domingo, 7 de julho de 2019

SOZINHO COM A MAGNITUDE DA 'ÚLTIMA CEIA'


Os grandes museus da Europa vivem lotados, é difícil apreciar bem e com tranquilidade quaisquer dos grandes obras primas e ícones: 'Monalisa', 'A Ronda Noturna', 'As Meninas', 'Guernica'... A ‘Última Ceia’ de Leonardo da Vinci é uma exceção curiosa.

O mais conturbado (e talvez mais reproduzido) dos trabalhos de Leonardo não se encontra em nenhum museu, é um afresco imenso pintado na parede do Refeitório da Igreja de Santa Maria delle Grazie em Milão. Uma imensa tela de cinema, tem 8,80 metros de largura por 4,60 de altura. Ocupa uma parede inteira de um vasto salão.

A obra pode ser vista confortavelmente por causa do inteligente esquema montado pela igreja mantenedora. São formados grupos de (+-) 15 pessoas que podem permanecer sozinhos 15 minutos dentro do refeitório. Tempo suficiente para se deliciar com a fantástica criação do Mestre de Vinci.

Estas precauções são para evitar multidões (como as que lotam a Capela Sistina), a agitação poderia comprometer a fragilidade do aventuroso afresco, vulnerável às variações de temperatura, iluminação e qualidade do ar.

A visitação é feita em media luz e os ingressos são poucos e precisam ser reservados com muita antecedência. Contudo vale a pena o privilégio de ver aquela maravilha milagrosamente preservada, com cuidado, atenção e vagar. Trata-se de um dos pontos de torção da representação de imagens na cultura ocidental. A montagem da cena, com todos os comensais do mesmo lado da mesa, virou um modo de mostrar reuniões adotado pelo Teatro, Fotografia e Cinema.

A pintura tem uma história acidentada, começando pelas inadequadas escolhas de técnicas pictóricas adotadas por Leonardo. O salão passou por guerras, foi estábulo, uma porta invadiu o espaço da pintura e os pés dos personagens foram decepados aos longo do tempo. Calamitosas restaurações foram permitidas, contudo, ainda, apesar dos percalços, continua sublime.

Ficar defronte um quado desse magnitude é um ponto de torção na compreensão da relação entre o tamanho da obra e a proposta do artista. Intuir que uma parte importante do efeito que o autor pretendeu produzir está na amplitude. Não adianta ver fotos, reproduções, filmagens, nada substitui a sensação de apreender o impacto da grandeza da pintura, conviver com o original e poder apreciar ao vivo o efeito que a vastidão da  obra provoca.