terça-feira, 21 de junho de 2022

2022/mai/01 – Baden Baden - Furtwängler

 

Encontrei Wilhelm Furtwängler no meio de uma praça em Baden Baden/Alemanha. Calvo, brônzeo, enfarruscado, atrás de várias camadas superpostas de memórias, glórias passadas e, sobretudo, escavado pelo esquecimento. Entristecido olhava para o Teatro de Ópera.

Não me surpreendeu, ele morreu perto da cidade. Me aproximei para conversar.

“– Maestro sua fama foi imensa, regeu todas as orquestras mais importantes. Se firmou como uma das coordenadas da Arte da primeira metade do século 20. Uma época decisiva, que até hoje baliza nossa História. Como foi ser tão grande?”

Falava baixo, lentamente, um som rascante, parecia que as ostras brônzeas das incertezas friccionavam sua garganta. Me aproximei para ouvir melhor.

“– Sou um homem de metal, mudo e silencioso. Deixo que a História que é uma ‘donna’, ‘mobile qual piuma al vento / muta d'accento e di pensiero’, fale por mim.

Fechou-se em ausência, continuei meu passeio, mas ainda ouvindo a música que ressoava.


sexta-feira, 17 de junho de 2022

2022/abr/26 – Bruxelas – Museu Magritte


Passei por Bruxelas especialmente para visitar o Museu Magritte, estava apreciando o ‘Retrato de Paul Nougé’ quando o autor se ionizou do meu lado. Verde-elétrico, cor das coisas impossíveis.

Sorria e estalava os dedos. Fiz o comentário que vagava dentro de mim.

“– Mestre Magritte gosto muito do seu Surrealismo porque dispensa o espetaculoso e o inverossímil, é feito de coisas comuns e cotidianas, contudo nos conduz – cada vez que olhamos – ao impensado. O homem com uma maçã no rosto sempre me fascina.”

A resposta ecoou rápida como coisa repetida.

“A imaginação e o humor são as únicas armas para atravessar a banalidade da Vida, esta interminável sucessão de dias iguais e sem graça.”

Já estava saindo do museu quando recebi seu último pensamento.

“- O homem de chapéu-coco com a maçã no rosto não é feliz, vive preso no paraíso.”

terça-feira, 14 de junho de 2022

2022/abr/12 – Alger|Argélia – Casa de Albert Camus


Nada, nenhuma placa, nenhuma indicação registram que Albert Camus – Prêmio Nobel de literatura de 1957 - morou nesta casa, na Rue de Lyon, 93, no bairro de Belcourt em Argel.

Porém, para quem é plugado nas vastas redes da imaginação, é possível vê-lo na janela azul, sobre a loja de celulares. Mandei-lhe uma mensagem/zap.

– Sua viagem com Oswald de Andrade em 1949 para a festa do Senhor Bom Jesus de Iguape foi só distância e cansaço?

– Terrível, uma trilogia de chateação na clave do ‘M’ em estradas ruins: Mar, Montanha e Monotonia. Isso deixa o sujeito revoltado, faz pensar na única opção do homem diante da vida, suicidar-se ou não?

Meu cursor piscava, não sabia como continuar a conversa. A banda de Camus era mais rápida...

– O que redimiu a tragédia total foi o Futebol. A quantidade de campos nas praias me lembrou dos tempos de goleiro amador nos desérticos gramados da Argélia.


terça-feira, 24 de maio de 2022

2022/abr/22 – Holanda – Jardim Keukenhof

 

Muitos meses do ano os bulbos das tulipas passam dormindo no miolo do solo, sonhando com flores elétricas, especiais, inimagináveis. Tulipas maravilhosas de sete pétalas, multicoloridas, com as sete cores do arco-íris que rompem todas as regras e alcançam a perfeição absoluta.

Apesar das utopias admitirem e desejarem o impossível, os bulbos do mesmo canteiro que dormem na mesma concha da mão da terra fria, enquanto esperam o calor da primavera, têm sonhos parecidos, convergentes. Concebem tulipas da mesma cor.

Somente alguns bulbos especiais, tresvariados, os que são tocados pelo imprevisível, têm coragem de mudar – esses são os imprescindíveis. Entre de milhares de flores vermelhas, às vezes, germina uma tulipa azul iridescente e de pétalas frisadas.

