terça-feira, 1 de setembro de 2020

Guadix/Espanha – 27/set/2018 – Indiana Jones

  Guadix / Espanha – 27/set/2018

Guadix, no sul da Espanha, perto de Granada, é uma cidade curiosa, sobrevive em três camadas.
Metade dela é subterrânea, casas e hotéis funcionam em covas e cavernas

Na superfície prospera uma belíssima cidade antiga, cheia de castelos medievais e construções multicentenárias.

Também é uma cidade-cenário, quase uma dezena de produções foram filmadas lá, inclusive Indiana Jones – A Última Cruzada.

Uma boa ideia. Em cada locação famosa colocaram uma cadeira de diretor posicionada para apreciar a melhor cena do filme. Resolvi ousar, achei que já estava na idade de imitar o Sean Conery como o Doutor Henri Jones, pai do Indy.



sexta-feira, 21 de agosto de 2020

Florença – 28/ago/2018 – Adoniran Barbosa

Florença – 28/ago/2018

Adoniram Barbosa é meu vizinho parônimo, ambos gostamos de andar pelo Bixiga, em tempos diferentes infelizmente. Contudo, foi curioso encontra-lo em Florença/Itália.

O melhor lugar para assistir ao pôr do sol na cidade de Dante é da 'Piazzale Michelangelo', no alto de uma colina. De lá é possível ver as várias pontes sobre o Rio Arno, especialmente a 'Ponte Vecchia', iluminadas e transfiguradas pelas cintilações dúbias da luz dourada.


Reservei uma tarde inteira para curtir com calma o espetáculo. Por sorte, inesperadamente, como presente, prêmio, durante o auge da performance do Sol tocaram ‘Tiro ao Alvaro’, com Adoniram e Elis, em ‘repeat mode’, durante uns 15 minutos. Um casamento estranho – perfeito, delirante, emociante - de som e imagem. 


Não sei a quem devo agradecer pelo presente.

sábado, 15 de agosto de 2020

Gruyères / Suiça – 25/maio/2016 – Museu HR Giger

Gruyères / Suiça – 25/maio/2016 

Pois é, desde maio de 2016, quando visitei o Museu HR Giger em Gruyères  cidade que é parada obrigatória no roteiro de queijos suíços  desenvolvi uma severa cine-neurose. Sempre que assisto filmes da franquia ALIEN fico com vontade de comer queijo e sempre que como queijo fico com vontade de assistir filmes ALIENS. Um círculo vicioso. 

Isso é grave, incômodo, minha família é de origem mineira e gosto de queijo. Pior, se o queijo é do tipo ‘gruyère’, preciso ir correndo para a frente de uma tela/monitor. Também depois de assistir filmes ALIENS preciso comer queijo.

Visitar o museu de Hans Ruedi Giger e seu bar alien-temático na cidade é obrigatório. Neles estão plasmados parte do consciente coletivo desta virada de séculos. Vale até esticar o roteiro incluindo a sala erótica, onde todas as sugestões latentes que habitam as cabeças dos espectadores estão realizadas. Mas é proibida para menores.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Amsterdam – 2014/set/19 – Museu Van Gogh

Amsterdam – 2014/set/19

Fui até Arles/França para conversar com Van Gogh, o papo não progrediu, o pintor só queria falar da ‘amarelidade’ do amarelo. Me perdi nas vias, desvãos e desvios de sua (dele) mente.
Revolvi procura-lo em Amsterdam, no Van Gogh Museum. Lá o mestre é mais plural. Havia uma exposição temática: ‘Van Gogh em Paris’, de novo o mestre estava colorido, desta vez gris. Mesmo assim arrisquei palestrar.
“– Vincent a alma tem cor?” Me olhou ensimesmado, coçou a barba vermelha.
“– Sim, tem, todas.” O ponteiro-pincel demorou a se mover. “– Mas é volúvel, inquieta e nebulada, um matiz dela sempre predomina. Quando passo por Paris a minha confunde a paleta, muda de cor toda hora. Prefere se enrolar em tons azuis."
“– Como posso entender melhor isso?”
“– Olhe com paciência ‘Amendoeiras em Flor’. Um quadro pequeno, porque alma é tímida, só se exibe em nesgas ou janelas.”

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Bayreuth – 26/set/2017 – Túmulo Wagner

Bayreuth – 26/set/2017

 Fui conversar com Wagner em Wahnfried, Bayreuth, onde o mestre – pertinaz esbanjador de fortunas – dilapida a eternidade deitado com sua esposa Cosima, filha de Franz List. Fiz uma pergunta-comentário porque a dinâmica do Maestro atravessa andamentos.
“– Gostei do nome de sua ‘villa’, Wahnfried, mas não entendi direito a convergência de significações curiosas Ilusão/loucura e paz/liberdade, como devemos entende-lo?”.
Respondeu calmo, é um conversador tranquilo, brinca com os tempos entre as sílabas.
“– Não existe um significado único, são charadas e desafios plurais. Brincando com as quatro notas que você escolheu podemos pensar em ‘ilusão de paz’, ‘loucura da liberdade’. Ou questionando os pares que montou: ‘paz é ilusão?’, 'liberdade é loucura?".
Fiquei em silêncio, o vento derrubou algumas pétalas, Wagner entendeu como uma pergunta.
“– Concordo, os ventos são dementes, levam O Holandês Voador para onde   querem, quase sempre para escuros rochedos. Contudo, as piores de todas, são as brisas da História que mudam de direção de repente.”
Caíram mais pétalas, porém Wagner já havia rompido a linha.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Paris – 23/set/2016 – Catacumbas de Paris

