÍcitos’ – difícil encontrar a palavra certa – é imensa, talvez maior do que o contingente de jovens.

No entretanto, na Literatura e outras fabulações (cinema, novelas, séries), parece que a idade limite para envolvimentos emocionais e sensuais prazerosos e estimulantes é de 50 anos. Nessa matemática sobram 30 longos anos para o papel de tios e tias com envolvimentos envergonhados, clandestinos ou, e pior, não valorizados.

Outro dia li um interessante policial argentino, Betibú  que virou filme, aquém do livro 
escrito por uma mulher, Claudia Piñeiro (58 anos), com um casal romântico inesperado. Uma escritora de mais de 50 anos, desgostosa da profissão, mãe de dois filhos adultos, divorciada e mortalmente ferida pelo último parceiro. Cada vez mais assediada pelas celulites e gordurinhas indesejadas, com o peito e a bunda meio caídos. O homem era um velho jornalista sessentão, aposentado e, também, desiludido com os rumos de sua carreira. A barriga já era capaz de vencer qualquer cinto por várias dobras de deselegância. O amor maduro, cheio de desejos e antecipações, do inesperado par romântico era muito bem construído, com carinho, doçura e sutileza.

Contudo, na cena final, me espantou a reversão de expectativas. Quando os amantes, tomados pela paixão, correm para o apartamento de um deles, a autora, que conduzia bem a narrativa com sensibilidade, verossimilhança e delicadeza, decidiu narrar o encontro imaginando uma nebulada sequência filmada e cambiando os personagens por astros de Hollywood. Começou genial, acabou banal.

Quase parei de ler. Vergonha ou sacanagem de Claudia Piñeiro? Queria amantes imperfeitos, com sobrepeso, estrias e cabelos grisalhos. Somos maioria.

Vejo multidões de pessoas, intelectualmente ativas, esbanjando bom gosto e sabedoria, correndo, malhando e fazendo regime para se manter saudável. Contudo, infelizmente, ainda amarradas – emocional, sentimental e sexualmente nos quadros de referências da juventude delas próprias, anos 60/70. Naqueles tempos um cinquentão já se era irreversivelmente velho. Hoje isso é apenas o início da outra metade da vida. Quem sabe a melhor parte.

Será que estamos todos desiludidos e desgostosos, fadados a consumir histórias de sonhos e valores juvenis. Tesões reciclados, permitidos apenas se relembrados?

6 comentários:

  1. é o que sempre me pergunto. Velho ou antigo, com todas as imperfeições da idade.

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  2. Em primeiro lugar, se olharmos imparcialmente os jovens,veremos que a grande maioria tem sobrepeso e não é agraciada com beleza física.Quanto a idade, o que atrapalharia a paixão é a falta de saúde. Mas o amor ,esse é independe de qualquer dos aspectos citados.Amor é algo,místico,mágico e louco.E quase impossível de acontecer.

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  3. Gostei! Muito bons os seus apontamentos sobre a relação consumista, copiada e repetida.

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  4. Pois é, Vilma Silva, achei curioso a escritora Claudia Piñero desemvolver tão bem a relação romanrtica dos dois 'seniors', se perder na hora da consumação.

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  5. Recebido via Facebook
    TANIA AFONSO - por que não depois dos 60....kkkk Belo texto, mas poderia ter aprofundado alguns aportes para aqueles que como eu já passaram a barreira dos 60 e caminham a passos largos para muito mais que sobrepeso....kkkk 🤣

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  6. Tania Afonso, muito obrigado pelos comentários. Pensei que 'AMOR E TESÃO DEPOIS DOS 50' incluía todos além disso. Sobrepeso? Lembra do velho repórter, cujos cintos não sustentavam o excesso de camadas?

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