segunda-feira, 28 de maio de 2018

A IMPRUDENTE LEVEZA DOS ASTROS


Os sentidos, nossas portas de percepção do mundo, têm superpoderes que ignoramos ou esquecemos. Marcel Proust falou da relação simpática entre o sabor e a memória; qualquer Stradivarius demonstra as minúcias que o ouvido alcança; o faro dos animais aponta para as possibilidades do olfato, contudo a complexa visão é o grande e mais corriqueiro presente da evolução animal.

Pela primeira vez tive a oportunidade de enxergar o céu por um telescópio de grande porte, aconteceu na
Seara da Ciência, da UFC - Universidade Federal do Ceara, numa visita guiada e monitorada pelo Prof. Ednardo Rodrigues. O introito sobre os sentidos foi uma homenagem aos fabulosos telescópios, talvez o construto humano que mais contribuiu para dissipar os mitos e expandir o conhecimento. Um salto incomensurável da Magia para a Ciência. Lembram-se do alerta de Arthur C. Clark?

Contemplar os astros, especialmente os planetas e satélites, é uma experiência limite e transcendental. Observar Júpiter 
 uma bola imensa, 318 vezes maior que a Terra – com sobranceira leveza flutuando no espaço é um abalo epistêmico. Todo mundo sabe tudo sobre o gigante solar, já viu fotos, conhece os dados, entretanto captar os raios de luz que  segundos antes  ‘tocou’ o próprio planeta gasoso é uma experiência cognitiva reveladora, percebemos a voragem em que estamos metidos, dói saber-se o flexível caniço de Pascal oscilando entre incomensuráveis magnitudes, máximas e mínimas.

Vendo as estrelas, e conversando com elas, ficamos com a incômoda sensação de que todo conhecimento acumulado até os dias de hoje está ainda muito mais perto da Magia do que da Ciência. No visor do telescópio, mesmo os mais potentes, continuamos a ver um ponto luminoso 
– ou pontos, se forem sistemas múltiplos como Acrux, a Estrela de Magalhães, na ponta do braço longo do Cruzeiro do Sul.


E tão pouco o que o telescópio nos oferece sobre as estrelas que persiste a dúvida. Será que a Astronomia não entendeu direito  ou interpretou errado  a mensagem dos Deuses?

terça-feira, 15 de maio de 2018

CAROLINA SILENCIADA


Anahí Paz está doutoranda na Universidade de Bristol, o tema da tese envolve alguma coisa esquisita que ela chama de ‘Demonologia Bíblica’. A trajetória da moça bonita de cabelos cor de mel é enviesada, com 24 anos era Analista de Sistemas, abandonou tudo para estudar História. No último fim de ano, quando esteve no Brasil já era uma jovem senhora. Os velhos informáticos promoveram um jantar de reencontro. Desde muito tempo ela e eu tínhamos interesses lovecraftianos, brinquei que sua pesquisa ficaria mais bem encaixada na Universidade de Miskatonic.

– Acho que não rolaria, computadores não funcionam bem lá, os demônios de Lovecraft não são muito católicos e nem o pessoal de Arkham é receptivo às mulheres.”

Lembrei que, como eu, Anahí era leitora bissexta de Machado de Assis, resolvi expandir nossos pensamentos vadios.

“– São infinitas as maneiras de calar as mulheres, mesmo com carinho e amor. Veja Carolina Augusta Xavier de Novais, a mulher do Bruxo. Era lida e culta, eventualmente revisora e parceira. Consta que escreveu centenas de cartas, porém para um único destinatário: o marido. Antes de morrer nosso imortal ordenou e presidiu a queima de toda a correspondência entre os dois. Dele sobraram duas cartas simpáticas e gentis, dela nada, foi completamente emudecida.”

– Verdade? Era um tipo de maldade e prepotência que as pessoas cometiam e nem sequem percebiam. Interessante você falar disso, ignorava este silêncio imposto a ela. Uma amiga inglesa revisou um trabalho sobre Eça de Queiroz em Bristol. Pediu ajuda sobre o sentido de uma frase, mencionou que estava numa correspondência de Carolina Machado de Assis guardada na biblioteca da Universidade. Na hora quase não prestei atenção na remetente, mas se for verdade, então Carolina não foi completamente silenciada, sobrou uma carta dela.”   

Fiquei espantado, disse que gostaria de ler esta carta inaudita, mas sem esperança, eram conversas na mesa de um bar, prometidas e esquecidas. Seis meses depois, espantando,  recebi por e-mail um arquivo Word contendo a carta improvável.
“Faz tempo que estou com esta transcrição da carta de Carolina, antes de te enviar queria juntar mais informações sobre o documento, mas Ada, minha amiga revisora, mudou para os Estados Unidos e perdi qualquer contato com ela. Vai assim mesmo, Carolina, pelada de semântica.”

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Rio, 23 de setembro de 1879

José,

Escrevo-te para refutar-me. Prometi nunca mais procurar-te ou responder tuas missivas, porém o futuro é incerto e provocador, à medida que progride conduz-nos por veredas inusitadas. O destino levou-me ao casamento com Machado de Assis, por causa disso, outra vez, compartilhamos o mesmo embaraço: eu fazer um pedido, tu avaliare-lo e talvez nega-lo.

A polêmica sobre o “Primo Basílio” me não espantou, amadurecia como possibilidade. Apesar de andares vagando pelo mundo e Machado viver pacatamente na cidade do Rio de Janeiro, de muitas maneiras permaneciam adversários e revessos. Romantismo contra Realismo foi à forma eleita para se digladiarem.

