terça-feira, 24 de maio de 2022

2022/abr/22 – Holanda – Jardim Keukenhof

 

Muitos meses do ano os bulbos das tulipas passam dormindo no miolo do solo, sonhando com flores elétricas, especiais, inimagináveis. Tulipas maravilhosas de sete pétalas, multicoloridas, com as sete cores do arco-íris que rompem todas as regras e alcançam a perfeição absoluta.

Apesar das utopias admitirem e desejarem o impossível, os bulbos do mesmo canteiro que dormem na mesma concha da mão da terra fria, enquanto esperam o calor da primavera, têm sonhos parecidos, convergentes. Concebem tulipas da mesma cor.

Somente alguns bulbos especiais, tresvariados, os que são tocados pelo imprevisível, têm coragem de mudar – esses são os imprescindíveis. Entre de milhares de flores vermelhas, às vezes, germina uma tulipa azul iridescente e de pétalas frisadas.

É isso que move as molas do mundo.


sexta-feira, 20 de maio de 2022

2022/abr/06 – Saara Tunisiano – Cenários Star Wars

 

Enfim cheguei, o deserto sem fim é fascinante, binário, só têm céu e distancia, repetidos nas dunas que são infinitas em formas e quantidade. Cada passo novo parece apenas um grão de areia acrescentado ou retirado, não muda nada.

Só a vontade importa, e ela – dentro do mundo ampulheta - se esvai célere, quem sabe porque o vento faminto gulosamente a erode.

De repente, na monótona sucessão das dunas, como uma miragem tremeluzente, feito um sonho, uma ilusão, um desejo concedido, depois do declive, aparece a porta de saída, o Espaçoporto do Planeta Totooine, iluminado pelos miasmas de um sol indeciso, incerto e nebulado.

Princípio e fim. Tudo começa e termina agora, mas o tempo incerto, vacila. Dúbio, avança, retrocede, anda em círculos, e se perde em espirais.

Mas agora o mundo vai mudar.


quinta-feira, 19 de maio de 2022

23/abr/2022 – Atelier de Vermeer / Delft – 2 Perguntas


Enquanto Johannes Vermeer de Delft me retratava, nos dilatados intervalos de preparação das tintas, conversávamos. Centenas de perguntas agitavam minha mente, mas ele respondia morosamente, econômico, no mesmo ritmo que pintava.

Na primeira oportunidade fiz a pergunta que me ofegava:

“– Mestre porque produziu tão pouco, menos de 40 telas?”

Me olhou atarantando... Dois encontros depois respondeu com uma frase inesperadamente longa. 

“– Leva tempo transpor universos. O tema é sempre de ordem difusa, dar-lhe forma, cor, peso e concretude para habitar a realidade demanda muito trabalho.”

Feliz por termos, enfim, completado um ciclo de conversa, afoito emendei:

“– Não se realiza quando vê seus quadros prontos?”

Oito sessões depois veio a resposta.

” – Meditei sobre sua questão. Acho que prefiro aprecia-los nas minhas galerias interiores, melhoram continuamente.”

quarta-feira, 18 de maio de 2022

|| 06/mai/2022 – Catedral de Colônia – Sonho Desmedido ||

A Catedral de Colônia (Alemanha) é feita inteira de pedra. Rochas duras, cinza-esverdeadas – cor da eternidade. Monólitos drummonianos, daqueles que aparecem no caminho de todas as pessoas e que as retinas tão fatigadas de todo mundo não conseguem esquecer, nem evitar.

Obsessão antiga, velha e vetusta. Desmedida, do tamanho de uma montanha, que a infinita pretensão humana, faz mais de mil anos, persiste em construir, cortando e empilhando imensos pedregulhos aparados. Um indisfarçado simulacro do desejo de construir uma escada para subir ao céu. Uma seta apontando para o inalcançável.

Foi atacada e bombardeada dezenas de vezes ao longo dos séculos, nas resistiu e persistiu. Por muito tempo foi o edifício mais alto do mundo.

Cada vez que entramos na catedral, nossos sentimentos se distendem e ficam dúbios, nos sentimos, ao mesmo tempo, apenas um nódulo no desenho das pedras e uma força irresistível que empolga a humanidade.