domingo, 29 de agosto de 2021

2018/set/17 – Córdoba/Espanha – Averroes / Perfume das Laranjas

 2018/set/17 – Córdoba/Espanha


Saí para comprar chip de telefone e encontrei Averroes, toquei no sábio em pedra e juntos ficamos olhando Córdoba. Lembrei do conto de Borges em que o Filósofo passa o dia inteiro tentando entender o significado dos termos aristotélicos ‘tragédia’ e ‘comédia’, sem conseguir. O pleonasmo provocativo do enigmista argentino é narrar as meditações do Filósofo acontecendo enquanto assiste diversas modalidades de representações, tristes e alegres, sem jamais conseguir juntar o conceito à coisa. A velha cisão de Platão: a coisa das ideias e a ideias das coisas.

Sorri silente pensando que a Cultura sempre cria mais enigmas do que resolve.

Por entre as buzinas ouvi a engrolada voz de pedra ressoando:

“Estoy de acuerdo. Sé que leíste 'El nombre de la rosa'. 'Rosa', ¿qué tiene que ver este arreglo casual de letras con la flor?

Nada, absolutamente, por Córdoba inteira rescendia e imperava o perfume das laranjas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

25/ago/2018 – Porto Venere / Itália – Porta da Cidadela

25/ago/2018 – Porto Venere / Itália

Porto Venere poderia ser a sexta cidade das ‘Cinque Terre’ o quinteto de antigas e tortuosas praias italianas. Mas era um Importante porto na História Antiga e muito grande e famosa, desbalancearia o sexteto. Lá nasceu Simonetta Vespucci, a musa maior da pintura clássica italiana, um dos nossos paradigmas da beleza feminina  parente do navegador que deu nome à América. Também era o esconderijo predileto de Lord Byron (pai de Ada Lovelace – a cibernética) para curtir a praia, deu seu nome a um poço de águas agitadas onde gostava de mergulhar – as vezes nu.

Contudo, talvez o detalhe mais extravagante dela, seja a principal porta de entrada da cidadela fortificada, que diminuiu três vezes de tamanho. Um exemplo documentado da dolorida adequação entre a ostentação e o medo.

A primeira redução parece pura paura, a segunda e a terceira preservam um pouco do orgulho, na singela talha de pedra dos batentes.


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

2016/mai/25 – Gruyères / Suiça – Escolhendo Armadura

2016/mai/25 – Gruyères / Suiça

O mundo é repleto de inimigos difusos, ocultos, camuflados, encantados, transmutados em aliados. Difíceis de reconhecer.

Sair de casa, entrar no jogo, exige cálculo, estratégia, adivinhação. Todo cuidado é pouco, insuficiente. É preciso ter certeza de escolher a proteção certa, eficiente na defesa e fluida no ataque. E confortável, porque muito da vida é só viver.

Sobretudo que seja fácil de desvestir, porque as vezes a nudez completa é a melhor escolha.

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Duas Caminhadas de Mario de Andrade

 Duas Caminhadas de Mario de Andrade


Sempre ouvimos dizer que Mario de Andrade era um incansável caminhante. Lendo a caudalosa ‘Correspondência - Mario de Andrade & Manuel Bandeira’ (EDUSP – Org. Marcos Antonio de Moraes) por duas vezes o missivista paulistano fala de suas longas peregrinações, curiosamente em horários inesperados.

 – O primeiro registro é 29 de agosto de 1928.

“Às 4 e 30 acordei sai, dei uma volta enorme, andei pelo bairro empinado da Casa Verde, eram 8 quando cheguei em casa...”

– A segunda caminhada aconteceu em 13 de julho de 1929.

“No Anhangabaú não se via nada de nada. Só os anúncios e o farol da Ligth circulando. Fui no cinema, vi umas besteiras, sai no meio e fui andando. Quando vi estava no Brás. Então voltei procurando caminhos mais misteriosos, cheguei a ter medo no meio do parque Pedro II, completamente sem iluminação e com alguns ruídos nas moitas. Depois atravessei o bairro turco e só quando esbarrei na estrada-de-ferro, vim me encostando nela até a rua Lopes Chaves.”

Curioso com os relatos do nosso menestrel, apelei para o Google para tentar imaginar os possíveis percursos destas andanças. (vejam mapas na ilustração).

Cada uma das caminhadas – segundo o Google Maps - duraria cerca de uma hora e meia. Um cálculo aproximado certamente, porque as duas cidades, de 1930 e 2021, num lapso de quase 100 anos, tornaram-se completamente diferentes.

Espantosa também era a coragem do nosso Poeta, considerando os horários, será que alguém se arriscaria da repetir sozinho o percurso hoje?