Paris – 23/set/2016




Exceto pelas letras gravadas nas pedras, os ossos são sempre os últimos a se calar. Nas Catacumbas de Paris vários milhões deles, empilhados nas paredes, repetem, repetem seus eloquentes discursos mudos que ecoam pelos escuros corredores como um sussurro nas trevas.
As imensas galerias subterrâneas perpetuam suas confissões rechinadas e rascantes, iguais e diferentes. É difícil entender suas histórias superpostas, são confusas tristes e parecidas.
A moça de olhos ausentes e órbitas vazias, à direita, corroeu seu rosto chorando em vão. Se matou, morreu virgem sem saber que foi loucamente amada. O rapaz à esquerda definhou em desespero, faleceu de amor, jamais pode confessar sua paixão pela moça triste.
Hoje envelhecem juntos, mas sem olhos não podem se ver.

sábado, 11 de julho de 2020

Frankfurt – 4/set/2017 – Casa de Goethe


Frankfurt – 4/set/2017

Herr Johann Wofgang von Goethe é ícone da cultura germânica e mundial. Sabe disso e gosta de se exibir. Plural, habita sua casa em Frankfurt onde nasceu e cresceu replicado em bustos e quadros. Escolhi o mais elegante para conversar.
Herr von Goethe por que os alemães tem compulsão pela figura de Fausto?”
Acho que temos excesso de duas coisas: coração e razão. Somos exagerados e desgovernados. Jamais conseguimos harmonizar as partes. Ouvimos demais o Diabo da desmedida, cultivamos uma alucinação racionalizada.”
Era muita coisa para processar no hiato inter-falas. Permaneci calado.
Ouvimos pouco nosso coração. Meu Fausto não aproveitou o perfume da sua Margarida. O Fausto de Thomas Mann foi encantado pela exótica cigana Esmeralda.
Agradeci Herr von Goethe. Principalmente pela brincadeira de tartaruga.

domingo, 5 de julho de 2020

Ilha de Ios / Grécia – 8/set/2019 – Túmulo de Homero


Ilha de Ios / Grécia – 8/set/2019

Na Grécia, na bela Ilha de Ios, conversei com Homero – o poeta cego – no seu remoto túmulo à beira mar, como um barco provocando o oceano, como nós, hoje , desafiamos o espaço.

“– Poeta posso fazer algumas perguntas?”
“– Duas. Uma já fez.”
“– Compôs duas vastas epopeias, e no fundo ambas são histórias de amor. Na primeira junta dez mil barcos para resgatar uma namorada que fugiu com o namorado. Na segunda, por 20 anos, atrapalha o retorno do herói para os braços da amada. E os outros empreendimentos humanos, não são importantes como razão de viver?”
“– Todas aventuras humanas são imprescindíveis – sobretudo as pessoais – mas sem amor nenhuma vale nada. São como aqueles rebrilhos e desenhos que parecemos enxergar nas ondas do mar ao pôr do sol. Tudo que vemos são acasos, brincadeiras dos deuses.“


quinta-feira, 2 de julho de 2020

New York – 23/maio/2012 – Oficina Luthier


New York – 23/maio/2012 

Na Gradoux-Matt Rare Violins (37 W 57th St New York), uma oficina de luthiers especializados em instrumentos de cordas multi centenários (Stradivari, Guarneri, Amati) era [é?] possível fazer um programa bacana. Almoçar, conhecer grandes instrumentos e ouvir música executada com eles.
Uma ideia interessante, envolvia conSerto e conCerto.

Após os trabalhos de manutenção ou restauração realizados a oficina convidava um jovem virtuose – normalmente ganhadores de grandes concursos internacionais – para fazer uma apresentação (+/- 1 hora), depois deixava os preciosidades históricas disponíveis para uma apreciação monitorada.

O programa era barato, mas curiosamente quase nunca estava lotado.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

New York – 30/maio/2012 – THE MET

New York – 30/maio/2012

Às vezes, raras vezes, um Museu pode ser um espaço pessoal, particular, solitário, acolhedor e íntimo. Quase um portal para a introspecção transcendental. Quando o acaso, a sorte e o tempo se juntam para oferecer um presente. A chance de apreciar com vagar as extraordinárias pinturas, compara-las e alargar a dimensão delas.

Isso pode acontecer inclusive no MET  – Metropolitan Museum of Art de New York, que quase sempre está lotado. De repente uma sala completamente vazia e disponível se oferece, atrativa como uma armadilha, esperando o visitante-presa entrar para abraçar, subjugar e transportar o para outros níveis da fruição estética.

sábado, 20 de junho de 2020

Medellín / Colômbia – 9/ago/2015 – Sistema de Bibliotecas

Medelín / Colômbia – 9 / agosto / 2015

Em agosto de 2015 visitei algumas unidades do Sistema de Bibliotecas de Medellín, Colômbia. A cidade espalhou um vasto conjunto de belos e amplos edifícios – sempre de ousada arquitetura – pelos morros nas encostas do Rio Medellín, onde reside a população de baixa renda (como nos morros do Rio). A ideia é que funcionem como Centros Culturais incentivando a participação social. Oferecem, além de livros, cursos, serviços e ajuda para qualquer interessado. Na Biblioteca España fui atendido por um guia chamado Jonatas que registrava as manifestações artísticas – quaisquer que fossem – dos frequentadores.
Perguntei se gostava do trabalho. Entusiasmado garantiu que adorara. Uma frase de sua fala jamais me saiu da memória, ela deu origem a este poema “a Arte é o único registro da alma que fica depois de irmos embora”.


terça-feira, 16 de junho de 2020

10 Melhores Filmes da Década (2010 / 2019)



< Para o Grupo Clássicos do Cinema Mundial /
   Atendendo meu amigo Paulo Rogério Ribeiro) 

Qualquer escolha dos ‘10 mais’, ‘10 melhores’ é arriscada, transitória, fortuita e instável. Tem vida curta, efêmera validade, como um desenho de nuvens no céu.