É isso que move as molas do mundo.


sexta-feira, 20 de maio de 2022

2022/abr/06 – Saara Tunisiano – Cenários Star Wars

 

Enfim cheguei, o deserto sem fim é fascinante, binário, só têm céu e distancia, repetidos nas dunas que são infinitas em formas e quantidade. Cada passo novo parece apenas um grão de areia acrescentado ou retirado, não muda nada.

Só a vontade importa, e ela – dentro do mundo ampulheta - se esvai célere, quem sabe porque o vento faminto gulosamente a erode.

De repente, na monótona sucessão das dunas, como uma miragem tremeluzente, feito um sonho, uma ilusão, um desejo concedido, depois do declive, aparece a porta de saída, o Espaçoporto do Planeta Totooine, iluminado pelos miasmas de um sol indeciso, incerto e nebulado.

Princípio e fim. Tudo começa e termina agora, mas o tempo incerto, vacila. Dúbio, avança, retrocede, anda em círculos, e se perde em espirais.

Mas agora o mundo vai mudar.


quinta-feira, 19 de maio de 2022

23/abr/2022 – Atelier de Vermeer / Delft – 2 Perguntas


Enquanto Johannes Vermeer de Delft me retratava, nos dilatados intervalos de preparação das tintas, conversávamos. Centenas de perguntas agitavam minha mente, mas ele respondia morosamente, econômico, no mesmo ritmo que pintava.

Na primeira oportunidade fiz a pergunta que me ofegava:

“– Mestre porque produziu tão pouco, menos de 40 telas?”

Me olhou atarantando... Dois encontros depois respondeu com uma frase inesperadamente longa. 

“– Leva tempo transpor universos. O tema é sempre de ordem difusa, dar-lhe forma, cor, peso e concretude para habitar a realidade demanda muito trabalho.”

Feliz por termos, enfim, completado um ciclo de conversa, afoito emendei:

“– Não se realiza quando vê seus quadros prontos?”

Oito sessões depois veio a resposta.

” – Meditei sobre sua questão. Acho que prefiro aprecia-los nas minhas galerias interiores, melhoram continuamente.”

quarta-feira, 18 de maio de 2022

|| 06/mai/2022 – Catedral de Colônia – Sonho Desmedido ||

A Catedral de Colônia (Alemanha) é feita inteira de pedra. Rochas duras, cinza-esverdeadas – cor da eternidade. Monólitos drummonianos, daqueles que aparecem no caminho de todas as pessoas e que as retinas tão fatigadas de todo mundo não conseguem esquecer, nem evitar.

Obsessão antiga, velha e vetusta. Desmedida, do tamanho de uma montanha, que a infinita pretensão humana, faz mais de mil anos, persiste em construir, cortando e empilhando imensos pedregulhos aparados. Um indisfarçado simulacro do desejo de construir uma escada para subir ao céu. Uma seta apontando para o inalcançável.

Foi atacada e bombardeada dezenas de vezes ao longo dos séculos, nas resistiu e persistiu. Por muito tempo foi o edifício mais alto do mundo.

Cada vez que entramos na catedral, nossos sentimentos se distendem e ficam dúbios, nos sentimos, ao mesmo tempo, apenas um nódulo no desenho das pedras e uma força irresistível que empolga a humanidade.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2022

02/dez/2021 – Salto do Yucumã / RGS – Um Abraço Esticado

 02/dez/2021 – Salto do Yucumã / RGS

De repente o Rio Uruguai, no Parque Estadual do Turvo, resolve abraçar os gaúchos, estende os líquidos braços, estica, estica até estalar os nós dos dedos das mãos húmidas.

Um amplexo molhado, amplo, generoso, ‘saudaloso’. Um turbilhão permanente de carícias e carinhos feito de barulho, água borbulhante e respingos iridescentes e multicoloridos que se estende por imensos 2.000 metros.

O rio inteiro se precipita na maior queda de água longitudinal do planeta, salto contínuo, multimilenário, ininterrupto - desde a Argentina até o Rio Grande de Sul.

Quem não fica encantado, extasiado com essa enorme, extravagante, interminável prova de carinho.