Apreciei bastante o viés magnânimo de tua carta de junho passado comentando o artigo d“O Cruzeiro” sobre o “Primo Basílio”. A admiração aumentou com a generosidade de te colocares à disposição, depois de leres todos os folhetins publicados, para uma discussão acerca dos princípios da Escola Realista. O que não conseguiste conter foi a corrosiva ironia inseparável de tua pessoa.

Machado repassou repetidas vezes as ponderações que apresentaste, sabe-as de cor. Se não as respondeu publicamente foi por prudência, timidez e tédio à controvérsia. Deves calcular o quanto esta confrontação transoceânica de dois estimados escritores transformou-se em questão candente, pública e coletiva. Penas demais intervieram na contenda. Qualquer debate pelas revistas e jornais decairia depressa em alarido e balburdia, sem regra ou norma. A outra via – a correspondência pessoal e discreta – seria impraticável, meu marido não conseguiria manter a conversa dentro dos amenos limites da Literatura.

Perdoe-me o introito longo, vou enfim apresentar-te minha demanda. Soube pelo meu irmão Miguel e pelo povo da Condessa de São Mamede que estás redigindo uma longa e detalhada réplica aos artigos d”O Cruzeiro”; que intentas publica-la como prólogo à segunda edição d”O Crime do Padre Amaro”. Atrevo-me a recomendar-te paciência e cautela.

Desde 78, depois da publicação de “Iaiá Garcia”, Machado vem atravessando largo período de meditação, navegando nos mares de Flaubert. Lê, relê, grifa e toma notas – especialmente “Madame Bovary” – sem contudo jamais cita-lo em quaisquer dos seus escritos. O próximo romance será muito diferente do anterior, surpreendente, avançará para quase além do Realismo.

Neste novo cenário temo que teu prefácio projetado possa ficar deslocado e dissonante; ou incitar celeumas desastradas. É impossível antecipar como reagirá o humor de cada um de vocês. Prevejo confrontações incandescentes, incontroláveis e desnecessárias ou silêncios irados e multiplicadores de rancores. Em qualquer dos casos me sofrerei e a História de ambos ficará maculada.

Espero que te inclines para o mais conveniente para todos.


De tua amiga,

Carolina Augusta Xavier de Novais Machado de Assis


quarta-feira, 2 de maio de 2018

Túnel 9 de Julho e Raios Cósmicos


Uma das mais espertas e prevenidas iniciativas dos paulistas, depois da derrota na Revolução de 32, foi a criação da USP em 1934, afinal perderam espaço nas grandes instituições nacionais.
Foi um salto quântico no ensino superior brasileiro. Especialmente a FFCL – Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras que permitiu o diálogo entre os saberes. Quando organizaram os novos departamentos recolheram o que havia de mais promissor na Europa e América do Norte, em indivíduos, modelos administrativos e ideias. Para a Cátedra de Física importaram de Turin o professor ítalo-russo Gleb Wataghin, indicado por Enrico Fermi (Nobel de 1938), que trouxe consigo Giuseppe Occhialini, ambos interessados em Raios Cósmicos.

Talvez por sorte, acaso ou capricho das equações do Caos estas escolhas fortuitas, porém certeiras, depressa colocaram o Departamento de Física da FFCL-USP no mapa da pesquisa mundial de Raios Cósmicos e inscreveram o Túnel 9 de Julho na História da Física.


Entre os primeiros e espantados estudantes cooptados pela Física da USP estavam Marcello Damy e Paulus Aulus Pompeia, oriundos da Engenharia, que coordenados por Wataghin e Occhialini começaram e pesquisar os ‘chuveiros extensos’. Fenômeno que acontece quando os Raios Cósmicos (partículas aceleradas provenientes do espaço exterior) se chocam com átomos da atmosfera. A colisão e a fissão dos átomos criam uma enormidade de sub-partículas. A questão dos pioneiros paulistas era medir até que profundidade elas chegavam. (N.1) 

Para isso se aproveitaram da conveniência e feliz coincidência  do Túnel 9 de Julho estar sendo cavado naquele momento, e o utilizaram para provar que os 
‘chuveiros extensos’ podiam alcançar grandes profundidades e conseguiam atravessar espessas camadas de rochas. A obra foi inaugurada em 39, em 1940 a Física da USP já era ativa participante das discussões mundiais neste campo de estudos, publicando artigos nas grandes revistas técnicas mundiais mencionando o experimento no túnel paulistano. 

Wataghin, Occhialini, Marcello Damy e Paulus Aulus Pompeia atualmente são personalidades da História da Física Brasileira e os Raios Cósmicos – que têm imbricações até com a Teoria da Relatividade de Einstein – nos levaram a César Lattes, aos mésons pi e quase ao prêmio Nobel. Contudo, é preciso registrar e consignar que foram nos recém cavados túneis, debaixo da Avenida Paulista, que aconteceram os primeiros testes que ajudaram a documentar os
‘chuveiros extensos profundos’.

Assim, é sempre bom relembrar que se homenzinhos verdes nos atacarem, armados de pistolas de Raios Cósmicos, não adianta fugir para os Tuneis da 9 de Julho. Certamente lá não é um lugar seguro.

 (N.1) 
Rogério Rosenfield
- O cerne da matéria: A aventura científica que levou à descoberta do bóson de Higgs
   Companhia das Letras