É uma temeridade prepotente fazer qualquer lista deste tipo. Sou culpado e já estou arrependido. 

* NIDNIGHT IN PARIS / Wood Allen

* HER / Spike Jonze

* INTERESTELAR / Christopher Nolan

* WHIPLASH / Damien Chazelle

* ARRIVAL / Denis Villeneuve

* MONSIEUR & MADAME ADELMAN / Nicolas Bedos

* BLADE RUNNER 2049 / Denis Villeneuve

* DUNKIRK / Christopher Nolan

* MI OBRA MAESTRA / Gastón Duprat

* 1917 / Sam Mendes

* ONCE UPON A TIME... IN HOOLLYWOOD / Quentin Tarantino

segunda-feira, 8 de junho de 2020

Aix-en-Provence / França – 29 / setembro / 2016 – Paul Cézanne

Aix-en-Provence / França – 29 / setembro / 2016

Muita vez Paul Cézanne – teimoso, porém ainda não famoso – saia para caminhar de manhã. Voltava sempre com uma nova pintura do Mont Sainte-Victoire, juntou umas 60 telas. Numa das manhãs resolvi acompanha-lo, era difícil ele marchava apressado.Durante o percurso em aclive, sem fôlego, perguntei: 
“– Porque pinta tanto o Sainte-Victoire?”
“– Não pinto a monte, pinto o Tempo. Me fascina, desafia e amedronta como ele transforma tudo, nós e a montanha.”
Fiquei engargalado, a dúvida havia se expandido epistemologicamente.
“– Gosto de olhar as telas pintadas para lembrar como eu era ontem. Para combater o Tempo todo dia invento um jeito novo de pintar.”
Aderi à inquietação do pintor, menos talentoso, comecei a colecionar fotografias.


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Vevey/Lausane/Suíça – 23/maio/2016 – Garfo Nestlé

Vevey / Lausane / Suíça – 23 / maio / 2016

O garfo no lago registra a sede mundial da Nestlé, na cidade de Vevey, à beira de Lago Genebra.
O céu feroz induz meditações nebuladas e atemporais. Machado de Assis disse “morre-se muito bem às seis ou sete horas da tarde”, quase o horário da foto.
Repensando, morre-se otimamente bem na Suíça, em torno do Lago Genebra. Os cemitérios desta região estão carregados de defuntos estrangeiros e desgarrados, ilustres e notáveis. Jorge Luiz Borges, Charles Chaplin, Grahan Grenne, James Mason, Oscar Kokoschka…

Montreux/Villeneuve / Suíça – 23/maio/2016 – Kokoschka

Montreux / Villeneuve / Suíça – 23 / maio / 2016
Quando findou a chuva primaveril na beira do Lago Genebra, em Villeneuve, depois de Montreux sai para passear. Encontrei Oskar Kokoschka, o pintor noivo da ‘Noiva do Vento’.
Uma figura incongruente que vendeu tudo que tinha para comprar farda, espada, cavalo e ir para a guerra. Voltou ferido, perdeu tudo: a razão crítica e prática, a alma e Alma (sua amante, viúva de Mahler). Só lhe restou a faculdade de juízo estético. Curou a dor de cotovelo dormindo com uma boneca cópia exata da amada.
Estava bidimensional e olhava fixamente para o lago.
Perguntei:
‘– Como é a vida assim, plana e dividida?'
Respondeu dúbio e desacostumado da fala:
‘– É boa, a gente vê os dois lados com clareza, esquerda, direita, sem zona cinza. Têm momentos na História que isso é imprescindível.'
Concordei. Calados, juntos, olhamos longamente a espelhada superfície do lago saciado de chuva. Cansado do silêncio me despedi e fui embora. Oskar ficou secando, atento ao vento do tempo.

Lucerna / Suíça – 1/junho/2016 – Wagner

Lucerna / Suíça – 1 / junho / 2016
Fui visitar Wagner em sua bela mansão, num promontório que avança intrépido pelo Lago Lucerna, O compositor estava omnipresente, multiplicado em bustos e estátuas.
Aproveitei para fazer a pergunta urgente e incômoda:
"Como conseguiu ser tão genial e tão canalha?"
O mestre respondeu:
"A genialidade e a canalhice são atributos humanos, e eu tenho excesso de humanidade. Assim explorei todas minhas boas e más potencialidades até o limite."
Fiquei pensando embaraçado em dúvidas. Ele, talvez com pena das minhas carências, acrescentou:

"Mas não se esqueça, quando eu fui apenas humano, escrevi o 'Idílio de Siegfried' e o dediquei à Cósima (que roubei de von Bülov) numa manhã de Natal, naquela escada que breve você subirá."

