quarta-feira, 29 de maio de 2013

O AUDIÓFILO QUE ESTUDAVA ESPINOSA


A Audiofilia, como todas as coisas do mundo, tem duas naturezas, uma ‘física’ e outra ‘mental’. Se compõe de duas metades que não podem ser soldadas, e não podem ser separadas.

Nosso hobby também é atravessado pela grande tese da Filosofia moderna, colocada por Descartes e ainda não superada. A cisão entre a mente e o corpo, que até hoje incomoda várias ciências, como, por exemplo, a AI-Inteligência Artificial.

Nas eternas discussões que avivam os fóruns de Audiofilia sempre aparecem argumentos de base ‘física’ querendo explicar coisas ‘mentais’, e vice versa. Impossível, as duas metades estão completamente misturadas, contudo são intrinsecamente diferentes. Frases como: ‘o som ficou infinitamente melhor’; ‘a diferença não aparece no osciloscópio’; ‘o palco ficou mais amplo, arejado’; ‘não existe nenhuma evidência científica dessa opinião’; só têm sentido na sua própria metade do problema. Ado, ado, ado / cada um no seu quadrado.


Baruch de Espinosa apresentou uma intrigante formulação para esta questão, propôs que todas as coisas – inclusive a Audiofilia – podem ser concebidas tanto pelo atributo ‘fisico’, quando pelo atributo ‘mental’. Roger Scruton (Grandes Filósofos: Espinosa Editora Unesp), um divulgador do filósofo, ilustrou brilhantemente essa ambiguidade usando a Música como exemplo, numa linguagem quase audiófila.

terça-feira, 21 de maio de 2013

MADONA DE NORWEGIAN WOOD



Sou cientista, não escritor, revisei este texto muitas vezes, mas ainda está repleto de estranhezas. Porque foi escrito para uma leitora única e especial que entenderá os excessos, atos falhos e meias palavras que aparecem nesta confissão. Posso garantir que é uma tentativa honesta e verdadeira de relatar a busca pela mulher perfeita.

Meu nome é Edjo José Kuzkir. Com 37 anos acabei o pós-doutoramento em Metalurgia, com uma tese sobre têmperas de aço. Só então considerei encerradas a adolescência e vida de estudante. A aprovação com louvor da tese foi meu rito de passagem. Era hora de iniciar o grande projeto da vida adulta: encontrar a esposa ressonhada.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

DOIS ANOS


Sete da manhã Rita já estava na ginecologista. Janice, uma velha amiga remanescente dos tempos dos barzinhos, quando terminavam a semana ouvindo Hermann, o goliardo gorducho de Pinheiros, cantando Sampa – achavam – melhor do que Caetano.

As visitas tinham dois motivos: atualizar os exames e as conversas. Tomavam café juntas num papo cíclico, jamais interrompido, namoros, trabalho, idade, esperanças... Naquele dia uma frase se enroscou na cabeça de Rita:

“Não se preocupe, daqui dois anos essa inquietude vai acabar, porque aí qualquer gravidez seria perigosa.

O pedaço que incomodava era: ‘dois anos’.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

NA SALA DO FERNANDO ANDRETTE - AGOSTO/2008


Cinco anos atrás participei de uma avaliação de equipamentos na Sala do Fernando Andrette, em São Roque. Obviamente fiquei maravilhado com o espaço e com o setup.

Relendo o depoimento contatei, espantado, que os termos utilizados eram os mesmos de sempre. Só mudam as comparações e metáforas, que dependem da vivência de cada audiófilo.

Acho que já gastamos nossos estoques de expressões de deslumbramento e louvação. Entretanto, numa nova audição, hoje, e com equipamentos completamente diferentes, talvez as frases fossem bastante semelhantes. E, nenhuma das apreciações seria falsa ou mentirosa.

O depoimento está publicado na revista Audio & Video n. 137, de agosto de 2008, e, para facilitar, reproduzido abaixo.

terça-feira, 7 de maio de 2013

IGREJA DA CONSOLAÇÃO - Tesouro Paulista



Entre 1890 e 1950 S. Paulo explodiu. De uma cidade mediana, menor que várias capitais nordestinas, virou a maior metrópole do hemisfério sul. Passou de 130 mil para 2,3 milhões de habitantes, se multiplicou 18 vezes e se renovou arquitetonicamente.

Lembram da frase S. Paulo não pode parar? Nossa urbe era rústica, nunca teve grandes construções coloniais. As poucas que possuía foram postas abaixo para dar lugar às coisas novas. Sobraram raros exemplos, como a Capela de São Miguel, a Igreja do Carmo e o Mosteiro da Luz. Nossa paisagem urbana é recente, do sáculo XX, os edifícios mais velhos são apenas centenários, quase nenhum sesquicentenário.  

Dom Duarte Leopoldo e Silva, o primeiro arcebispo de S. Paulo, não tinha dúvidas, substituía as velhas capelas coloniais por igrejas novinhas em folha (Clique: CADÊ NOSSAS CONSTRUÇÕES COLONIAIS). Perdemos para sempre monumentos históricos, mas ganhamos um incomensurável acervo artístico da transição modernista espalhado pelos nossos templos. Arte de graça, basta entrar e paulistar.  

A Igreja da Consolação, por exemplo, construída em 1909, na beira do Peabiru (a trilha Inca), substituiu a antiga capela e avançou sobre um terreno comprado de D. Viridiana, a omnipresente dama paulistana. Ficava ao lado o Velódromo Paulista, um campo de futebol chique que recebeu a final do primeiro Campeonato Paulista de Futebol.

Dentro dela esta guardado um dos grandes tesouros paulistas, a Capela do Santíssimo (clique) cercada e tomada por silêncios eleitos, sombras doces e vitrais 3D. E melhor, seis belíssimas, imensas e imperdíveis telas de Benedito Calixto, solenes, esperando os visitantes. Em proporção, seria como entrar numa igreja em Burano (Veneza) e encontrar um Tepiolo. Benedito Calixto foi responsável pela consolidação da iconografia brasileira, muito mais que o gerente da feirinha de artes e antiguidades que acontece aos sábados na praça que leva seu nome.

Milhares de pessoas todos os dias passam de frente correndo, apressadas, com o espírito se deligando do corpo, feito pipas descabeçadas. Seria bom parar um pouco e reapertar os parafusos da alma  religiosa e artisticamente. Podiam aproveitar e visitar a AUGUSTAÇÃO, a confluência da Augusta com a Consolação, onde acontece muita coisa, cada vez mais.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

A PRISIONEIRA N

Prisioneira N

N é uma cativa voluntária,
usa roupas de seda,
lentes verdes
e me seduz.

Degusta comigo cognacs raros
e conta os dias com nós em barbantes.
De noite se desmancha em deleites
e planeja fugas mirabolantes.

Toda terça de Sol ela se evade
e só retorna no fim da tarde.
Chega perfumada, sem alarde,
e se aquieta azul atrás da grade.

Nas quintas de chuva
se veste de viúva,
passa o dia inteiro de luva,
faz beicinho e come guloseima.

Sabe que somos cúmplices
e prisioneiros do mesmo poema.