S.Paulo (MIS) – 18/julho/2018 – Hitchcock

S.Paulo (MIS) – 18/julho/2018
Hitchcock fica melhor a cada reprise. Talvez apenas dois artistas dominaram tanto e exploraram tão completamente seus respectivos campos de atuação, e deixaram uma obra (igualmente diversificada e vasta) que a partir dela se pode avaliar todas os aspectos e avanços das Artes que elegeram e tudo que os precederam: Bach na Música e Hitchcock no Cinema.

S.Paulo (CCBB) – 20/março/2019 – Paul Klee

S.Paulo (CCBB) – 20/março/2019
Uma das melhores tardes que tenho na memória passei no ‘Zentrum Paul Klee’, nos arredores de Berna. Três pavilhões ondulados que se mimetizam com as colinas em torno para melhor se encaixar na paisagem. A família do pintor guarda lá algumas centenas de milhares de obras do artista. Tesouros belíssimos, frágeis e delicados como corais e bolhas de sabão.
Passeando nesta longa alameda arenosa curtimos o perfil da cidade da Relatividade de Einstein e o tempo se alonga e quase para, o dia pode durar semanas.
Na Exposição de Paul Klee no CCBB-S.Paulo, parei defronte uma fotografia tamanho natural do velho mestre, tomado pela esclerodermia, e comentei.
- Paul, achei triste a ‘Fênix Idosa’ (detalhe), porque desenhou?
- Ela é mais completa, plena e feliz do que nós dois, de repente se auto incinera, renasce jovem e vive mais 300 anos. Não fica com inveja?

Genebra / Suíça – 24/maio/2016 – Borges

Genebra / Suíça – 24/maio/2016

Numa tarde de terça-feira, maio de 2016, fui visitar Borges em Genebra. Apesar de imortal, agora, passa todo o tempo neste jardim – perto de Jean Calvin, que frequenta o lugar faz muito mais tempo.
Ouviu meus passos se aproximando e não levantou a cabeça, estava com os olhos fechados, mais isso não mudava nada. Perguntei:
“- Jorge como é possível entender a América do Sul?”
“- Passei muito tempo lá, porém não aprendi, Somos todos exilados com saudades da Europa, África, Oriente...”
“- Veja na Literatura de vocês, ‘A canção do Exílio’ é um dos maiores poemas”
“Então não existe chave para entendê-la?”
“-Talvez a resposta esteja no mapa do subcontinente. Parece um Parece um funil triturador fascinado pela Europa, mas com um fio de comando ligado nos Estados Unidos.”

Frankfurt – 5 / set / 2017 – Simonetta Vespucci

Frankfurt / Alemanha – 5 / set / 2017

Andando pelos corredores do Museu Städel em Frankfurt encontrei Simonetta Vespucci, talvez a mais bela top model da Renascença. Estava meio entediada de ficar naquela sala, olhando para o nada, resolvi puxar conversa.
“- Já encontrei você em vários lugares, sempre alheia e cada vez mais bela.”
“- Se gosta de museus, com certeza, estou em muitas paredes, ou alguém muito parecida comigo. Tive amigos que gostavam de me pintar. N’O Nascimento de Vênus’ - duas vezes - como a Flora e como a deusa”; também em excessivos retratos de mulheres e personagem da História, nem lembro mais quantos.”
“- De qual mais gosta?”
“- Sem dúvida daquela ‘Cleópatra’ de Piero de Cosimo, um artista estranho. Me arrepia e excita aquela serpente enrolada no pescoço.”
Antes de falar censurei Piero, panaca, devia te-la usado como modelo da nossa virgem do MASP.  
“- Você posava para eles?”
“- Nunca. Tudo que viu são ousados elogios da imaginação deles e desejo oculto me homenageando.”

Leipzig / Alemanha – 19/set/2017 – Bach

Leipzig / Alemanha – 19 / set / 2017

Ouvindo as Bach no Órgão Grenzing na Catedral Evangélica de S.Paulo e embalado pela música fantástica lembrei da conversa que tive com o compositor-organista em Leipzig, onde ele descansa.
“– Perdão Mestre. O órgão é a melhor maneira de conversar com Deus?”
“– O homem não conversa com Deus, apenas fala com Deus, que nunca nunca responde, mas às vezes – Ele ou o acaso – parecem agir.”
Fiquei quieto, temi questionar, esperei que continuasse.
“– Eu gostava de falar com Ele através do órgão, Paganini preferia o violino, Jacqueline Du Pré o cello, Jimi Hendrix a guitarra.”
“– Os tempos modernos estão confusos. O homem fala com Deus, mas tenta ouvir os Ets.”
Não consegui pensar numa resposta adequada, deixei uma flor sobre a lápide.


Bonn / Alemanha – 07/set/2017 – Beethoven

Bonn / Alemanha – 07/set/2017


Na casa de Beethoven em Bonn tivemos uma conversa telepática, porque ele é surdo e não é recomendável gritar dentro de museus.
“– Mestre, quando ouço a Terceira Sinfonia imagino o Scherzo do Terceiro Movimento como um rodamoinho descontrolado passeando pela História.”
“– Não é a pior imagem, porque quase sempre é um idiota que segura as rédeas da História. Por isso tive que mudar o nome dela."
O silencio telepático do Ludwig era em adagio lento, feito a Canção Lídia do Quarteto 132.
“– Na nossa vida também nem sempre é a melhor parte de nós que está no comando.”
Depois disso ficou mudo, como a pedra de que era feito.

Buenos Aires – 27/jan/2016 – Tarsila

Buenos Aires – 27 / jan / 2016

Abaporu vai passar uma temporada no MASP, pretendo visita-lo. Lembro da nossa última conversa no MALBA, parecia muito bem instalado, era um dos destaques. Contudo estava triste e macambúzio. Conversamos em tons grises. Brinquei.
“– Porque esta perna não longa?”
“– Aquí sólo puedo hablar en español.”
Traduzi a pergunta.
“– ¿Por qué esta pierna tan ancha?
“– Para, cuando lo permitan, ir corriendo a Brasil.
“– ¿Por qué ese brazo tan robusto?
“– Para dar muchos abrazos a los brasileños que vienen a visitarme?
“– ¿Por qué esa cabecita tan pequeñita y triste?
“– Estoy aburrido y con nostalgia. Quiero volver a Brasil. Mis colores son para sambas, no para tangos.”

Ficamos em silêncio por muito tempo. Quando parti fiz sinal de positivo. Ele não respondeu, talvez porque lhe falte o polegar.


Florença / Itália – 29/ago/2018 – Michelangelo

Florença / Itália – 29 / ago / 2018


Entrei no ‘Museo Galleria dell'Accademia di Firenze’ com destino certo, conversar com o David original, aquele tocado por Michelangelo. 
Encontrei um garoto enorme, 5 metros de altura, elegantemente vestindo sua própria pele. Olhava o futuro com serenidade, curiosidade, confiança e sem pressa.
“– Posso fazer duas perguntas?”
Ele balançou a cabeça pétrea, vagarosamente.
“– Nunca temeu o gigante Golias?”
“– Não. O próximo passo é sempre onde o futuro nos trouxe, portanto inexorável. Olhar para trás é voltar para procurar erros impossíveis de serem corrigidos.”
A outra pergunta: por que você fala e suas cópias – já tentei com várias – são mudas?”
“- Durante o processo de talha eu e meu criador nos emaranhamos quanticamente. Hoje eu – a pedra – e Michelangelo somos a mesma coisa, como diferentes emanações do universo compartilhado.
As copias são replicações ocas das pretensões humanas. Derivações de futuros trucados.”

Frankfurt – 4/set/2017 – Goethe

Frankfurt – 4 / set / 2017

Herr Johann Wofgang von Goethe é ícone da cultura germânica e mundial. Sabe disso e gosta de se exibir. Plural habita a casa de Frankfurt – onde nasceu e cresceu – replicado em bustos e quadros. Escolhi o mais elegante para conversar.
“– Herr von Goethe por que os alemães tem compulsão pela aventura de Fausto?”
“– Acho que temos excesso de coração e razão, somos exagerados e desgovernados. Jamais conseguimos harmonizar os dois. Ouvimos demais o Diabo da desmedida dentro de nós, cultivamos uma alucinação racionalizada.”
Era muita coisa para processar no hiato inter falas, permaneci calado.
“– Ouvimos pouco nosso coração. Meu Fausto não aproveitou o perfume da sua Margarida. O Fausto de Thomas Mann ficou receoso com as cintilações da cigana Esmeralda.
Agradeço a Herr von Goethe por aceitar brincar de tartaruga comigo.

Bixiga – 17/jun/2018 – Adoniram

Bixiga – 17 / jun / 2018

Adoniram e eu gostamos da S.Paulo de cachecol, e do italiano mais milanês, por isso preferimos nos esbarrar por aí no inverno.
Não me agrada o Adoniran mito, logomarca, tatuagem, de chapeuzinho de aba curta e olhar paralisado. Prefiro trombar com ele por aí paulistando, namorando a cidade. A última vez foi no viaduto Major Quedinho.
“– Olá Adoniram passei uma tarde linda, ouvindo você cantar 'Tiro ao Álvaro' e vendo o por do sol –  tudo isso num bar de Florença. Não pé estranho?”.
“– Sei disso. Pena que é preciso ir cada vez mais longe para me ouvir”.
Implícito, concordei com ele.
“– ‘Porque as rádios não tocam meus sambas? Por quê? Algum crime que fiz?’ (do CD Documento Inédito)”.
“– Pois é Charutinho (conheci Adoniran com este nome), nem o ‘Arnesto’ – aquele que convida p´ro samba mas não espera – sabe explicar”.
Nos afastamos pensativos, cruzei com uma garota com um ‘Adoniram’ tatuado na bunda. Não evocava nada, era um signo descolado de significado, um enfeite copiado, feito um clips na alça da blusa.

Amsterdan – 22/set/ 2014 – Chet Baker

Amsterdan – 22 / set / 2014

Fui visitar Chet Baker onde parou sua caminhada. 13/maio/1988, Prints Hendrik Hotel, Centro de Amisterdan. Jogou-se (ou foi jogado?) do segundo andar.
Um trompetista maior e um cantor extrínseco à arte do canto, suaves sussurros. O provável modelo de João Gilberto.
Igual a todo mundo queria perguntar sobre o ato final, mas me contive. Troquei de pergunta.

“– Posso ficar ouvindo você e a praça cantado 'My Funny Valentine'?
“– Ok, então vamos cantar a versão do disco ‘Sings’ de 1954.” 
Foram apenas 140 segundos, 2,20 minutos e uma voz temperada com tudo o que de bom e ruim pode um homem experimentar e expressar, viver e dizer. Um ímpeto controlado em busca da beleza sutil.
Parti alguns segundos antes do fim para que sua (dele) voz permanecesse na minha memória para sempre.

Córdoba/Espanha – 19/set/2018 – Maimônides

Córdoba – 19 / set / 2018

Por Córdoba inteira procurei Moisés Maimônides para conversar, ele nasceu lá. Admiro demais o filósofo/teólogo/médico que no escuro Século XII elaborou a mais sábia síncrise - análise - síntese das culturas judia, árabe e greco-romana. Talvez seu único deslize seja a incomensurável prepotência que deixou gravada na pedra de seu túmulo.
“De Moisés a Moisés [nome de Maimônides], nunca houve ninguém como Moisés."
Me aproximei e perguntei: 
“– Mestre Maimônides, depois de quase oito séculos não acha excessivamente vaidosa sua comparação”?
– Não, de jeito nenhum. Eu fiz a prova sozinho, para meu xará da bíblia, Deus soprou a fala.”
Fiquei perplexo. Ele continuou.
“– Pela sua cara calculo que já esteja pronto para ler meu mais famoso livro: Guia dos Perplexos".
Me despedi e fui procurar o livro.

Paris – 10 / out / 2016

Paris – 10 / out / 2016


Nas Catacumbas sob Paris me detive para conversar com os companheiros de viagem, não conhecia nenhum deles, mas sabia que tínhamos o mesmo destino.
Fiz a pergunta óbvia – é inescapável, nas conversas com grupos fazemos sempre as perguntas óbvias.
“– Como é a coisa na hora do salto?”
Responderam num coro dessincronizado.
“– Não dá para explicar, para cada um é diferente.”
Persisti, com outra pergunta óbvia.
“– E como são as coisas do outro lado?”
Responderam de novo em uníssono, agora mais afinados (o treito é tudo).
“– Não sabemos, ainda estamos no meio do salto. E talvez nunca acabe.”
Calei a boca, o silêncio ulula menos do que o obvio.

Wittenberg/Lutherstadt – 17/set/2017 – Lutero / Alquimista

Wittenberg - Lutherstadt – 17 / set / 2017

Em Setembro de 2017 visitei Wittenberg / Lutherstadt, a cidade estava festiva, comemorava 500 anos das 95 teses contra as Indulgências que Martin Luther havia pregado na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, o inicio da Reforma Protestante.
Andando pela cidade passei pela casa de Johann Faust – Astrólogo e Alquimista. Como os tempos modernos andam conturbados resolvi consulta-lo. Tímido, evanescente não se deixou fotografar. Anunciei minha encomenda.
“– Doktor Faust quero comprar um pouco de `Pó de Paciência’.”
“– Não mercadejo, não possuo temperamento sórdido. Posso apenas instruí-lo no preparo.”
Mesmo temente de nova repreensão ousei perguntar.
“– De quais elementos vou precisar?”
“– Quaisquer. Pode usar o que quiser. O único componente imprescindível é o Tempo. Precisa moer por 700 dias, prazo para suas ansiedades virarem poeira.
Agradeci, Herr Doktor não me acompanhou até a porta.


Coimbra / Portugal – 27/set/2015 – Inês de Castro

Coimbra – 27 / set / 2015

Em Coimbra fui até a Quinta das Lágrimas, queria encontrar a Rainha em ossos coroada.
Seria bom conversar com qualquer uma das duas, a ‘linda Inês, posta em sossego’ de Camões ou a ‘linda Inês, nunca em sossego’ de Jorge de Lima.
Não encontrei nenhuma delas, então resolvi espera-la na Fonte das Lágrimas que deságua no Mondego e (dizem) nasceu do choro da Rainha executada.
Quando vi seu vulto vislumbrei uma terceira manifestação dela, junto veio um verso: ‘Estavas, ígnea Inês, envolta em chamas’.
“– Rainha cambiante que viveu uma paixão que avançou além da morte. O amor verdadeiro é mais chama ou mais brasa?”
“– As labaredas se apagam e as brasas viram cinza. O verdadeiro amor é o calor que aquece a alma, porque o espírito fica pra sempre incandescente.”
Não se surpreendeu a amplitude da resposta, as musas sempre sussurram o impensável.

S.Paulo – 07/Julho/ 2019 – Paulo Bomfim

São Paulo – 07 / Julho / 2019
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Sou leitor de Paulo Bonfim e, às vezes, nas minhas caminhadas sigo seus passos nas crônicas desta 'Insólita Metrópole'. Converso com ele sobre as metamorfoses desta nossa paulicéia trepidante, louca e desvairada.
Suas poesias eram perfeitas, longamente pensadas, tinham o preciso peso e medida dos paulistas de antes dos anos cinquenta.
Como cronista tinge tudo de saudade, nos relembra de como era a cidade antes do gigantismo desenfreado.

S.Paulo – 17/Julho/2019 – Sebastião Salgado

São Paulo – 17 / Julho / 2019
GOLD / – MINA DE OURO SERRA PELADA / SESC PAULISTA  – Já sabemos como fabricar infernos e convocar condenados para suporta-los.
É impossível olhar as fotos de Sebastião Salgado e não lembrar das ilustração de Gustave Dorê para o Inferno de Dante.
O pior, o arrepio de espanto, é lembrar que as pranchas eram imaginação, mas as fotografias são verdadeiras.
“Ó, vós que entrais, abandonai toda a esperança..."


Alcalá de Hanares – 27/Setembro/2019 – Cervantes

Alcalá de Hanares – 27 / Setembro / 2019
|| DEFRONTE A CASA ONDE NASCEU CERVANTES ||
Fui até Alcalá de Henares para conversar com Dom Quixote. Esperei que o sol declinasse para que nossa palestra não fosse incendiária. Sancho Pança estava presente, mas alheio passeando algures com seu bom senso.
Perguntei ao Fidalgo da Triste Figura:
 ̶  Señor, posso fazer uma pergunta?”
"
 ̶  No me gusta responder preguntas, reducen y erosionan la Realidad, que es onírica, múltiple y variable, pero vamos ..."
“- Señor como é habitar um mundo onde o desvario impera?”
Bateu três vezes sua lança quebrada no chão, me olhou espantado, abriu os braços e disse:
“El caballero debe saber mejor que yo, de lo contrario no habría cruzado todo el océano para hacerme preguntas."

Sancho nem olhou de lado, estava acostumado com tresloucados sentados entre eles.

Florianópolis/SC – 30/Dezembro/2019 – Sambaqui-

Florianópolis/SC – 30 / Dezembro / 2019

PRAIA DO SAMBAQUI – Ponta do Sambaqui tem um pôr de sol estranho, lá existe um istmo que liga a Ilha de Santa Catarina a uma pequena porção de terra que se arroja tresloucada, como se líquida fosse, para se juntar ao mar.
Este pequeno apêndice – do tamanho de um jardim – é um bosque mágico e místico, de imensas árvores, e inúmeras aves. Para os índios já era sagrado faz muito tempo, são incontáveis os registros que deixaram por lá.
Mas o istmo, ou mais precisamente o banco no istmo é um lugar que retorce a consciência, sentado nele, ficamos de costas para o pôr do sol e de frente para o amanhecer... Que só acontecerá no próximo dia.
Um lugar para desejar FELIZ ANO NOVO.


domingo, 3 de maio de 2020

64 DILEMAS - Livro-Lúdico






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PREFÁCIO

O título óbvio deste livro é a prosaica totalização dos 64 poemas chamados
‘Dilema...’.  Contudo tanto 64 quanto Dilema têm diversas outras conotações
interligadas que atravessam a vida e este ciclo de poesias.

64     /     SESSENTA E QUATRO
‘Revolução’ de 64 — Foi o marco da minha geração. Em política o primeiro
desafio foi entender 64. Datar um assunto como pré ou pós 64 era um sinal
binário que mudava o contexto da conversa.

64 Hexagramas — De todas as tiragens de sorte e sistemas preditivos o
I Ching é o mais interessante, o mais bem estruturado e o melhor documentado.
Durante milênios grandes mentes se debruçaram sobre seus mistérios,
peculiaridades e regras, acumulando registros escritos que se confundem
com o cerne da Filosofia e Poesia oriental. Os desenhos sutis dos 64 hexagra-
mas estão omnipresentes na cultura humana.

64 casas do jogo de xadrez — A mais velha metáfora da vida e da guerra.
Um confronto de 32 peças bicolores que emula todas as incontáveis experiências humanas. Uma alegoria que entretece os sonhos, temores, vicissitudes e a
rala sabedoria que nos envaidece. Quem sabe o mais complexo sistema estru-
turado operado pelo homem. Talvez um repto aos limites da mente racional. 
Então veio o Deep Blue - um computador - que derrotou nosso campeão,
Kasparov. O que foi isso, um desafio? Ou um alerta contra a vanglória humana?
Seria 64 um daqueles números inextrincáveis que fazem parte da trama íntima
do universo? Uma fronteira da racionalidade? Ou somente uma perplexidade
da Poesia.

DILEMAS     /     ESCOLHAS
Escolher é fácil — difícil é renunciar a todo o resto.
Ir ou não ir?  Amar ou não amar? Crer ou não crer? O ser ou não ser de
Hamlet. Os Dilemas estão presentes em cada ação humana. Na origem
de tudo está um Dilema, uma escolha simples e binária.

O número 64 é o infinito ao quadrado (‘∞’, o 8 deitado), representa e emula
o incomensurável, o imperscrutável limite mental do homem. Entretanto,
são os Dilemas, as opções, as escolhas compulsórias — sempre simples
e binárias — que constroem, corroem e destroem nosso psiquismo. Talvez
os poemas ‘Se’, de Kipling, ‘Ou Isto ou Aquilo’, de Cecília Meireles, também
pudessem se chamar ‘Dilemas’.

Será que a Poesia pode preencher os interstícios entre as duas partes?

 64 DILEMAS EM PAPEL / PDF 


segunda-feira, 27 de abril de 2020

Bob Dylan Merece


Fiquei espantando e surpreso quando a Fundação Nobel em 2016 escolheu Bob Dylan como ganhador do Prêmio de Literatura. Decidi reouvir suas músicas e – principalmente – reler suas letras, calmamente, cuidadosamente.

Agora concordo com o prêmio, considerando apenas a obra escrita, Bob Dylan está entre os maiores Poetas da era Nobel.

segunda-feira, 6 de abril de 2020

56 LANCES DE DADOS - Livro-Lúdico





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REGRAS DO JOGO

56 Lances de Dados é um livro-lúdico comandado pelo acaso.
A ordem de leitura dos poemas é sempre aleatória, depende
dos dados jogados. Assim as séries de sequências ofertadas
pela sorte formam um pequeno infinito pessoal. Cada leitor
– em cada leitura – terá uma experiência única e inesperada.

São 56 poemas porque este é o número total de combinações
possíveis quando três dados são lançados. Apesar da aleatoriedade
e dispersão dos poemas, o conjunto compõe um universo coerente
que gravita em torno de alguns ‘atratores estranhos’ da Cultura
humana, especialmente selecionados. O livro-jogo é um
micro-cosmo mutante que se transforma se renova cada vez
que é recriado.

Como fazem as Bandas de Rock acho importante enumerar as
influencias que se entrecruzam na coleção de poemas, ao menos
as já conhecidas, conscientes e assumidas.

A primeira, omnipresente, é o livro Un Coup de Dés, de Stéphane
Malarmé, que desassossegou para sempre os territórios da Poesia.
O autor gostava de dizer que seu poema-marco era uma visão
prismática da realidade. Com base nisso cada um dos  56 Lances
de Dados comenta um prisma recortado do texto célebre.

Os poemas estão organizados em sete grupos temáticos, Seis
sextetos e uma vintena, Os sextetos (onde sempre ocorrem duplas
de dados) remetem aos seis dias da Criação e (grosso modo)
revisitam o sentido bíblico atribuído a cada um deles. 

O sétimo grupo, de 20 poemas (com três dados diferentes), enfoca
turbulência ou o divertissement de Pascal (coisas que fazemos para
passar o tempo). O Filósofo era especialista em apostas, jogos,
roletas e probabilidades.

O terceiro eixo brinca com a trindade de mistérios modernos: a Teoria
da Relatividade, a Mecânica Quântica e a Teoria das Cordas. Trinca de
enigmas arcanos que nos assediam e ainda continuam precariamente
revelados.

Também transitam pelos poemas dois personagens carinhosamente
convidados: Petrônio, que desiste, e Penélope que espera, medita
sonha, deseja e persiste.

O mais é deslembrança, susto, surpresa e inquietação.


Sobretudo, gostaria de agradecer a Edivaldo Soares da Silva e Daniel Bock
 pela concepção técnica do livro-jogo 56 Lances de Dados. 

domingo, 15 de março de 2020

CARLOS MELO - 'Contos do Tempo emaranhado'


CARLOS MELO - 'Contos do Tempo emaranhado' 

O Professor Carlos Melo é um excelente Cientista Político, ponderado e rutilante. Docente e Pesquisador do Insper, mantém um blog na UOL e conversa todo sábado (A Semana Política) com Pétrea Chaves na CBN, entre outras coisas. Também é meu amigo fraterno desde a juventude, nossas horas de papos parecem um bolsão de eternidades. Enviei para ele meu último livro, 'Contos do Tempo Emaranhado', a resposta que recebi merece – exige – ser compartilhada, por dois motivos: a expansão do sentido do conto e o faiscante diamante bruto que ele exumou da cultura (dita) polpular para parafrasear o conto 'Paraíso Reconquistado'.

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Salve, Douglas. Vida longa, saúde e alegria. abs.

Toda mulher se pergunta se, após tantos anos, seu marido ainda é o parceiro perfeito. Igualmente, todo o homem também se indaga. Haveria até um tétrico aprofundamento a essa angústia, a esse enigma: será que algum dia esse homem — ou essa mulher — chegou mesmo a ser um(a) parceiro(a) perfeito(a)? Provavelmente, não. No fundo, não. Como já disse alguma canção brega, é “um mundo onde o perfeito não tem vida” — lembro-me, agora, quem o disse foi Barros de Alencar, na sua clássica (e breguíssima) “O Fruto do Nosso Amor”. Mas, na idealização de quem olha para o passado ou para o futuro de uma vida, a questão de Sissa Edo Dahcam persiste: “meu marido (minha mulher) ainda é o parceiro perfeito?”. Não há deste lado da vida — e nem do outro — alguém com a sinceridade fria capaz de responder, com a coragem brutal de simplesmente dizer: “não”. Principalmente, quando o tempo de faze-lo, de algum modo passou! O tempo passa apenas para que justifiquemos nossas escolhas. Meu amigo, só li este, por enquanto. Morri de boa inveja. Queira deus que este não seja seu auge. Mantendo-se assim, realiza desse modo vários dos sonhos que tivemos em juventude. Morto da boa inveja, te digo — não com despeito, mas com orgulho do amigo e de também o ser —, “quando crescer, quero tangenciar essa grandeza”. Bravo. Parabéns.
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Obrigado Carlos por decifrar este conto cheio de ‘easter eggs’. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Contos do Tempo Emaranhado (Lançamento)

Contos do tempo emaranhado
  
                  Diário Macabro Editora 



R$ 32,00
(Correio incluso)

Pedidos por email
dbock@uol.com.br
dbock@paulistando.com.br









'Contos do tempo emaranhado' é um convite para brincar com o cotidiano, romper paredes e olhar por detrás delas. As histórias estão agrupadas em três vertentes diferentes.

Cinco contos estão interligados, exploram a possibilidade de alcançar os paraísos possíveis e desejáveis que moram dentro de nós. Emil Cioram, o intrigante filósofo-estudante da Transilvânia, dizia que a vida é insuportável sem algum tipo de utopia, política ou religiosa. Paraísos e infernos (ou a combinação de ambos) são nossas fantasias prediletas.

Quatro histórias acontecem em 'Sampaulo', uma realidade paralela de S. Paulo. A ideia veio da Psicogeografia (ou Teoria da Deriva), que é um movimento artístico radical proposto nos anos 50 pelo francês Guy Debord. Ela entende que os moradores de qualquer cidade, racional ou emocionalmente, habitam realidades superpostas e diferentes que têm em comum apenas a Geografia. As histórias alternativas confluem com essa proposta.

Cinco outras histórias são instáveis e erráticas, tratam das possibilidades, das paixões e dos perigos de se viver outras realidades, nas quais o prosaico, o maravilhoso, o inesperado e o extraordinário são possíveis, e até desejáveis.